Edição 44 - Maio de 2010

O Bob Dylan dos Games

Mais celebrado designer de videogames de todos os tempos, Shigeru Miyamoto só quer criar jogos que não tornem o mundo um lugar pior
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Shigeru Miyamoto
Pablo Miyazawa
por Pablo Miyazawa

"O maior criador de games de todos os tempos". A informação é inquestionável, até mesmo pela concorrência: Shigeru Miyamoto, designer japonês de sorriso fácil, tem no currículo uma lista de proezas, da criação de ícones do entretenimento digital - Super Mario, Donkey Kong e Zelda, entre outros - à elaboração dos principais recursos técnicos apresentados nos consoles Wii e Nintendo DS. Aos 57 anos, ele representa a cara da Nintendo, assim como Steve Jobs está para a Apple e Bill Gates para a Microsoft - com a diferença de que Miyamoto não é o dono, mas um dos mais antigos e ilustres funcionários da tradicional fabricante japonesa de videogames. Em junho próximo, na feira Electronic Entertainment Expo (ou E3, em Los Angeles), ele se prepara para apresentar uma revolução tecnológica à altura do que planejam as concorrentes Sony e Microsoft. O peso da responsabilidade, Miyamoto descarta sorrindo: "Não tenho tempo de pensar se cometi erros. Minha energia está sempre direcionada para frente, em como posso criar algo realmente novo". Em conversa realizada durante a E3, em junho do ano passado, o designer comentou sobre o futuro da indústria do entretenimento, comentou sobre a relação dos games com a indústria musical e relativizou as comparações com outros rock stars mais famosos.

Por que você acha que as pessoas gostam cada vez mais de videogames? Você acha que esse interesse crescente, o amor pelos jogos, está fadado a acabar um dia?
Sabe, no Japão houve um momento em que o mercado de mangás começou a recuar. As pessoas não demoraram a dizer que era o fim dessa indústria e que ela nunca iria se recuperar. É claro que não foi o que aconteceu: houve uma mudança no conteúdo das histórias, e hoje esse setor está mais forte do que jamais esteve. Eu acho que algo semelhante está acontecendo com o entretenimento interativo, e em consequência, com os videogames. Acho que os jogos eletrônicos continuarão a existir, só que haverá uma mudança no papel dos videogames e também uma evolução no conteúdo proporcionado por eles. Mas a indústria, em si, irá continuar.

O futuro do entretenimento interativo está inteiramente nas mãos das grandes empresas, como Nintendo, Sony e Microsoft? Ou isso será responsabilidade de alguns poucos indivíduos como você?
Eu acho que são as duas coisas, na verdade. Quero dizer, eu enxergo as empresas como grupos de indivíduos, e acho que as produtoras de games são talvez diferentes estruturalmente, se comparadas às empresas tradicionais. Mas você sabe por que as produtoras de games são fundadas? É porque são formadas por grupos de indivíduos que não conseguem realizar o que desejam sozinhos, então eles se reúnem para juntos alcançar os objetivos comuns. Falando especialmente sobre a Nintendo: é um grupo de pessoas que realmente quer inventar e desenvolver coisas únicas e criativas. Então, é uma empresa, mas é quase como se agisse como um indivíduo único.

Nossa primeira entrevista foi há quatro anos, e perguntei sobre o fato de você ser um rock star da indústria dos games, que é reconhecido pelas pessoas, dá autógrafos... Isso mudou? Você acha que os produtores de games, assim como os caras de empresas de tecnologia como o Google e o YouTube, são as celebridades da geração do futuro?
Bem, eu não sei. Se vamos nos tornar os rock stars dessa geração, ou os próximos rock stars, é bom que a gente comece a ficar mais bonito, se vestir melhor, todas essas coisas [risos]. Sei lá. É que artistas são pessoas que brilham quando fazem arte. Criadores de games são pessoas que brilham de uma maneira diferente. A maneira com que interagimos com nosso público é através das mídias em que criamos os produtos, mais ou menos da mesma maneira como os escritores e os livros que escrevem. Mas mais do que ver os criadores e produtores de games se tornando celebridades, eu só prefiro ver eles se tornarem cada vez mais criativos. E eu não tenho nenhum problema com o fato de as pessoas apreciarem o trabalho dos criadores de videogames e se tornarem fãs deles. Absolutamente. Eu acho tudo ótimo. Na verdade, sou muito grato de existir gente que goste tanto de nosso trabalho.

