Edição 41 - Fevereiro de 2010

Produto da Fé

Sempre cercada por pequenas multidões, Claudia Leitte vivencia um momento de intensas mudanças profissionais que devem definir sua posição dentro do disputado universo da música popular brasileira
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por Por Paulo Terron

Claudia Leitte está de joelhos no camarim, louvando a Jesus Cristo em voz alta. Seu rosto estampa uma expressão de êxtase, daquelas geralmente vistas durante cultos religiosos. Ela está cercada por poucos integrantes de seu grande entourage, uniformizados com camisetas pretas, e todos sorriem - mas de forma mais contida. Apesar do conteúdo sagrado, a cena está mais para um desabafo aliviado: a cantora havia superado o primeiro passo de um dos momentos mais importantes e decisivos de sua carreira.

ASSISTA AO VÍDEO com o making of da sessão de fotos com Claudia Leitte.

Minutos antes, Claudia se apresentou para cerca de 60 mil pessoas no Festival de Verão de Salvador, talvez o mais importante evento pré-Carnaval da Bahia. E não foi só isso, a cabeça dela anda cheia de mudanças que poderiam ser preocupantes: Salvador viu a estreia oficial do show Sette, com repertório, figurino e cenário novos. O próximo disco - o primeiro da carreira solo dela a ser gravado em estúdio, só com canções inéditas - está em pré-produção, dentro de uma nova gravadora (a Sony Music). E, não menos importante, no dia seguinte ela receberia 300 convidados para o aniversário de 1 ano do filho, Davi, fruto do casamento com o administrador de empresas Márcio Pedreira (a união do casal completa três anos no mês que vem).

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Dias antes, no hotel Emiliano, em São Paulo, é possível notar como a cantora consegue sobreviver a um mundo que exige tanto dela. Antes que ela desça para o lobby, uma de suas assessoras começa a planejar mentalmente a situação: "Você se importa se ela se sentar no canto? Se alguém a vir aqui, tudo acaba. Está vendo aquelas duas ali?", aponta para duas garotas comportadamente sentadas a duas mesas de distância. "Se forem fãs, já era." O sofá é preparado cuidadosamente, com direito a afofada nas almofadas, mas Claudia só aparece meia hora depois. Sorridente, com Davi no colo e mais meia dúzia de pessoas a seu redor, ela parece flutuar pelo corredor. Mesmo com tanta gente circulando no ambiente, é impossível não notar quem é o centro das atenções. Claudia distribui cumprimentos simpáticos a todo mundo em seu caminho, sejam eles conhecidos ou não, e se apressa em explicar a situação toda. "Quanta gente, né? Juro que não é sempre assim! Desculpe a demora, eu estava fazendo a última prova do figurino novo do meu novo show."

CONCORRA a uma camiseta autografada por Claudia Leitte.

Já sentada (sem notar as almofadas afofadas e sem ser notada pelas não fãs), vê a atenção ser transferida para o filho. Não sem motivo: Davi parece ter saído direto de um desenho animado, com os olhos claros e brilhantes e cabelos loiros cacheados dignos de comercial de TV - e que também se comporta como um anjo, sem chorar ou pedir atenção. Antes mesmo que a conversa se inicie, é decidido que um quarto do hotel seria um ambiente mais tranquilo (mantendo em mente que a tranquilidade de uma estrela pop é um conceito que talvez não se aplique ao cidadão comum). A suíte está tão cheia que o ar-condicionado, não projetado para uma concentração tão grande de pessoas, não dá conta do recado. São pelo menos 20 pessoas, entre assessores e assistentes, a equipe que produz um documentário sobre Claudia e o time que momentos mais tarde produziria as fotos que ilustram esta edição ("o importante é que a artista esteja confortável, e ela está", reforça uma assessora). Todo mundo reclama do calor. Menos Claudia Leitte, que se senta calmamente no sofá, descalça, sorridente, parecendo extremamente confortável em seu vestido multicolorido e inabalada pela festiva confusão à sua volta. Talvez tenha a ver com o modo caótico como ela veio ao mundo, 29 anos atrás. Seus pais, o carioca Cláudio Inácio e a baiana Ilna Leite, conheceram-se ao estilo hippie. Ele estava em Salvador a trabalho e, depois de muito flerte, conseguiu que ela aceitasse uma carona cheia de segundas intenções. "Minha mãe foi contrariada, no banco de trás, com minha tia na frente", conta Claudia. "Depois eles ficaram se correspondendo durante oito meses, por carta, até que ele finalmente - sabendo que minha mãe era pura, casta e de família - a pediu em noivado." O padrão de cortejo por escrito se repetiria décadas depois, quando Claudia se reencontrou com Márcio, paixão de infância e futuro marido, e os dois passariam os primeiros dias trocando e-mails amorosos e mensagens de texto via celular.

