Edição 18 - Março de 2008

Teorias da conspiração

Após dez anos de distanciamento, os irmãos Max e Iggor Cavalera resolvem as diferenças da época do Sepultura, se reencontram como família e retomam a parceria musical com uma nova banda, Cavalera Conspiracy
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por Pablo Miyazawa

O avião pousou em Phoenix (Arizona) às 11 horas da antevéspera do Halloween. Nesse dia, conforme a negociação prévia com seus assessores, Max Cavalera, ex-líder do Sepultura, atual líder do Soulfly, me concederia uma entrevista em seu rancho, na região norte da cidade. Um fax já me aguardava quando cheguei à recepção do hotel de beira de estrada. As intrincadas indicações para o retiro de campo do brasileiro Max e sua esposa e empresária, a norte-americana Gloria Cavalera, deixaram claro que a escolha de minha base havia sido equivocada. A distância até o destino ultrapassava 75 quilômetros: uma linha reta resultaria no ponto de encontro em cerca de uma hora e meia de viagem.

A taxista, que por coincidência também se chama Gloria, diz desconhecer o endereço que lhe entrego. "É longe", se arrisca, comemorando intimamente o fato de conseguir metade da féria do dia em uma corrida. Bryan Roberts, o assessor da porção norte-americana dos Cavalera, alertara: "Se vier de táxi, o ideal é que o carro fique te esperando para o retorno".

Após uma hora, a taxista contorna à esquerda e entra em uma estrada de terra. Cactos, pedras, poeira e nenhuma alma viva compunham o estereótipo de um típico deserto de desenho animado. O endereço se fazia inútil, visto que não havia lógica na numeração. A dica do "portão verde e a caixa de correio azul" no fax, por fim, se mostrou essencial.
Na casa simples e de porte médio, janelas fechadas e ausência de ruídos davam impressão de abandono, exceto por um carro estacionado na garagem. Após um telefonema, Bryan aparece e pede à taxista que retorne em duas horas. Max teria um compromisso logo após o final da entrevista.

Na cozinha, conheço Gloria Cavalera. Aos 54 anos, seus cabelos não são coloridos como antigamente, mas as diversas tatuagens são evidentes, inclusive um coração com o nome do marido estampado abaixo do pescoço. Simpática, pergunta se demorei a encontrar a casa e pede para Bryan chamar Max nos fundos. Ela o conheceu no início dos anos 90, quando era empresária de bandas do Arizona e assinava como Gloria Bujnowski. Tornou-se manager do Sepultura em 1990 e casou-se com Max três anos depois. O casal tem dois filhos, Zyon, 14, e Igor, 11, ambos nascidos nos Estados Unidos.

Antes de sair, já sem o sorriso, a empresária faz um pedido, uma quase-ordem: "Não pergunte nada relacionado ao Sepultura". Concordo com a cabeça, mesmo sabendo que uma restrição como essa seria impossível de ser seguida.

Era a madrugada de 17 de dezembro de 1996 quando o Sepultura deixou de existir como seus fãs haviam se acostumado até então. Horas após o fim da última apresentação de uma bem-sucedida turnê de 19 shows pela Europa, a banda de rock brasileira de maior sucesso internacional em todos os tempos alcançou as vias de fato. De um lado, Max e Gloria; de outro, Andreas Kisser, guitarrista, Paulo Jr., baixista, e Iggor Cavalera (na época, ainda grafando o nome com apenas um "g"), baterista e irmão de Max. O show em questão, com ingressos esgotados no lendário palco da Brixton Academy, em Londres, seria lançado anos mais tarde pela gravadora Roadrunner como o álbum ao vivo - e renegado pelo Sepultura - Under a Pale Grey Sky.

As circunstâncias e o conteúdo da discussão são ainda temas divergentes entre as partes envolvidas. Andreas, Paulo e Iggor propunham o encerramento do contrato com Gloria e a contratação de um novo empresário para o Sepultura, alegando que ela dispensava mais atenção a Max do que à banda. Segundo a proposta do trio, ela poderia continuar como empresária pessoal de Max, mas a banda deveria ser administrada por outra pessoa. Gloria recusou. Max se sentiu traído pelos companheiros de banda, principalmente pelo irmão. Por volta das 3h da manhã, ele abandonou o ônibus de turnê para nunca mais tocar à frente do grupo que o tornou famoso.

Mais do que determinar o fim da formação responsável por alguns dos discos mais relevantes do metal (Schizophrenia, Beneath the Remains, Arise, Chaos A.D. e Roots, lançados entre 1987 e 1996), o conflito ficou eternizado como a derradeira vez em que Max veria Iggor cara a cara, assim como a última em que trocaria palavras com Andreas e Paulo. Em 1997, o vocalista deu continuidade a sua carreira com o Soulfly. No ano seguinte, o Sepultura anunciou o norte-americano Derrick Green como substituto definitivo de Max.
Isolado em Phoenix ao lado da mulher, filhos e enteados, Max iniciou um lento processo de distanciamento físico do Brasil. A última passagem pelo país foi em 2000, para um show com o Soulfly no festival Abril Pro Rock, em Recife. Com os integrantes de sua ex-banda, jamais voltou a falar - "Nem oi, nem nada", ele diz. O contato com Iggor se resumiu a raras conversas telefônicas e notícias transmitidas através da mãe, Vânia Cavalera.

Apenas em agosto de 2006, longos nove anos e oito meses após a fatídica discussão em Londres, os dois irmãos se reencontraram. "Era a última imagem que eu tinha do Iggor. A próxima vez foi aqui em Phoenix, no aeroporto. Depois de quase dez anos", se emociona Max. "Eu estava nervoso, e ao mesmo tempo muito feliz. Foi um turbilhão de emoções", lembra Iggor. "O Max foi com a Gloria nos buscar no aeroporto, ela levou flores. O abraço... era uma coisa muito da família. Emocionante pra caralho."

Iggor decidiu reatar contato com Max semanas após deixar oficialmente a função de baterista do Sepultura, em julho de 2006. O estímulo, porém, partiu de sua esposa atual, Laima Leyton.
"Quando nosso filho nasceu, a Laima teve um estalo: 'O Antonio não vai ficar sem conhecer o tio e muito menos sem brincar com os primos dele. Essa história tem que acabar agora. Liga lá pro seu irmão, pra Gloria, e troca uma idéia com eles. Você nem está mais no Sepultura, não tem nada a perder'", conta Iggor. "Realmente, fiquei quase dez anos sem falar com meu irmão. Acho que liguei uma vez, pra falar de um tio nosso que não estava legal, e só. E a Laima falou: 'Pega o telefone, fala com ela, a sua vida é outra, não tem banda, você só quer ter a família de volta'. Foi meio que um chute na bunda legal. Em vez de ligar e falar 'Eu quero falar com o Max', eu disse: 'Eu quero é falar com a Gloria'."

