Vaca Amarela 2014: Flora Matos derruba as barreiras do sexismo e mostra o poder da internet na divulgação da cena independente

Rapper brasilense foi headliner do segundo dia do festival goiano

Luciana Rabassallo Publicado em 16/09/2014, às 14h25 - Atualizado em 09/04/2015, às 17h35

A rapper brasilense Flora Matos faz show na 13ª edição do Festival Vaca Amarela, em Goiânia

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Luciana Rabassallo, de Goiânia

Tudo na vida de Flora Matos gira em torno do momento em que ela finalmente sobe ao palco e encara os fãs: “Eu gosto mesmo é de olhar nos olhos de cada um que foi até lá para prestigiar o meu trabalho. É a minha maneira de retribuir o carinho deles por mim e o respeito pela minha arte. Procuro sempre dar o meu máximo quando estou lá”. Quem esteve no show que a cantora fez durante o Festival Vaca Amarela, no sábado, 13, em Goiânia, sentiu na pele essa conexão.

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Aos 25 anos de idade e com apenas uma mixtape lançada, Flora Matos vs StereoDubs (2011), a rapper brasiliense é um exemplo bem-sucedido do efeito que a internet, em parceria com as redes sociais e o boca a boca, tem na divulgação de um artista independente. “Nós levamos ao palco parte do que ainda não conseguimos soltar em um álbum por algumas questões burocráticas que estão sendo resolvidas”, explica ela em entrevista ao blog Cultura de Rua.

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No repertório do show estão canções como "Papo Reto, "Como faz", “Cada Flash é um Cep”, “Selin” e “Tem Quem Queira”, que nunca foram lançadas oficialmente, mas chegaram os ouvidos do público goiano – que tem na ponta da língua todas as rimas rápidas de Flora - por meio da rede mundial de computadores. “Essa parada é realmente incrível! É muito legal poder ver as minas e os manos cantando músicas que eu nem lancei ainda. Chega até a ser estranho, sabe? Mas me deixa extremamente satisfeita”, confessa. Do disco Flora Matos vs StereoDubs, estão o hit "Pretin", "Esperar o Sol" e "Pai de Família".

A apresentação, que ganhou o título de “Disco Voador”, foi pensada pela artista em parceria com a equipe dela: “Nós estamos com uma iluminação nova que dá o clima para os momentos mais românticos e faz o palco pegar fogo nas faixas pesadas”. Além disso, quando está em cena, Flora busca sempre conquistar novos fãs e expandir o trabalho dela para pessoas que normalmente não ouvem rap.

Escolhida para ser headliner de um festival independe conhecido por, ao lado do Bananada e do Goiânia Noize, fomentar a cena do rock local e revelar novo talentos para o resto do país, a rapper encarou o show como um desafio: “Acabei de me apresentar para um público que tinha visto várias bandas de rock antes do meu show. Encerrar a noite com hip-hop foi uma grande responsabilidade. O Vaca Amarela tem um peso enorme na cena cultural da cidade, por isso poder fazer o meu som aqui é também um grande passo para o rap”.

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Festa do hip-hop nacional:

Também passaram pelo palco do Vaca Amarela o rapper Criolo e o coletivo Haikaiss, ambos de São Paulo, além de nomes locais como Faroeste, Calango Negro e Sã Consciência. Por isso, o clima nos bastidores e camarins do evento era de confraternização e reunião de velhos amigos. “Foi muito legal estar aqui e poder encontrar o Criolo, o Dan Dan, o DJ Marco e os meninos do Haikaiss”, comemora Flora.

“Fiquei muito feliz com essa reunião do rap nacional que o festival proporcionou tanto para o público quanto para nós. A convivência fora dos palcos resgatou um pouco do que nós vivemos na época da Rinha dos MC’s em 2007. Foi ali que boa parte dos artistas de hoje começaram e a oportunidade de reviver isso foi incrível.”

As conversas e reencontros deram ao público uma segunda oportunidade de ver Flora Matos no palco. Junto aos rappers do Haikaiss, ela fez uma participação no show de Criolo. “Fomos convidados para participar da apresentação deles e o encontro no palco, completamente improvisado, gerou um resultado muito bom. Além disso, também foi bem legal poder ver um show do Criolo acompanhado apenas por um DJ depois de tanto tempo. Ultimamente, ele só estava se apresentando com banda completa, coisa que eu adoro, mas, confesso, foi muito massa poder presenciar esse projeto paralelo 'DJ e MC' do Criolo ao lado do Marco e do Dan Dan também.”

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A rima escolhida por Flora, que enlouqueceu o público, faz parte de uma canção inédita em que ela fala sobre a igualdade dos gêneros no rap, bandeira que a compositora carrega em tempo integral. “A letra é para deixar claro que as meninas podem chegar na cena e mandar uma rima boa”, explica.

A mensagem feminista, contudo, parece não ser necessária para os músicos com quem a cantora convive. Ela transita naturalmente entre os homens e o respeito dos companheiro de estrada é evidente. Afinal, a velocidade do flow de Flora Matos não foi ultrapassada por nenhum outro naquela noite - nem no festival inteiro.

Veja o vídeo abaixo: