A Vida de Pedro

Como é a realidade do homem público – jornalista em tempo integral, mestre de cerimônias moralista nas horas vagas – que comanda o programa mais popular da atualidade e é conhecido pelo sobrenome: Bial

Pablo Miyazawa Publicado em 14/04/2010, às 14h48 - Atualizado em 10/01/2012, às 15h53

Pedro Bial

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Pedro Bial entra em transe.

No topo do altar que é o palco do Big Brother Brasil, o apresentador, de microfone em riste, prepara o espírito coletivo para sua primeira entrada ao vivo naquela terça-feira. Em tom beirando o messiânico, a face mais onipresente da TV brasileira no momento levanta os braços e pede a bênção de Abelardo Barbosa, o Chacrinha. Falando como um pastor que prega por puro prazer, ele emenda, como uma quase reza, os primeiros versos do clássico "Palco", de Gilberto Gil. Em seguida, tira do bolso um frasco plástico, cheio até a boca de um líquido de consistência indefinida. A plateia, extasiada e escolada, entende o que aquilo significa: Bial, sem nenhuma cerimônia, dispara golfadas daquela água benta esverdeada na direção das 400 pessoas prostradas a seu redor, que recebem as gotas e as esfregam nas mãos, nos rostos e nos braços. "Vamos arrebentar!", ele exclama, soltando demônios, gerando a catarse, convocando a histeria coletiva, antes de dar três longos pulos no mesmo lugar e perigosamente se arremessar com um salto para longe do palco

Não satisfeito, ele finaliza o procedimento degraus abaixo, distribuindo sua lavanda abençoada nas palmas estendidas dos que se encontram atrás das câmeras - produtores, cinegrafistas, a equipe de apoio. A maioria ali, acostumada à cena, nem se abala. Na minha vez, Bial me olha direto nos olhos e saúda: "É isso aí!" A lavanda perfumada refresca ao entrar em contato com a pele e exprime seu objetivo inicial - o indefectível aroma de talco, ou bumbum de bebê, exaltados por Gil. Rapidamente, o pregador já desaparece pelo camarim quando, em questão de segundos, uma rara brisa fresca espalha de modo quase sobrenatural o inebriante aroma de fraldas limpas pelo ambiente superaquecido e em clima de suspensão. Mas há uma sensação a mais que insiste pairar no ar.

Rei soberano das noites de paredão do BBB, Pedro Bial contextualiza o ato que repete, desde 2004, horas antes de cada eliminação do reality show que comanda há mais de oito anos: "O Chacrinha jogava bacalhau na plateia. Eu jogo lavanda".

Qualquer indivíduo que assista à TV com regularidade no Brasil presume que a terça-feira seja o dia mais estressante da semana de Pedro Bial. Nesse caso, é mesmo. Às 13h ele já se encontra no Projac, base de operações da Globo em Jacarepaguá, Rio de Janeiro, para tomar parte da elaboração do programa que será exibido, ao vivo, nove horas mais tarde.

"Ao longo destes anos, adquiri manias", ele conta, falando sobre os rituais - alguns chamariam de TOC - que executa antes de sua entrada em rede nacional, quando encarnará o Chacrinha, passará de anjo a mensageiro de más notícias em segundos, recitará poesias e comandará o maior fenômeno televisivo da década. "Chego cedo, coloco o sapato direito antes do esquerdo, me organizo... e tem essa mais vistosa, que é a farra da lavanda."

A visão que tenho às 18h daquele dia é, até então, inédita para o público brasileiro. Bial está de pé em seu camarim e veste somente uma toalha branca amarrada na cintura. Tem o rosto tomado por creme de barbear e está de óculos, que não escondem uma acentuada vermelhidão ao redor dos círculos azulados dos olhos. "Eu preciso colocar cada coisa em seu devido lugar", ele indica o balcão diante do grande espelho, onde se encontram fotografias dos participantes do programa, objetos de uso pessoal e o já famoso frasco verde de lavanda para bebê. "Tenho que cumprir isso para sentir que as coisas darão certo", ele sorri, começando a se barbear, interrompendo o processo a todo instante para complementar algum pensamento que insiste em lhe sair pela boca.