"Eu estava na Europa em turnê com o Soulfly", lembra Max, "e o celular da Gloria tocou. Pelo tipo das coisas que ela dizia, eu pensei: 'Caralho, com quem ela está falando?' Daí ela passou o telefone: 'É o seu irmão'". Ele ri nervosamente, para continuar: "Falei: 'Você sabe que meu pai morreu de ataque do coração e você me passa o telefone desse jeito? Você tem que me preparar, né?'".
Iggor prossegue: "Conversei com ela, expus o que estava sentindo, daí pedi pra falar com o Max. A gente trocou uma idéia, mas a música não apareceu nessa conversa. Foi assim: 'Quero ver você, reconstituir esse lance da nossa família que estava perdido por conta do business'".

Apesar de surpreendido, Max sentia que o contato de Iggor era uma questão de tempo. "Independentemente de falar no telefone ou não, não muda o que você sente por uma pessoa, principalmente por um irmão. No meu coração, eu sempre adorei ele, então tinha certeza de que um dia chegaria a hora de fazer as pazes. Levou dez anos, mas rolou", diz. "O legal foi que ele falou com a Gloria e até pediu desculpa pelo jeito que agiu naquela época. E todo mundo tem um pouco de culpa pelo que aconteceu, ninguém é santo, houve problemas de tudo quanto é lado. A vida é muito rápida pra esse tipo de atitude, então graças a Deus ele viu que não vale a pena passar a vida inteira sem falar com quem se gosta por causa de orgulho bobo. Pra ele foi assim: 'Foda-se o que rolou, vamos nos encontrar, vamos ser irmãos de novo.'"

Ao final da conversa, ficou combinado que Iggor iria para Phoenix reencontrar o irmão. Mas a iniciativa de voltar a tocar juntos foi de Max.

"Era julho, e em agosto teria o show do Dana [o tributo D-Low Memorial, organizado por Max, em homenagem ao enteado Dana Wells, morto em 1996]. Perguntei ao Iggor o que ele estava fazendo, e ele disse: 'Não estou mais na banda, moro em São Paulo, tenho mulher nova'. E eu: 'Vai ter show do Dana, seria legal se você viesse pra fazer uma jam, uma música só'. Ele adorou a idéia, e aí nasceu tudo."

Após o show, Max se animou a esticar a jam. A coleção de músicas inacabadas e riffs não usados no Soulfly seria o ponto de partida para um projeto com o irmão, e, possivelmente, um novo disco. "Falei pro Iggor: 'Dá pra matar três cobras com uma pedra. Eu faço um projeto com você, você faz algo novo e a gente toca junto mais uma vez, que é o que eu quero fazer: um som novo pra galera que quer ouvir como os Cavalera tocam juntos'. E depois a gente vê o que faz, não tem plano pra frente." Mesmo dizendo-se na época "desanimado com o metal", Iggor topou. "Ele me mandou um CD com coisas que ele achava que não cabiam no Soulfly, que tinham mais a cara do que a gente fazia no Nailbomb [projeto de Max e Iggor com Alex Newport, do Fudge Tunnel, que rendeu dois discos entre 1994 e 95]. Eu falei: 'Max, tem muita coisa boa e muita coisa ruim'. Eu sempre fui muito direto", admite. "Falei para ele quais sons eu gostei. Daí ele disse que sentiu qual era a pegada, e me convidou: 'Vamos fazer um projeto juntos'."

"A última coisa que eu queria era gravar um disco de metal. Eu estava em outro momento", confessa o baterista. Novamente, Laima teve voz ativa na decisão. "Sentei, troquei idéia com ela e decidimos: 'Vamos fazer, vai ser legal pra caralho, mais pelo lado pessoal do que pelo lado profissional'." O nome do projeto somente surgiria alguns meses mais tarde: Cavalera Conspiracy.

No sítio dos Cavalera, em Phoenix, Bryan vai buscar Max nos fundos, enquanto aguardo na penumbra da sala. A decoração rústica e de bom gosto pouco remete à casa de um furioso vocalista de metal, exceto por alguns exemplares da revista de cinema fantástico Fangoria empilhados ao lado da poltrona e a televisão sintonizada em um filme de terror sangrento e de natureza indefinida.

Max demora mais cinco minutos para surgir, com uma lata de refrigerante na mão. É mais baixo do que parece no palco, está mais magro do que nos tempos de Sepultura, usa colares de búzios e uma indefectível bandana camuflada amarrada na testa, que equilibra os cabelos quase avermelhados. No alto da cabeça, um tufo mais espesso de dreadlocks loiros se destaca. Fala rapidamente, mas com cautela, como se experimentasse as palavras, provavelmente pela falta de costume de se expressar em português. Em casa, se comunica apenas em inglês com a mulher, os enteados e os filhos. Ainda assim, fala sem sotaque, misturando os idiomas pouquíssimas vezes, usando gírias e pontuando os finais de sentenças com um afável "né, véio". Comenta que é a primeira vez em anos que um repórter brasileiro visita sua casa. Entre o ambiente escuro da saleta e a claridade da varanda, optamos pela segunda opção.

Max se posiciona sobre um pequeno muro ao lado de uma churrasqueira. O calor do deserto é sufocante, apesar da brisa discreta, e o ruído esparso de pássaros corta o silêncio que só uma residência no meio do nada pode oferecer. A vista proporcionada pela varanda, de certa forma, é inspiradora: um barranco de terra marrom-clara pontuado por rochas pontudas e, além dos cactos, nenhum sinal visível de vegetação. "Foi aqui que gravamos o clipe de 'Sick N' Strike', do Soulfly", Max aponta. O sorriso entrega a ausência de alguns dentes nas arcadas superior e inferior. "Na semana passada", começa dizendo, "estava em Moscou com o Soulfly", e emenda: "Adoro tocar em lugar diferente. A gente fez África do Sul, o Leste Europeu pra caralho, íamos tocar na Índia, mas cancelamos", diz, ressaltando que o ainda intenso assédio dos fãs nos países mais remotos compensa o pouco retorno financeiro da empreitada. "Eu e o Iggor fomos ver o Queen em São Paulo [em 1981], foi o primeiro show a que assistimos na vida. Lembro que fiquei arrepiado, achei aquilo tão legal, e a gente nem era fã. Então, imagino esses fãs desses países como Turquia, Indonésia, que esperam 20 anos para ver um show nosso. Por isso que quando estamos em turnê eu curto apertar a mão da molecada, tirar foto."

