Edição 50 - Novembro de 2010

A Batalha do Facebook

Em 2008 o Facebook possuía 70 milhões de usuários e seu fundador, Mark Zuckerberg, era acusado de ter roubado ideias de colegas de faculdade. A história foi investigada pela Rolling Stone EUA e publicada em junho daquele ano. Hoje o Facebook acumula 500 milhões de perfis e a saga de seu criador se tornou tema de filme de Hollywood
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por Por Claire Hoffman

É uma tarde ensolarada no centro de Palo Alto, Califórnia, e dentro das paredes grafitadas do quartel-general do Facebook, trabalhadores estão pendurando luzes e arrumando as mesas para as taças de champanhe. Amanhã à noite, haverá uma festa para celebrar o aniversário de 4 anos do Facebook. Mas em um prédio próximo - um dos estilosos escritórios do site de rede social não muito distante do campus da Universidade de Stanford - o fundador da companhia está alheio às preparações.

Mark Zuckerberg, cabeça do império Facebook, está sentado na segurança de um pequeno escritório envidraçado, curvado sobre uma caixa de poliestireno com comida para viagem. Parece muito mais um garoto dentro de uma bolha do que o CEO de uma corporação que vale tanto quanto a General Motors. Com apenas 24 anos, Zuckerberg tem cara de bebê, pescoço bem longo e orelhas grandes. Desde que colocou o Facebook no ar de seu dormitório em Harvard quando ainda cursava o 2º ano, em 2004, ele foi eleito pela revista Forbes o mais jovem bilionário do mundo. Ele fez essa fortuna ao criar o Facebook para ser fácil de usar e viciante como droga. Todos os dias, milhões de usuários se conectam para espiar os perfis de seus amigos e postar uma rica quantidade de informações sobre si próprios: números telefônicos, gostos, agendas românticas. Zuckerberg e sua equipe trabalham para extrair todas essas valiosas informações dos consumidores para vorazes anunciantes. Com o número de usuários crescendo na razão de centenas de milhares por dia, não é de se surpreender que Zuckerberg tenha sido taxado como o "Bill Gates desta geração", outro garoto prodígio desistente de Harvard que mudou a cultura e acumulou riqueza e poder em grandes proporções. "Se vai haver outro Bill Gates", diz o ex-presidente de Harvard Lawrence Summers, "Mark é o mais próximo disso". E, como Gates em seu início de carreira, Zuckerberg enfrenta sérias alegações de que sua criação foi baseada em ideias roubadas.

Em um processo que um juiz descreveu como uma "briga de família", três estudantes de Harvard alegaram que Zuckerberg surrupiou suas ideias depois que contrataram o rapaz para programar um site de rede social que eles estavam criando. "Fomos passados para trás homericamente", atestou Divya Narendra, um dos estudantes. E, em abril de 2008, outro colega, Aaron Greenspan, entrou com uma petição de cancelamento da patente do Facebook, alegando que havia inventado um serviço similar meses antes.

As disputas legais pelo império de Zuckerberg pintam um retrato curioso do homem que se colocou como o responsável por nosso futuro social. Uma das mais populares ferramentas sociais do mundo foi lançada por um brilhante nerd solitariamente sentado em um quarto de dormitório. De seus dias na Phillips Exeter Academy, onde era conhecido como o melhor programador da escola, Zuckerberg se alimentou de uma poderosa combinação de isolamento e senso de direito para superar seus companheiros. Ele é um supernerd nitzchiano da era digital - um universitário que passou a perna no sistema, impulsionado pela compreensão primária de como programar computadores para servir às necessidades humanas. Teria o império da rede social de Mark Zuckerberg, como tantas outras grandes fortunas na história, sido fundado através do crime?

O Facebook pode ter nascido sob circunstâncias controversas, mas há um momento inquestionável em sua concepção: uma terça-feira à noite em Harvard, em que um garoto prodígio de 19 anos sentou-se em frente a seu computador, deprimido, sozinho e prestes a ficar bêbado. Era o outono de 2003, e a World Wide Web estava apenas começando seu caso de amor com as redes sociais.

