Edição 04 - Janeiro de 2007

Rick Bonadio, o franco-atirador da música brasileira

O sucesso e o dinheiro estão sob a mira do produtor e empresário Rick Bonadio. Ele trata a música como arte que precisa gerar lucro e diz que já vendeu dez milhões de discos sem pagar jabá
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por Edmundo Clairefont

Rick Bonadio - clic - aponta uma pistola - clac-clac - .40 em direção a uma parede protegida por toras de madeira e veste óculos de lentes laranja. Mete um grosso fone entre as têmporas, suspira - tchaclac -, enfia a mão no coldre com grande velocidade e bum-bum- bum- bum- bum.

"Rapaz, ficar aqui sem atirar dá um nervoso", ele diz fitando um pente de 19 balas e transferindo o olhar para contar os pontos. Faz um muxoxo. A uma distância de uns 40 metros, num clube de tiro em São Paulo, três pequenas, muito pequenas esferas de metal pintado de branco jazem no soalho. É um feito de precisão admirável. "Ah, cara, mas foi uma bosta. Eu errei dois... Estou esquentando ainda. Faço muito melhor que isso. Quer ver? Você vai ver". Mãos no coldre em movimentos ligeiros, clic-clac-clac-tchaclac-bum-bum-bum-bum-bum...

O produtor, o empresário, o "chefe", o "midas", o "pilantra", o "corrompedor", o "gênio", a "farsa", o "mercenário", o egrégio, Mesfistófeles?, o "primeiro artista de rap do Brasil", Ricardo, "The Producer", o homem que fez o maior sucesso recente do rock brasileiro aos 25 anos, presidente de gravadora multinacional aos 27, surfista, palmeirense, atleta e campeão nacional de tiro prático. Rick Bonadio, 37 anos, é um franco-atirador. Em 2006, foi a figura mor dos bastidores da música popular no país. Fechou um ano certeiro ao alvejar algumas moscas. Ajudou a ressuscitar um desfigurado Charlie Brown Jr.. Consolidou o CPM 22 como um dos grandes do rock e lançou dois postulantes promissores entre o público adolescente: Hateen e NXZero. Em tempos de mercado fonográfico em retração, foi o suficiente para que a gigante Universal comprasse há poucos meses a Arsenal, a gravadora que criou em 2001. A multinacional pagou-lhe uma quantia não divulgada e ainda o manteve no comando do selo, com sua equipe impoluta. Exigência dele.

Deu também tiros errados. Se o Tihuana, de disco novo, ainda não encontrou a trilha de volta à ribalta, o Leela naufragou sem bóias e as crianças já encontraram uma nova moça e uma nova moda para chamar de Floribela.

Agora, numa tarde de calor infernal, Rick Bonadio, empapado de suor, desperdiça 10 dos 78 tiros que disparou. A cada falha, uma desculpa de calibre gradativamente mais grosso. "Ah, merda, pensei demais... Cara, não me concentrei... Calor do caralho! Puta que o...". Ele erra tanto quanto os outros. Mas acerta mais.

Nascido numa família de classe média em Santana, zona norte de São Paulo, Rick Bonadio é filho de um empresário de autopeças, assassinado durante um assalto em 2000, e de uma costureira que fazia bicos como professora de piano. É até hoje a única pessoa que o chama de Ricardo. "Meus pais eram separados e minha mãe morava com um irmão. Esse tio tinha uma banda de rock que tocava no quintal. Quando tava com uns 8 ou 9 anos, passava tardes inteiras acompanhando os ensaios. Acontece que o baterista deles faltava de vez em quando. Um dia eu sentei, peguei as baquetas e comecei a brincar. E aí, toda vez que ele não aparecia, eu assumia a bateria. Com uns 12 anos, entrei para a banda."

Começou a ter aulas de piano. Estudou durante 16 anos. Tem formação erudita, mas se sai com desenvoltura como guitarrista, baixista e percussionista. Quando completou 16 anos, teve um estalo. "Passei a me ligar em tecnologia. Samplers, sintetizadores, esse tipo de coisa. Meus livros de cabeceira eram os manuais. Decidi que queria gravar um disco. Um disco de quê? Eu escutava muito hip-hop. Desculpa, rap. Nessa época era só rap. Ouvia Run DMC, Grandmaster Flash, Afrika Bambaataa. Fui nessa. Porque eu pensava: 'Puta, isso ainda vai estourar, vai ser legal pra caralho'."

