Edição 47 - Agosto de 2010

Os Anjos e Os Demônios de Mariana Ximenes

A atriz vive seu melhor momento como a grande vilã da televisão sem permitir que ninguém ultrapasse os limites de seu universo pessoal. Do que ela precisa se proteger?
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por Por Pablo Miyazawa

"Escuta aqui, sua piranha!", Mariana Ximenes grita, em fúria. A face está transtornada. O dedo está em riste. Estamos na Itália, e ela solta bichos diante de sua antagonista - no caso, uma prostituta -, mais uma entre as várias mulheres com quem a loira de cabelos cacheados e cara de anjo se confrontou nos últimos meses.

A Itália é cenográfica, o confronto em questão, fictício. Mariana Ximenes é Clara, a protagonista de Passione, novela das 8 da Rede Globo escrita por Silvio de Abreu. É a primeira experiência dela como vilã, após anos incrementando o currículo com mocinhas chorosas, garotas-problema, mulheres de personalidade forte. Má índole, boca suja com sexualidade à flor da pele, Clara é um mergulho de impacto na fulminante trajetória da atriz paulistana de 29 anos. "A inveja, a raiva, a ganância - é catártico se envolver com isso", ela exulta. "São sentimentos que eu, como Mariana, não acho bom ter contato. Mas é legal por causa do personagem."

Horas antes, Mariana já havia me dado sinais de como se desenvolveria a sequência a que eu assistiria ao vivo naquela noite. "Hoje tenho uma cena que você vai ver", ela comenta, ao volante do carro. Em um átimo de segundo, parece ligar um botão imaginário no cérebro. As mudanças nas feições perfeitas e amenas são imperceptíveis, mas estão lá. "Escuta aqui, sua piranha!", ela impõe o tom de voz vulgar característico da personagem. "Olha aqui, sua vagabunda!" Saindo do transe como que num estalo, complementa: "E tem outra fala que é engraçada: 'Pra ser vigarista é preciso talento'".

Figura central da novela mais assistida da TV brasileira na atualidade, profissional querida nos corredores da maior emissora do país, Mariana se vê em uma posição única na carreira que construiu com um misto de sonho de infância, planejamento, senso de oportunidade e pitadas de acaso. "Sempre desejei o ofício de ser atriz. Fazer personagens diferentes, trabalhar com pessoas bacanas que me instigassem, provocassem, ensinassem."

Assista abaixo ao making of da sessão de fotos com Mariana Ximenes:

Aquela quinta-feira de trabalho começou às 14h30 para Mariana, com um encontro marcado para um restaurante/café próximo à sua casa, no bairro carioca da Gávea. Ela chega 30 segundos após o horário, sorridente sem parecer esbaforida, desligando os dois celulares para não ser incomodada. Nem precisaria. A mesa escolhida por mim, em um canto próximo ao banheiro, não parecia fazer parte da área de cobertura das operadoras de celular do Rio de Janeiro. Ela é naturalmente vistosa, mesmo sem maquiagem, e não parece tão alta quanto na TV (tem 1,65 metro). É magrinha, veste jaqueta, calças confortáveis (algo entre jeans e traje de ginástica), tênis e camiseta em que se lê "Elvis". "Vim inspirada", aponta a estampa, indicando que a ideia veio de um documentário sobre Janis Joplin que assistira na noite anterior. "A Janis me toca. É tão libertária a maneira de ela falar as coisas."

Habitual da casa, Mariana pede pão com manteiga e café. Recomenda para mais tarde um bolo de laranja de que é fã e avisa que temos até as 15h30. Depois, iremos nos deslocar sem pressa até o Projac, o centro de produções da Globo, onde irá gravar suas cenas do dia.

Para falar sobre o presente, um caminho possível é retornar ao passado. Mariana começa me dizendo que a mãe (Fátima) é fonoaudióloga, e que a preocupação de colocar bem a voz sempre fez parte de sua busca como atriz. "Ainda mais esse personagem que tem tantas modulações e facetas", ela fala sobre Clara. "Faceta" parece ser uma boa palavra para utilizar em se tratando do ofício de Mariana Ximenes. Comento que se um desavisado assistisse à Passione pela primeira vez no dia anterior acharia que a personagem de Mariana é "do bem".

"É uma delícia ouvir isso", ela sorri. Me soa sincera.