Em momentos de necessidade, duas coisas haviam feito Mark Zuckerberg perseverar: um obsessivo amor pela tecnologia e uma quase implacável veia competitiva (entre seus interesses pessoais, ele certa vez listou "derrotar meus adversários"). Sua relação com computadores vem desde a 6ª série, quando conseguiu sua primeira máquina e comprou uma cópia do guia de programação C++ para Principiantes. Na 9ª série, mergulhando de cabeça no curso de latim, ele havia criado uma versão computadorizada do jogo de tabuleiro War, ambientado no Império Romano. Estava sempre imaginando pequenas ferramentas capazes de fazer tudo mais rápido, "bobeiras", como ele as chamava. Em seu último ano em Exeter, ele e o colega de quarto, Adam D'Angelo, programaram um software para um MP3 player que era capaz de aprender o gosto do ouvinte e construir uma biblioteca digital baseada em seleções anteriores. Várias companhias mostraram interesse no aplicativo, mas D'Angelo e Zuckerberg não tinham intenção de vendê-lo. Eles não se importavam com dinheiro. Importavam-se com o código.

Mas em Harvard, Zuckerberg viu-se cercado por centenas de calouros cujos currículos eram tão impecáveis quanto o dele. Era apenas mais um na multidão. No segundo ano, ele havia se refugiado no domínio onde ficava mais à vontade, construindo um site chamado Coursematch.com que permitia que os estudantes fizessem inscrições online nos cursos e vissem quem mais estava se inscrevendo para a mesma classe. O projeto terminou de maneira abrupta - Zuckerberg rodava o site a partir de seu laptop, que logo travou por conta da demanda. Mas a experiência lhe ensinou uma lição importante: o que acontecia online não tinha a ver apenas com programação. Tinha a ver com o que funcionava bem com as pessoas. A despeito de sua virtuosa habilidade de programação, Zuckerberg resolveu não cursar ciências da computação. Em vez disso, escolheu psicologia.

Os cursos não o ajudaram em sua vida pessoal. Sentado em seu dormitório naquela noite de 2003, Zuckerberg havia tomado um fora de uma garota recentemente. Ele começou a beber e mais uma vez procurou abrigo no reino que jamais o havia deixado na mão. Conectando em seu blog, criou um post chamado "Harvard Face Mash: The Process". Seu plano era tão simples quanto vingativo: criar um site chamado Facemash.com, invadir os arquivos de Harvard, baixar fotos de seus colegas de classe e postá-las ao lado de fotos de animais de fazenda para dar notas e eleger o mais atraente.

Às 11h09 da noite, a invenção estava a todo vapor. Zuckerberg passou a noite toda hackeando, invadindo os dados privados de cada um dos residentes de Harvard e colocando orgulhoso posts em seu blog sobre seus feitos a cada passo. Foi um sucesso imediato. Na primeira noite, mais de 450 pessoas se cadastraram, resultando em 22 mil visitas. Em questão de horas, oficiais da escola rastrearam Zuckerberg e bloquearam seu acesso à Web. Mais tarde, em uma audiência diante dos administradores de Harvard, ele foi acusado de violar a privacidade dos estudantes e baixar propriedade da escola sem permissão.

A notoriedade acabou sendo a melhor coisa que já havia acontecido a Zuckerberg. Depois de escapar com apenas uma advertência, ele voltou a seu dormitório, abriu uma champanhe e comemorou com os colegas de quarto. Sua reputação no campus como programador renegado estava cimentada. Mesmo cercado de todos os estudantes de alto nível de Harvard, Zuckerberg finalmente tinha uma identidade. E também havia aprendido uma lição inestimável. "As pessoas", resumiu mais tarde em um testemunho, "são mais voyeurísticas do que eu havia imaginado".