O nascimento de Claudia Cristina Inácio Leite, em 10 de julho de 1980, foi digno de um evento de respeito. Dona Ilna não queria que a filha nascesse em São Paulo, onde morava, e convenceu o marido a se mudar para Salvador. Durante uma passagem pelo Rio de Janeiro, 15 dias antes do previsto para o parto, veio a surpresa: a bolsa rompeu e o trabalho de parto começou. A caminho de São Gonçalo, onde um primo obstetra ajudaria no nascimento, o carro foi parado pela polícia. Cláudio explicou a situação aos oficiais e ganhou mais tranquilidade para o trajeto. "Colocaram dois batedores para nos escoltar!", lembra Ilna. Foi o primeiro dia de estrela de Claudia Leitte, com direito a escolta policial.

Coincidência ou não, a infância da artista foi cheia de sinais do que viria pela frente. "Ela adorava tirar tudo o que estivesse no centro da mesa e transformar aquilo num palco", diz a mãe, que fisicamente lembra bastante a cantora (e, aos 51 anos, facilmente se passaria por uma irmã mais velha). "Eu ficava olhando, escondida, e via ela viajar naquilo. Ela terminava e agradecia, como se estivesse vendo as pessoas ali [aplaudindo]." Quando participava das brincadeiras do irmão, puxava para o lado de líder empresarial. "Se a brincadeira fosse de banco, ela era sempre a gerente!" Ao entardecer, Claudia se vestia e sentava na janela da frente da casa e cantava, com um objetivo fixo - o vizinho da frente era o compositor Oscar da Penha, o Batatinha, e a garota tinha esperança de que ele a levasse para a televisão. "Ela sentava lá e cantava, dizia que estava pronta", conta Ilna, rindo.

Horas antes do show de Salvador, Claudia Leitte está sentada no camarim de sua casa, no condomínio Alphaville, um ambiente branco mas enfeitado com diversos bonecos e pelúcias de vacas. Ela tenta poupar a voz (além de tudo está resfriada, sofrendo com febre), mas não consegue conter a empolgação. "Vou cantar com Akon!", diz. "Ele que me chamou!" Ela está cercada pelas câmeras da equipe do documentário (a ser lançado em DVD no segundo semestre), mas parece nem notá-las. Já se acostumou. Enquanto retoca as unhas e os cabelos, conversa com os outros presentes no ambiente - para desespero da fonoaudióloga, que tenta fazer com que Claudia inicie seu aquecimento vocal. "Esta casa vive cheia de sapos, porque as portas ficam abertas", constata alguém. Mais tarde, a academia da casa seria invadida por coelhos enquanto o marido da cantora estava na esteira.

Mais uma vez, a tal nuvem de confusão se forma ao redor da artista: personal stylist e estilista comentam sobre o figurino novo (que quase não chegou a Salvador a tempo porque a caixa de madeira feita para transportá-lo não coube no avião) e conversas paralelas se desenvolvem em clima de festa. Educadamente, mas com firmeza, ela pede para que todos saiam da sala por alguns momentos. "Eu gosto de ficar sozinha", ela explica. "Gosto de estar com as pessoas, mas preciso ficar sozinha. Por isso estabeleci uma relação de cumplicidade com as pessoas que estão à minha volta. Digo a elas: 'Por favor, me dêem um espaço, isso aqui é meu e só meu'." O pedido antes da apresentação na Bahia pode vir de um sentimento que ainda a persegue: ela diz ficar insegura antes de alguns shows. "Fico falando comigo na terceira pessoa: 'Respire fundo, o que importa é que você está feliz'. Acho que saio de mim quando fico nervosa." A casa de Alphaville é perfeita para esse isolamento: sem vizinhos, é grande e espaçosa. No fundo, uma piscina tem vista panorâmica de parte da cidade. Bem ao longe é possível ver os canhões de luz do Festival de Verão.