Ninguém nos interrompe, uma atitude praxe do carioca acostumado a conviver com estrelas globais, mas o casal da mesa ao lado parece prestar atenção ao discurso da atriz, mesmo em volume baixo e tom relaxado. Não consigo distinguir o quanto de paulista ainda resta em seu sotaque. Ela arrasta o "r", percebo, um sinal inevitável dos quase 12 anos morando na cidade.

"Olha. Esse aqui foi handebol", ela me mostra rapidamente o dedo levemente torto da mão esquerda, consequência de uma bolada jogando na adolescência.

Mariana viveu a infância em uma rua de paralelepípedos no bairro da Vila Mariana em São Paulo, poucas casas distante da residência da avó. Nascida em 1981, ela é um exemplar de uma geração que cresceu acostumada a brincadeiras de rua (com o irmão, Rafael), a pesquisas escolares em enciclopédias e não assim tão confortável ao uso do computador. O primeiro endereço de e-mail - "um hotmail" -, fez só aos 19, 20 anos. "Não tenho Twitter nem Facebook, e até acho que deveria aderir, mas ainda não me organizei pra isso." Mariana hesita antes de prosseguir - a primeira vez de muitas ao longo do dia. "Penso na minha privacidade, para mim e meus queridos. Esses veículos expõem muito. O privado é tão nosso, né? Nossa individualidade é tão preciosa."

Fica claro que a vida pessoal é o principal tabu em se tratando de destrinchar a pessoa pública que é Mariana Ximenes. E ela mesma se adianta em explicar, como que avisando o que eu poderia esperar dela. "Nos meus personagens, eu faço tudo: eu choro, eu faço sexo, eu sofro, eu grito, sinto raiva. Tudo. Agora, me parece excessivo fazer isso também na vida pública."

"Tem mais uma manteiguinha?", ela pede ao garçom.

Para amenizar, relato a ela nossas coincidências de vida. Também cresci no mesmo bairro, frequentei uma escola próxima da dela (estudou a vida toda no tradicional Arquidiocesano), participamos das mesmas olimpíadas intercolegiais. É a deixa para ela mencionar a vida estudantil pouco errática. Nunca levou suspensão, mas também não era a melhor aluna. "Era uma escola rígida. No último ano eu já fazia novela, e eles falaram que se eu perdesse mais um dia, iria repetir de ano." Só ficou de recuperação no colegial. "Em química", diz, mordendo o pão quente. "Até hoje me pergunto: física a gente até usa. Mas química?" Da experiência escolar, aproveitou as aulas de literatura e imaginava cenas de dramaturgia com personagens históricos. Ela também relembra a facilidade com desenho e artesanato e que, quando criança, mobilizava a família para assistir às peças que montava. O pai, José Nuzzi Neto, é advogado, mas estimulou o gosto pelas artes dentro de casa.

"Falando isso, me veio outra imagem", e ela relata o exercício que faz para mergulhar em um personagem. "Quando tenho que falar da minha vó na novela, penso na imagem dela. É tão mais fácil o canal. Em vez de ficar presa ao texto, vou pras imagens que ele sugere."

"Vou querer meu bolinho. Vamos dividir?" Agilizada, vai ela mesma fazer o pedido no balcão do restaurante já vazio. E sob protesto, permite que eu pague a conta.

O tucson preto desliza pela úmida e sinuosa Via Niemeyer. Mariana dirige com cuidado displicente, admirando a paisagem e segurando o volante com uma mão só. O tempo está nublado, o que dá uma coloração acinzentada - mas não menos admirável - para as ondas que quebram sem descanso.

"Olha que lindo, olha que lindo!", ela indica o mar calmo pelo lado esquerdo de sua vista, concordando que minha escolha pela rota mais longa havia sido acertada. "Nublado é outra paisagem. Não acho triste. É diferente", diz. "É uma das vantagens de se morar no Rio."

Diariamente, Mariana percorre sozinha os 20 e poucos quilômetros que separam a Gávea do Projac, onde bate cartão às vezes até nos fins de semana. A viagem de quase uma hora de duração nunca é realizada em silêncio: ou ela canta um dos 50 CDs espalhados desorganizadamente pelas cavidades do carro, ou aquece as cordas vocais com exercícios, ou reproduz os textos das cenas que irá gravar. Naquela tarde - "atípica", diz ela -, serão apenas duas cenas. Na sexta-feira, serão 28.