"Este é um paredão especial", ele comemora, sobre a eminente festa da eliminação. "Talvez a gente bata o recorde de votos hoje. Quando as pessoas são movidas pelo ódio, acontece isso." A situação, no caso, envolve personagens polêmicos da décima edição do show: Dicesar, assumidamente gay; Ana Angélica, assumidamente lésbica; e Marcelo Dourado, acusado de comportamento homofóbico. Sem a menor cerimônia, Bial vai dizendo o que realmente pensa sobre cada um dos integrantes do programa que apresenta desde 2002 (no primeiro ano, foram duas edições). O jornalista carioca nascido em 29 de março de 1958 comandou todos eles, mas não é apenas esse seu papel: Bial escreve textos, participa da edição e se envolve com o processo criativo ao lado do diretor Boninho e uma equipe de editores. Sua rotina de preparação também envolve acompanhar durante horas diárias o pay-per-view do BBB, em que capta minúcias e entrelinhas dos confinados. Não surpreendentemente, o showman mostra engajamento genuíno e discorre com paixão sobre a vida de cada concorrente, tal como se já conhecesse pessoalmente cada um. "Procuro não saber nada sobre o passado deles, nada", enfatiza, com a metade do rosto barbeada. "Mas não tem como não se envolver. Acabo lendo muita coisa por aí." Comento sobre a notícia mais fresca do dia - um blogueiro ofereceu R$ 50 mil aos internautas que votassem para defenestrar Dourado do programa. "Não estava sabendo. Mas duvido que o cara vá dar esse dinheiro", diz Bial, com a barba finalizada e ainda um pouco de creme na ponta da orelha.


"No começo, a gente passava tanto tempo aqui. Um dia, me viram dormindo todo torto ali", ele indica o sofá de couro preto minúsculo no meio do camarim, impróprio para sua estatura. "Daí, me deram essa cama [aponta]. Já dormi muito nela. Quando alguém vem me chamar, normalmente já estou acordado."

Ao vivo, Pedro Bial é muito mais alto do que a TV permite perceber. Visto de longe, do alto de seus 1,92 m, pode até ser confundido com um adolescente desengonçado, exceto pela cabeleira grisalha e uma ligeira protuberância abdominal, a qual atribui ao consumo de cerveja ("Preciso parar", afirmaria mais de uma vez). Os olhos azuis reluzem por trás dos óculos bifocais ("Nem sei os nomes dos problemas"). Outras peculiaridades são imperceptíveis pelas câmeras: uma delas é o fato de utilizar o relógio de pulso pendurado no passador da calça. O peito magro e a pele desbotada de quem já tomou muito sol compõem o conjunto do homem de quase 52 anos que permanece, pelo menos durante o primeiro trimestre do ano, mais tempo em cena do que muitos galãs globais.

Ele pede licença para tomar banho. Quando sai do camarim, já veste metade do figurino com o qual se exibirá para milhões - calça preta, mocassim bicolor sem meia. No bolso de trás, um frasco de lavanda. A camareira mostra algumas opções de camiseta. "Olha, Bial, essa não pode", diz, apontando para logotipo de uma grife sutilmente escondida na borda. "Tudo bem, vamos de azul mesmo", responde, fazendo graça. O Pedro Bial da televisão habita constantemente no corpo do Pedro Bial dos bastidores - ele saúda de volta cada um que o cumprimenta, aperta mãos, dá beijinhos. Nada parece forçado ou forjado, como se nem se quisesse o "Pedro" conseguiria se livrar do "Bial".