Aos poucos chegam os familiares, empolgados com o grande momento da filha. O pai, Cláudio, é um senhor bonachão, sempre pronto para lançar uma piada. "Sabe qual era o único empecilho para a carreira internacional da Claudinha?", diz na van, já a caminho do Parque de Exposições. "Michael Jackson. Agora está tudo resolvido." O modo como Claudia Leitte é cercada por fãs, fotógrafos, cinegrafistas e jornalistas no backstage do evento chega a lembrar - guardadas as devidas proporções - a histeria gerada por Jacko. "É sempre assim", explica Paulo Roberto Sampaio, que divide seu tempo entre a assessoria de imprensa da cantora e a direção do jornal Tribuna da Bahia. "Recebo uma média de 50 pedidos de entrevista por dia." E Claudia Leitte tem dificuldade em dizer não, seja para os pedidos dos fãs ou jornalistas. Cabe ao marido a função de puxá-la, sempre calmamente, com um discreto "Precisamos ir agora". "Acho que sou acessível demais, mesmo", diz a artista, reflexiva. "Mas tenho de ser, não tenho por que não ser. Daqui pra frente acho que temos de fazer isso com mais moderação, porque se trata de um mercado e eu não posso agir por impulso como eu ajo, simplesmente fazendo tudo o que as pessoas querem. Eu sou um produto e quero ser vista como um produto pela minha empresa. Chegamos à conclusão de que preciso dar uma esfriada, uma ponderada para não ficar over, senão viro arroz de festa. É uma consciência que tenho." O desafio, para ela, é lutar com algo que lhe vem de forma natural. "Eu gosto disso. Pra mim é fácil. Não faço porque quero agradar a alguém para que ele seja meu amigo, compre meu disco. Faço porque tenho prazer em tratar os outros bem. Talvez isso já tenha me trazido malefício em alguns momentos, mas sou feliz assim na maior parte do tempo, sabe?"

Em um domingo ensolarado, Claudia passou pelo teste definitivo de quanto o assédio pode ser intenso e constante. Foi na festa de aniversário de Davi, realizada na casa alugada em Camaçari, a uma hora de Salvador, para sediar os momentos de descanso durante o verão da família. A cantora teve de fazer malabarismos para atender a todo mundo: os fotógrafos particulares contratados, os profissionais de uma revista de celebridades (que pela primeira vez teve acesso a um momento íntimo da artista) e os convidados. Quem conseguiu ficar mais tempo ao lado da moça foi a dupla de palhaços Patati e Patatá, responsável pela animação da festa. De tempos em tempos, Claudia dava uma breve escapada para o andar superior da casa, tranquilizando o bebê (que se mostrou completamente imune aos flashes e à confusão). Para alguém na posição de Claudia Leitte, um dos rostos mais conhecidos do Brasil na atualidade, uma dificuldade peculiar é a de encontrar pessoas dispostas a confrontá-la com a verdade. Certa vez um integrante de sua equipe a parabenizou pelo prêmio de "mulherão da década" de um jornal de circulação nacional e teve como resposta uma bronca da loira: "Pô, eu sou cantora! Se você quer me elogiar, me diga como eu cantei, se desafinei!" Para ter esse tipo de liberdade com seus funcionários, ela montou a equipe de sua empresa, a Ciel Empreendimentos Artísticos, recheada de familiares. A situação nem sempre é fácil, mas cada um deles trabalha dentro de uma hierarquia organizada e respeitada. "Foi muito difícil chegar a isso", explica Claudia. "Meu irmão, por exemplo: ele era subordinado a uma pessoa que não era da minha família. É difícil você dizer não para o irmão da cantora, dona da empresa. Com o tempo isso tudo foi se adequando, se ajeitando." Outra função dos parentes é a de dar limites ou, pelo menos, ajudar a artista a encontrar esses pontos finais. "As coisas horríveis eu escuto deles: 'Não, minha filha, isso não é seu, se policie' ou 'Não faça isso, é ruim para você'. A verdade está ali porque eles querem o meu bem, não vão me elogiar gratuitamente como [as pessoas do] nosso mundo fazem."