A residência fixa em Phoenix desde 1993 não impede que Max se sinta um peixe fora d'água no contexto local. "Eu moro aqui, mas ao mesmo tempo não moro. Não tenho muito a ver com esta cidade. Gosto das montanhas, gosto da liberdade, de estar em paz... Mas o pessoal que mora por aqui vai pro trabalho todo dia, faz caminhada de domingo, vai ver futebol. Eu não gosto desse futebol, pra mim, futebol é com a bola. Vivo em Phoenix, mas não sou interessado nas coisas daqui." Sair dos Estados Unidos, retornar ao Brasil e morar à beira-mar surge como projeto de vida para o futuro, ainda que um tanto distante. "Aqui é legal porque meus filhos gostam, tem uma escola boa. Mas prometo que, quando a molecada estiver grande, daqui a quatro anos, quero ter uma casa na praia. É um sonho meu, talvez no Norte do Brasil. Achar um lugar sossegado. Daí passo um tempo aqui e um tempo lá. É um plano meu, mas tenho que esperar a molecada crescer."

A molecada, no caso, é Zyon e Igor. O primeiro ficou famoso antes mesmo de nascer: são dele os batimentos cardíacos ouvidos na introdução de um dos clássicos do Sepultura, "Refuse/Resist", faixa de abertura de Chaos A.D. (1993). No ano seguinte, a imagem do bebê no colo do vocalista foi amplamente fotografada, graças ao notório "episódio da bandeira" durante o festival Hollywood Rock, em que Max foi preso após tropeçar em um estandarte brasileiro ao final do show do Sepultura. Apesar do envolvimento com a música pesada desde o berço, o garoto não se tornou um aficionado. "Ele prefere Led Zeppelin, rock mesmo", conta o pai.

Batizado em homenagem ao tio baterista, Igor toca guitarra e, assim como Max, é um fã dedicado das vertentes mais sombrias do metal. Um dos programas favoritos de pai e filho é explorar juntos as lojas de CDs atrás de lançamentos. "Tem coisa que o Igor gosta e eu não gosto muito, e tem coisa que eu gosto e ele fala: 'Que desgraça é essa?' Tipo Plebe Rude, Legião Urbana, que eu adoro e ele nem sabe o que é. Ele só gosta de metal." A eterna banda de Renato Russo - que costumava elogiar o Sepultura em entrevistas - ganha elogios rasgados de Max. "Adoro, sou um dos maiores fãs, aquele guitarrista, o Dado [Villa-Lobos], é muito bom, as coisas de guitarra que ele faz..." Entre os ídolos, se lembra que gostou de conhecer Robert Plant durante o mesmo Hollywood Rock ("No camarim ele me perguntou: 'Você é o cara que mijou na bandeira?'"), mas não guarda boas lembranças do encontro com o Kiss ("O Paul Stanley nos deu a mão olhando de lado. Não estava nem aí pra gente"). Também recorda com emoção o dia em que conheceu Pelé. "Ele é um ídolo, um semideus no mundo inteiro. É bizarra a foto do Sepultura com o Pelé!"

O isolamento não forçado em Phoenix afastou Max da realidade de seu país natal, o que não o impede de continuar a se apresentar com o Soulfly usando uma guitarra com as cores nacionais e uma bandeira brasileira estendida no amplificador, como se o fato de ter nascido no Brasil fosse mais um elemento em seu marketing de artista. Seu contato com as pessoas com quem conviveu durante o auge do Sepultura, na primeira metade da década de 1990, atualmente é nulo. Suas referências de Brasil são os telefonemas mensais da mãe, e, no último ano, os contatos com o irmão. "Faz parte dele ficar em Phoenix, curtindo os filhos, fazendo música, é muito Max isso aí. É um isolamento que faz parte do que ele está buscando", diria Iggor semanas mais tarde.

Max desconhece a música brasileira que estourou recentemente no exterior - "Tem mais de sete anos que não vou ao Brasil, tem muita coisa que eu não sei" -, não usa internet por convicção - "Sou meio primitivo mesmo" -, não faz downloads de música e acabou de ganhar um iPod de Iggor, apesar de não abrir mão de colecionar CDs. O último filme brasileiro a que assistiu foi Cidade de Deus, mas admite ter se identificado mais com Central do Brasil (ambos enviados pela mãe). "Foi muito legal ver as cenas do interior do sertão. Parecia o Sepultura indo de BH para Caruaru [Pernambuco], para fazer um show. 48 horas de ônibus que nem galinha, tomando uísque quente, chapados a viagem inteira. Bem hardcore", recorda, nostálgico. Dos primeiros ensaios improvisados em Belo Horizonte às turnês européias cheias de pompa, as lembranças dos 12 anos à frente da maior banda de metal brasileira surgem a todo tempo no discurso, sempre com notável riqueza de detalhes. Perguntas sobre o tema são inevitáveis, mesmo com o pedido da empresária de evitar qualquer menção à antiga banda do marido. Aproveito as deixas para continuar o assunto.

- Hoje em dia, o que o Sepultura ainda representa na sua vida? Deve ser difícil se livrar do passado.
- "Eu nem quero me livrar muito. Tenho o Sepultura tatuado nas minhas costas, e é uma coisa para sempre. Não é algo que dê para apagar. Eu tenho orgulho do que a gente fez, mas o meu lance de ter orgulho é não viver do passado, porque senão você não consegue fazer mais nada novo porque está preso."
- Pessoalmente falando, o assunto é tabu pra você? Irrita falar sobre isso?
- "Não é que irrite, não me importo em falar. Um exemplo: você está divorciado, e as pessoas só querem falar sobre a sua ex-mulher. Você fala, mas não é a coisa mais agradável do mundo. Tem coisa agradável pra se falar: as histórias do passado, coisa legal pra caralho. Mas quando fala em briga, o que rolou, aí eu não curto. Acho que é perda de tempo."
- Porque nada vai mudar, é por isso?
- "Tanta coisa louca rolou naquele ano da separação... Havia mil coisas diferentes que poderíamos ter feito, mas não fizemos. A vida não pode parar. O que rolou, rolou. Foi fora de controle, mas teve um motivo pra rolar, bom ou ruim."
- Você não se arrepende de nada, não faria nada diferente?
- "A única coisa... [hesita] Se tivesse rolado hoje, sugeriria um ano de férias para todo mundo. É uma coisa esperta para se fazer, mas a gente não teve a sabedoria na época, éramos moleques, com o mundo explodindo na mão, sem saber o que fazer com o sucesso. Se eu tivesse a chance, diria isso: todo mundo sem se ver por um ano. Mas aí tem outro lado: se tivesse feito isso, talvez o Sepultura se tornasse um das bandas mais babacas do mundo, igual a outras que tocam até hoje. O sentimento não está mais lá, é só pelo dinheiro ou pela obrigação."