Zuckerberg não era o único estudante de Harvard explorando o potencial da Web em unir as pessoas. Por todo o campus, estudantes pensavam em meios de usar essa nova ferramenta para tornar online as conexões pessoais que pareciam tão elusivas para eles na vida real. Dez meses antes de Zuckerberg lançar o Facemash, um estudante do 3º ano de Harvard chamado Divya Narendra havia tido a ideia de criar uma rede social voltada para estudantes universitários. "Eu e meus amigos sentíamos que havia barreiras demais e falta de tempo disponível para os estudantes de Harvard se relacionarem socialmente", relembraria ele. Narendra disse a dois colegas de dormitório, os gêmeos idênticos Tyler e Cameron Winklevoss, que tinha uma ideia para uma comunidade online para estudantes de Harvard, com acesso garantido apenas para aqueles com email da universidade. Os gêmeos instantaneamente reconheceram o potencial da ideia. Ao contrário de Narendra e Zuckerberg, os Winklevoss eram atletas universitários: altos, loiros e bem talhados, faziam parte da equipe de remo de Harvard e competiam internacionalmente. O pai dos dois, Howard Winklevoss, era um rico consultor financeiro que havia incentivado suas habilidades atléticas.

No decorrer de 2003, Narendra e os gêmeos trabalharam no site, contratando vários outros estudantes para ajudá-los na programação. Mas no outono o site ainda não estava pronto. Então, em novembro, os empreendedores, que haviam ouvido falar da ascensão e queda do Facemash de Zuckerberg, decidiram contatar o prodígio da programação e pegar um pouco de seu embalo.

Pelo telefone, Narendra contou a Zuckerberg que o site - chamado Harvard Connection - teria duas seções: "encontros" e "contatos". Os estudantes poderiam postar fotos de si mesmos, colocar informações pessoais e pesquisar links. Narendra e os gêmeos queriam que Zuckerberg fizesse dez horas de programação; em contrapartida, os três alegam que ofereceram a ele uma parte da companhia. Naquele mês, Zuckerberg se reuniu com seus parceiros e concordou em trabalhar no site.

Mais tarde, Zuckerberg alegou que não confiava na habilidade de seus sócios de tocar o projeto. "Meus amigos de escola mais ineptos socialmente teriam uma ideia melhor sobre o que atrairia as pessoas para o site do que esses caras", ele desprezou, em um depoimento. Mas, em seus e-mails da época, Zuckerberg tinha um tom conciliador. "Estou com boa parte da programação pronta", assegurou em novembro. Nos dois meses seguintes, continuou dando desculpas esfarrapadas para adiar o trabalho, mas seu tom era alegre, e ele prometeu que as coisas não demorariam muito. Posteriormente, admitiu que trabalhou muito pouco no site em dezembro e quase nada em janeiro.

Conforme as semanas passavam, a equipe do Harvard Connection começou a ficar ansiosa. Cada vez que tentavam marcar um encontro com Zuckerberg, ele adiava o compromisso, culpando sua agenda lotada. Cameron Winklevoss o pressionou a terminar o serviço: "Ei Mark, me dê um toque assim que puder", escreveu em 6 de janeiro. Dois dias mais tarde, Zuckerberg respondeu com uma desculpa: "Estou atolado de trabalho esta semana. Tenho três projetos de programação e um trabalho final para entregar na segunda". Finalmente, em 14 de janeiro, Zuckerberg encontrou-se com os gêmeos e Narendra. Apesar de haver assegurado previamente que o código inteiro do site estava quase pronto, informou a eles que deviam procurar outro programador. Os rapazes ficaram chocados. O que havia acontecido com todo o trabalho que tinha sido prometido a eles? Zuckerberg declarou sob juramento que havia começado a programar o código do TheFacebook.com, a primeira encarnação do seu site, em janeiro, presumivelmente depois de seu último encontro com seus parceiros do Harvard Connection. De acordo com o próprio, o trabalho lhe tomou talvez uma ou duas semanas no tempo livre entre os deveres de casa e as provas finais. Ele se inspirou, disse, em um editorial no jornal The Harvard Crimson sobre o incidente com o Facemash. "Está claro que a tecnologia necessária para a criação de um site centralizado está prontamente disponível", apontava o texto. "Os benefícios são muitos."