Ao longo de meu dia como sombra de Mariana, percebo que ela faz questão de mostrar o quanto sua vida é semelhante à de outros mortais menos famosos. No caminho para o estacionamento, andamos de guarda-chuva em punho em meio a pedestres que fingem ignorar sua presença. A única pessoa que a aborda também é famosa, a amiga e atriz Maria Flor, com quem troca abraços e uma breve conversa. Mariana vive há poucos meses na região relativamente tranquila e livre dos paparazzi, após longo período morando em Ipanema com o ex-marido, o produtor de cinema Pedro Buarque de Holanda. Mas não falamos sobre esse assunto nem naquele momento, nem depois. Nenhum tema é assumidamente proibido, mas o recado me é transmitido de modo sutil e em momentos distintos. O primeiro sinal vem quando pergunto se ela sempre lidou bem com a imprensa.

Até hoje, eu lidei." Pausa. "É lógico que não gosto de ver minha vida exposta. Existem coisas não autorizadas. A pessoa tem que manter um mistério, é mais interessante." A alegação que vem a seguir soa como um déjà vu de minutos antes. "Não dá pra não falar sobre certas coisas, não quero me esconder. Mas quero lidar de uma maneira saudável e espontânea. Eu vivo minha vida, sabe? Normal, natural", diz, com um sorriso perfeito.

Felizmente (ou infelizmente para o entrevistador), Mariana sempre retorna ao fio da meada. Metódica, ela gosta de organizar o assunto da conversa. E parece só falar sobre o que quer. A interação é realizada sempre com os olhos verde-azulados fixos nos olhos de quem a questiona, que deixam à vontade, mas também intimidam. Tudo parece fazer parte de um calculado mecanismo de defesa há muito treinado e que tem se mostrado eficiente na manutenção de sua tão estimada privacidade. Dá a impressão de ser uma mulher que sabe se defender quando atacada, mas de uma maneira tão sutil que desarma, e não exatamente incita um novo ataque.

Porém, estimulada pelo fluxo constante de indagações, Mariana fala sem descanso, intercalando com pausas para se atentar ao tráfego e fornecer comentário sobre locais que poderiam me interessar no Rio. Comenta sobre os discos que carrega para a trilha sonor a da rotina, de Nirvana a Wilson Simonal, de Smiths a Henri Salvador. "Estou morrendo de vergonha que não arrumei o carro", ela se desculpa, enquanto descubro pilhas de discos sem capa no porta-luvas. A bagunça em um carro, digo a ela, diz muito sobre cada pessoa (mas não especifico o quê). Ela acha graça, de um jeito que você não esperaria que uma atriz de fama nacional lhe tratasse.

O percurso é longo, e há tempo de sobra para jogar conversa fora. Música, viagens, artes, tea-tro. E, como boa companhia de papo, Mariana responde imediatamente aos meus comentários que supostamente não deveriam lhe interessar "Que bom que você mora perto do trabalho, pode ir andando, sente a liberdade!", ela comenta, quando alego que vivo a cinco minutos da redação da Rolling Stone.

"É apaixonada pelo Rio?",provoco com uma questão banal, sobre a cidade onde ela vive desde 1999, onde aprendeu a dirigir, fez o batismo no curso de mergulho e construiu uma carreira sólida na TV.
"Sou. Mas sou apaixonada por São Paulo também ", gargalha, confirmando a característica de jamais se comprometer em suas opiniões. "E gosto muito de Salvador também. Passei quatro meses morando lá."

Mariana não fala nada de graça, não desperdiça uma linha de pensamento, como se a imagem e intimidade que tanto preserva dependessem da qualidade das palavras ditas. Ela pondera, segura a intenção antes de proferir qualquer afirmação que exija um posicionamento. Mas cada resposta, mesmo que pausada, vem carregada de delicadeza e é seguida de uma risada agradável, de amiga de boteco.Se sentiu desagrado com alguma indagação, ela jamais me admitiria. E, mesmo que suas respostas não sejam das mais reveladoras, é impossível alegar que ela não esteja colaborando.

