Edição 12 - Setembro de 2007

Kiko Dinucci

Samba urbano sem caricatura
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por Adriana Alves

Um cabo de vassoura e maquiagem foram os ingredientes que iniciaram o sambista paulistano Kiko Dinucci na música: "Eu e os moleques pegávamos vassouras, botávamos aquele disco do Kiss, The Creatures of the Night (1982) e ficávamos dublando, com o rosto pintado, mostrando a língua". A vassoura e a maquiagem ficaram para trás; hoje, o vocalista e compositor de 30 anos que assumiu o violão como instrumento confessa sentir certa preguiça do rock. "Montei bandas na adolescência, mas comecei a achar o rock limitado e repetitivo, é um apanhado de regras. Fico com pena quando vejo um roqueiro velho, é de amargar", comenta Dinucci, que quando ouve rock opta pelos clássicos - Black Sabbath, Beatles, Stooges, Pixies, Sonic Youth.

Kiko Dinucci e o Bando AfroMacarrônico é um dos projetos do também artista plástico Dinucci. Segundo o músico, que começou a montar sua salada rítmica em meados dos anos 90, o objetivo neste trabalho é unir a tradição paulista do samba com ritmos caribenhos e africanos. "Comecei a assimilar jazz, erudito, sertanejo, samba. Achava que punk mesmo era o Noel Rosa", diz o sambista, que faz ao lado do Bando concorridas apresentações nas noites de quarta-feira da casa paulistana Ó do Borogodó. "Talvez o samba seja a linguagem que eu melhor saiba trabalhar, mas não me prendo num modelo. Costumo dizer que faço apenas música paulistana urbana."

As diversas influências ajudam a montar a originalidade do trabalho de Dinucci, que garante seguir uma linha pouco difundida do samba. "Hoje, segue-se apenas um modelo imposto pelos meios de comunicação cariocas, que vem desde a Rádio Nacional até a novela das 8", diz, sem perder a chance de criticar parte da cena do samba de São Paulo: "Ouço compositores daqui falando de morro. Que morro? Avenida Paulista? Falam da Portela sem nunca ter pisado em Madureira, só conhecem pela TV, cantam com sotaque do Rio, chega a ser caricato, é quase uma colonização". Seu primeiro EP, homônimo, está disponível para download no blog do Bando AfroMacarrônico - formado por Julio César e Alex Macedo (percussões), Douglas Germano (cavaquinho) e Railidia e Dulce Monteiro (vozes) - e contou com participações especiais de Bocato no trombone e Renato Onesi no bandolim. Dinucci também faz parte do duo Moviola, ao lado de Douglas Germano. "A idéia é explorar a ligação entre o cinema e o nosso cancioneiro", conta. Ainda na música, lança agora o disco Padê ao lado da cantora Juçara Marçal. No cinema, área em que também atua, estreou como diretor no documentário A Dança das Cabaças: Exu no Brasil (2005). "É uma investigação poética sobre essa divindade", explica. "Em cinema, tudo depende da grana. Tenho planos para um segundo filme, Jardim do Barranco, uma mistura de ficção e documentário atuado por ex-internos do sistema manicomial."

A variedade das atividades de Dinucci tem origem em sua formação diversificada: após se formar em um colégio técnico na área de decoração, cursou um curto período em uma faculdade de música. "Aprendo é na rua, na vida, cabeçadas, amores", diz. "Sonho com coisas possíveis, mas deliro também. Gostaria de ter uma vida digna trabalhando com arte, coisa que aqui no Brasil chega até a ser uma provocação."

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