Edição 19 - Abril de 2008

O Fim da Alta Fidelidade

No auge da era do MP3, a qualidade do som fica cada vez pior
  • Imprimir
por Robert Levine

David Bendeth, produtor que trabalha com bandas como Hawthorne Heights e Paramore, sabe que os discos que faz acabam sendo ouvidos através de pequenas caixas de computador enquanto os fãs navegam na internet. Assim, ele não se surpreende quando as gravadoras pedem para que os engenheiros de masterização aumentem bastante o nível do som, de forma que até as partes mais suaves das músicas fiquem altas.

Na última década e meia, uma revolução na tecnologia de gravação mudou a forma como álbuns são produzidos, mixados e masterizados - quase sempre para pior. "Eles querem que os álbuns fiquem mais altos para conquistar a atenção [dos ouvintes]", diz Bendeth. Os engenheiros fazem isso através da aplicação da compressão dinâmica, que reduz a diferença entre os sons mais altos e os mais suaves em uma música. Como muitos de seus colegas de profissão, Bendeth acredita que utilizar esse efeito pode obscurecer detalhes sonoros, roubar a força emocional da música e deixar os ouvintes com o que os engenheiros chamam de "fadiga auditiva". "Acho que quase tudo hoje em dia é masterizado um pouco alto demais", diz Bendeth. "A indústria decidiu que vivemos uma competição por volume."

Produtores e engenheiros chamam isso de "a guerra do volume", e ela tem mudado o som de quase todos os álbuns de rock e pop. Mas o volume não é a única questão. Programas de computador como o Pro Tools (que servem para que os engenheiros de som manipulem o som do mesmo jeito que um Word edita texto) fazem com que os músicos pareçam perfeitos, de uma forma não natural. E os ouvintes de hoje consomem uma quantidade cada vez maior de música em MP3, formato que elimina muitos dos dados existentes no arquivo original do CD e pode deixar o som metálico ou oco. "Com todas as inovações técnicas, a música ficou pior", diz Donald Fagen, do Steely Dan, banda que produziu discos notórios pela alta qualidade sonora. "Deus está nos detalhes. Mas eles foram apagados."

A idéia de que os engenheiros fazem álbuns com o volume mais alto parece estranha: o volume não é controlado por um botão em seu aparelho de som? Sim, mas cada movimento naquele botão comanda uma escala de volume, do vocal abafado à caixa da bateria - e arrastar o som para o alto da escala faz com que a música fique mais alta. É a mesma técnica usada para que os comerciais de TV fiquem mais alto do que os programas. E isso captura a atenção do ouvinte - mas tem um custo. No ano passado, Bob Dylan declarou à Rolling Stone que os álbuns atuais "estão cheios de sons. Não há definição de nada, nem de vocal, nada, parece tudo... estática".

Em 2004, Mary Guibert, a mãe do músico norte-americano Jeff Buckley (falecido em 1997), escutou a fita original das gravações de Grace, o principal disco lançado por seu filho. "Estávamos ouvindo instrumentos que nunca dava para ouvir no disco lançado, como os pratos de mão ou o som das cordas da viola", ela se lembra. "Fiquei espantada porque era exatamente aquilo o que ele tinha ouvido no estúdio."

Para desapontamento de Guibert, a versão remasterizada de Grace, lançada em 2004, não conseguiu captar a maioria desses detalhes. Assim, no ano passado, quando organizou a coletânea So Real: Songs from Jeff Buckley, ela insistiu em ter um consultor independente para supervisionar o processo, além de um engenheiro de masterização, que iria reproduzir o som que Buckley fez no estúdio. "Agora, dá para ouvir os instrumentos distintos e o som da sala", ela diz, sobre o novo lançamento. "A compressão borra tudo."