A disposição de Max para retomar do ponto em que havia parado contrasta com os recentes períodos negativos nos quais, deprimido, se excedia no consumo de álcool e passava dias sem estímulos para pegar a guitarra ou fazer shows. A morte do amigo e ex-guitarrista do Pantera, Dimebag Darrell, assassinado no palco em 2004, quando tocava ao lado do irmão, o baterista Vinnie Paul, é citada como responsável por uma dessas oscilações de ânimo, ao mesmo tempo que indiretamente estimulou a reconciliação com Iggor. "A morte do Dimebag afetou muita gente, mas pra mim e o Iggor afetou mais, por sermos irmãos como eles e termos tido uma banda de metal, guitarra e bateria. Poderia ter sido a gente. Isso, de modo inconsciente, abriu os nossos olhos."

Pergunto se hoje ele consegue se dizer feliz. "Eu nunca tô legal [risos]. Tem sempre uma nuvem negra em cima de mim, agora está legal, porque eu tô trabalhando mais", diz. "Muita gente passa por uma fase que vai determinar como você é e como vai ser pro resto da vida. A coisa mais difícil é passar por cima disso e fazer realmente o que se quer. O que é mais importante: beber ou fazer o que se gosta? Não tem como ficar no meio-termo. Eu sou o cara mais extremo que conheço. Os americanos até falam: 'O Max é muito extremo, ele é ou não é'. Todo mundo aqui é equilibrado, e eu sou a coisa mais não equilibrada do mundo."

A empresária aparece na porta e sinaliza com as mãos.

Extrapolamos o tempo em 15 minutos. Max concorda com a cabeça e pede desculpas. "Tenho que sair, mas amanhã a gente continua lá na minha outra casa, né?". A presença de Gloria parece ser o ponto de equilíbrio na vida de Max. É ela quem determina horários e compromissos, assim como permanece com voz ativa em negociações de shows e contatos com os artistas que os acompanham em turnês. Casado há quase 15 anos, ele parece um homem realizado e confortável com a atenção da esposa. "A Gloria adora viajar, não é tão apegada aos Estados Unidos. Ela sabe que existe um mundo fora daqui. Tive sorte de achar uma pessoa que tem a mesma visão que eu. A gente gosta de fazer coisa diferente. Ela gosta de cozinhar pra caramba, até faz uma feijoa-da do caralho pra mim."

As 3 em ponto do dia seguinte, apareço na outra residência da família Cavalera - esta a oficial, mais próxima da região central de Phoenix. A decoração de Halloween no jardim é exagerada e destoa da sobriedade das construções vizinhas: abóboras, lápides posicionadas desordenadamente no gramado, um Frankenstein inflável, uma réplica em tamanho natural do psicopata Leatherface, de O Massacre da Serra Elétrica, que emite ruídos quando me aproximo. Vejo um garoto loiro, de camiseta preta, que erradamente concluo ser Zyon. "Não, sou o Igor", ele corrige. Me apresento como o repórter que está fazendo uma matéria sobre o pai dele. Ouço um murmúrio em resposta.

Max aparece, animado, de camiseta cinzenta, calça camuflada e bandana combinando. Reapresenta Igor e relata a programação do dia. Primeiro, levaremos a guitarra do filho ao conserto. Depois, compraremos CDs na loja favorita deles. Se houver tempo, comeremos alguma coisa em algum lugar. A empresária reforça que devemos estar de volta às 6 da tarde. "Em três horas já dá para fazer bastante coisa, certo?", pergunta. Respondo positivamente.
Dentro do carro, um confortável SUV preto, Max apresenta o CD com as músicas finalizadas do Cavalera Conspiracy. Enquanto "Inflikted" (faixa que também dá nome ao disco) explode nos alto-falantes, Max dirige e fala sem economia. Comenta sobre sua rotina em Phoenix, recomenda lojas de discos, relembra as aulas de canto que fez em Belo Horizonte. Em silêncio no banco de trás, o pequeno Igor parece não entender a conversa ou finge não prestar atenção. Com olhar distante, só responde às perguntas do pai quando solicitado. Só esboça reação ao encontrar um anúncio da grife Cavalera no exemplar da Rolling Stone Brasil que folheia. "Isso é um negócio do tio Iggor", lhe explica o pai. Faixa após faixa, Inflikted ecoa alto. "Dark Ark", que conta com a participação vocal de Ritchie, enteado de Max, soa ensurdecedora. Já estamos quase gritando, não conversando. A primeira parada, o Guitar Center local, não demora a chegar. Ao estacionarmos, Max pergunta se pretendo tirar fotos, e avisa que já havia pedido autorização para o dono da loja no dia anterior.

Ao mesmo tempo em que passeia discreto e sem ser incomodado, Massimiliano Antônio Cavalera já é personagem carimbado de Phoenix. A presença do herói perdido do rock brasileiro chama a atenção por onde passa, seja pela aparência marcante, seja porque as pessoas sabem quem ele realmente é. Na entrada, é imediatamente cumprimentado por todos os funcionários. Comentam que ele não aparece há tempos, perguntam o que tem feito ultimamente. "Ah, por aí, você sabe. Estava em turnê, gravando disco", responde, acostumado a esse tipo de indagação. A balconista, quase se desculpando, solicita um autógrafo. "É para um amigo. Eu liguei para ele falando que você está aqui, e ele ficou louco!".

Max é avisado que a peça para o conserto da guitarra estava em falta, e o instrumento retorna para a caixa sem a solução do defeito. Igor, à sua maneira, não pareceu se importar. O restante do tempo foi gasto experimentando guitarras. Max me corrige sobre a maneira como toco o riff de "Arise". Em seguida, mostro como uma revista transcreveu a harmonia final de "Territory" ("Eu não faço desse jeito. Essas coisas quem fazia era o Andreas"). Max se diverte com uma rara Gibson Les Paul 1957, mas não se aventura a exibir habilidade ou seus riffs famosos. Apesar de tocar há mais de 25 anos, Max em nada se parece com o tipo de músico aficionado pelo instrumento. A escolha por utilizar apenas as quatro cordas mais graves entre as seis de uma guitarra é reflexo desse desapego, quase um relaxo, o qual ele parece ter orgulho de admitir. "Eu não toco solo, só riffs, por isso só uso quatro cordas. Até hoje, quando faço música não sei a afinação. A maioria dos guitarristas sabe todas as escalas, os nomes das porras... Eu não me preocupo muito."

A caminho da outra loja, trocamos idéias sobre problemas gástricos em comum. Ele afirma que já não bebe mais álcool, por conta de recentes crises estomacais, que sempre curtiu Cuba Libre e uísque, nunca cerveja. Relembra histórias de porres com integrantes do Pantera e do Ministry, e se diverte com a ocasião em que vomitou no colo de Eddie Vedder, vocalista do Pearl Jam, durante uma festa de camarim. "Minha irmã é fã do Pearl Jam, então fui pedir um autógrafo. Uma hora depois, sentei do lado do cara de novo, tomei mais uma dose de Jack Daniels e não teve jeito", descreve, às gargalhadas.