Ao lado de Nando, amigo que arranhava como DJ em domingueiras na cidade, compôs alguns versos. Gravou em casa uma demo e levou-a até Arnaldo Sacomani, na época diretor de uma rádio paulistana. "Era o fim de 1987. Convenci o Arnaldo a pelo menos escutar. Ele olhou pra mim, pro Nando, e disse: 'Beleza, lindaço. Deixa a fitinha aí que depois eu te falo qual é'. No dia seguinte, ele liga: 'Lindaço, gostei pra caramba'". Em 1988, a RGE lançou Rick e Dj Nando. "Foi o primeiro disco de rap do Brasil. Um pouco antes de o Thaide lançar o dele, tanto que ele até botou um agradecimento a mim"

O contato com Sacomani, que o apadrinhou, abriu as pesadas portas dos estúdios brasileiros ao adolescente Rick. "Percebi que não tinha o mínimo saco pra fazer show, viajar. Meu grande ídolo é até hoje o Russell Simmons, criador da Def Jam [selo de rap que descobriu os Beastie Boys]. Meu negócio era ficar por trás dos artistas. O Arnaldo percebeu que eu tinha jeito pra tirar som e comecei a conhecer gente do meio - quem comanda as rádios, os empresários, as gravadoras." Em pouco tempo, pulou para o posto de produtor. No mesmo ano de Rick e Dj Nando, ganhou o primeiro disco de ouro, com 100 mil cópias do álbum dos palhaços Atchim e Espirro. Nos anos seguintes, fez de tudo. "Produzi, fui arranjador, criei jingles de rádio, fiz meus últimos raps em vinhetas que as emissoras encomendavam, toquei em bares, fui músico de estúdio e recebi meus primeiros trocados com música."

Com o dinheiro que pingava, comprou equipamentos e alugou uma casa na Cantareira, um bairro escoltado por montanhas arvoradas que, dali a poucos anos, seria palco da grande tragédia de sua carreira. Ao estúdio, deu o nome de Bonadio Produções. Seu primeiro negócio era mambembe. Contando com rudimentos de equipamento e oito canais, gravou o que pintou. Sertanejo, rock, música religiosa e andina, trilhas de comerciais, forró. "Eu botava anúncio em classificado e ficava esperando uns perdidos. Trabalhava muito, de domingo a domingo. E tomava uns puta cano, meu. Neguinho me dava cheque sem fundo. Me fodi pra caralho."

Rick pontua suas frases aos palavrões. Fala como seus artistas falam. Veste-se como eles. Bermuda, camiseta, duas correntes de prata no pescoço, uma delas com um pingente em forma de bala. Conversa fitando sempre nos olhos. Camufla, com essa linguagem, o talento afiado para lidar com quem quer. E convencer quem quer.

Dispara chistes e piadas. Consegue ser simpático e ainda assim instilar um respeito silencioso de quem está aí para fazer amigos, mas não tem medo de rinha. Se precisar, ele comparece. Jamais à bala. "Vou na mão mesmo." Tem físico para isso. "Ah, cara, eu sou cascudo. Mas não preciso brigar com ninguém pra ter respeito. Nunca precisei de arma pra me resolver. Sou de paz. As pessoas têm essa imagem de quem pratica tiro, de quem gosta de armas. Puta burrice. Até parece que o sujeito sério vai sair por aí distribuindo bala. Eu faço um esporte. Só isso. Minhas lutas eu resolvo como todo mundo. Já me preocupei muito com crítica, já fiquei de cabeça quente, já bati, briguei feio e quis brigar mais. Mas não quero falar disso. Hoje em dia eu cago. Não tô nem aí. Quero que se fodam. Quem não gostar de mim, beleza."