Muita compressão pode ser ouvida como desordem. Em Whatever People Say I Am, That's What I'm Not, álbum de estréia do Arctic Monkeys, a banda parece que nunca dá uma pausa para tomar fôlego. Ao manter a intensidade constante, o disco deixa de mostrar os altos e baixos emocionais que normalmente existem em toda música. "Você perde a força do refrão, porque ele não fica mais alto que os versos", diz Bendeth. "Você perde a emoção."
O ouvido interno automaticamente comprime o excesso de volume para se proteger, assim nós associamos compressão com altura, conforme explica Daniel Levitin, professor de música e neurociência na Universidade McGill e autor do livro This Is Your Brain on Music: The Science of a Human Obsession (Esse é o Seu Cérebro com Música: A Ciência de uma Obsessão Humana). O cérebro humano se desenvolveu de forma a prestar especial atenção a barulhos altos, assim sons comprimidos inicialmente pareciam mais interessantes. Mas o efeito não dura. "O interesse na música vem da variação no ritmo, no timbre, no tom e na altura", diz Levitin. "Se você mantiver algo constante, pode se tornar monótono." Depois de alguns minutos, mostra a pesquisa, a altura constante começa a cansar o cérebro. Apesar de que poucos ouvintes percebam isso conscientemente, muitos sentem a necessidade de pular rapidamente para a próxima faixa.

"Se limitarmos a escala, isso se torna um assalto ao corpo", conta Tom Coyne, engenheiro de masterização que trabalhou com Mary J. Blige e Nas. "Quando se tem 15 anos, é a melhor coisa - parece uma martelada na cabeça. Mas quem quer ouvir isso em um disco inteiro?"

Para um ouvinte médio, uma escala dinâmica ampla cria uma sensação de espaço e facilita a audição dos instrumentos individualmente - como é possível perceber nos álbuns Modern Times, de Bob Dylan, e Not Too Late, de Norah Jones. "Quando as pessoas têm a coragem e a visão de fazer um disco dessa forma, sobem de nível", diz Joe Boyd, que produziu álbuns como o Fables of the Reconstruction, do R.E.M. "Parece algo mais quente, com um som tridimensional, diferente. Para mim, o som analógico afeta as pessoas de forma mais emocionante."

Produtores de rock e pop sempre usaram a compressão para equilibrar os sons de diferentes instrumentos e fazer a música soar mais animada. Já as estações de rádio usam a compressão por questões técnicas. Nos tempos dos LPs, havia um limite físico para a altura máxima dos níveis dos sons graves antes de a agulha começar a pular. Os CDs podem agüentar níveis superiores de altura, apesar de que eles, também, possuem um limite que os engenheiros chamam de "dB zero digital", acima do qual os sons começam a distorcer. Discos de pop raramente chegavam perto da marca dB zero antes da metade dos anos 90, quando os compressores e limitadores digitais - que cortam os picos das ondas sonoras - facilitaram a manipulação dos níveis de altura. Álbuns intensamente comprimidos, como (What's the Story) Morning Glory?, do Oasis (1995), colocaram um novo padrão: as canções se adaptaram a bares, carros e outros ambientes barulhentos. "Nos anos 70 e 80, o objetivo era chamar a atenção", diz Matt Serletic, ex-presidente da Virgin Records USA, que produziu discos do Matchbox Twenty e Collective Soul. "A música moderna deveria ser capaz de prender sua atenção." Rob Cavallo, que produziu American Idiot, do Green Day, e The Black Parade, do My Chemical Romance, complementa: "É um estilo que começou com o pós-grunge, para conseguir intensidade. A idéia era enfiar a cara do ouvinte na parede. Um CD para deixar aturdido".

Não é a nova música que está muito alta. Vários discos remasterizados sofrem do mesmo problema, já que os engenheiros aplicam a compressão para ajustá-los ao gosto moderno. A nova coletânea do Led Zeppelin, Mothership, está mais alta do que os álbuns originais da banda e Bendeth, que mixou o 30 #1 Hits de Elvis Presley, diz que o álbum ficou muito alto para o gosto dele quando foi masterizado. "Muitos audiófilos odeiam aquele disco", ele conta. "Mas as pessoas podem tocá-lo no carro e ele compete com o novo disco do Foo Fighters."

