Cabana Café prioriza espontaneidade e fluidez em Moio, segundo disco da carreira

Ouça o sucessor de Panari, álbum “do contra” do grupo paulista

Lucas Brêda Publicado em 04/03/2016, às 20h37 - Atualizado em 29/03/2016, às 18h08

Cabana Café
Lucci Antunes/Divulgação

Por Lucas Brêda

“Tanta vontade de ir contra o que o mundo inteiro diz”, canta Rita Oliva, vocalista e tecladista do Cabana Café na faixa “Vibrar na Garganta”, sétima do segundo disco da banda. Intitulado Moio, o segundo trabalho de estúdio do grupo paulista é uma espécie de “álbum do contra”: contra a estrutura formal das canções, contra o ritmo acelerado do mundo e contra a racionalidade.

Moio ganha vida nesta sexta-feira, 4, com exclusividade no Sobe o Som, espaço no site da Rolling Stone Brasil dedicado à música alternativa brasileira. Lançado pelo Balaclava Records, o disco dá sucessão a Panari, estreia indie e cândida que o Cabana Café soltou em 2013.

Depois de trabalhar em Panari, em 2013, a banda entrou em um breve hiato em 2014, tempo em que os integrantes passaram a se dedicar a outros projetos. Rita e o guitarrista Zelino Lanfranchi, por exemplo, fundaram e gravaram com o Parati, enquanto o guitarrista Hafa Bulleto (antes apenas integrante de turnês do Cabana Café) entrou para o quarteto psicodélico Bike.

“Os trabalhos anteriores são mais ecléticos porque a gente realizava todos os nossos desejos musicais no Cabana”, analisa Lanfranchi, falando de quando os integrantes eram exclusivos da banda. “Esse tempinho de folga foi bom para isso. Para saber que no Cabana nós fazemos ‘isso’ e em outras bandas ‘aquilo’. Nossa necessidade [de expressão] musical não precisa ser suprida em uma banda só.”

O sexteto voltou a se reunir no ano passado para gravar no estúdio Mono Mono, do tecladista e produtor do próprio Cabana Café, Taian Cavalca. Desta vez, entretanto, eles foram contra a abordagem do primeiro álbum, se desapegando dos formatos mais convencionais das canções – e as novas faixas foram sendo construídas a partir de jams e sessões marcadas por espontaneidade e fluidez.

“Não teve regra nenhuma”, admite Lanfranchi. “Nos outros a gente fazia as coisas já pensando em algo. Desta vez, não”. Para Rita, o Cabana Café atingiu uma “estética mais essencial”, mais uniforme, precisa. “Tínhamos uma melodia ou outra, mas a coisa se transmutou quando entramos no estúdio”, conta ela. “Eu diria que as músicas nasceram mesmo na época do disco.”

Ela acrescenta: “Antes, as composições chegavam no estúdio com um formato, e a gente ia construindo. Agora, as coisas chegaram como uma semente só – alguém que tinha alguma ideia ou um riff – e nasceram muito naturalmente, [de maneira muito] orgânica. Tínhamos um processo muito mais racional, e agora ficou muito mais intuitivo.”

O lado menos racional de Moio fica explícito já na apresentação do disco, com uma capa e título relativamente subjetivos – mais que os do trabalho anterior. O nome vem de uma gíria antiga entre os membros do Cabana Café e amigos. “Em vez de falar: ‘Qual é a boa?’ – no sentido de: ‘O que vai rolar hoje?’ –, falamos: ‘Qual é o moio? Qual é o caldo?’”, explica o guitarrista. “Acabou sendo isso, porque, é como uma jam (‘O que vai acontecer?’), nosso processo de composição foi isso.”

Classificado sob o teto do rock alternativo, Moio é menos dinâmico, mas muito mais confiante que Panari, do groove setentista certeiro do single “Qualquer Lugar” à agressividade contida de “Vibrar na Garganta”. As texturas sonoras também ganham mais brilho em relação à estreia – como os timbres de guitarra e teclado mais aéreos e cheios –, em um processo de produção mais maduro dos integrantes.

Para Rita – que no novo álbum aparece mais pertinente como letrista –, se há um “tema” no disco, é ser “uma coisa meio contra a corrente”. “Uma coisa me chamou a atenção: depois eu reparei que as letras têm, sutilmente, essa coisa da arte como uma forma de questionar os padrões com os quais estamos acostumados. Acho que as músicas falam um pouco sobre deixar rolar, parar com esse ritmo que está o mundo e deixar uma coisa diferente acontecer.”

De acordo com a dupla, o ritmo desapegado e fluido de Moio vai ser transposto para os palcos, com shows mais arrastados que o casual. Eles darão início à turnê do segundo disco no próximo dia 18 de março, na Serralheria, em São Paulo. A apresentação de estreia contará com as participações de Daniel Fumega (Macaco Bong), na bateria, Luiza Lian e Andres Tobal (Mel Azul), nos vocais.

Conheça abaixo Moio, o segundo álbum do Cabana Café