Os vendedores da Zia Record Exchange se mostram honrados pela presença ilustre de Max e seu filho, apesar de os tratarem com um nível de intimidade só destinado a clientes cativos - o que é o caso. Um deles faz questão de parabenizar Max por sua última apresentação em Phoenix, o show do D-Low Memorial - justamente a primeira apresentação ao vivo do que viria a ser o Cavalera Conspiracy, dois meses antes. Max deixa Igor pegar o que quiser na seção destinada ao metal extremo, mas coordena cada escolha, entre eles o disco mais recente do trio gaúcho Krisiun, Assassination (2006). Ele acaba por aceitar minha dica e adiciona à pilha o álbum Gipsy Punks, da banda de punk cigano Gogol Bordello. No caixa, o balconista confirma a Max que ele fez uma boa escolha. Ele sorri em retribuição.

Meia hora antes das 6, a empresária liga para o celular de Igor e pergunta se quer que chame um táxi para minha volta ao hotel. Compreendo o recado como o fim da entrevista. No caminho, Max passa pela lanchonete favorita de Igor e compra duas caixas de pedaços de frango pelo drive-thru. Se desculpando pelo encerramento do passeio, explica que havia a expectativa de sua enteada Roxanne dar à luz um filho ainda naquela noite.
Sou convidado a esperar dentro da casa enquanto aguardo o táxi. A morada oficial dos Cavalera - local onde também funciona o escritório da Oasis Management, empresa de gerenciamento de artistas comandada por Gloria - se apresenta como uma residência familiar típica, além de um organismo vivo e dos mais movimentados. A TV está ligada em alto volume, a circulação pelos corredores é intensa e os cachorros de estimação dos Cavalera latem para mim assim que atravesso a porta, mas me ignoram pelos minutos seguintes. Uma bateria completa se encontra montada ao lado da televisão ("É das crianças") na sala de estar, esta um verdadeiro santuário da história musical do ídolo mundial Max Cavalera. Discos de ouro e prêmios são expostos de maneira organizada nas paredes, cujas procedências são devidamente explicadas pelo dono da casa. Reconheço o Astronauta de Prata que o Sepultura ganhou pelo clipe de "Territory" em 1994. Nas paredes opostas, uma coleção de máscaras exóticas, retratos sorridentes de família e fotos de shows.

Max me convida para conhecer o quarto de Igor, onde estão guardadas algumas de suas guitarras. No típico quarto de criança não poderia faltar um videogame (e o jogo Guitar Hero), brinquedos, miniaturas, um pôster clássico de "Trooper", do Iron Maiden, outro dos Sex Pistols. Conversamos alto demais, até a esposa surgir na porta para reclamar do barulho: Zyon passou o dia doente, de cama no quarto ao lado.

Antes de entrar no táxi, Max insiste para que eu telefone no dia seguinte, para tentar marcar um último papo. As tentativas ao longo do dia foram em vão. Mais tarde, soube que ele passara o dia na maternidade, acompanhando o parto da enteada. Aos 38 anos, Max se tornara avô mais uma vez.

São 3h30 da manhã de uma sexta-feira de feriado prolongado em São Paulo, e Iggor Cavalera não pára de dançar. Incansável, o ex-baterista do Sepultura está de pé, ao lado da caixa de som, e movimenta o corpo por inércia enquanto pressiona teclas coloridas e procura discos prateados que insere na aparelhagem diante de si. Os gestos são mais contidos do que os que executava quando se via cercado por tambores e pratos, porém não menos concentrados. A expressão lembra um transe consciente, e sua interação com os arredores é quase mínima. No copo, sempre cheio, doses de energético puro. O telão do clube paulistano avisa, com letras coloridas e cenário psicodélico, que aquela é mais uma apresentação do Mixhell. Na pista, relativamente cheia para o horário, muitos dançam de olhos fechados. Gritos de júbilo são escutados em meio às batidas mais fortes.

Iggor não está só. Ao seu lado, Laima Leyton, 30 anos, esposa e parceira musical, mãe de seu quarto filho, Antonio, de 2 anos. Seu comportamento corporal é ligeiramente semelhante, porém ela está mais relaxada que o companheiro. A dança do casal não é sincronizada ao ponto de parecer ensaiada, mas há evidente compatibilidade. De quando em quando, um sussurra algo no ouvido do outro. A deixa para se acionar um efeito ou incluir uma batida à massa sonora feita de colagens e ruídos é feita de maneira natural, como se ambos já executassem o ritual há muito tempo. De fato, cenas idênticas àquela se repetiram algumas dezenas de vezes ao longo do ano.

Desde que deixou o grupo no qual permaneceu por quase um terço de sua vida, as participações de Iggor como baterista foram discretas, por opção dele próprio. Lançado oficialmente no final de 2006, o duo Mixhell é fruto de experimentações descompromissadas como DJ e de uma inalterada paixão pelos ritmos percussivos e eletrônicos. "Foi totalmente por acidente", confesa Iggor. "Não foi uma coisa que parei e pensei: 'Vou sair do Sepultura, fazer um projeto eletrônico e vai dar certo'. Longe disso, era totalmente o oposto. Meu plano era parar geral. Não queria tocar, ver banda, nada. Queria ficar com meus filhos e com a Laima curtindo."

Hoje, o casal ocupa a maior parte de seu tempo com o projeto, no qual se alternam na escolha de batidas dançantes, remixes de músicas originais e composições da própria dupla, criadas no computador. Iggor afirma que a sua predileção pela música eletrônica existia desde os tempos áureos de metal. "Sempre procurei um som novo e vi que a música eletrônica possibilita coisas interessantes que não dá para fazer na bateria, só com máquina mesmo. Agora, começar a discotecar foi coisa mesmo de zoeira." A primeira vez que trocou discos em público, ele lembra, foi a pedido do amigo João Gordo, que comandava uma noite no clube paulistano The Edge. Novos convites surgiram, nos quais começou a ser acompanhado de perto por Laima. "Ela ia junto comigo e a gente discutia na hora: 'Põe aquele'." Um dia, foram convocados para tocarem juntos. "Depois disso, pensei: 'Não quero tocar sozinho, é muito mais gostoso com outra pessoa'."

Quase dois meses depois de meu encontro com Max - e exatos 11 anos após a briga que separou a banda -, Iggor me recebe em seu apartamento no bairro do Paraíso (São Paulo), decorado por adesivos, desenhos e miniaturas. Brinquedos coloridos e um berço no meio da sala dão pistas de que aquela é uma casa ainda dominada por crianças. Coincidência ou não, uma bateria - eletrônica - está montada ao lado do sofá camuflado onde me posiciono para a conversa, que já começa antes de nos sentarmos.
Assim como Max, Iggor tem o tempo contado no relógio. Um compromisso estava marcado para dentro de duas horas e, no dia seguinte, ele embarcaria para mais apresentações do Mixhell na França. Digo que foi mais difícil marcar a entrevista com ele em São Paulo do que com o irmão em Phoenix, e ele sabe que não é exagero. O dia do encontro, uma tarde chuvosa do fim de dezembro, era uma raríssima janela entre longos períodos em turnê nos Estados Unidos e Europa. Durante as duas horas que estive em sua casa, o celular tocou cinco vezes, sempre uma pessoa diferente do outro lado da linha.

