Edição 01 - Outubro de 2006

Garganta Profunda

Angela Ro Ro volta ao mercado musical pedindo uma dose de paz, justiça e "zen vergonhice"; confira a entrevista
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por Ademir Correa

Como é lançar Compasso, seu 10º CD, no mercado de música (des)organizado como ele é hoje?

Bom, nunca senti um lançamento meu tão bem pensado, bem cuidado. Agora também tem aquela coisa, o filho mais novo é sempre o predileto, aquele que está no colo. Sou suspeita para falar... Mas espero que as pessoas baixem MP3, que minhas músicas toquem nos iPods, tuPods, elePods [risos], que lancem pra Lua. Que ponham pra cantar nas espaçonaves com voz de robô.

Você acha que a pirataria pode atrapalhar esses planos?

Nunca comprei um CD pirata, acho o maior baixo-astral. Quem se envolve com isso pode estar metido também com armas, bandidagem, drogas pesadas... É toda uma máfia. A pessoa que compra um produto pirata está pagando a arma e a munição da sua própria morte.

Nesse tempo entre um trabalho e outro você cuidou da saúde, da alma, da cabeça... Consegue ver nas músicas essa nova Ro Ro?

Eu tava realmente "terminando" junto com a década de 1990. Meu pai morreu em 1997 e a minha mãe se foi em 1999, achei que tinha de ir também. Sabe como é, filha única, meio boba: "Papai, tchau. Mamãe, tchau. Tô indo". Mas resolvi me segurar: "Ô, sua louca. Vê se você consegue reverter esse quadro, porque está chato para caramba". Mas a verdade é que ninguém entorta uma vida, não colocaram cachaça na minha mamadeira...

Você teve muitos problemas nessa época, não?

Fui espancada várias vezes pela Polícia Militar. Isso arrebentou comigo, por dentro e por fora, e destruiu a vida dos meus pais. Arruinaram minha mocidade, ficou tudo uma merda. Uma vez apanhei da Polícia Civil. Eram cinco caras à paisana me batendo enquanto os vizinhos aplaudiam e riam - por isso que só me mudo daqui depois de ver o enterro de todos eles. Apanhei ao ponto de ser operada de hérnia na barriga, depois fiz uma lipo, bem linda [risos]. As pessoas precisam saber dessa brutalidade. Já fui arrancada da minha casa, seminua, e todo mundo ficou debochando. Eu levava coronhada e gritava: "Meu útero". E a polícia dizia: "Sapatão não tem filho. Sapatão não tem útero".

Você ainda sofre muito preconceito?

Faço parte das pessoas que são esculhambadas e linchadas pelos outros, ainda mais nessa bosta de cidade [Rio], nessa bosta de país. Mas essa lembrança está gravada na minha carne e na minha alma para sempre, é uma mágoa muito forte. Não é pra ficar desanimadinho? Não sou nenhum Super-Homem, não. Depois de apanhar brutalmente, se você não bebia, passa a beber... Não é batendo em ninguém que a pessoa vai deixar de fumar um béqui [baseado]. Ela vai é enveredar nas drogas, no álcool e até no crime. Enfiei o pé na jaca mesmo, perdi a auto-estima.

Como você lida com isso hoje?

Sou traumatizada. Fico muito aflita quando passo por uma viatura, porque são bandidos em potencial. Se der bobeira, eles não respeitam nem minha idade [56]. Não foi apenas um linchamento moral.

A vida foi maior...

Sim, foi maior do que a truculência, a ironia, a hipocrisia, a mentira. O conjunto: opinião pública - formada pela imprensa -, truculência da polícia e hipocrisia omissa e covarde da sociedade cretina nos comandam; é um pandemônio miserável.

E aquela Angela dos escândalos mudou totalmente?

Eu precisava. A coisa andava uma putaria.