Atriz desde os 13, Mariana Ximenes do Prado Nuzzi nunca quis fazer outra coisa na vida. A primeira oportunidade, um comercial de pasta de dentes, veio acompanhada de fascinação e aprovação - ainda descrente - dos pais. "Minha mãe queria preservar minha infância. O medo dela era eu eu não viver essa fase que só se vive uma vez". Mais testes para propaganda apareceram, e ela então pré-adolescente interpretou as experiências como tarefas com relances de brincadeira. "Tinha a responsabilidade, decorar o texto, chegar na hora marcada, mas ao mesmo tempo tinha a prática, câmera, iluminação, aquele mundo de g ente trabalhando." Os cachês eram guardados e patrocinaram o intercâmbio de três meses na Inglaterra, que realizou aos 16 anos. "Os pais é que dão o limite", ela ensina. "A educação é isso, é amor, afeto, educação e limite. Tem que ter."

Na adolescência, Mariana não exerceu o papel de contestadora dos pais, que, segundo ela, resolveram impasses com firmeza, delicadeza e coerência. "Eu tinha uns 5 ou 6 anos e perguntei pra minha mãe: 'Quando vou poder beijar?' E ela: 'Você adora goiaba, né? Vai lá, pega essa goiaba, morde'. 'Mas, mãe, es está verde', respondi. E ela: 'Você ainda está que nem essa goiaba para beijar. Você vai amadurecer'."

Aos 17, Mariana se viu com um bilhete premiado em mãos: a chance de morar sozinha no Rio, para atender a um convite para sua primeira novela global, Andando nas Nuvens. A aprovação no vestibular para o curso de cinema dificultou a decisão, mas ela tinha certeza de qual caminho trilharia, mesmo com os conselhos do pai sobre a importância do curso superior. "Eu disse: ' Vocês têm duas opções: mas terão uma pessoa profundamente amargurada. Ou podem permitir e me orientar. Vou consciente e com essa responsabilidade. E eles deixaram."

Se Mariana se sentia madura para encarar o desafio? "Vou te falar, não me lembro exatamente. Mas suspeito que não tinha essa consciência tão clara", afirma. "Hoje, vejo as coisas com mais clareza. A gente não sabe nada nunca. A gente pode sentir, fazer uma lista de vantans e desvantagens, mas quem vai decidir é sempre seu coração. E é assim que levo a minha vida."

Ela continua no tema. "Mas lembro de tomar decisões conscientes. Se tem uma festa maravilhosa hoje, e amanhã tenho 30 cenas pra gravar, não vou à festa hoje, não posso ir. A gente conversa ali, diabinho e anjinho, fazemos uma negociação...", ela ri, indicando nos ombros os locais onde se escondem os amigos imaginários que a aconselham nos momentos de tentação.

Os CDs são trocados rápido. Agora, é o Pink Floyd quem toca alto e Mariana faz menção de baixar o volume. Ela só se cala quando precisa prestar atenção ao caminho. No Rio ela já é praticamente local, desbravando a cidade sem preguiça para conhecer novos restaurantes que vai me indicando criteriosamente. Apesar de curtir ficar em casa, não se priva de sair, mesmo correndo o risco de ser flagrada lentes curiosas em alguma situação particular. Penso nas notícias recentes que apontam que ela teria engatado em um relacionamento (não assumido) com o empresário Santiago Bebiano, e imagino o quão desagradável deve se e preocupar com fotógrafos quando se preza tanto pelo anonimato. Algumas ruas antes do Projac, eu insisto: "Você parece lidar perfeitamente com a celebrização, não?" "Perfeitamente...", ela repete a palavra capciosa sem tir ar os olhos da pista. "Sempre quis ser atriz, mas não necessariamente ter fama. Uma coisa pra mim não é sinônimo de outra. "E, quase sem querer, retomamos o tópico assombrado. " A gente tem essa cultura de celebridade. Você aprende a se preservar. Paparazzo é muito chato. Mas também, você vai se privar de viver sua vida? Infelizmente, só existe isso por que as pessoas consomem veículos que têm abordagem na vida pessoal", ela reclama, deixando óbvio que já se desagradou anteriormente com coisas que leu sobre si própria. "Antes, não tinha isso. Importante era sua obra, o valor artístico e não sua vida pessoal."

"E eu não acho que preciso saber quem foi a um restaurante tal. Tenho que saber da minha vida!" Só então ela desliga o carro já estacionado no Projac e dá Nfim ao discurso musical de Caetano Veloso.

