Edição 21 - Junho de 2008

Madeiras de Sangue

A exploração madeireira ilegal na Amazônia permanece marcada por mortes, disputas de terra e trabalho escravo. O mercado consumidor, porém, continua alheio a essa barbárie
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por Felipe Milanez

Pouco antes de morrer, pássaro gritou por Deus. Em seguida, veio o primeiro estampido do revólver apontado para seu rosto, que lhe cegou o mundo. José Roberto Sabino, nome de registro, sabia que não iria se salvar dessa emboscada. Seu medo era que pegassem mais alguém de sua família. Estava cercado, rendido e desarmado. O clamor divino da última agonia era o que lhe restava, incapaz de outra rea-ção nessa hora de desespero, face a face com o fim absoluto. Fazia uma noite fria em 28 de agosto de 2006, e o ar estava seco, com o cheiro das queimadas no céu. Assentado, integrante de uma cooperativa rural, Sabino se recusava a negociar madeira com o gerente de uma importante serraria da região, a Lagoa das Conchas Agropecuária e Manejo Florestal Ltda. Foi avisado de que teria que sair da terra. Mas insistiu, ficou nela. Pelado, com hematomas pelo corpo da surra que levou antes dos tiros na cabeça. Coberto por terra em uma cova rasa ao lado de sua casa. No mesmo buraco em que foram encontrados os restos de seu amigo Cláudio de Souza Oliveira.

Depois do "serviço" de eliminar Pássaro Preto e Cláudio Oliveira, os "guachebas" - pistoleiros - foram fartar-se de picanha e cerveja. Chicão, Pica-Pau, Polaquinho Matador, Adelino Faz Raiva, Sérgio Kuka, Gileno Mineiro, Nego e Neguinho tagarelavam tranqüilos como açoitaram e torturaram as vítimas antes de matá-las - sem medo de esconder nada das pessoas por perto. Coisas do faroeste brasileiro. O relato desse assassinato na fronteira do Mato Grosso com Rondônia foi ouvido por um cozinheiro de um bar em Colniza (MT). O cozinheiro confessou o que ouviu para o pastor evangélico da cidade, que delatou para a polícia civil que, junto do Ministério Público, organizou a Operação Curupira, uma das ações policiais que tenta reprimir a violência na Amazônia. Como afirma o delegado responsável Paulo Araújo, o que está por trás dessa violência é o comércio de madeiras. "Madeiras de sangue", que são vendidas nas grandes cidades do Brasil e exportadas para a Europa, Estados Unidos e China.

Os crimes são motivados pela ganância dos mandantes em retirar madeira do assentamento. Ipê, cedro, cerejeira, consideradas 'ouro', vão para Ji-Paraná, Rondônia, enquanto as consideradas 'brancas', permanecem na Lagoa das Conchas, onde têm cobertura de pátio. A madeira que vai para Ji-Paraná já sai cortada, serrada, da fazenda Lagoa das Conchas e, no Posto Fiscal de Machadinho d'Oeste (RO), aguarda nota fiscal chegar para liberação", escreveu o delegado Araújo. Por essa rota, a carga segue para o mundo, legalizada em papéis frios adquiridos no posto fiscal. No caso, foi desvendado o esquema do Lago das Conchas. Um exemplo do que ocorre em outras áreas de extração no Mato Grosso, Rondônia e Pará.

"Ganância é o motivo desses crimes violentos", foi claro o delegado. Ganância em despejar no mercado interno e externo toras e metros cúbicos de madeira de lei, extraídas de forma predatória da floresta, e à custa de sangue e suor. O objetivo maior da polícia é combater a exploração violenta de madeira e os conflitos fundiários para a sua extração. Segundo um levantamento do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon), o número de conflitos fundiários na Amazônia aumentou de 156, em 1997, para 328 em 2006 - ano em que 43% das brigas do campo foram concentradas nessa parte do Brasil. A Amazônia é palco de 84% das áreas em conflito no país, onde ocorrem 60% dos casos de assassinatos no campo. Desde 2003, foram intensificadas as operações policiais na Amazônia, nas esferas repressivas dos estados e da União. Nesta ânsia recente por repressão, de acordo com um estudo do Imazon, foram apreendidos pelo Ibama 410 equipamentos e 808 mil metros cúbicos de madeira entre 2003 e 2006; entre 2003 e 2007, foi aplicado um total de R$ 4,5 bilhões em multas. No entanto, segundo um estudo da ONG Amigos da Terra, apenas 0,6% dessas multas foi pago em 2007. Não há dados sobre quantas pessoas já foram presas nem quantas foram liberadas em seguida após prestar depoimentos. Só na Operação Curupira 39 foram para a cadeia.

Você lê esta matéria na íntegra na edição 21 da Rolling Stone Brasil, junho/2008

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