Assim como os cds acabaram com o vinil e com as fitas cassete, o MP3 e outros formatos digitais estão rapidamente derrubando os CDs como a forma mais popular de se ouvir música. Isso significa mais conveniência, mas som pior. Para criar um MP3, o computador copia a música de um CD e a comprime em um arquivo menor, excluindo a informação musical que o ouvido humano tem menos probabilidade de perceber. Muita informação eliminada está nos extremos do espectro, por isso o MP3 parece não ter nuances. O produtor Rob Cavallo diz que os MP3s não reproduzem bem a reverberação, e a falta de detalhes torna o som "quebrado". Sem sons graves suficientes, ele diz, "não há força. O som do bumbo da bateria diminui, assim como a forma como o alto-falante é empurrado quando o guitarrista toca um acorde mais forte".
Mas nem todos os arquivos de música digital são criados da mesma forma. Levitin diz que a maioria das pessoas sente que os MP3s ripados a uma taxa acima de 224 kbps são virtualmente indistinguíveis dos CDs (a loja virtual iTunes vende arquivos AAC tanto a 128 quanto a 256 kbps - o AAC é um pouco superior ao MP3 em taxas iguais. Já o portal Amazon.com vende MP3s a 256 kbps). Mesmo assim, "é como ir ao Museu do Louvre e, em vez da Mona Lisa, encontrar uma imagem de 10 megapixels dela", compara. "Sempre quero ouvir música da forma como os artistas querem que eu a ouça. Eu não apreciaria um quadro de Kandinsky usando um par de óculos escuros."

Os produtores também começaram a alterar a forma como mixam os discos, para assim compensar as limitações do MP3. "Você precisa se preocupar em como as pessoas irão ouvir a música, e quase todo mundo está ouvindo MP3", diz o produtor Butch Vig, membro do Garbage e produtor do clássico Nevermind, do Nirvana. "Alguns dos efeitos se perdem. Por isso, você precisa exagerar as coisas de vez em quando." Outros produtores acreditam que CDs intensamente comprimidos melhoram o MP3, já que a altura da música irá compensar a falta de detalhes do formato digital.
Como a tecnologia alterou a forma como os sons são gravados, ela também encorajou uma perfeição artificial na própria música. Fitas analógicas foram trocadas, na maioria dos estúdios, pelo Pro Tools. Edições que antes exigiam emendas nas fitas agora são facilmente realizadas com o clique de um mouse. Programas como o Auto-Tune podem melhorar a afinação de qualquer cantor; o Beat Detective faz o mesmo pelos bateristas.

"Dá para fazer qualquer um parecer profissional", diz Mitchell Froom, produtor que trabalhou com Elvis Costello e Los Lobos, entre outros. "O problema é que você tem algo que é profissional, mas não é distinto. Estava conversando com um baterista de estúdio e disse: 'Quando foi a última vez que você conseguiu descobrir quem era o baterista?' Dá para saber quem é Keith Moon ou John Bonham, mas agora todos soam iguais."

Então, a música está condenada a soar cada vez pior? A cons-ciência do problema está crescendo. O festival norte-americano South by Southwest recentemente apresentou um painel intitulado "Por que a música de hoje soa como merda?". Em agosto, um grupo de produtores e engenheiros fundou uma organização chamada Turn Me Up!, que propõe colocar avisos nos CDs que alcançarem alto padrão sonoro.

Mesmo assim, os ouvintes de CD parecem demonstrar pouco interesse em estéreos de alta qualidade, graças à popularização de sistemas home-theater de som surround. Além disso, formatos de disco de qualidade superior, como DVD-Audio e o SACD, se revelaram fracassos comerciais. Os produtores se lamentam, porque os ouvintes mais jovens cresceram tão acostumados à música comprimida e metálica dos MP3s que a batalha parece já estar perdida. "Os CDs têm um som melhor, mas ninguém está comprando mais", afirma Bendeth. "A era dos audiófilos já passou."

Recomendadas