Na sala de maquiagem do estúdio de Passione, Mariana me apresenta à multidão como "meu amigo". A barulheira é ininterrupta e amigável, com um vai e vem infinito de famosos e anônimos que faria qualquer fã exultar de excitação. Atores e atrizes passam tranquilamente vestindo roupão e chinelos. Um aparelho de TV pendur ado retransmite o tal documentário sobre Janis Joplin, enquanto Mariana recebe um tratamento par a ganhar cachos em suas mechas aloiradas. Um calhamaço com o texto da novela, pintado com canetas fluorescentes e marcado por papéis coloridos, se mantém intacto em seu colo, mas ela não faz menção de folheá-lo: o texto já fora decor ado em casa. Preocupada, a anfitriã me pergunta se estou confortável ou se tenho fome, fazendo ques tão que eu permaneça à vista enquanto o corre a transformação de "Mari" para "Clara".Me indicando cada cabeleireira e maquiador, Mariana cita o quanto adora todos que trabalham com ela na Globo. "É que nem no colégio. Você passa mais tempo com essas pessoas do que com qualquer outra."

Mais membros do elenco aparecem e reforçam o oba-oba organizado. Germano Pereira, um rapaz ruivo e barbado que interpreta Adamo, surge no camarim e me pergunta: "Agora sei como a Mariana consegue dar entrevista. Hoje ela comeu? Então foi o primeiro dia da semana em que ela comeu." Mariana sorri, cercada por seis mãos embelezadoras. "É que eu gravo muito e não paro pra comer. Mas sou boa de garfo", jura.
Já em outra sala, Mariana aproveita o processo de maquiagem para meditar antes de entrar em cena. Por pouco tempo. Quando Irene Ravache entra no camarim e expressa uma dúvida sobre horários de voos para São Paulo, Mariana imediatamente se prontifica a ajudar . Rodrigo Lombardi surge e aborda Mariana com um beijo na testa. Ela me aponta que o ator, assim como ela, também é um paulistano vivendo no Rio.
"Ela já é 'paurioca', né?", Lombardi brinca, usan-do um termo inventado. "Mas falei que tenho uma porção baiana", ela complementa.

O assunto da vez é a gravidez da manicure que cuida das unhas da a triz, mas naquele instante Mariana não esboça interesse especial sobre o tema. Aos 29 anos, completados em 26 de abril, filhos ainda não se encontram nos planos imediatos. O relógio biológico não bateu a ponto de incomodar, mas "dessa água vou beber, com certeza", ela me afirmaria mais tarde.

O capítulo a ser gravado será exibido seis dias depois. De olhos fechados, Mariana aproveita o toque do maquiador em sua face lisa para repassar o texto na cabeça. Ela mesma aplica o curvex nos olhos (o que me dá certa agonia masculina) e aponta os cílios já arrebitados do lado direito. "Dá para ver a diferença?", me pergunta. Exceto pelo cabelo preso com um coque em uma rede, Clara já está ali, diante de mim. Mas quem conversa ainda é Mariana.

A entrevista prossegue em uma sala reservada aos ensaios dos atores. Mariana pergunta se me importo que ela repasse a cena com Marcela Valente, sua antagonista na tal cena da "piranha, vagabunda". No sofá, elas recitam -Mariana tropeça em umas frases, Marcela capricha no sotaque italiano. A sequência seria elaborada mais agressivamente depois, com as câmeras ligadas.

"Eu tento ter consciência em cena" , Mariana agora explica seu modus operandi. "Tem cena que você ensaia de um jeito e acontece outra coisa. E às vezes você sente uma coisa na hor a. O maior exercício do ator é saber ouvir, porque você reage de acordo."

Tem rituais pré-cena? "Só alongamentos, exercícios com a voz. " Ela também costuma saudar uma santa colocada no estúdio pela diretora Denise Saraceni, além de se valer de terços comprados em viagens.
Mariana pede para ir ao banheiro. Quando volta, com os cabelos soltos, a transformação é notável. Até o olhar é diferente. Pergunto como é esse negócio louco de entrar e sair de um personagem. "A gente tenta ter a 'chavinha'. Num dia com 30 cenas, não consigo nem falar ao telefone, fico concentrada. Mas saiu daqui, já é a Mariana." Já levou emoções para casa? "Não muito, procuro dar tudo em cena. Talvez quando acabe eu precise de cinco minutos par a voltar. Mas, chegando no camarim, já foi. " E costuma se assistir? "Gravo a novela e vejo antes de dormir. É bom, porque analiso se estou no caminho certo. Sou perfeccionista."