Como parte de uma programação pessoal, ele entra sem cerimônia nos quartos destinados aos familiares dos três emparedados (a Globo banca a presença de quatro convidados por participante). "Já temos 42 milhões de votos", revela para os fascinados irmãos de Dourado - o número cresceu de forma assustadora nos últimos 30 minutos, e assim continuará até o final do programa. Minha presença a seu lado não interfere no ritual, pelo contrário: o anfitrião me apresenta para cada visitante sem parecer cumprir formalidades. O pai de Ana Angélica pede, relutante: "Quando minha filha sair da casa, vai publicar um livro. Estava pensando se você poderia escrever o prefácio". Bial concorda com a cabeça: "Claro, vamos ver", aparentando não ter sido a primeira vez que recebe pedidos do gênero. Ao passar pelo último camarim, cumprimenta com um beijo a mãe de Dicesar. "Fui obrigada a me trocar, Bial!", a senhora reclama, apontando para a estampa com o rosto do filho sobre um fundo arco-íris, o símbolo universal da causa gay. Na plateia do BBB, a regra é clara: apenas rostos sobre o branco das camisetas.

Nas longas horas que precedem o programa ao vivo, Bial não se aquieta. Vamos de carrinho de golfe (o meio de transporte tradicional dentro do Projac) até o suntuoso cenário do BBB, localizado ao lado da réplica do rio Ganges elaborada para a novela Caminho das Índias - o que poderia explicar a abundância de insetos voadores que sobrevoam as cabeças dos incautos e ajudam a espantar o tédio da platéia nos intervalos comerciais. Diante da base técnica que comanda o andamento do programa, ele faz questão de comentar "Eu era leitor da Rolling Stone brasileira dos anos 70", e recorda o período da adolescência em que fez intercâmbio nos Estados Unidos, quando aprendeu inglês, jogou basquete na escola e foi a shows de rock. "A cidade se chamava Beaver Falls", diz. "Mas depois de seis meses não aguentei, voltei." Pergunto o motivo. "O Rio era muito legal nos anos 70!", gargalha.

"Antes de entrar ao vivo, não consigo ficar parado." Bial se mostra tenso e sem rumo, mas nem precisaria explicar para eu notar. Como que para relaxar, desembesta a falar, emendando um assunto no outro sem precisar ser estimulado. Fala sobre suas gafes cometidas no Twitter, do celular quebrado e as desavenças com a velha operadora (já trocou por uma nova), comenta a filmografia de Clint Eastwood e discorre sobre a obra de Nelson Rodrigues, tudo em uma só talagada. O cenário ainda tem as luzes apagadas e os torcedores aguardam para entrar em cena. Só quando se dá conta do horário tardio, Bial corre para vestir sua "roupa de show".

De volta e já paramentado, Pedro Bial passa silencioso e me faz com a mão direita o tradicional "hang loose" surfista. A plateia já presente em cena espia de longe a figura esguia se deslocar de um canto a outro do cenário por entre a confusão de câmeras e fios. "Olha o Bial!", grita um. "Bi-al! Bi-al!" O coro começa e ele acena em troca para em seguida sumir por um camarim escondido. Minutos depois, está lá, circulando sem rumo de novo, procurando se ocupar.


Diante do palco já abrilhantado, todos usam camisetas cinza com o logotipo do programa. Um dos câmeras me revela, sussurrando: "É por causa do negócio do Pânico". Ele se refere ao episódio ocorrido semanas antes, quando um dos integrantes do programa da Rede TV se disfarçou em meio à torcida para filmar clandestinamente cenas de bastidores, especialmente as que mostram os vistosos rituais de Bial com o público. Um fiscal carrancudo aborda cada presente além dos limites da barreira protetora. Quem não possui uma pulseira verde (como a minha) ou está devidamente identificado como "envolvido com o ao vivo" é gentilmente retirado da área cercada.

