Edição 44 - Maio de 2010

Menino de Ouro

Subvertendo as tradições à sua maneira, Tiago Leifert organiza uma revolução na Tv enquanto luta para se auto-afirmar
  • Imprimir
por Por Pablo Miyazawa

"Se eu ficar preso no elevador, não tem programa."

Ao meio-dia e meia de uma segunda qualquer, Tiago Leifert faz piada para justificar a escolha por uma malcheirosa escadaria de incêndio - a rota alternativa que conduz ao estúdio onde, em minutos, ele desempenhará sua missão de vida pela primeira vez naquela semana. No caminho, é saudado por meia dúzia de conhecidos, que mencionam detalhes relacionados à rodada de futebol do dia anterior. Tudo isso - o horário, o atalho, o assunto constante - faz parte da rotina de Tiago desde que assumiu a versão paulista do programa Globo Esporte, em que se divide entre as funções de apresentador e editor-chefe. Em sua mão, um cartão indica a ordem das matérias. Com a expressão amena, sem demonstrar inquietude, ele inicia a transmissão ao vivo de modo repentino. Nos próximos 30 minutos, irá entrevistar um jogador de futebol e uma atacante de vôlei, cortará uma matéria pela metade durante o intervalo, fará piadinhas e se comunicará com a "voz da consciência" (a direção) por meio do ponto eletrônico. Visto de relance, ele chega a parecer um adolescente em férias, tamanha a falta de esforço em esconder o quanto está se divertindo. Quando finalmente começa a esquentar, o programa termina.

"Estourei um minuto e meio com a entrevista no primeiro bloco", Tiago explica, já atrás das câmeras. "Tive de compensar no seguinte. Cortei essa parte, diminuí essa e deu certo", ele descreve os procedimentos técnicos como se fossem atividade corriqueira. Para quem entra ao vivo naquelas condições 350 vezes ao ano, provavelmente é mesmo. "Se você não se diverte no seu trabalho, está ferrado", ele diria mais tarde. "Daí, vira sofrimento."

Quinze minutos mais tarde, a reunião de pauta dá a leve impressão de algo atípico. Em uma sala envidraçada, a equipe do Globo Esporte- uma dúzia de homens e mulheres dos mais variados tipos e funções - despeja ideias de pauta e papo furado na mesma proporção. Tiago, 29 anos, mais jovem que pelo menos metade daquele grupo, está posicionado discretamente no centro da mesa e procura não comandar a ação. A impressão é a de que nada foi decidido, mas o encontro se encerra após meia hora, como se tudo estivesse já acertado. Nove horas após ter se levantado da cama, o editor-chefe enfim se permite almoçar. "Vocês aí morram de inveja, porque vou comer com o Arnaldo Cézar Coelho", Tiago anuncia para o time, como se certos fatos inerentes à fama ainda não lhe fossem corriqueiros.

A primeira impressão que qualquer um tem ao encontrar Tiago Leifert (se lê "laifer" o sobrenome lituano) é a de ele remeter a alguém que você conhece, um colega da escola ou um amigo de um amigo. A sensação é compartilhada por quem o aborda sem cerimônia na rua, na escada rolante, na fila do estacionamento. "Minha sensação é de não estar mais solitário", ele diz, com o tom melancólico, mas ainda soando como "aquele moço engraçado que fala de futebol na TV." "Agora, não me sinto mais sozinho em lugar nenhum."

Apenas até junho, o rapaz então com 30 anos completos pode ser considerado um fenômeno meramente local. No jargão global, ele entrará "em rede" e se tornará âncora de um programa de exibição nacional sobre a Copa do Mundo. "Ainda não sei como será, estamos formatando", ele procura não demonstrar ansiedade com a chance que poderá torná-lo conhecido por virtualmente todos os brasileiros que acompanharem o torneio. "A vida vai continuar a mesma coisa, 11 de julho [data da final] é um domingo. Dia 12, estou no Globo Esporte. Normal", despista, como se nem ele mesmo quisesse acreditar que tudo será como antes.

"Tem uma senhora de idade que perguntou se pode vir aqui para te elogiar." O garçom que se dirige a Tiago Leifert repete um ritual que ocorre invariavelmente todas as vezes que ele come naquele mesmo restaurante de shopping center. A mulher robusta e elegante, com carregado sotaque espanhol, se posta de pé diante de nossa mesa e é cerimoniosa ao desferir suas opiniões. "Parabéns pelo programa", ela diz. "Queria felicitar pela mudança boa. A gente não perde um."