O marido, Márcio Pedreira, talvez seja quem passou por uma mudança mais radical de vida ao escolher acompanhar profissionalmente a esposa. Filho de dono de construtora, ele se formou em administração de empresas para trabalhar nessa área. Depois do casamento, acabou se vendo cada vez mais próximo do mundo artístico. "Ele dava muito palpite na parte administrativa", explica a cantora. O assunto da conversa aguarda na sala ao lado, enquanto Claudia é atendida em um salão de cabeleireiro no Itaim, em São Paulo. Ele olha para o relógio de tempos em tempos, com um olhar impaciente, mas não pressiona a mulher. Eles têm um vôo fretado para Florianópolis marcado para dali a menos de duas horas. Lá, a cantora praticamente descerá do avião e subirá no palco do festival Planeta Atlântida. "Eu não tenho feeling pra coordenar... E Márcio começou a opinar de modo participativo. Não reconhecer isso seria algo até ruim para mim, não o chamando para a minha equipe." Inicialmente ele não queria deixar de lado sua própria empresa - da qual continua sócio até hoje -, mas para a cantora a escolha profissional já havia sido feita de forma inconsciente. "Ele disse: 'Como vou deixar de fazer as minhas coisas?' Só que ele já tinha deixado e não tinha percebido. A partir daí ele foi percebendo gradativamente que estava se doando muito mais para o meu trabalho, e sem remuneração ou maiores acertos." Coube ao pai de Claudia a função de acertar detalhes como, por exemplo, o salário do novo empregado. "Aos poucos, ele virou meu sócio. Ele é tão empreendedor quanto eu."

Coordenar o fluxo de dinheiro de uma empresa que faz até 168 shows por ano e vendeu, até hoje, uma média de 300 DVDs por dia (considerando apenas o Ao Vivo em Copacabana, único trabalho solo disponível nas lojas) é, no mínimo, uma tarefa de responsabilidade e dedicação. Como Claudia Leitte não se considera "nem um pouco empresária", um companheiro administrador praticamente caiu do céu. "Não sei nada de dinheiro, nada. Não sei quanto é o ingresso do show", revela. "Meu marido sabe tudo, o cara é matemático. Quando estou fazendo a volta ao mundo no melhor estilo Júlio Verne no meu balão encantado, ele é quem diz 'sim' ou 'não'. Eu sou da criação, quero mais é montar um palco lindo."

Na infância, quando a vontade de cantar e dançar se tornou forte demais para que resistisse (reforçada ainda mais pela descoberta de ícones da cultura pop como Michael Jackson, a ginasta Romena Nadia Comaneci e o filme Flashdance), Claudia Leitte se juntou a um grupo infantil. A principal função da turma era animar festas de criança em Salvador. "Eu botava uma pinta na perna e virava a Angélica em aniversário de criança. Tinha a Queima do Judas na rua, eu ia fazendo a Elba Ramalho", conta, rindo. Como as aulas de dança e reuniões do grupo eram na igreja do bairro, tudo se desenrolava perfeitamente para que ela conseguisse distorcer a verdade e conseguir permissão da mãe para ir aos ensaios. Dona Ilna acreditou inicialmente, mas logo viu que a dedicação não era exatamente ligada à religião. "Ela mentiu dizendo que era um curso da igreja. Quando descobri a verdade e fui brigar, ela me disse: 'Olha, minha mãe, nasci para ser estrela e logo você quer me apagar? '"

A família não compreendia direito o impulso artístico, mas anos mais tarde ele se provou essencial em um momento de dificuldade financeira. "Quando o pai ficou desempregado, Claudia pegou o violão e tocou na noite de Salvador, trazendo R$ 150 para ajudar a pagar as contas", conta Ilna, que na época era professora de biologia e química do sistema estadual de ensino. As dificuldades insistiam em bater à porta da família, que se esforçava e fazia sacrifícios para conseguir pagar uma escola particular para os filhos. "Não tínhamos nada, só saúde, alegria de viver e amor. Não tínhamos grana - que não era importante e continua não sendo", afirma a mãe, com a empolgação de quem se orgulha do passado.