Independentemente do período em que o fato aconteceu, Zuckerberg dispensou seus parceiros e se meteu no negócio sozinho. "Eu basicamente peguei o artigo publicado no Crimson e fiz um site com aqueles controles de privacidade, e isso era o Facebook", relembra. Mas as recordações de Zuckerberg a respeito do assunto são, no mínimo, nebulosas. "Não tenho realmente certeza do momento em que a ideia cristalizou e eu disse 'Vou fazer o Facebook'", declarou em testemunho. E o que Zuckerberg não contou aos rapazes do Harvard Connection é que o Facebook original foi oficialmente registrado com o provedor em 11 de janeiro - três dias antes de o programador tê-los mandado passear. Seus advogados disseram à corte que havia sido "naquele ou por volta daquele" período que ele havia começado a programar o Facebook.

De acordo com Zuckerberg, ele convocou um de seus amigos mais próximos, o brasileiro Eduardo Saverin, que dividia a suíte do dormitório com ele, para pensar em como incorporar o site [segundo o livro Bilionários por Acaso: a Fundação do Facebook, de Ben Mezrich, em que Saverin é a principal fonte, sugere-se que os dois amigos tinham esperanças de usar o site para sair com mulheres]. Em 12 de janeiro, enquanto ainda estava supostamente trabalhando no Harvard Connection, Zuckerberg escreveu a Saverin dizendo que seu site estava quase completo e que era hora de discutirem as estratégias de marketing. Os dois concordaram em investir US$ 1 mil cada um, com Zuckerberg ficando com dois terços da companhia. Zuckerberg mergulhou na tarefa de programar seu novo site, isolando-se e chegando ao ponto da exaustão. O Facebook foi lançado em 4 de fevereiro de 2004. "Se eu não tivesse colocado no ar naquele dia", ele declarou ao jornal Crimson, "estaria prestes a desistir e partir para a próxima." O site decolou imediatamente. Depois que quatro mil pessoas se cadastraram nas primeiras duas semanas,

Zuckerberg e Saverin perceberam que precisavam de ajuda, e rápido. Chamaram o colega de quarto de Zuckerberg, Dustin Moskovitz, que começou a trabalhar com eles, tentando lançar o site em mais algumas universidades que eles julgavam valer a pena: Stamford, Columbia e Yale. Adam D'Angelo, parceiro de invenções de Zuckerberg no colégio, também entrou para ajudar a estabelecer o banco de dados para as novas escolas. Por volta dessa época, as porcentagens de propriedade foram renegociadas: 65% para Zuckerberg, 30% para Saverin e 5% para Moskovitz. Zuckerberg também trouxe Chris Hughes, outro colega de quarto, para atuar como porta-voz. Em 13 de abril, a equipe entrou com a carta de incorporação. Zuckerberg colocou a descrição de seu cargo no Facebook como "Fundador, Mestre e Comandante [e] Inimigo do Estado". O império dos nerds havia começado.

Os ex-parceiros do Harvard Connection se sentiram prejudicados. "Primeiro, ficamos devastados e afundamos em uma garrafa de Jack Daniels", disseram os três em uma mensagem em seu site, "mas eventualmente emergimos com uma dor de cabeça horrível e otimismo renovado. Não íamos ficar caídos esperando que nos passassem por cima". Eles mandaram uma carta a Zuckerberg, ameaçando levá-lo perante a diretoria da universidade por questões éticas. Os rapazes apelaram diretamente ao presidente Summers, dizendo que Zuckerberg havia violado o código de honra da instituição. Em maio de 2004, lançaram seu próprio site, com um novo nome, ConnectU, mas o fracasso veio rápido [o site foi extinto anos depois].