E essa história de que os videogames serão a salvação da indústria musical, com games como Guitar Hero e Rock Band? Os games são mesmo a salvação da indústria?
Eu não sei, é uma boa pergunta. A indústria está mesmo precisando ser salva? O assunto está muito em voga atualmente. Como um criador de games, a música obviamente faz parte de nosso trabalho. Estamos sempre procurando descobrir qual musica é mais adequada para nossos jogos, ou maneiras de fazer a música se relacionar com os games. Mas não acho que está em questão a maneira como nós podemos "salvar a indústria". Na verdade, eu não tenho pensado muito nisso.

Seus interesses pela música mudaram com o passar dos anos? Você tem tocado mais guitarra, experimentado mais instrumentos, ou quase não tem tido tempo pra isso?
Eu tenho continuado a tocar, sempre que consigo.

A Rolling Stone EUA recentemente chamou você de "o Bob Dylan dos videogames". O que acha desse apelido?
Nem sei como considerar isso... [risos]. Mas esse tipo de comparação pode ser um pouco ofensiva para o Bob Dylan. Afinal, Dylan é um deus.

Você também já foi chamado de "o Walt Disney dos games". O que pensa desse tipo de comparação?
Eu não fico lá muito confortável com essas comparações. É uma daquelas coisas que, sei lá, nem sei bem como reagir a isso. Por exemplo, se eu me mostrar muito feliz com esse tipo de comparação, posso ser percebido como arrogante ou coisa parecida. Mas se eu digo que não gosto da comparação, é quase uma frustração, como se não houvesse boa resposta para isso. O fato é que as pessoas adoram fazer essas analogias, não é mesmo?

Você acha que os videogames podem realmente mudar o mundo, ou sempre serão apenas e somente mais uma forma de entretenimento?
Fundamentalmente, sim. Os videogames são uma forma de entretenimento. Mas, pessoalmente, eu procuro criar jogos que não tornem o mundo um lugar pior. E procuro manter isso sempre na cabeça quando estou criando.

Que tipo de jogos você acha que os meus netos estarão jogando daqui uns 50 anos?
Eu não sei se as coisas serão assim tão diferentes. Tem tantos jogos clássicos que continuam consagrados e são jogados atualmente. Veja o New Super Mario Bros Wii, por exemplo. As pessoas ainda jogam Tetris! A minha esposa continua a jogar Dr. Mario, todos os dias. Esses games antigos continuam a existir, agradam e ainda possuem apelo. Então, o que teremos daqui 50 anos será totalmente influenciado pela tecnologia usada nas TVs e computadores e vai muito depender de qual mídia for a determinante no momento.

É permitido aos gênios cometer erros? Se um jogo que você ajuda a desenvolver não alcança o sucesso esperado, como você reage pessoalmente? É mais difícil para você lidar com o fracasso?
Bem, talvez seja o jeito que eu trabalho, mas não tenho tempo de pensar que cometi um erro aqui ou ali, estou sempre pensando adiante sobre o que posso fazer para criar algo realmente novo. Minha energia está sempre direcionada para frente, ao invés de refletir alguma critica que meu trabalho levou. Antes de um game ser lançado, porém, nós realizamos diversas discussões internas sobre o que poderíamos ter feito, ou sobre coisas que gostaríamos de ter realizado - talvez não exatamente admitindo erros, mas citando coisas que teriam sido interessantes de fazer. Temos esse tipo de conversa o tempo todo.

Veja o paradigma da indústria dos games: de um lado, temos empresas que querem tornar as coisas mais difíceis para o jogador, em se tratando da experiência de jogo. Do outro, temos empresas interessadas em facilitar a vida dos jogadores - a Nintendo, por exemplo. Qual seria o equilíbrio perfeito entre esses dois caminhos?
Realmente, esta é uma grande questão. Atualmente temos games - como New Super Mario Bros. e Wii Sports Resort - que servem a ambos os casos: para pessoas que simplesmente querem pegar o jogo, jogar cinco, dez minutos e pronto; e também são ideais para pessoas que querem realmente tirar um tempo para jogar de verdade, sozinhas, realmente mergulhando na experiência. No caso desses dois jogos que citei, acho que realmente chegamos perto de alcançar esse equilíbrio que você mencionou: ambos possuem esse modo para um jogador bem aprofundado, e um modo multiplayer acessível e dos mais divertidos.

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