Bonadio é um sujeito baixinho e parrudo, de peito hirsuto, cabelos castanhos à escovinha, penteados para trás. Barba, bigode e cavanhaque rentes, com fios, de quando em quando, grisalhos. Perto de suas orelhas já rareiam os fios de cor natural. Ameaça uma mudança de tonalidade para breve ou visitas mais constantes ao cabeleireiro e às tinturas. Sua muito e tem os braços um bocado grossos. Faz musculação quatro vezes por semana, por volta das 9h, mais ou menos uma hora depois de acordar. A preparação física, ele diz, é para agüentar a exigências como competidor de tiro prático. O esporte que começou a praticar aos 15 anos, motivado pelo pai, e que transferiu ao filho de 6 anos, Léo.

"Ele é bom demais, você tem que ver. Pedi autorização judicial pra ver se o Léo pode competir com um revólver calibre .22. Ele adora." Rick tem também uma filha, Gabriela, 10 anos. "Ela não curte muito dar tiros. Diz que quer ser cantora, mas não sei, tá muito novinha. A Gabi canta bem pra caramba. Já gravou umas vozes no disco da Floribela. Tem talento."

Rick não tem tido tempo para disparar como gostaria. Em tempos de prova, suas duas pistolas cospem mil e quinhentos tiros por semana. Se comprasse as balas, gastaria R$ 3 por unidade. Para economizar, fabrica as suas, reaproveitando as cápsulas usadas e ministrando os insumos. O custo cai para R$ 0,02. Por mês, estima gastar uns R$ 5 mil com o esporte.

É diretor de um departamento do Clube Paulistano de Tiro, mais uma vez, no bairro da Cantareira, não muito distante da casa em que, em meados dos anos 90, afogava noites mal dormidas em canjebrina e remédios. O trabalho excessivo no Bonadio Produções acabou por lhe cambetear a saúde. Pouco passado dos 20 anos, sucumbiu a uma crise nervosa. "Trabalhava pra caralho... Pô, fiquei doente. Doente da cabeça. Quase fiquei doido. Tive crise de estresse, de ansiedade, não dormia. Tomei remédio pra caralho."

Em 1995, a sorte virou a mesa. Na verdade, ele a encontrou, roncando debaixo dela, a mesa. Com o relativo sucesso de seu pequeno estúdio, alugou a casa da frente e aumentou sua capacidade. Tinha agora duas salas de gravação e já podia produzir discos mais profissionais. Um dia, no boca a boca, a banda Utopia bateu à sua porta. Rick fez amizade com os músicos. Especialmente, com o vocalista, Dinho, que considerava excepcionalmente talentoso. Certa manhã, ao chegar para trabalhar, encontrou seu assistente dormindo no chão, debaixo da mesa de gravação. O rapaz chamou-lhe e disse: "Rick, escuta isso aqui". Botou para rodar um bolero. Como todo bolero, os arranjos surgiram com um pendor para o brega. A letra não ajudou. Versava sobre uma moça de cabelos "da hora" e corpo de violão. A canção, "Pelados em Santos", era uma piada que Dinho compusera para um amigo. Rick escutou, "cagou de rir", e teve "um segundo estalo". "Imagina isso com uma base de rock? Na hora vi que ia ser um puta sucesso.

Conversei com eles. Eles toparam mais ou menos. Queriam misturar com letras sérias... Bobagem. 'Utopia' o cacete! Nome horrível. Com eles, fiz pela primeira vez o formato de empresário e produtor. Gravamos o disco escrachadão mesmo. E vendeu de cara. Dois milhões e meio, disco de diamante. E aí eu entrei no jogo de vez."

O dinheiro veio. A fama compareceu e convites surgiram. Aos 25 anos, Rick Bonadio era o empresário musical com um sucesso candente em mãos. Até que o sucesso se espatifou numa serra, na mesma Cantareira em que tivera dois estalos, um estúdio e um colapso nervoso.