Na hora do início da transmissão, 22h10, Pedro já está tomado por completo graças à missa regada a lavanda que executara minutos antes ("para esquentar o público e a mim"). Fecha os olhos, respira fundo, ajeita a camiseta e mergulha na pele e sapatos do Pedro Bial que o Brasil só vê pela TV. O estado de transe se consuma a olhos vistos, e ações que as câmeras jamais mostram se desenvolvem. Durante os vídeos mais longos, ele se senta esparramado pelos degraus do palco ou se aproxima da tela de cristal líquido a sua frente, ajeitando os óculos para recuperar algum detalhe esquecido. Nos intervalos, bebe água de coco, enxuga o suor do rosto, faz malabarismos com o microfone, corre para algum lugar indenifido, saltita um metro sem sair do lugar. "Até o fim do mês, ele está maluquinho", comenta o contrarregra com o operador de câmera, apontando para o condutor do show. Nos momentos de interação com os habitantes da casa, os comentários são vorazmente desferidos pelo porta-voz sem muito pudor. Ao final, Bial divulga, triunfante, o recorde de votos recebidos no programa: cerca de 77 milhões. Ana Angélica foi a eliminada com 55% das escolhas. Comoção, gritos, abraços de saudação e despedida, vinheta de encerramento. Em segundos, Bial se recolhe, sorrateiro, já longe dos olhos do Brasil e da plateia.

Segurando uma sacola plástica, caminhando a passos lentos, Pedro oferece carona no carrinho de golfe até o prédio da produção. "Você teve sorte à beça", ele diz, assim que o veículo se põe em movimento. "Aparecer justo no dia do recorde. Puta sorte de repórter."

Ele respira, aliviado, ainda envolvido pelo momento. Está exausto enquanto aos poucos sai do transe em que obrigou a si próprio a se colocar. Mostra a sacola: três latas de cerveja personalizadas para o programa.

"Preciso dar uma desligada agora." Pelo menos por hoje, o show da vida espiada terminou.

No dia seguinte, reencontro Pedro no local previamente combinado - na saída de sua sessão de psicanálise, nos arredores da estação de trem do Corcovado. A questão que continua a incomodá-lo envolve o celular recém-adquirido, mais especificamente a localização do botão de volume: ele explica que perdeu parte da audição do ouvido direito em Sarajevo, quando cobria a guerra civil da Bósnia. "Estava protegido por sacos de areia, mas a bomba caiu muito perto", conta. "Na audiometria, o médico perguntou: 'Você já praticou tiro ao alvo?' Não, eu já fui alvo!"

Pedro está desempenhando o papel de solteiro pelo maior período da história de sua vida adulta. Separou-se há pouco mais de oito meses de Isabel Diegues, com quem teve José Pedro, 7 anos. Anteriormente, foi "casado" - entre aspas, ressalta: jamais no papel - com a jornalista Renée Castelo Branco (com quem teve Anna, de 23) e as atrizes Giulia Gam (com quem teve Théo, 11) e Fernanda Torres. Sozinho, vive em um apartamento no Jardim Botânico, de onde só sai para ir ao Projac às segundas, terças, quintas e domingos. Nos outros dias, fica em casa, lendo ou dedicado ao pay-per-view do BBB. "Quando se está casado, tem que haver negociação. Agora, é o que eu quero fazer", ele diz, enfatizando o "eu".


No carro, o motorista sente a brecha para interagir com o passageiro famoso: "Mas todo mundo briga nesse Big Brother, né?" Bial assenta com a cabeça e o entrevista: "Você tem algum favorito na casa?" O homem ao volante se empolga: "Acho engraçado aquele viadinho, o Serginho. Acha que ele vai longe?" Bial fala: "Acho que sim. Você não é o primeiro a me dizer isso". Ele jamais demonstra enfado ao falar sobre o tema, pelo contrário: interagir com o telespectador parece lhe trazer satisfação genuína, como se atestasse que muito do sucesso do programa está ligado ao modo todo particular com que o comanda. Ser o Pedro Bial significa ser abordado diária e constantemente por pessoas que acreditam conhecê- lo de forma íntima. O assunto é, quase sempre, o BBB exibido na noite anterior. Quando está à paisana, longe dos olhares das câmeras e desprotegido da carcaça global, todos continuam a espiar o Bial. E ele não se incomoda. Ou pelo menos tenta não demonstrar.

Chegamos ao primeiro destino, um enorme galpão transformado em estúdio, no bairro Santo Cristo. Na sessão de fotos, Bial repete a performance catártica exibida na noite anterior só para olhares privilegiados: sem timidez, pula, dança, arranca a roupa, interpreta personagens. Ao final, suado, como se aquilo lhe fosse praxe, sugere um restaurante "para conversar e beber".