Em oposição a Max, Iggor é econômico nos gestos e na demonstração de emoções. Raramente dá risada, e enquanto fala, calmamente, pronuncia as sílabas com clareza. Sempre se refere a Max como "meu irmão". Urbanóide por definição, já morou em San Diego (Califórnia), gosta de São Paulo, mas não se enxerga morando para sempre no mesmo lugar - "Onde eu estiver, eu consigo fazer o negócio rolar". Seu projeto pessoal atual é tirar o irmão mais velho do exílio no deserto. "Estou tentando convencê-lo a sair de Phoenix. Levar ele para Parati [no Rio de Janeiro], deixar ele largado na ilha, sem nenhum fã do Sepultura, só pra ele curtir. Meu irmão, do jeito que é, iria curtir muito dar uma andada na praia sozinho no fim de tarde."

As figuras femininas são forte presença no cotidiano dos irmãos Cavalera, que dividem com elas decisões-chave de suas vidas pessoais e profissionais. Isso fica claro ao longo da conversa, uma vez que Iggor faz questão de sempre valorizar a importância de Laima em sua trajetória nos últimos anos. À companheira - sua esposa depois de se separar de Monika Bass Cavalera, com quem tem três filhos -, ele atribui quebras de alguns paradigmas, como sua rendição à tecnologia. "Eu era muito tosco, mas quando comecei a sair com a Laima, ela não quis saber: 'Você tem que ter e-mail, tem que mexer no computador'. Agora a gente resolve várias coisas com o BlackBerry, responde a todos os e-mails na hora, em qualquer lugar do mundo." Para compor a música apresentada pelo Mixhell, o casal divide funções. Iggor se dedica aos arranjos e à sonoridade, enquanto Laima aplica seu conhecimento no software ProTools. "Eu não sou nerd o bastante. Não tenho a rapidez que ela tem pra aprender." Em shows recentes, passou a misturar batidas reais de bateria aos beats eletrônicos tocados por Laima. Apesar de gostar de tomar champanhe durante as discotecagens, jura jamais beber antes de massacrar seu instrumento de trabalho.

Outra influência crucial da esposa, reforça o marido, teria sido na decisão de abandonar o Sepultura. "Toda essa caminhada desde a minha saída da banda, e até um pouco antes, tem muito o dedo dela", explica. "Ela trabalhava há quase dez anos no Museu de Arte Moderna. Eu consegui arrancar ela de lá, ela me arrancou do Sepultura e começamos a fazer uma coisa juntos, meio que por acidente."

"Eu já estava querendo sair do Sepultura", prossegue, "mas faltava alguém falar: 'Se você não está feliz, vai fazer qualquer coisa, mas tem que estar feliz, não importa o que está fazendo. Você não tem que fazer isso para o resto da vida'. Isso foi superlegal da parte da Laima, da minha mãe, de terem me colocado com os pés no chão".
O X da "questão Sepultura", Iggor jura, jamais foi o fim da paixão pela função que o consagrou. "Nunca perdi o tesão pela bateria. Eu não estava muito a fim de tocar as mesmas coisas. Queria tocar, mas não queria entrar numa banda, de repente fazer uma participação. E aí pintou a discotecagem, sem compromisso profissional. Daí quando começamos a produzir música, pensamos: 'Fodeu'. É isso o que está segurando nossa casa e dando um gás na nossa criatividade, então estou 100% feliz."

Mesmo gradual, a mudança de estilo não passou despercebida por fãs antigos, mas as críticas, o músico jura, surgem com mais freqüência em fóruns e blogs na internet do que ao vivo. "A coisa hoje em dia não é tão pessoal quanto era antigamente, quando alguém poderia chegar e falar: 'Mas que merda, você deveria ter continuado'. Mas acontece de um puta fã do Sepultura dizer: 'Porra, quando você vai tocar música de verdade de novo?' [risos]. Mas não rola essa coisa hostil, 'traidor do metal'."

A primeira vez que entrou em estúdio com o Sepultura, para a gravação de Bestial Devastation (1985), Iggor tinha apenas 14 anos. Modesto, orgulha-se de ter desenvolvido um estilo próprio que passou a influenciar diretamente a música composta pelo grupo. "Até o Arise (1991), tinha um lance de eles escreverem o riff de guitarra e eu fazer a batida. No Chaos A.D. (1993) já tinha virado uma outra coisa. Eu fazia o beat e então o Max e o Andreas tinham que criar um riff em cima", lembra. A obsessão pelas baquetas já o levou a procedimentos bizarros, como desmontar a bateria e montá-la de modo diferente, para reaprender as músicas que já sabia tocar. "Se estou sentindo que não estou criando, coloco um obstáculo na frente pra conseguir pensar. Bateria pra mim é não parar de aprender nunca."

Pouco mais de um ano e meio após divulgar seu desligamento definitivo do grupo que ajudou a fundar em 1984, Iggor Graziano Cavalera permanece afastado do universo que compôs sua rotina durante 22 anos. Dos integrantes da ex-banda, só mantém contato constante com o vocalista Derrick Green. Não acompanha as notícias e ainda não assistiu a nenhuma performance ao vivo de seu sucessor, o também mineiro Jean Dolabella. "Se tiver oportunidade, se estiver num festival e eles tocarem, vou assistir numa boa, do mesmo jeito que assisti ao Soulfly na época. Mas eu não sairia da minha casa pra ver." Distâncias à parte, nem Max nem Iggor renegam o período em que eram parceiros, colecionavam fãs em todos os continentes e acumulavam elogios rasgados da crítica especializada. A abordagem de cada um diante do tema, porém, é notavelmente distinta. Enquanto o primeiro relata com gosto histórias recheadas de nostalgia, o segundo investe em uma postura mais pragmática: "É uma coisa que faz parte da nossa história, mas também não vou ficar vivendo a minha vida inteira em cima disso. Quero ver para a frente. Ao mesmo tempo, passei 20 anos fazendo aquilo, então sei que não tem como apagar e agora só falar do Cavalera Conspiracy", diz, inabalável.