"É, foi dose. Eu não acreditei na hora. É clichê, né? Mas achei que era piada." Sem os Mamonas Assassinas, Rick desceu mais uma vez a Santos para apagar a impressão de que apenas tirara um biscoito premiado. Com o Charlie Brown Jr. emplacou outro poço de hits juvenis. Aos 27 anos, galgava até o comando de uma multinacional, a Virgin, que o contratara como diretor artístico. Oito meses depois, assumiu a presidência. Ganhou disco de platina dupla com o debute da banda de Chorão, fez ouro com uma pedra chamada Surto, que pirou o cabeção de 100 mil jovens. E daí para a frente atirou em direção a tudo que cheirava dinheiro. Mais discos de ouro, platina e diamante com Rouge, Br'oz, Deborah Blando, Moraes Moreira, Ultraje a Rigor, Pepê e Neném, Gugu Liberato, Art Popular, Tihuana... Rick faz as contas e diz que vendeu mais de 10 milhões de discos. Em seu escritório em Santana, ou no Midas, estúdio que montou em 2002 na mesma rua, e nas paredes do requintado apartamento de dois dormitórios que montou a uma centena de metros dali, a decoração é "um museu pessoal de sucessos".

Ao lado de uns poucos quadros de naturezas-mortas e uma reprodução de Jasper Johns, pendurou as molduras de seus 12 discos de ouro, outros 12 de platina e 2 de diamante. Ele aponta cada troféu num tom confiante. É uma exibição, uma tour por uma carreira em que a música é tratada como negócio. Precisa gerar lucro. "Mas, antes de tudo, é arte. Eu não vendo copo, vendo uma produção artística."

Em seu escritório, uma pilha de revistas repousa desordenada. Playboy, Guns & Weapons, títulos de música e de motos, outra de suas paixões. Tem duas Harley Davidson customizadas de R$ 100 mil cada uma. "Uma terapia tão boa quanto atirar." Mas seu maior hobby, o que lhe move a vida e determina seu humor, é vender, fazer sucesso e dinheiro. É capaz de tecer um longo discurso sobre o que "a música é na vida real" e por que é tão criticado. Falaria por horas. E falou, na verdade. Mas fez um esforço para condensar seu ponto de vista.

O monólogo Bonadio: "Você quer saber como é a música? Eu vou te contar. É assim: todo mundo quer ganhar dinheiro. Ponto. Quem diz o contrário, mente e sabe disso. O Los Hermanos, quando passou pela porta do meu estúdio, queria ganhar dinheiro, fazer sucesso. Hoje eles vêm com esse papo de não fazer concessão, de não sei o quê. Tá bom, viu! Eles sabiam muito bem o que queriam. Eles querem ganhar bem, querem o show deles com 6 mil pessoas. Eles ficam falando, mas gravaram 'Anna Julia' do jeitinho que eu disse para gravarem. É uma puta baboseira essa coisa de falar em atitude e negar grana. Atitude é ser coerente consigo. Agora, os caras ficam criticando quem faz comercial. Você paga as contas do Badauí, do Chorão? Não paga. É bacana ver uma pessoa que morava num mocó e hoje tem uma cobertura. Isso é muito bom de ver. E aí nego fica criticando, uns puta boyzinhos da Barra da Tijuca...

Mas olha, não tenho problema com o Los Hermanos, já aviso. São educadíssimos. O baterista é muito ruim, mas os cantores são talentosos. E estão dando certo. Só que eu sei muito bem como funciona. Ter atitude não é ser pobre. Você acha que o Mano Brown não quer ganhar dinheiro? Ele ganha dinheiro pra caralho. E daí? A música dele continua sendo coerente, boa. O artista tem que ser verdadeiro. Trabalhei muito pra chegar onde estou. Já fui pobre e hoje sou menos pobre. Mas em primeiro lugar a gente tá falando de arte. Algumas pessoas têm essa imagem de que corrompo, de que mudo as bandas. Puta besteira. Trabalho com quem gosto. E quem trabalha comigo sabe como faço. Meu modelo é: eu gravo, eu produzo, eu sou o empresário. É assim que dá certo. Mas a relação é de amizade. Eu ajudo o cara a melhorar. Não imponho nada. Se tá insatisfeito, pode ir embora. Contrato, a partir de certa hora, não quer dizer nada".