Zuckerberg, alegam eles, não só roubou a ideia, mas também atrasou intencionalmente o trabalho no site deles para que pudesse lançar o seu antes. "Ele se gabou de ter completado [o Facebook] em uma semana, depois de nos enrolar por três meses", declarou Cameron Winklevoss. "Tivemos o feriado de Ação de Graças, as férias de inverno e as férias entre semestres. Ele teve bastante tempo. E não só nos enrolou como sabia o que estava fazendo." Seu irmão, Tyler, foi ainda mais direto. "É meio como invasão de terras", disse ele. "Você se sente roubado. Os garotos estão usando o site e você fica pensando 'Era para ter sido a gente'. E não somos, porque um garoto ganancioso nos passou para trás."

Desde o começo, Zuckerberg negou veementemente as acusações. Naquele fevereiro, em uma carta endereçada aos administradores de Harvard, ele retratou a si mesmo como uma vítima de sua própria gentileza e descarregou sobre seus ex-empregadores do Harvard Connection. "O que eu não gosto é de pessoas como esses três caras me dizendo o que eu 'tenho' que fazer para eles e então me ameaçando quando não faço", escreveu Zuckerberg. "Estou um tanto horrorizado por eles me ameaçarem depois de todo o trabalho que fiz sem cobrar nada". Ele se apresentou como a parte lesada: "Tento encarar como um aborrecimento menor o fato de que, toda vez que faço algo bemsucedido, todos os capitalistas aparecem querendo morder uma parte".

Os rapazes do Harvard Connection não foram os únicos a sentir que Zuckerberg havia roubado sua ideia. Em setembro de 2003 - um mês antes de Zuckerberg colocar no ar seu Facemash - um estudante magrelo de Harvard chamado Aaron Greenspan havia lançado um site de relacionamentos para estudantes da universidade. Era a nova versão de um projeto que ele havia criado como membro da organização estudantil Centro de Tecnologia e Empreendimento. Essa tentativa inicial - que permitia aos estudantes postarem endereços e outros dados pessoais - havia sido um desastre. O Crimson o massacrou como uma invasão de privacidade, e Greenspan recebeu uma advertência da universidade. Depois de reformular o site, ele o relançou com uma seção chamada TheFacebook. Poucos estudantes fizeram cadastro.

Então Greenspan ouviu dizer que outro estudante havia invadido o banco de dados da universidade e o utilizado para criar um site em que os dotes de cada um eram avaliados. Ele mandou um e-mail para Zuckerberg no fim de outubro e o convidou para se juntar ao Conselho Estudantil de Empreendimento. Zuckerberg amistosamente respondeu que checaria a próxima reunião.

No meio da noite do dia 6 de janeiro, uma semana antes de dispensar o pessoal do Harvard Connection, Zuckerberg enviou um e-mail a Greenspan pedindo conselhos sobre um "projeto ultrassecreto" em que estava trabalhando. "Estava pensando em fazer um aplicativo via web usando o catálogo de cursos de Harvard, mas me preocupa um pouco que a universidade fique irritada depois de todo o episódio com o Facemash", ele escreveu. "Sei que você usou informações do catálogo... (o que é incrível, a propósito), então estava pensando se você conseguiu permissão para usar esse material e, se sim, com quem você entrou em contato".

Greenspan respondeu imediatamente. Ele perguntou se Zuckerberg gostaria de integrar a versão de seu "Facebook" preliminar ao misterioso novo programa que estava criando. Sem chances. "É provavelmente melhor mantê-los separados pelo menos por hora", respondeu Zuckerberg. "Sendo assim, uma vez que o projeto decole, acho que seria mutuamente benéfico integrar os dois, mas podemos falar disso quando o momento chegar." Posteriormente em janeiro, Zuckerberg se reuniu com Greenspan no refeitório. Compararam anotações, e Zuckerberg perguntou se Greenspan poderia ajudá-lo com seu projeto secreto. Ele recusou.

"O modo como ele falava, como se vestia, tudo nele exalava imaturidade", relembra Greenspan. "Não parecia profissional. Eu tocava uma companhia desde os 15 anos. Apenas não parecia que ele tinha o que era necessário. Todo aquele personagem que ele era simplesmente não me impressionou." Embora tenha demonstrado simpatia pelas conquistas do outro na época, Greenspan hoje diz que se sentiu desconcertado pela iniciativa inicial de Zuckerberg, o Facemash. "Você pode gastar seu tempo programando um software para o bem ou para o mal, e aquilo estava bem próximo do mal", disse Greenspan. "Não é que ele tenha causado danos porque gostava - era porque não se importava. O que acho que é quase pior".