Com mais de uma dezena de novelas (antes de Passione, ela foi Lara em A Favorita, de 2008), diversos filmes (Quincas Berro D'Água é o mais recente) e um punhado de peças no currículo (ela voltará aos palcos após o fim da novela), Mariana é hesitante ao escolher qual o meio preferido par a executar sua arte. A bola da vez, n turalmente, recebe mais confetes. "Novela é bacana por ser uma obra aberta. Você pode cometer um deslize numa cena e consertar lá na frente. O ator ganha estofo porque pode moldar sutilezas."

"Uma peça é a mesma coisa,"ela prossegue, "mas sem- pre muda. O público reage diferente, você está diferente naquele dia. Filme é obra fechada, então se trabalha de outro jeito. Em novela, você não sabe como será o destino do personagem. Você resolve capítulo por capítulo."

O fluxo é interrompido pela batida na porta. Um membro da equipe con voca Mariana. "Estou indo", ela
Savisa, sem muita pressa para deixar Clara tomar lugar.

São 22h e a promessa do jantar em um lugar especial obriga Mariana a nos conduzir em uma longa viagem do Projac até a Lapa. No menu, cordeiro com arroz e brócolis no restaurante Nova Capela. a. "É aonde costumo levar meus amigos", ela comenta, lisonjeira, antes de sussurra: "É difícil ver uma matéria legal. E, mesmo você se empenhando, às vezes é mal interpretado. Ou o jornalista já tem um enfoque pronto e você cai numa armadilha. Mas sempre entro de peito aberto".

Começo a ficar realmente incomodado com a pressão de não cair na vala comum de jornalis tas que já aborreceram Mariana Ximenes. Ela parece cansada, mas não quer demonstrar. Além de falar por quase oito horas - salve a pausa para executar suas cenas -, ela encontrou tempo conceder entrevista ao Vídeo Show , no qual discutiu justamente o sucesso de sua primeir a vilã. O caminho de volta é o mesmo da ida, e o trânsito já não é problema.De noite,o Rio de Janeiro continua lindo, assim como o visual proporcionado pela Via Niemeyer.

Comento sobre os procedimentos que presenciei mi- nutos antes de ela entrar em cena, e se foram aprendidos no Teatro Escola Célia Helena, tradicional curso profis- sionalizante paulistano que a formou. Antes de pisar no cenário que simula um quarto de dormir de uma casa italiana, a atriz dedicou minutos a um instigante ritual que envolveu intensos alongamentos de corpo e ruídos ritmados com os lábios e a língua. Ela confirma que tais técnicas vieram das aulas de teatro, e que, apesar de jamais ter feito curso de TV, aprendeu o que sabe na prática. E sorri quando digo que ela confirmou ser a pessoa disponível que dava a entender que era. "Ser previsível o tempo inteiro também não é legal. Uma pitada de mistério é sempre bom", diz. Percebo que ela não está mais de aliança no dedo - o adereço fazia par te de Clara, que na novela se casou com Totó, o personagem de Tony Ramos. De sua parte, ela não sabe se um dia casaria na igreja, pós oito anos de união sem papel passado. Sobre a relação findada, só transmite as boas lembranças. "A vida a dois tem que ser a dois. Sempre tem que ceder, e às vezes não ceder. Tem que ter um equilíbrio."

Alegria e realização são ingredientes frequentes da mistura de vida de M riana, mas ela ressalta, não de um jeito "Poliana". "Eu tento virar o jogo quando as coisas estão ruins. Mas não dá pra maquiara dor, porque ela está lá. E também não é bom ignorá-la, até porque um dia ela vai cobrar, com juros e correção monetária." As sessões de análise que pratica há anos também aju- dam a lidar com essas "pendências", ela diz, guiando o carro automático com uma das pernas dobradas sobre o banco de couro. Com a luz acesa, me pede pra procu- rar a faixa "Hallelujah" no CD de Jeff Buckley.

"Você percebe que as pessoas te tratam diferente por ser famosa?", tento de novo atravessar uma superfície aparentemente impenetrável. O silêncio vem e inibe, mas sei que ela só está projetando a maneira adequada de se expressar sem ser mal compreendida.

"Depende da postura com que você se coloca. Se é de uma maneira natural e espontânea... Busco ser mais o pé no chão possível. Se você se coloca normal, passa despercebida. Está dentro do contexto e se mistura."