Tiago agradece com um meneio de cabeça e um sorriso sereno, igual àquele que exibe diariamente na televisão. "Obrigado! Qual a nacionalidade da senhora?"

"Sou chilena."

"Ah, bom. Se fosse argentina, achei que iria pegar uma faca e pular em mim. Todo mundo sabe que tenho um carinho pelos argentinos", Tiago sorri, citando uma piada recorrente em seu programa.

"Eu não me divertia muito no começo", ele confessa assim que a fã se afasta, se referindo a janeiro de 2009, quando assumiu o Globo Esporte após uma tortuosa temporada como repórter do canal SporTV. "Hoje, me sinto íntimo das pessoas. Elas me conhecem e sabem o que esperar de mim. Me sinto à vontade para falar besteira, porque sei que elas vão me perdoar."

"E eu sei quem elas são", ele afirma, parecendo convicto.

"Afinal, almoço com elas todos os dias. Não estou vendo, mas sei do que gostam, o que pensam. Eu sei."

Às 4 da tarde daquela sexta-feira, Tiago ainda não almoçou. Ele veste os trajes que usou no programa de horas antes - jeans, camisa polo verde, tênis -, tudo retirado de seu próprio armário. Ao garçom de sempre, pede "o de sempre": o paillard com pasta bem passado, na versão reduzida do menu infantil. "Sou o tipo de cara que sempre come a mesma coisa no mesmo restaurante", ele exemplifica o estilo metódico que caracteriza sua personalidade. Recentemente, começou um regime baseado em só comer metade do que costumava. "Quero entrar nos 30 mais fininho. Tenho uns resquícios de Burger King ali embaixo", diz, com as mãos na barriga.

Quando fala, com a voz aguda e eloquente, Tiago desvia o olhar antes de encarar o interlocutor, com a expressão quase infantil de quem parece estar escondendo algum segredo muito precioso. "Sou muito discreto. Sento sempre no canto, como a gente está agora", ele aponta para o local vazio. "É a timidez. Não quero que as pessoas nem notem que eu passei ali." Quem assiste a Tiago Leifert tirando sarro de jogadores de futebol, malhando a Argentina e dançando o rebolation imagina ter contato com o verdadeiro Tiago Rodrigues de Leifert (o "de" é "acidente de cartório", ele diz). São precisos dez minutos para confirmar que as distinções entre um e outro são imperceptíveis. Pelos fãs, o jor nalista paulistano é considerado um revolucionário da transmissão televisiva, muito por realizar seu trabalho de um modo particular, combinando despojamento, simpatia e espontaneidade em uma certeira medida. Conta positivamente o fato de jamais utilizar o teleprompter como guia, e de sempre direcionar a cobertura esportiva para o viés do entretenimento, repelindo o caráter competitivo. "Sempre deixei claro que não sou perfeito, erro pra caramba, acabo falando bobagem. Mas não tenho medo de errar. Me arrisco. E isso acaba me aproximando das pessoas", acredita. Em uma palavra, se define como "teimoso", mesmo sabendo que a característica pode ser confundida com prepotência dentro dos sufocantes corredores da Globo. "Eu escuto os caras mais experientes. Mas penso que se sou diretor do canal e coloco um moleque ali para fazer diferente, eu espero que ele não ouça muito os mais experientes."

"Aquele na TV sou eu mesmo", Tiago se entrega, confirmando as semelhanças. "Eu assumi um risco muito absurdo. Se não tivesse rolado, teria que mudar de profissão. Seria eternamente 'o cara que não deu certo'."

A mudança de rumos surtiu efeitos. Ao ser escalado para a missão de "introduzir uma nova linguagem ao formato", Leifert focou esforços em atrair públicos jamais atendidos em um show semelhante. "Um argumento que me ajudou a convencer os chefes foi de que era possível incluir as mulheres e as crianças na conversa", ele comenta a nova abordagem: antes focado nos boleiros, o programa de meia hora se tornou uma mescla de matérias recheadas de cortes rápidos, montagens inusitadas, vinhetas repetidas à exaustão e o discurso rascante do apresentador, pontuado por gírias e criado totalmente no improviso. A fatia do público que antes era rejeitada pelo segmento se tornou a responsável pela ascensão do "estilo Leifert".