Depois de lançar o Facebook, ele continuou pedindo conselhos a Greenspan. Enquanto muitas das trocas de informação entre eles eram sobre detalhes de operação do site, Zuckerberg ocasionalmente revelou ambições que iam bem mais além em escala do que as de seu colega de classe. Sua nova rede social, escreveu, faria mais do que "conseguir que as pessoas se cadastrem" e "deixá-las empolgadas". Seu objetivo era criar algo novo, algo que tocasse uma necessidade mais profunda. "Eu meio que queria que fosse uma nova MTV", declarou. Mas Zuckerberg não tinha interesse em dar a Greenspan qualquer tipo de crédito pela criação do Facebook, quanto mais uma parte do negócio. Em dezembro de 2004, quando Greenspan decidiu "admitir a derrota" e pedir um emprego na companhia, todos aqueles meses de aconselhamento mostraram não ter valor algum. "Estamos procurando alguém com mais de dez anos de experiência em engenharia", Zuckerberg disse a ele. O cara que criou a primeira versão de um "facebook" para a Harvard não conseguia sequer um emprego no Facebook.

De onde quer que tenha vindo a ideia para o Facebook, foi a versão de Zuckerberg que se tornou viral nas universidades. Quando o período letivo havia terminado em 28 de maio, o site já tinha quase 200 mil usuários em cerca de 30 escolas nos Estados Unidos. Os universitários, ao que parecia, estavam muito interessados em usar a invenção de Zuckerberg obsessivamente para compartilhar seus detalhes mais pessoais online e bisbilhotar uns aos outros virtualmente, mergulhando no Facebook com entusiasmo desenfreado.

O Facebook imediatamente se diferenciou de outros sites de rede social ao estabelecer um alto pré-requisito - seus usuários precisavam ter um e-mail pertencente à lista de escolas de elite. Isso assegurou que os usuários se registrassem com suas verdadeiras identidades, e não de forma anônima como aconteceu no MySpace e no Friendster. Seu design enxuto e interface descomplicada também contribuíram. Não é uma programação superior o que coloca o Facebook em destaque, mas o que Zuckerberg gosta de chamar de "organização elegante": a habilidade que o site tem de organizar os desejos sociais, para criar uma reflexo limpo, virtual de seus relacionamentos da vida real. "Era melhor que seus predecessores", diz Jarvis.

Mas o sucesso crescente de Zuckerberg online não o impediu de queimar aqueles próximos a ele na vida real. Quando as aulas terminaram, ele arrumou uma mala e pegou um avião para a Califórnia. A seus olhos, o Vale do Silício era "um tipo de lugar místico para começar". Trancou matrícula em Harvard (como Bill Gates fez antes dele) e mudou-se para Palo Alto no meio de 2004. Seu objetivo era levar seu site extraordinariamente popular a um novo patamar. Ele e Saverin concordaram em investir mais US$ 20 mil cada um na operação. Enquanto Zuckerberg estava na Califórnia, Saverin permaneceu em Nova York. Uma decisão que provaria ser nada aconselhável.

Zuckerberg, Moskovitz, dois estagiários e mais alguns rapazes alugaram uma casa em uma rua sem saída calma, a poucos quilômetros da via principal de Palo Alto. Não que Zuckerberg tenha prestado muita atenção na paisagem. Quando mais tarde pediram a ele que descrevesse esse período, resumiu seus dias de maneira sucinta: "Acordava, andava do meu quarto até a sala e programava".

Stephen Haggerty, que havia acabado de terminar seu 1º ano em Harvard, candidatou-se a um estágio no Facebook. "Chamar o Facebook de companhia era ser muito generoso", conta Haggerty. Na maior parte do tempo, todos na casa acordavam tarde e dormiam tarde, programando até as 5h da manhã. "Mark tinha uma namorada, mas depois de um tempo ela deixou de aparecer. Convidamos algumas pessoas para nossas festas usando o Facebook".