O local escolhido é o Primeira Pá, chinês exclusivo para iniciados - "o melhor do Rio" -, perdido em meio à Praça da Bandeira. "Cheguei a comer cobra na China", Bial relata, sobre os tempos de repórter. "Sou chegado a experimentar coisas estranhas." Percebo logo que ser Bial significa também destilar conhecimento sobre tudo um pouco, colecionar teorias e ter como passatempo citar frases célebres (ou nem tanto) de filósofos, escritores e intelectuais para corroborar suas teses, de Pascal a Sigmund Freud, de Otto Lara Rezende a F. Scott Fitzgerald. Outra diversão é recordar histórias do tempo em que foi correspondente em Londres, de 1988 a 1996, período em que cobriu guerras, entrevistou celebridades e passou a "desenvolver pensamento crítico sobre o exercício jornalístico". "Acho que, ao contrário das leis e das salsichas, quanto mais criticamente você enxerga o jornalismo, melhor ele fica", divaga.

"É aqui, é aqui!", Pedro Bial aponta, obrigando o motorista a desferir uma entrada brusca à direita. A decoração do local não poderia ser mais típica: um portal vermelho ornando a entrada, lanternas dependuradas e notável sensação de abandono. Somos recebidos com esmero por um casal afável e falante, Salma e France. Íntimo, o cliente famoso executa outro hábito costumeiro, o de apresentar mutuamente as pessoas com as descrições que lhe passam pela cabeça: "Este é o Pablo. Mora em São Paulo, está acostumado a comer bem. É descendente de japonês, então, vocês se odeiam", Pedro brinca, apontando para mim. Em seguida, introduz a dupla de chineses miúdos à minha frente. "Ele nasceu nas Ilhas Maurício, você pode praticar seu francês com ele. Já ela fugiu da Revolução Cultural e caiu aqui em 68". "Sessenta e quatlo", ela o corrige, o sotaque absurdamente caricato. "Caí aqui pala ver outla revolução."

O restaurante está literalmente às moscas. Dispensando o cardápio, Bial solicita iguarias como se freqüentasse o lugar há anos - na verdade, é apenas a terceira vez que vai ali. Pede salada de água-viva, pepino do mar, tilápia e cerveja chinesa Tsingtao. A mulher retorna: "Você quer comer o peixe mesmo ou estava blincando?" Com a resposta positiva, abre um sorriso que expõe os dentes desalinhados e sinaliza com as mãos. "Vou escolher um desse tamanho pla vocês." O mimo especial não ocorre apenas por Pedro ser uma celebridade, mas também porque permanecemos como os únicos consumidores do restaurante pelas próximas três horas.

Pedro (ou será o Bial?) parece pronto para falar sério. "Você trabalha assim, não vai anotar nada?", aponta para meu caderno fechado. Quando coloco o gravador sobre a mesa, a entonação muda ligeiramente. O entrevistador, enfim, se torna o entrevistado.

"Costumo dizer que muito de minha educação foi na sala de casa. Era frequentada por gente como Cacilda Becker, Walmor [Chagas], Fernanda [Montenegro]. Eu via ali comportamentos diferentes do tipo 'burguesão', que me ensinavam mais do que a escola", relata. "Na adolescência, fui ligado em arte. Fiz faculdade de Comunicação e meu trabalho de conclusão foi um curta-metragem. O jornalismo só apareceu quando comecei a trabalhar na TV. Pensava: 'Vou sair formado para fazer cinema!'"


A origem de Pedro é puramente alemã e se relaciona à ascensão de Adolf Hitler ao poder: o pai, judeu, fugiu para o Brasil em 1940. A mãe veio antes com a família, em 1934. Conheceram-se em São Paulo, depois, casados, migraram para o Rio em busca de trabalho. Antes, participaram da fundação do conceituado teatro TBC.