A progressão natural dos estudos continuou, até que Claudia foi parar na faculdade de comunicação, sem abandonar o ritmo das apresentações semiprofissionais que fazia em bares da capital baiana. "Eu sabia que era algo que queria fazer de forma simultânea ao meu objetivo verdadeiro. Era barzinho à noite e curso de manhã." Até que o cansaço literalmente bateu. A caminho do Quereres, um bar no centro histórico, um incidente mudou o rumo da vida da artista. "Bati o carro de tão estressada. Eu tinha comprado um Palio velho, todo acabado, e eu estava sem grana, IPVA vencido... E eu acabei com o carro. Estava mexendo com o rádio e o celular ao mesmo tempo." A sorte veio exatamente pelo esforço da moça no mundo da música. "O dono do outro carro me reconheceu: 'Você é a Claudinha, faz barzinho, vou te ajudar'." Problema imediato resolvido (ela pagou só o seguro do outro carro), mas que serviu de faísca para uma decisão profissional bem maior. Junto com o estresse e o cansaço veio a epifania. "Desisti da faculdade. Eu não tinha mais condições de pagar [as mensalidades] e estar lá. Eu não era um átomo."

Pulando de trabalho em trabalho, Claudia Leitte passou por um grupo de forró no meio dos anos 90 ("eles diziam que o axé já era, que tinha passado") e acabou sendo contratada por Cal Adan - o empresário por trás do É o Tchan. A ideia era montar um projeto de samba, com a vocalista à frente. "Eu falei que queria cantar no Carnaval, no trio, que queria axé, música pra pular. Ele disse que não, mas o lado financeiro pesou." Mesmo aceitando o estilo que não a agradava completamente, Claudia passou bom tempo parada, esperando pela formação da tal banda de samba. Ela nunca nasceu e a oportunidade veio de outro modo, com um sumiço do cantor do Companhia do Pagode. "Tínhamos o mesmo empresário, que pediu para eu cumprir a agenda dele." A plateia do primeiro show, em Tocantins, assustou-se ao ver a loirinha entrando no lugar do vocalista negro, mas lá pelo meio da apresentação se rendeu - tanto que Claudia sacou o violão e arriscou uma versão para "D'yer Mak'er", do Led Zeppelin, que até hoje está no repertório de seus shows. A temporada acabou e a moça foi remanejada para o Nata do Samba. Dessa vez, a ousadia de repertório gerou conflitos. "Tive várias brigas com o grupo porque eu pegava a guitarra e cantava músicas no meio do show. Lembro que toquei 'Estoy Aquí', da Shakira, e foi o máximo, uma comoção. E no camarim foi a maior briga! Me expulsaram da banda."

Expulsa, sim: mas sem sair perdendo. Claudia arrastou com ela o guitarrista e compositor Sérgio Rocha, que com ela fundou o Babado Novo e coescreveu uma série de hits, incluindo "Exttravasa", "Lirirrixa" e "Eu Fico". Ele assumiu o posto de diretor musical do projeto (cargo que manteve na fase solo de Claudia e que só foi abandonado no fim do ano passado), que foi mais um "golpe de estado". Claudia e o parceiro musical montaram a banda avisando aos novos companheiros que o "empresário do Tchan vai investir forte" - sem avisar o maior interessado, que foi o último a saber que tinha um novo conjunto de contratados. Deu certo: o Babado Novo vendeu centenas de milhares de cópias de seus cinco álbuns, tudo em um intenso período de sete anos. Mas nem sempre foi assim. "No começo, quando a banda nem tinha nome ainda, teve um show no réveillon que foi cancelado porque não tinha público." Para quem já havia passado por tantas idas e vindas, foi só mais um pequeno obstáculo, que nem de longe abalou permanentemente o ânimo. "Nunca me importei com nada assim. Eu sempre estava querendo fazer o meu trabalho e tinha umas dificuldades, uns buracos no meio do caminho, mas acho que nunca me preocupei muito. Eu chorava, me sentia mal, ficava triste, mas logo depois inventava algo novo para fazer." Como propaganda política para candidatos variados, algo feito mais por necessidade financeira do que por ideologia. "Eu precisava da grana para investir no meu trabalho, pra continuidade daquilo ali", Claudia explica. "Estava cantando e ganhando meu dinheirinho, era honesto, então estava tudo certo." Mesmo quando o político em questão era atacado com chuvas de tomate e bananas, o que chegou a acontecer. Ao mesmo tempo, Claudia Leitte - que tinha abandonado a faculdade, mas não queria perder os meses já cursados - pulou em um ônibus em um dia de chuva para pagar as mensalidades atrasadas e conseguir trancar o curso. "Cheguei lá e, do outro lado da rua tinha uma barraquinha vendendo meias do Babado! Eu usava umas meias coloridas, meio japonesas, e estavam vendendo umas iguais! Corri até lá e disse: 'Moça, sou eu! Eu sou o Babado!'" Para ela, foi um presságio de que bons tempos estavam por vir. Se no Carnaval de 2001 a banda tocou na madrugada, para meia dúzia de bêbados, no ano seguinte as ruas foram invadidas por uma multidão rosa - a cor adotada na época por Claudia como símbolo do Babado Novo. A mãe da cantora só soube do sucesso quando viu a entrada do trio que levava a banda na Praça do Campo Grande. "Eu não sabia que ela era algo na vida, ainda estávamos torcendo", conta Ilna, ainda vibrando ao se lembrar da emoção. "E quando eles entraram todo mundo gritou, teve gente que chorou. Meu coração parecia ser uma bomba ainda maior do que é. Eu, que sou cardíaca, só conseguia pensar: 'Meu Deus, quantas emoções eu ainda vou ter? '" O público dos shows também explodiu, chegando a 70 mil pessoas em uma apresentação em Recife, quando os músicos esperavam não mais do que 14 mil.