Um dia, em uma compra por impulso, os rapazes gastaram US$ 100 comprando um cabo que amarraram na chaminé da casa e no poste telefônico, permitindo que mergulhassem na piscina abaixo. Eles tomavam cerveja e ouviam bandas como Green Day nos alto-falantes dos computadores. Mas as coisas nunca saíram do trilho - em maior parte porque Zuckerberg estava mais preocupado em desenvolver a vida social dos outros do que a dele próprio.

"Éramos todos garotos de Harvard, não éramos muito de festa", conta Haggerty. "Mark é um grande nerd. Ele passou a maior parte do tempo em frente ao computador." Se havia alguma diversão na casa, era por causa de Sean Parker, um cofundador do site de compartilhamento de arquivos Napster. Poucos meses antes, Parker estava visitando sua namorada em Stanford quando percebeu que ela e todos os seus amigos estavam usando um site novo chamado Facebook. Parker diz que percebeu o potencial do negócio e arrumou um encontro com Zuckerberg e Saverin em Nova York, em um estiloso restaurante chinês. Saverin levou sua namorada, e os quatro sentaram-se por horas enquanto Parker os entreteve com histórias sobre levantar grandes quantias de dinheiro na Califórnia. Menos de um mês mais tarde, Parker estava na casa de sua namorada em Palo Alto, descarregando um carro, quando viu alguns rapazes andando em sua direção e reconheceu Zuckerberg. O pessoal do Facebook, no fim das contas, estava morando a apenas duas quadras de distância. Parecia destino. Parker, que tinha cofundado o Napster aos 20 anos, era exatamente o tipo de empreendedor jovem e bem-sucedido que Zuckerberg aspirava se tornar. Logo Parker estava morando com a equipe do Facebook e apresentando o novo sócio a novos investidores no Vale do Silício.

Mesmo na época, andando no meio dos maiores capitalistas de risco do mundo, Zuckerberg reafirmava sua personalidade. "Mark aparecia de pijamas em reuniões", relembra Parker. "Ele estava tentando passar uma mensagem." Parte dessa mensagem era que Zuckerberg não planejava abrir mão de sua identidade. Ele usava seus característicos chinelos Adidas e camisetas em todo lugar. Parker se orgulhava do parceiro por ter recusado ofertas para vender o Facebook: "A última coisa que eu queria era que a companhia fosse tirada das mãos dele". Parker não precisava se preocupar - Zuckerber não deixaria que isso acontecesse. Em julho, Zuckerberg e Saverin tiveram uma misteriosa desavença. Zuckerberg entrou com um processo, alegando que o brasileiro ameaçou a companhia ao congelar as contas bancárias do Facebook. Saverin contraatacou com outro processo, alegando que Zuckerberg nunca entrou com os US$ 20 mil combinados e, mais tarde, usou o dinheiro para gastos pessoais. Naquele verão, Zuckerberg transferiu todos os direitos de propriedade intelectual e interesses de seus membros para uma nova versão da companhia, em Delaware. O valor das ações de Saverin foi desvinculado de qualquer crescimento futuro do Facebook, e o empreendedor brasileiro foi eliminado enquanto empregado da empresa.

Em dezembro de 2004, o Facebook estava bem encaminhado em seu objetivo. Apenas dez meses depois de seu lançamento, o site já tinha 1 milhão de usuários. No início de 2005, Zuckerberg apontou Sean Parker como presidente do Facebook, esperando lucrar com as conexões do amigo no Vale do Silício. Mas mais uma vez as coisas degringolaram entre o programador e um amigo. Naquele outubro, Parker se demitiu abruptamente depois de ser detido em uma festa. Embora o rapaz não tenha sido acusado e negasse possuir qualquer tipo de narcótico, Zuckerberg declarou a uma corte que Parker foi pego por posse de cocaína e era negligente ao tocar os negócios. "Ele apavorava as pessoas", testemunhou Zuckerberg. Mesmo o cofundador do Napster não era bom o bastante para o emergente garoto de Harvard.