"Minha família é totalmente mulher", ele explica a facilidade em se dirigir ao sexo feminino. "Em casa, tinha dias que era só eu, minha mãe, irmã, empregadas, namorada... Mas nunca fui um womanizer. Sempre me dei bem com as mulheres, embora nunca tenha feito sucesso com elas." O método de relacionamento baseado em "escutar e dizer o que se quer ouvir" foi aprimorado na graduação em psicologia que fez em Miami. "Na classe, era só eu de homem", ele recorda. "A professora pediu que eu me apresentasse. Falei: 'Estou aqui tentando entender vocês melhor'. Virei o xodó da turma."

O iPhone de Tiago vibra no bolso - a primeira de diversas vezes ao longo da entrevista. "Prioridade, prioridade", ele interrompe antes de atender Amanda, a namorada há cinco anos. Mais tarde, confessa a ideia de se casar no final do ano que vem ou no seguinte.

"E quero ter filhos. O clássico", define, risonho.

A origem de Tiago Leifert parece ter sido repentina, como se de uma hora para outra aquele moleque franzino e falante tivesse sido descoberto brincando de fazer TV no quintal de casa. A relação com a mídia, porém, é antiga, e é essa uma das razões pelas quais ele nem sempre ter sido unanimidade. Seus críticos reclamam que ele teria nascido em berço de ouro, e que o fato de o pai ser executivo de TV teria favorecido sua subida meteórica.

"Sei o que você vai perguntar", ele diz quando menciono Gilberto Leifert, diretor de relações com o mercado da Rede Globo e presidente do Conar (Conselho de Autorregulamentação Publicitária). "Meu pai ganhou dinheiro, sou de família rica. Cara, não há nada que eu possa fazer. Não vou reclamar", ele não perde a chance de fazer graça ao fingir impaciência com o tema.

"Toda carreira é uma mistura de determinação com acaso. O fato de o meu pai trabalhar na Globo foi um acaso", ele jura, acrescentando que a ajuda paterna se limitou à indicação dos contatos certos para o envio de currículos. "Nunca pedi ajuda e ele não ofereceu. E ele sabe que eu não aceitaria se ele quisesse me oferecer."

Sem contar a experiência como repórter do Desafio ao Galo (aos 16), a carreira do Leifert-filho se iniciou em 2004, na TV Vanguarda, afiliada da Globo em São José dos Campos, onde comandou um programa jovem. A perseguição por sua origem premiada, afirma, já acontecia. "Tinha um produtor que me provocava: 'Ah, se meu pai trabalhasse na Globo...' Um dia, não aguentei e falei: 'Se meu pai fosse tão poderoso, você estaria na rua, porque eu pediria pra ele te demitir. E eu não estaria aqui trabalhando com você, que é chato pra cacete'." Já em 2006, conseguiu uma vaga no SporTV, também da Globo, onde tentou introduzir o estilo que hoje é sua marca registrada. Os problemas de adaptação continuaram, em maior proporção. "Eu já fazia as coisas de um jeito diferente. Some isso ao fato de acharem que eu estava lá por causa do meu pai: é a fórmula do desastre", lamenta. "Sofri muito. Era excluído, minhas matérias eram detonadas na edição. Pensei em desistir." Foi quando surgiu o convite para o Globo Esporte.

No dia da estreia, porém, ele jura que tinha o controle da situação. "Meu batimento cardíaco não subiu nem um bpm. Na hora, pensei: 'É isso que quero da minha vida, foi pra isso que estudei e me preparei. Não é hora de cagar de medo. Deixa o nervosismo pra depois'."

Quando bem estimulado, Tiago fala pelos cotovelos. Apesar da fase baladeira na pós-adolescência, hoje se considera um nerd apaixonado por games que dispensa o bate-papo de boteco. Reforçando o bom-mocismo, afirma (sem ser questionado) que não bebe, nunca fumou e jamais provou maconha. Diz que evita se tornar amigo de jogadores e insiste em manter privada a informação sobre para qual time torce. Em off , pede para que o segredo não seja publicado porque "senão vai acabar com o programa". "Lá fora, o âncora pode assumir o time", compara. "Aqui, por causa da minoria louca, dá medo. O cara joga no jornalista a culpa da crise no time!"

"Minha terapeuta falou que sou hitleriano comigo mesmo."

Um desavisado poderia achar que Tiago Leifert se encontra sempre com a corda no pescoço e obrigado a provar diariamente sua competência. Nada mais explicaria a maneira quase fascista com que se obriga a mergulhar nas obrigações. Um dia normal começa às 6, e às 7 ele já está diante de sua mesa no nababesco edifício da Globo, em uma rotina apressada que segue vertiginosa até a entrada ao vivo. No período, ele escreve matérias e participa da edição de cada reportagem. "Se volto cedo pra casa, uso a tarde pra caçar pautas e assistir aos jogos. Trabalho o tempo todo."