"Da educação alemã", Bial relata, didaticamente, "tinha essa coisa da alimentação, de não deixar nada no prato. E o fato de não ter parentes por aqui. Meu nome tem origem lituana. Presumo que seja uma corruptela de 'biel', que em russo quer dizer 'branco'. Meu nome seria 'pedra branca'", conclui, rindo.

O jovem Pedro se dividia entre aulas de teatro e o basquete, no qual chegou a alcançar "uma carreira bem digna". "O esporte ajudou a me bancar. Assim como o governo alemão, que por compensação de guerra pagou meus estudos até o fim." Além do basquete, era rato de praia e adorava praticar surfe de peito "com prancha de madeirite". Sempre que fala sobre a adolescência, Pedro destaca a forte amizade com o cantor e compositor Cazuza. "A gente se conheceu no jardim de infância, aos 4 anos. O auge da nossa aproximação foi entre 12 e 20 anos", ele recorda sobre o amigo, morto em 1990. "Nossa maior diferença é que eu era esportista e ele não. A gente se 'emburacava' junto, mas no dia seguinte eu ia treinar."

"Como caçula, desfrutei da invisibilidade", Pedro fala. "Para a criança, quando não é abandono, é uma bênção. Você fica soltinho." A morte do pai, porém, desestruturou a família. "Tinha 14, meu pai tinha morrido fazia três meses. Aí, tomei uma overdose de comprimidos, que nas ruas chamavam de 'ácido baiano'. Foi quando perceberam que o Pedrinho precisava de atenção", diz. "Só me reestruturei graças ao intercâmbio e à descoberta da arte."

"Dedico minha vida a duas coisas: aos filhos e ao trabalho. E ficou por aí." Pedro Bial agora se farta de iguarias preparadas à moda chinesa regadas a Moutai, um aperitivo típico à base de cereais. "53 graus", aponta na garrafa a porcentagem alcoólica, enquanto serve o par de copinhos que acompanha a embalagem. O líquido, de aroma nauseabundo, queima as narinas e desce queimando garganta adentro. Um gole de Tsingtao ajuda no processo.

O tema "filhos" se mostra o favorito do pai dedicado. Anna, a mais velha, mora em Nova York e é quem mantém Pedro "atualizado no que acontece no mundo". "Temos afinidade, somos muito parceiros", diz. "Fomos juntos ver Shine a Light [documentário sobre os Rolling Stones]. Chorei do início ao fim, e ela entendia o porquê!" Ele descreve uma brincadeira de pai e filha: "Traduzimos canções dos Beatles: [canta] 'Ontem, todos os meus problemas pareciam tão distantes...' Os Beatles são muito bons, mas as letras são uma bosta!", exclama. "Tirando 'The Long and Winding Road' e uma ou outra exceção."

O fruto da relação com Renée ("minha melhor amiga") representa hoje o elo mais forte de Pedro com o universo feminino. "Falo com a Anna coisas que jamais pensei que falaria com uma mulher. Nenhum pai de outra geração teria as conversas sobre comportamento sexual que tive com a minha filha." Com os filhos menores, Théo e José, com quem fica semana sim, semana não, a relação do pai recém-solteiro se assemelha a um "clube do Bolinha saudável".

Ao longo da conversa, a faceta jornalista permanece inseparável da entidade Pedro Bial. A todo o momento, ele poderá citar momentos que considera dignos de lembrança em sua carreira de repórter televisivo. "Entrevistei o Paul McCartney na época do Flowers in the Dirt [1989]", ele busca na memória uma das missões do tempo em que vivia em Londres. "Costumava entrevistar atores de novela, todos deslumbrados, então estava com o coração aos pulos: 'Vou entrevistar um beatle!' Daí o Paul me recebe com um [canta] 'Pedro The Fisherman Has Come!' Totalmente querido, gente fina. Fiquei babando! Pedi, com o maior pudor, 'Será que você poderia tocar um pouquinho?' E ele: 'Mas é claro, Pedro!'"