O desinteresse pelo formato tradicional de um grupo de rock é uma das razões mais evidentes da compatibilidade de Iggor com seus atuais projetos de vida. "O Conspiracy não é uma banda, é um projeto legal pra caralho. O processo é muito mais natural. É coisa de pegar o telefone: 'Vamos aprovar a arte juntos, vamos fazer um logotipo'. Não é aquele negócio de banda, cinco pessoas falando. Aqui somos só eu e meu irmão. Os outros caras são meio que convidados nossos pra participar de um negócio legal em que milhares de pessoas gostariam de estar no lugar deles."
Se para ele a conciliação da rotina de um grupo de sucesso internacional com a vida pessoal jamais se mostrou algo propriamente simples, o formato diferenciado do Mixhell também contribui para amenizar a distância da família e o exaustivo contato com outros músicos. "Banda é uma merda, você fica casado com um monte de cara, mais do que você fica com a sua mulher...", brinca Iggor, sem sorrir. "Eu e a Laima não temos que dar satisfação pra músicos sobre o que a gente vai fazer, dos planos que a gente traça. É uma coisa mais de dupla mesmo."

A expressão impassível com a qual descreve seus pensamentos se faz presente até quando se vê diante de questões mais emocionais relacionadas à sua retomada de contato com Max.

- Você ficou dez anos sem ver seu irmão. Você sentiu algo como "Eu tenho saudade desse cara, mas não tenho a manha de ligar pra ele"?
- "O lance é que eu tinha certeza, uma puta convicção, de que a gente ia fazer algo. Não profissionalmente, mas sim que a gente ia se acertar e ficar tudo numa boa. Eu sabia que eu ou ele teríamos que ceder de alguma forma, pegar o telefone e ligar."
- E foi você...
- "Fui eu e fico orgulhoso de ter sido eu, e se fosse ele também acharia do caralho. Eu tinha certeza, então não tinha essa dor imensa, tipo 'putz, o que ele está fazendo agora?'. Era um lance meu..."
- Mas não tinha raiva também...
- "Não, raiva não foi um sentimento que fez parte dessa história. Era mais: 'Que merda!'. A gente se separou e cada um foi fazer uma coisa. Você fica frustrado, mas não fica com raiva. Eu acho que foi necessário tudo isso que rolou, para hoje a gente fazer o que está fazendo de uma forma diferente."
- Você acha que demorou muito? Dez anos foi o tempo ideal, e por isso está dando certo agora?
- "Não sei falar para você."
- Porque o reencontro poderia ter sido antes, quando você ainda estava no Sepultura.
- "Não, porque eu tinha muito vínculo com o Sepultura, o que era superdifícil pra ele. Então, foi a hora certa. Eu não mudaria a história. Acho que aconteceu porque tinha que rolar dessa forma."
Não resisto e apresento a Iggor a sugestão de Max de dar uma pausa de um ano para acalmar os ânimos. "Muita banda fez isso e deu certo, mas não sei se resolveria. Seria uma alternativa, a gente dar um tempo e ver depois o que fazer com a cabeça mais fria. Mas na época não foi, nem ele propôs, nem a gente. Foi uma coisa que aconteceu."

As perguntas de cunho pessoal nunca parecem o abalar, porém os olhos de Iggor não escondem sua inquietude pela pressão exercida pelos seguidos telefonemas, o relógio e a iminência de encarar o impraticável trânsito paulistano em um dia de chuva. Para encerrar, repito a pergunta que dirigi a Max, aquela relacionada à felicidade. Com um meio sorriso, a resposta sai otimista. "Estou feliz pra caralho, o momento que eu tenho agora com a Laima, o Mixhell e o meu irmão... Estou satisfeito como músico, como pessoa e com gás para fazer muita coisa."

Pelo telefone, Laima lembra a Iggor que ele já está atrasado. A poucos dias do final de 2007, o ritmo de vida do músico dá pistas de um 2008 ainda mais movimentado, com uma possível conciliação da agenda de shows de seus dois projetos. Antes de deixar o apartamento, pergunto o que vem depois. "Nunca fiz projeções para o futuro com o Sepultura, agora também não faço. O máximo que consigo planejar é daqui a dois meses. O resto vai acontecendo e a gente vai fazendo acontecer também", decreta. "Estamos que nem loucos, viajando pra caralho, mas está valendo a pena. Se o corpo agüentar, a gente vai levar até quando der."

Inflikted, o disco que consolida o reencontro criativo dos irmãos Cavalera, foi gravado em Los Angeles ao longo de julho de 2007. O palco do primeiro ensaio foi um galpão sem ar-condicionado em Phoenix, o mesmo local onde o Sepultura costumava ensaiar e compor quando Max fazia parte da banda. "É o lugar em que ainda ensaio com o Soulfly. São as mesmas paredes, as pichações, pôsteres da época. Falei com o Iggor: 'E aí, véio, tá limpo pra você?'. E ele: 'Que nada, vam'bora'. Ele não é tão encanado que nem eu", brinca Max.

Completando o quarteto, Marc Rizzo (guitarrista do Soulfly) e Joe Duplantier (guitarrista do Gojira, no baixo). No repertório, músicas do Sepultura ("Territory, "Troops of Doom") e do Nailbomb. A interação foi rápida, e a intensidade com que tocaram era tamanha, Iggor se lembra, que nem a bateria agüentou. "Comecei a tocar e ela desmontou inteira, o roa-die ficou desesperado, parecia desenho animado."

No dia seguinte, o direcionamento se alterou. "A jam parou, fomos direto pro disco, não tocamos mais covers, só música nova. Foi assim, sem nem perguntar por quê", diz Max.

Uma vez no estúdio, as gravações fluíram rapidamente, com espontaneidade de ensaio e velocidade de apresentação ao vivo - uma opção do vocalista, que também assina a produção do disco. "Eu prefiro arriscar a gravação não ser tão precisa, mas ter um clima de ao vivo, que é o que as bandas de hoje não têm, especialmente essas de new metal, em que tudo é eletrônico, essa coisa tão escrota." Quase artesanal, o processo de composição funcionava como um quebra-cabeça musical montado em conjunto pelos Cavalera. "O Max tinha os riffs que ele queria na faixa", descreve Iggor, "e eu tinha que fazer como no Sepultura. A gente sentava antes de cada música, ensaiava, colocava as partes que eu achava legal, o que eu não gostava eu tirava junto com o Max. 'Meu, vamos fazer esse fim assim, esse começo...' Daí a gente gravava."
Ele segue: "Na primeira música, parecia que estava tocando aquilo há 20 anos. Fluía, fiquei impressionado. Mas era por não ter pressão. Se o disco fosse feito em outra época, sentiria a pressão de ter que fazer um puta disco. Não coloquei pressa, saiu do jeito que tinha que fazer. A maioria das músicas matei em um take. Estava impressionado comigo, 'caralho, tô tocando bem!'"
"Nas partes rápidas, por termos tocado tanto tempo juntos, os outros músicos se perdem e a gente continua", se diverte Max. "O legal de tocar com o Iggor é que a música começa talvez com a batida de 100 batidas por minuto e termina em 120. Acelera naturalmente, e eu acho isso legal. Quando você ouve, sente o rush da adrenalina, que pra mim é mais importante que um som profissional."