"É a missão que me deram", ele diz, solene, engolindo o sorvete da sobremesa. "Pelo formato que eu quis implantar, isso me obriga a ter uma rotina mais pesada do que a dos outros. Por outro lado, me divirto mais. Mas não sei quanto tempo vou aguentar esse ritmo."

A paixão de Tiago é muito maior pela televisão do que pelo esporte, o que ele justifica por ser "muito audiovisual" desde pequeno. "Minha família nunca teve aquela frescura de desligar a TV." Como orgulhoso homem de tradições, sempre viveu na mesma casa, no bairro do Morumbi, estudou a vida toda no mesmo colégio e confessa que tinha dificuldades em dormir fora de casa e ficar longe da família "Não era o pegador, mas também não era o maior nerd de todos. E era péssimo jogador de futebol, sempre era escolhido por último." Gastou a adolescência assistindo a TV e aprendendo a jogar bola na marra. No colegial, ligando cada vez menos para as aulas, já sabia o que queria da vida. "Era péssimo aluno, porque jogava futebol o dia todo. Quando teve a aula de orientação profissional, eu estava batendo bola. Aos 16, já sabia o que queria fazer da vida."

A vida acadêmica foi errática. Após dois anos cursando jornalismo na PUC-SP, cismou que queria estudar fora. "Disse para meu pai: 'A única coisa em que você falou que me apoiaria seria com o estudo. Então está aqui - quero estudar nos Estados Unidos'." Passou dois anos em Miami, onde finalizou, em ritmo relâmpago, os cursos de telejornalismo e de psicologia e ainda estagiou na emissora NBC. O período de privações, estresse e solidão é relembrado com sentimentos ambíguos. Quando retornou, em frangalhos, fez terapia e foi diagnosticado com transtorno de ajustamento. "A demanda era maior do que eu conseguia carregar. Quando estava melhorando, arrumei emprego na Vanguarda. E aí recomeçou tudo. Lá estava eu, me mudando sozinho para uma cidade desconhecida, mergulhado em trabalho."

Observado sob o prisma dos fatos passados e do que alcançou no presente, Tiago parece não ter motivos para sofrer com a vida que administra. Quanto mais insisto no tema da exigência a que ele próprio se coloca, porém, fica mais claro que ele não é do tipo que admite receber dividendos sem arcar com os custos. Em meio a uma avalanche de responsabilidades e sonhos realizados, a insistência e a teimosia trombam de frente com a insegurança e a obrigação de mostrar serviço por conta própria, doa o que doer. "Sem suor, sem vitória" parece ser outro dos motes que o move instintivamente.

"É mais uma responsabilidade minha", ele rechaça a necessidade de se provar a todo custo. "Se houver um erro, não será por minha culpa. Vou sempre fazer o máximo. Vou chegar mais cedo que todos, vou embora depois, vou ver todos os jogos, não vou deixar escapar."

"Nunca me imaginei apresentador, muito menos famoso", ele completa. "A TV pode ser cruel. Sou desprendido e sei que pode acabar a qualquer momento."

As próximas metas de Tiago se encontram em aberto. "Acho que meu futuro é criar ideias. Quem sabe morar nos Estados Unidos. Mas o que me impede de botar essas ideias em prática na Globo um dia? Não sei também." Vislumbrando uma solução para a dificuldade da emissora em se comunicar com o público jovem, palpito que ele poderia comandar um programa de variedades para jovens. "Eu topo. Pode ser legal", ele replica interessado, a mão segurando o queixo.

Com moral adquirida nos corredores da emissora e colecionando mais gols marcados do que bolas fora, Tiago Leifert parece consciente de que hoje seu espaço está assegurado como uma das jovens promessas do canal. "Hoje, essa é uma vantagem competitiva", ele se refere a sua pouca idade. "Mas quanto tempo vai durar? Confio na minha adaptabilidade. Mas é algo que me preocupa demais." A eminente crise dos 30 chega fulminante, e Tiago, normalmente com cara de criança, pela primeira vez naquele dia soa não como um adolescente com os hormônios à flor da pele, mas como se tivesse adquirido uns dez anos a mais. "Quando envelhecer, será que vou reparar que a piada não funciona mais? Será que vou saber dizer: 'Porra, estou obsoleto'? Isso me assusta um pouco", ele exclama. "Porque um dia vai acabar."

"Tenho medo de não perceber quando o meu tempo passou", ele diz. "Eu morro de medo, cara."