Como empresário, Rick participa da renda de show de seu casting. Por contrato, tira entre 30% e 40% do líquido dos cachês. Mas só mete a mão nessa quantia quando o artista se consolida, o que, explica, leva uns dois anos. "Quando a banda vende show acima de R$ 20 mil, começo a participar do bolo. Vai pelo bom senso. Não pego nada de quem tá começando. O Hateen e o NXZero são só investimento, por enquanto." Por enquanto. Se derem certo, ele vai tonificar os bolsos com uma renda considerável. Se o Hateen ainda toca por apenas R$ 3 mil e o ascendente NXZero por R$ 6 mil, basta calcular que o CPM 22, maior nome de seu catálogo, faz uma média de oito apresentações mensais, com cachê em torno de R$ 25 mil. Rick leva seu quinhão.

Ele acha justo pelo tanto que faz. Explica que dá muito trabalho e demora até o investimento retornar. "Quando volta. Tem gravação, publicidade, pirataria, equipe..." Uma lista grande de despesas e preocupações que faz rodar o tambor.

Rick Bonadio, você faz jabá? Você paga para o seu artista tocar na rádio? "Se eu pago para tocar...? Não... Já ouvi falar que tem isso, mas eu nunca fiz..." Quando precisa escolher as palavras, o empresário se arruma no sofá creme do Midas, o estúdio que ele diz que custou US$ 1 milhão. Cruza o pé, dá um leve sorriso em direção ao carpete, uma baforada de ar, balança os ombros e move a cabeça para frente, como se entrasse em acordo com o pensamento: "Olha, a arte, desde que nasceu, sempre foi movida a dinheiro. A música clássica era movida a quê? O Mozart... O cara era um gênio e foi morar junto da corte, que bancava as mordomias, as putas, a mulher... Ele tinha dinheiro. Ele era ruim? Nasceu numa família fodida. Mas ele queria crescer, esbanjar, beber os melhores vinhos, ter as melhores mulheres. E a custo de quê? Do talento dele. O Mozart não tinha atitude?"

Atualmente, rick bonadio produz o novo disco do Ira!. Gravou até uma guitarra no álbum. Uma proeza se se pensar que o titular ali é Edgard Scandurra, um músico famoso pela "personalidade proporcional ao talento". Depois de comer um pedaço de bolo, Edgard, calado, sai da sala de estar do Midas. Perguntado, Rick explica que Scandurra "está meio cascudo hoje". "Ele é inseguro. Um puta guitarrista. De longe o melhor que vi, mas é inseguro. Eu disse umas e ele está em dúvida... O cara não está acostumado a ouvir certas coisas. Deve estar pensando: 'Será que é isso, será que não é'", conta, forçando uma expressão pensativa. Mas, ao contrário do que se imagina, o clima da gravação é suave, divertido. É um talento que Rick gosta de insinuar. Ele sabe manipular as cordas que diferenciam um artista de sucesso. Dedilha o negócio com precisão e joie. Acredita mesmo que é muito bom no que faz. "Eu crio demanda", diz.

Dias mais tarde, enquanto o baterista André Jung se diverte numa sala pejada de instrumentos, Bonadio chega ao estúdio. Jung, através do vidro grosso, grita: "Ei, the producer!" Rick faz um meneio, arrasta a pesada porta de madeira da técnica, olha para os assistentes, dá uns passos em direção a uma enorme mesa de som de 40 canais e esfrega os braços. "Cara, isso aqui tá uma Sibéria. Puta frio! Vocês tão doidos?" Por um instante, ninguém falou. Rick gosta de calor. E uma frase sua é capaz de congelar o ambiente. Caminhou lentamente até o termostato, girou o botão para a esquerda, virou-se e se sentou na maior cadeira. Em seguida, recostou os ombros e botou para tocar a gravação do dia, a sinfonia percussiva de André Jung, que aguarda um veredicto. A temperatura subiu. Rick coçou a cabeça, deu um soquinho na coxa do técnico, mordeu a boca e espalmou o queixo: "É. Agora sim. Agora vai ficar tudo bom, tudo bem, tudo ótimo. Você vai ver só." Sorriu.