Apesar das bruscas mudanças na gerência, os usuários ainda convergiam para o site. Na primavera de 2005, dinheiro de verdade começou a entrar no Facebook: uma firma de capital de risco investiu US$ 12,7 milhões. O site se abriu para estudantes do ensino médio; em questão de meses, a recompensa veio na forma de 5,5 milhões de usuários. Mas Zuckerberg, agora um dos rapazes na casa dos 20 anos mais ricos do mundo, continuava a fazer o papel de garoto universitário. Andava com dois cartões: um comum, apenas com seu nome, e um outro em que se lia "I'm CEO... bitch". Ele insistia para quem quisesse ouvir que não estava naquilo pelo dinheiro. "Estou nessa para construir algo legal", declarou à revista Fortune, "não para ser comprado". O que não impediu Zuckerberg de perseguir sua visão do Facebook como ferramenta social obrigatória com domínio global do mercado.

"Uma vez a cada 100 anos, a mídia muda", disse Zuckerberg. "Os últimos 100 anos foram definidos pela mídia de massa. Nos próximos 100, a informação não será empurrada para as pessoas: será compartilhada através das milhões de conexões que as pessoas têm."

Mas quanto mais dinheiro entrava no Facebook, menos membros do círculo interno de Zuckerberg restavam. Seu colega de quarto em Harvard, Chris Hughes, foi trabalhar para Barack Obama. Seu colega de quarto de Exeter, Adam D'Angelo, o deixou em maio. Rumores circulam dizendo que Dustin Moskovitz está cansado de tudo. Eduardo Saverin processou a companhia por forçar sua saída [no processo, o brasileiro conseguiu garantir sua participação acionária de 5% no Facebook. Já em 2009, os irmãos Winklevoss e Narendra receberam US$ 65 milhões de um processo instaurado contra Zuckerberg - veja box ao lado]. A natureza épica e interminável de toda a batalha legal parece sugerir que, ao menos para aqueles que se sentiram prejudicados por Zuckerberg, a batalha pelo Facebook se trata de algo mais do que dinheiro, no fim das contas.

As vezes, grandes idéias parecem estar em todo lugar ao mesmo tempo. Newton e Leibniz desenvolveram independentemente os fundamentos do cálculo, criando controvérsia no século 18; Darwin e Wallace trabalharam a teoria da evolução em documentos separados em 1858. Em outubro de 2003, quando Mark Zuckerberg sentou-se em seu quarto, bêbado e sozinho, a ideia de usar a web para conectar pessoas parecia tão presente quanto os iPods dos estudantes. A universidade já tinha um banco de dados online conhecido como "facebook". Tudo o que Zuckerberg fez foi torná-lo interativo.

Zuckerberg gosta de se apresentar como um geek altruísta, inofensivo, que inventou um pequeno mecanismo que fará do mundo um lugar melhor. "Sou igualzinho a um garotinho", ele declarou ao jornal Crimson. "Fico entediado facilmente e computadores me empolgam. São os dois grandes fatores de motivação." Mas, ao contrário de muitos nerds, Zuckerberg possui dons que vão além do estreito ramo da programação. Mesmo o crítico mais feroz admite que ele está mais para Donald Trump do que para um mero nerd esculachado, alguém com um quase implacável gosto pela batalha - e a habilidade de continuar seguindo em frente, como um tubarão, independentemente de qual seja o obstáculo. Zuckerberg deixou um rastro de relacionamentos destroçados pelo caminho - um currículo que levanta questionamentos sobre sua habilidade de administrar a companhia que fundou.

"Ele é jovem - e isso me deixa apreensiva", diz Kara Swisher, uma jornalista que escreve sobre o Vale do Silício para o diário The Wall Street Journal. "Quantas pessoas ele prejudicou, com apenas 24 anos? E, mesmo que não seja culpado, o número de pessoas com quem ele já teve problemas sendo tão jovem é impressionante. E não de um modo bom."