A popularidade e o sucesso vieram em doses não proporcionais à remuneração e à liberdade artística dentro do Babado Novo. Depois de alguns anos na complicada estrada da música comercial baiana, novos caminhos começaram a se formar nas ideias de Claudia Leitte. "A Bahia ainda tinha essa cultura de bandas que têm empregados cantando", diz. "O cara está ali ganhando um salário e o empresário leva o dinheiro dos shows. Então, por necessidade empresarial, eu queria me tornar dona da minha carreira." A pressão que envolvia o processo industrial de lançamentos do grupo também era algo que já não condizia com as vontades e ânsias da artista. "Eu queria fazer mais. Teve um disco que não estava pronto e foi vendido assim mesmo. Eu queria ter o controle disso, da minha vida. Teve disco que saiu sem mixar: não tinha surdo, repique, qualidade. Acabou que ele não vendeu tão bem." A solução foi convocar praticamente os mesmos músicos e a equipe do Babado, mas transformando tudo em carreira solo - o que a libertou das amarras legais. Ironicamente, o primeiro trabalho, Ao Vivo em Copacabana, foi gravado em um megashow no Rio de Janeiro, em 2008 - mas com um repertório extremamente baseado nas canções da banda antiga. Sem hesitar ou se surpreender com o questionamento, a cantora explica por que não preferiu esperar e estrear com um disco de músicas inéditas. "Eu tinha que fazer uma coisa massa em um tempo curto. Não tinha tempo para gravar um disco. E aí esse show, que era para ter rolado dois anos antes, acabou aparecendo no período de transição e foi a melhor coisa."

A estreia definitiva e inquestionável, portanto, virá com o disco Sette. O álbum ainda não foi gravado (a previsão de lançamento é abril), mas 20 faixas foram préselecionadas, sendo que a escolha final deve ter só 14. Em estúdio a mistura de axé com outros elementos deve ficar mais clara. "As Máscaras", gravada para o CD e lançada no fim de 2009, aponta para essa mudança. "É uma mistura de tudo: tem kuduro, samba do Rio, samba raiz de Salvador, tudo ali no meio. Usamos vários loops e tem um de boate, eletrônico, que rola o tempo todo." Metade das canções ganhará clipes, que, mais tarde, serão lançados em um DVD que também incluirá o tal documentário. Para uma data ainda indefinida, ela pensa em gravar um show em Salvador. E também deve reforçar a atuação em áreas não musicais: pretende abrir uma loja e, em 2009, lançou um perfume. Na publicidade também é nome forte, ajudando a vender desde TV a cabo até absorventes, passando por refrigerante e produtos para o cabelo.

É notável, então, que, ao ser questionada sobre onde se vê daqui a muitos anos, a primeira resposta não seja ligada ao profissional. "Já me imaginei em um jardim, contando histórias para os meus netinhos, feliz da vida, com os cachorros correndo na grama. Eu quero viver muito." Depois de uma breve pausa, retoma o pensamento. "Mas nunca imaginei o que eu vou fazer no palco. Quero continuar cantando, nem que seja: 'Boemia, aqui me tens de regresso'", cantarola. Esse caminho musical ainda está em aberto. Apesar de ser uma estrela conhecida nacionalmente, Claudia Leitte ainda é uma cantora em ascensão - mesmo em termos de vendagem, se a carreira solo for comparada aos números da época do Babado Novo. O peso que ela terá na MPB deve começar a ser definido com a chegada de Sette às lojas.