Com lançamento previsto para 24 de março, Inflikted é recheado de tonalidades graves (as guitarras foram afinadas dois tons e meio abaixo do padrão), constante utilização de dois bumbos e alternâncias naturais entre velocidade da luz e lentidão sufocante. "Inflikted" e "Sanctuary" foram as faixas divulgadas no MySpace do projeto, poucos dias antes de as nove restantes vazarem na internet. O sentimento de urgência da gravação é evidente, como se os irmãos fossem compelidos a tirar o disco de dentro de si. "Se alguém perguntar qual é a diferença entre este som e o Soulfly, não vou saber responder. Mas tem diferença", diz Max. "Pra mim, pra minha vida, pros fãs, este disco é a coisa mais perto do Sepultura que o pessoal vai ouvir."

Iggor não está menos satisfeito. "O que tinha que ser feito a gente já fez, um puta disco legal pra caralho. Agora, não tenho como criar expectativa. É uma coisa que a gente estava com vontade de fazer e fez, e tem muita gente que quer ouvir isso. É esse o ponto mais importante", completa, negando que os interesses financeiros tenham pesado na hora de embarcar na empreitada. "O convite do Max para eu fazer o disco foi em cima dessa amizade, não em cima de: 'Mano, vamos fazer uma grana'. Se ele não tivesse me convidado, eu estaria do mesmo jeito, porque a gente está bem como família."

Nascidos em Belo Horizonte com um ano e um mês de diferença, Max, 38, e Iggor, 37, roqueiros em fúria nos palcos, em casa definem-se como pacatos homens de família. Ao se casar, Max agregou os cinco filhos dos casamentos anteriores de Gloria (Dana, Christina, Ritchie, Jason e Roxanne), com quem teve dois filhos. Iggor tem três do casamento com Monika (Joanna, Raíssa e Íccaro) e um com Laima (Antonio), que já tinha um filho (Pedro). Os gostos irrestritos de ambos pela paternidade e pela vida familiar são resquícios óbvios da estreita relação com Vânia Cavalera, um onipresente ponto de referência em suas carreiras precoces. "Esse lance da minha mãe comigo e com meu irmão é muito forte. A gente perdeu nosso pai bem pequeno, então ela sempre foi superativa na nossa vida, e as mulheres também. Acho legal você dar esse espaço para poder ter várias opiniões, não só a sua", Iggor diz. "Tenho certeza de que é a maior vitória dela conseguir que a gente esteja de novo junto e feliz fazendo uma parada legal."

O fato de as mulheres representarem papéis cruciais nas decisões profissionais dos irmãos rendeu um estigma negativo entre certos fãs órfãos do Sepultura, que jamais deixaram de culpar as companheiras dos integrantes pelo processo de separação da banda. Entre os mais críticos, referências pejorativas a John Lennon, Yoko Ono e o fim dos Beatles surgem freqüentemente como forma de comparação.

"O John e a Yoko foram o extremo da coisa, ao mesmo tempo em que também não acho negativo", coloca Iggor. "Os Beatles fizeram coisas legais, mas o Lennon também fez muita coisa boa quando estava só com ela, talvez mais do que na época da banda. Criou-se um estigma: 'Se a mulher está envolvida, é uma merda'. Acho o contrário." Reconciliador, ele é categórico ao amenizar as antigas diferenças com a cunhada. "Na época do Sepultura, a gente não estava batendo as nossas idéias. Mas se não fosse a Gloria, mas outra pessoa, também teria acontecido. Não era por ser a mulher do Max, e sim de a gente não estar lidando bem com a parte dela na época."

A antiga banda também é tema responsável pela única divergência de discurso entre os Cavalera. A tão alardeada possibilidade de uma reunião da formação clássica do Sepultura, inclusive com a presença do guitarrista Jairo Guedez - que participou dos dois primeiros discos, mas tem pouca presença na história da banda -, ganha opiniões de extremos opostos.

"Essa é a minha vontade", se prontifica Max. "Se fosse para fazer, é o que eu gostaria. Sendo eu, não dá pra esquecer do passado. Para os fãs, minha palavra é que eu gostaria de fazer essa reunião com todo mundo, com o Jairo inclusive. Fazer até uma pesquisa pra saber quem está vivo, quem está fazendo o quê [risos]. Acho que vai rolar, não sei quando, mas acho que ainda vai."

Iggor, por sua vez, teria que ser convencido a tomar parte. "Saí da banda justamente por tudo isso, e não tenho interesse nenhum em voltar a tocar com o Sepultura original", descarta. "O lance que estou fazendo com o Cavalera é mil vezes mais interessante, é coisa de futuro, não de ficar buscando no passado." Fontes próximas à banda afirmam que uma proposta para uma possível reunião - na casa de 1 milhão de dólares, estima-se - foi realizada há alguns anos, mas que não avançou graças a divergências de negociação entre os próprios integrantes. Os irmãos não confirmaram a informação.

Apesar de o reencontro fraterno ter recuperado fielmente um processo de compatibilidade musical que existe há mais de 25 anos, ainda não é possível afirmar se a amizade entre Max e Iggor também foi retomada do ponto em que havia parado. As calorosas demonstrações de admiração mútua, entretanto, parecem ignorar as diferenças que resultaram em quase dez anos de distanciamento.

"Fiquei bem feliz por ele", Max aprova o projeto eletrônico do irmão, apesar de jamais tê-lo visto ao vivo. "Você tem que estar satisfeito com a música que faz. Eu e ele demos a volta por cima de modos diferentes, porque somos diferentes. Eu até dou uma força: tem uma música do Conspiracy, 'The Doom of All Fires' em que coloquei 'mix hell' na letra, meio que como um presente meu pra ele."
Em tom de arrependimento, Max completa que jamais elogiou Iggor como deveria. "Ele faz a bateria soar como trovão. Eu nunca vi alguém fazer isso e nunca vou ver. Não dá pra explicar a técnica. É o jeito que ele toca, pode ser a bateria mais escrota do mundo. Todo tempo que a gente estava junto, eu deveria ter dito: 'Você toca pra caralho'."

Iggor, por sua vez, elogia a maturidade adquirida por Max durante o isolamento no Arizona. "Na parte musical, ele está muito focado, respira música o dia inteiro, está mais afiado do que nunca. Ele tem uma convicção que é legal de se ver."

"A admiração já está impressa nos dois", continua. "Eu sinto que ele é parte minha. Ao mesmo tempo, eu não precisava dizer o quanto ele é foda. Ele sabe, eu sei. É até engraçado: quando a gente toca, nem precisa se olhar, já sabe o que o outro vai fazer. Coisa de irmão mesmo."

"Ainda bem que a gente fez as pazes", Max respira aliviado. "Acho que o pior pesadelo do mundo seria eu ou ele morrer sem fazer as pazes."

O editor Pablo Miyazawa escreveu a matéria sobre os Simpsons na RS 10 (jul. 07).