Mas vale dizer que o Bial repórter está relativamente esquecido pela grande massa, que hoje parece perceber apenas a presença constante do Bial do BBB. Ele próprio compreende a situação, sem depreciar sua condição de entertainer ou supervalorizar a formação de porta-voz de notícias relevantes. "Sou jornalista o tempo todo, queira eu ou não", diz, concordando, parcialmente, com minha tese de que a função que ele executa no reality show não deixa de ser uma modalidade de jornalismo. "Não acho que eu seja jornalista no BBB. As técnicas que uso para tirar informações dos participantes vêm de 30 anos de profissão, mas não há a responsabilidade que se tem quando se trabalha com hard news. Estou só informando as questões de um jogo", desdenha.

"Mas" - agora ele se defende das críticas que dizem que seu trabalho no programa representa um rebaixamento da atividade de jornalista sério - "essa foi a grande libertação do Big Brother para mim: mostrar que a gente não precisa se levar a sério e que é bom não se levar tão a sério". A aceitação de sua porção showman, ele insiste, "não foi de cara. Fui buscando formatos. E foi quando me despi da posição de jornalista e percebi que isso não necessariamente ia arranhar a minha imagem. Esse papo de credibilidade... quem quer isso é pastor, padre. Não vou fundar igreja, não quero que acreditem em mim". A conclusão de efeito vem carregada de um velado mea culpa: "Os jornalistas em geral se levam muito a sério".

A seguir, Bial, prata da casa da Globo desde 1980, estabelece uma analogia entre a profissão pela qual ficou conhecido e o show que o tornou celebridade: "O jornalismo pega fatos de grande importância e dá a eles a relevância devida, com a superficialidade inevitável, e os eleva à condição de notícia. No BBB, pegamos pessoas irrelevantes, que não são notícia, e as investigamos com profundidade, em um longo documentário de três meses, e revelamos a intimidade às avessas dessas pessoas". Satisfeito com a própria teoria, ele se empolga: "O BBB vive do paradoxo, por isso pira as torcidas. É uma bobagem? É. É profundo pra caramba? É. Vai lidar com um paradoxo desses!"

Bial curte discorrer sobre as vidas dos participantes, mas mesmo a experiência adquirida não é suficiente para lhe conceder status de adivinho infalível. "Sempre que arrisquei quem venceria nos paredões, perdi. E todos para quem torci na final perderam", ele ri.

Outro dos folclores que envolvem Bial é o discurso narrado antes de eliminar um participante. Ele próprio elabora o texto dias antes, que reescreve de cima do palco, a caneta, até ser proferido em rede nacional. "Há alguns anos, me caiu o óbvio: 'Caralho, eu não tenho que falar com o eliminado ou com os participantes. Estou falando com o público!'", exulta. "Aí, resolvi falar coisas edificantes, que sirvam para a vidas da pessoas. E elas entendem, isso que é o mais incrível!"

"Eu gosto de ser o moralista da nação durante três meses", ele afirma, "para resgatar o verdadeiro sentido da palavra moralismo, que no Brasil é sinônimo de falso moralismo. Moralismo é acreditar que a moral é suficiente para que o homem seja bom", ensina. "O programa é um exercício de moral e julgamento terrível! As pessoas se sentem no direito de julgar cruelmente!"

Pergunto, afinal, qual é a consciência do brasileiro médio ou o que o leva a votar em um indivíduo em detrimento de outro. O discurso vem hesitante, precedido de um suspiro: "É a percepção de quem é mais autêntico e justo. A votação é um bom exemplo para mostrar o quanto a democracia plebiscitária não é democrática. No BBB, não há democracia - o voto é só para decidir o jogo".

É impossível falar com Pedro Bial, seja de maneira rasa ou aprofundada, e não esbarrar no tema BBB - e ele jamais evita o assunto, apenas se sente estimulado a destilar suas complexas teorias. O programa, que desperta reações adversas tão apaixonadas quanto possui seguidores devotos, ocupa corpo, mente e alma do apresentador durante um quarto do ano. "No final, dá até uma ressaca", diz. "Chegar em casa, ligar a TV e não ver o programa no ar... É um vazio do tamanho da existência."


Há outros aspectos sobre o Pedro, não sobre o Pedro Bial, que a maioria de seu público cativo desconhece.