Em um show recente, em Florianópolis, Claudia Leitte - empolgada depois de cantar a música tema de He-Man e os Mestres do Universo - se jogou no chão e fez flexões de braço. Não satisfeita, chamou uma de suas vocalistas de apoio, que pressionou suas costas durante o exercício. A brincadeira inocente foi uma decisão feita no impulso do momento, mas poderia muito bem ser uma metáfora para a carreira da artista. Sempre é exigido que ela prove algo: que não é uma cópia de Ivete Sangalo; que é uma boa mãe; que não é homofóbica; que seu corpo é naturalmente bonito. "É estranho", diz Claudia, com as sobrancelhas arqueadas, em um misto de pensativa e incomodada. "E, ao mesmo tempo, não tenho de dar satisfação para ninguém. Mas no fundo isso incomoda. As pessoas acham até que é elogio chegar para mim e dizer 'Nossa, mas eu não sabia que você cantava tão bem assim! '" Ela ainda acredita que parte dessa perseguição venha de uma interpretação errônea das pessoas. "Parece ser inadmissível para as pessoas que alguém consiga fazer todas as coisas loucas e corridas que faço e ainda ser feliz. E eu sou muito feliz."

Entrando em questões mais específicas, ela explica todas as confusões e insinuações.

- "[A história com Ivete começou] porque sou da Bahia, minha voz é grave e toco axé. Talvez a comparação seja necessária para manter os interesses de algumas pessoas. O fã não quer que alguém possa vir a tomar o lugar [de quem ele gosta]. O empresário acha que vou fazer mais show e tomar espaço. A imprensa acha que vai vender mais revista se tiver uma disputa. Cada um com seus interesses. Interesses que não valem a pena, sinceramente".

- "'Ela é uma farsa, tem dinheiro e fez plástica'. Quantas vezes já não ouvi isso? Eu não tenho tempo nem para fazer uma massagem. Disseram que era pouco provável que eu, uma mulher que tivesse parido em menos de 30 dias, estivesse magra. No corpo delas isso pode não acontecer, mas [no meu] acontece".

- "Eu não sou homofóbica. Uma vez me perguntaram se eu queria que meu filho fosse gay e eu disse que não, mas que o amaria do mesmo modo. É meu filho, vou amá-lo, mas prefiro que ele me dê netos".

Os colégios católicos por onde passou na infância tiveram um grande impacto na vida de Claudia, mas mais como uma introdução à religiosidade. "Meu interesse em Deus - sem religiões ou interpretações - veio mais tarde. Acho que foi já no Babado, por eu estar sozinha." Hoje, ela diz não seguir religião alguma. Durante uma participação no programa Altas Horas, ela sacou uma Bíblia rosa sem medo de ser tachada de fanática ou de pregadora. "O roqueiro vai lá e fala do diabo, que fazer pacto é supercool e eu não posso falar de Deus? É brega falar que Jesus é massa, que é astral?" O nome do novo álbum (e da nova turnê), Sette, é uma referência bíblica. "A gente se vê muito no outro e se projeta no outro, olha as falhas dele. Mateus [capítulo] 7 é assim: 'Tire a trave e se olhe realmente no espelho, mas não procure enigma'. Olhe pra você antes de corrigir as falhas do outro".

Esse é um ponto central para entender a vida de Claudia Leitte: as críticas não a incomodam muito, mas o modo como elas são distribuídas gratuitamente, sim. Um vídeo postado no YouTube, que mostra o confronto entre a cantora e um certo jornalista baiano ("um especialista em falar mal de mim", diz ela), é particularmente chocante por mostrar Claudia descontrolada, até tremendo de raiva. Ela diz não se arrepender. "Precisei tomar essa porrada para aprender que sou um produto e que, infelizmente, às vezes tenho que sair de cena. Não posso fazer aquilo, pois as pessoas vão me ver como ser humano, que tem limites." O instinto dela, agora, diz que o melhor é ignorar qualquer ofensa que apareça pela frente.

"Aprendi a abstrair o que é ruim", ela diz. "Vez ou outra, escrevem para que eu leia. Não gostam de mim porque falo de Deus, sou loira e canto axé. É muito ridículo."

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