Blog Sobe o Som

postado: 6 de Out. de 2016 às 17:21

Entre saudosismo e lisergia, Lê Almeida lança o orgânico Todas as Brisas

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Lê Almeida
Filipa Andreia

Por Gabriel Nunes

Quando pensamos na cena musical contemporânea do Rio de Janeiro, de pronto tendemos a limitá-la a duas margens sonoras distintas. De um lado, o funk carioca, gênero profundamente estigmatizado. Do outro, o nicho alternativo radiofônico de gente como Los Hermanos, Cícero e Do Amor, que mesclam a influência lírica de nomes seminais da MPB com as guitarras do indie rock de países anglófonos.

No entanto, foi possível observar, nos últimos cinco anos, a gradual ascensão de uma terceira margem sonora. Com a retomada da lógica do DIY e de valores estéticos do lo-fi noventista, projetos como Baleia e Mahmundi chamam atenção ao escaparem da redoma de clichês que cercam a cena alternativa da capital fluminense.

Lê Almeida é um dos expoentes dessa efervescente seara musical. Artista gráfico, músico, produtor, gerente do selo Transfusão Noise Records, o carioca já divulgou de maneira independente três discos cheios, além de EPs, singles e uma coletânea de covers. Dando sequência a Mantra Happening, que saiu em março deste ano, Almeida lança – com exclusividade pelo Sobe o Som – o mais recente álbum, Todas as Brisas.

“Andei fazendo umas viagens até Búzios, conheci praias diferentes”, explica sobre a inspiração para o sucessor de Paraleloplasmos (2015) e Mono Maçã (2011). “Esse disco [Todas as Brisas] tem uma onda bem alta, ele é muito diferente dos três anteriores. Hoje em dia eu me direciono para uma coisa mais carioca. Daqui do estúdio eu consigo chegar na praia em menos de dez minutos, queria que ficasse óbvio que nós temos uma conexão muito forte com a praia.”

Gravado no Escritório – estúdio do selo Transfusão Noise Records –, o mais recente álbum do carioca representa um ponto de convergência entre a sonoridade shoegaze dos primeiros trabalhos dele com as experimentações lisérgicas de Mantra, além de uma ruptura com o imaginário lírico que rondou a produção de Paraleloplasmos.

“Meus discos são como fases da minha vida representadas em canções”, diz Almeida. “O Paraleloplasmos surgiu depois de um fim de relacionamento, então ele é um trabalho bem baixo astral. Já o Mantra tem uma pegada mais noturna, mais viajada. Ele traz muito forte a questão da amizade, porque acabou estreitando os laços com meus parceiros de banda. Agora o Todas as Brisas traz um pouco da loucura do Mantra, é um disco feito mais na zoeira.”

Para Almeida, o trabalho dele é comparável ao de um artesão. Buscando extrair o que há de mais bruto e orgânico das suas composições, o carioca recorre ao gravador em fita cassete, ferramenta anteriormente utilizada no debute do goiano Kastelijns e nas gravações dos primeiros discos de Daniel Johnston. De acordo com o músico, o recurso analógico ajudaria a preservar a essência inata da música – ou como Walter Benjamin rotulou no ensaio “A Obra de Arte na Era da Sua Reprodutibilidade Técnica”, a “aura” da obra de arte.

“Tenho me dedicado muito ao processo de gravar em fita cassete. É uma forma de evoluir as ondas lo-fi em produções analógicas”, declara o músico. Para ele, o resgate da fita K7 não deve ser encarado como um fetiche saudosista, que busca reciclar as sobras de um passado não vivido, mas sim como uma importante ferramenta durante as gravações em estúdio. “Ele pode ser usado como se fosse um instrumento da banda, ele tem um compressor natural e uma série de coisas que vão além da modinha.”

Ouça abaixo, em primeira mão, Todas as Brisas, mais recente trabalho de Lê Almeida.