Como se quisesse provar um ponto, Mariana mostra, somente para meus olhos, o que significa se colocar apropriadamente dentro de um contexto. Na Lapa, ela negocia uma vaga para estacionar com um guardador de carros cheio de marra. O jeito despachado e sem rodeios com que Mariana se comunica a faz soar novamente (e espontaneamente) como Clara. Ou talvez fosse só impressão minha. Na calçada, o garoto pede autógrafo. Ela não se faz de rogada e assina na gola da camiseta puída. Malandro, ele solicita mais uma lembrança ba regata que veste por baixo. Coma mão apoiada no torço do rapaz ela elabora um rabisco maior. "Me dei bem. Ela encostou a mão em mim!", o moleque comemora, satisfeito com a própria esperteza. A musa nem se abala.

O alardeado cabrito supera as expectativas. A tentação de beber um chope é suprimida - ela é a motorista da vez e a lei local não permite exceções para famosas em dia de serviço à imprensa. "Olha os bichinhos no ombro", Mariana aponta o diabo invisível. "Quero tomar um chope, mas... não! Lei Seca!" Os talheres caem no prato. "Comi bonito, não comi?", ela diz. Na mesa, a sonolência bate forte como um caminhão.

Entendo o recado como a última chance de me aventurar por mares nunca antes navegados da vida de Mariana Ximenes. Explico minha intenção, a de compreender esse lado mais obscuro e misterioso da atriz. Ela me encara com os olhos verdes bem acesos e nada diz, como que esperando por uma conclusão. Os segundos que precedem o esporro parecem durar horas.

"Para interpretar uma vilã, não basta fazer laboratório ou estudar outras pessoas. É preciso tirar alguma coisa de dentro de você...", eu afirmo, mais do que pergunto.

"Você tem que entrar em contato com o canal certo", ela entrega. "Por exemplo, para fazer uma cena de morte, você não precisa morrer. Pra fazer uma cena se queimando, não precisa se queimar. Para fazer uma cena de trepada, não precisa trepar. Afinal de contas, tudo é ficção. É encontrar uma embocadura pra a `piranha! Vagabunda! Vou te matar!' Boto tudo pra fora, encho a boca pra xingar. Na vida real não faço isso. "Aconteceu de novo: Mariana deixou Clara tomar conta por uns segundos, e confesso que a cena é incrível de presenciar.

O que tem de Clara em você? "Não foi fácil encontrá-la", ela diz, explicando que precisou buscar posturas e atitudes en seu lado irracional. " Ela é despachada. Agressiva. Perversa. Como é que alguém vulgar fala? Não ter pudor com o corpo. Andar de um jeito despachado. Tentei usar meus ins trumentos, corpo, voz, atitude, para achá-la em mim."

Nessa hora, devo parecer excessivamente insistente, mas que assim seja. "E você encontrou coincidências, semelhanças entre a Mariana e a Clara?"

Ela pensa, olha, não responde, confabula. Pelo menos nos até onde nos é permitido saber, Mariana nada tem de ruim ou negativo para revelar. Nunca teve vontade de mandar alguém para o inferno, só brigou na escola, nunca cometeu um ato de maldade. Mas sabe que Clara, assim como todo personagem, irá lhe deixar marcas profundas. "É mais uma possibilidade que consegui alcançar. De que forma vai ser instigante pra mim? Como vou fazer diferente? Como vou virar o jogo? O que vou experimentar de novo ? Em cena, pode tudo. Não tem pudor, não tem limites. Você deixa a emoção do personagem te tomar, a energia da cena te conduzir."

O relógio é impiedoso. "Meia-noite? Gente, amanhã acordo cedo." Mariana está exausta, fala há quase dez horas, o dia seguinte será cheio. Deixo que ela pague a conta, faz parte do trato. "Olha que tenho boa memória, hein?", ela faz questão de avisar, com uma piscadela.

Caminhamos até o carro.Na avenida Mem de Sá, nem parece ser tão tarde. O samba come solto e em alto volume. As prostitutas continuam a aguardar por serviço na mesma esquina. A boemia circula apressada, deslizando de bar em bar. E ninguém repara em Mariana Ximenes, afinal aqui é o Rio. E após dez horas convivendo lado a lado, tenho a sensação inevitável de que sei menos sobre ela do que imaginava saber anteriormente. Ou é possível que nenhum de nós saiba tanto quanto se pensa. E talvez seja melhor continuar assim mesmo.