O lado jornalista e o lado apresentador não afirmam, mas Pedro se declara um simpatizante da social-democracia, apesar de ter participado da fundação do PT no início da década de 1980. "O que mais gosto do Lula é que ele tem como grande ídolo o Fernando Henrique Cardoso", brinca. Pessoalmente, Pedro diz ter "nervoso" de se assistir no vídeo e se declara de religiosidade zero. Ainda não tem um iPod. Usa sandálias eventualmente porque sofreu uma agressiva cirurgia no pé esquerdo. Pratica sessões de psicanálise semanalmente há anos e já foi diagnosticado com depressão. Atualmente, toma medicação por causa de um problema de compressão em uma raiz nervosa entre duas vértebras, que lhe causa dor no braço. O remédio, de efeito calmante, tem o deixado mais relaxado, algo que para um desavisado pode ser confundido com um leve estado de embriaguez. "Esta é uma versão super calma de mim", ele sorri. "Sou ansioso, compulsivo, nervoso. Tenho surtos de intolerância." Sobre a pecha de boa-praça que exibe nos bastidores, relativiza: "Não sou sempre bonzinho. Quando dá cagada, saio dando porrada. Não tem demagogia. Mas depois, fica tudo certo".

E, cada vez mais frequentemente, Pedro anda pensando o que fará com a carreira. "Não sei o que vai ser da minha vida. Sou jornalista? Sim. Sou do entretenimento? Também. Mas o que é que eu vou fazer quando o Big Brother acabar? Aonde vai parar esse profissional?" Após o término da décima edição do reality, Bial diz já ter compromisso marcado: vai comandar um programa de reportagens no canal pago Globo News.

Questiono enfim sobre o Pedro, aquela pessoa que persiste quando Bial não interpreta o homem de credibilidade e sorriso fácil da TV. Ao final de um dia de paredão, quanto tempo leva para a pessoa privada tomar o lugar novamente da pessoa pública? "É meio rápido", ele dá mais um gole no Moutai e repete o ritual de limpar o copo com um guardanapo. "Acaba o programa, eu já viro o Pedro. É uma esquizofrenia bem resolvida."

Naquele instante, como que ao abrir um portal místico, o homem diante de mim - não mais o comunicador - começa enfim a revelar sentimentos sinceros a respeito da celebrização sufocante da qual não consegue se livrar. "Quando estou falando com os participantes da casa, é o Pedro que está falando. Mas eles é que estão vendo o Pedro Bial", começa. "Sinto isso quando tento me aproximar das pessoas. São poucos que querem conhecer o Pedro. As pessoas estão mais interessadas nessa 'entidade'."

Com a voz pastosa, Pedro enumera as diferenças entre uma persona e outra que só ele enxerga, falando de si próprio na terceira pessoa ao melhor estilo Pelé: "Acho que o Pedro Bial é idealizado como um cara mais intelectual e inteligente do que de fato é. Sou um simples leitor em um país de poucos leitores. E ele é idealizado como mais rico do que é, o que é algo horrível. E como mais garanhão. Se eu tivesse comido metade das mulheres que dizem que comi..." E emenda, aparentemente resignado: "Realmente... talvez o Pedro Bial seja mais interessante do que o Pedro. Não sei".

"Talvez eu esteja forçando nesse divórcio entre o Pedro e o Pedro Bial como uma maneira de me defender", ele reluta, parecendo organizar as ideias. "É meio insuportável às vezes não te permitirem esquecer quem você é, 24 horas por dia. Saio na rua e é um tal de 'Ei, Pedro Bial!'. Imagine todo mundo vir falar com você, o tempo todo, um país inteiro! Não tenho refresco!"

Poderia ser irônico, se não fosse a mais pura verdade: Pedro Bial, nome e sobrenome, profissional dos mais conceituados e realizados, entidade onipresente e cativante das noites brasileiras, não raramente desejaria ser outra pessoa que não ele próprio.

"Às vezes", ele diz enfático, "é bom tirar férias, esquecer de si mesmo".