Lourenço Mutarelli, o homem que aprendeu a voar

Diego Assis Publicado em 22/09/2008, às 18h18

Mutarelli, içado: "É uma sensação muito boa. Por mim, eu ficaria suspenso até o infinito"
Rui Mendes
O maior autor brasileiro das histórias em quadrinhos underground levou a literatura - e sua mente doentia - para os gibis. Salvo pelas letras e pelo cinema, Lourenço Mutarelli, o escritor do livro-que-virou-filme O Cheiro do Ralo, comete agora o seu último ato de loucura: anuncia que vai abandonar o nanquim

"Sempre fui uma figura bastante inexpressiva, um péssimo aluno, uma criança chata e confusa que jurava que um dia iria voar." (A Confluência da Forquilha, agosto de 1995)

Desafiar a gravidade era uma antiga obsessão de Lourenço Mutarelli. Hoje, aos 42 anos, casado, pai de Francisco, de 11, ele conta com um sorriso de criança no rosto: "Eu já te disse que eu voei?". Dizer não disse, mas até que não foi assim tão difícil de perceber. Lourenço Mutarelli agora é galã. Escritor e galã. Não faz muito tempo, o seu nome costumava ser pronunciado meio em segredo apenas entre os iniciados no universo das histórias em quadrinhos underground. Cada um de seus 11 álbuns, administrados a conta-gotas nesses últimos 15 anos para que o efeito não fosse por demais entorpecedor, era consumido por seus leitores com a voracidade de quem corre até a boca mais próxima para garantir uma nova dose. Impressos a nanquim, num processo de auto-exorcismo e sofrimento, seus quadrinhos escatológicos em vez de causarem repulsa, despertavam adoração, tesão até. Para cada um deles, Lourenço arrebatava um prêmio. Venceu a 1ª Bienal Internacional de Quadrinhos, o troféu Ângelo Agostini e 12 vezes o HQ Mix, considerado o Oscar dos quadrinhos brasileiros. Ganhou tanto que, sem falsa modéstia, diz agora que cansou.

"Eu não agüento mais ganhar HQ Mix. Queria não ganhar pelo menos uma vez", desabafa, sem esconder o desconforto. É verdade que Lourenço faz parte de uma geração desgraçada do quadrinho nacional. Jovem demais para fazer parte da turma de Angeli e Laerte, mas velho o suficiente para ser idolatrado pela nova safra de desenhistas e escritores que cresceram lendo suas histórias nas extintas revistas Animal e Mil Perigos, dos anos 90, ele se vê ainda hoje como um estranho no ninho. "Nos quadrinhos, eu sempre fui o esquisito. Embora a crítica tenha sido sempre muito generosa comigo, o meio dos quadrinistas sempre me tratou com estranheza. Nunca fui muito bem recebido."

E foi, em partes, por isso que Lourenço decidiu aposentar a pena. A decisão já vinha se arrastando há anos, mas o anúncio definitivo de que iria parar de fazer quadrinhos veio só no final do ano passado, alguns meses depois de despejar nas livrarias aquele que, garante, será o seu último álbum de HQs, batizado de Caixa de Areia. "Não estava dando mais, eu não sentia mais o mesmo prazer em fazer. Desde os anos 80 eu nunca mais desenhei por desenhar. Levo um ano inteiro para preparar um álbum, e a obrigatoriedade de ter de fazer um por ano era um fardo que já estava pesando demais para mim. E nem dá grana. O quadrinho, quando muito, era o que pagava o meu aluguel."

Em partes. Pois o outro motivo que levou Lourenço a parar de fazer seus quadrinhos foi o Ralo.

O ano era 2001 e, naquele carnaval, lourenço ainda não tinha sequer esboçado a sua nova teoria para feriados desse tipo - "Em vez de você pegar quatro horas de estrada, pernilongo, puta trânsito, vá até a seção de queijos do Pão de Açúcar. Aquilo é mais bonito que uma cachoeira, e é feito pelo homem. É mais cheiroso. Você nem precisa comprar se não tiver, mas vai ver como é bem arrumado aquilo. Muito mais arrumado que a natureza", filosofa.

Pois bem, sem queijo e exausto depois de ter terminado uma longa trilogia-de-quatro-álbuns do detetive Diomedes, Lourenço resolveu escrever um livro. Em menos de cinco dias, concluiu O Cheiro do Ralo, seu primeiro romance, sua entrada pela porta do banheirinho para a respeitável literatura brasileira. O livro conta a história de... Lourenço, dono de uma loja de compra e venda de antigüidades instalada em um cubículo qualquer de São Paulo e que tem como principal coadjuvante um ralo entupido que teima em infestar o local com um cheiro horrível de merda. O cheiro incomoda o protagonista mais até que os clientes que entram na loja desesperados para vender seus pertences: um relógio de bolso, um faqueiro de prata, um violino, um revólver, um olho de vidro... Dependendo do seu humor - e da intensidade do cheiro naquele dia -, Lourenço abre a caixinha de charutos onde guarda o dinheiro e inicia uma negociação sádica e doentia com os miseráveis clientes. Nem sempre compra, mas nunca se esquece de avisar: "o cheiro vem do ralo".

Narrado em frases curtas, repleto de diálogos e divagações interiores, como numa história em quadrinhos sem balões, O Cheiro do Ralo acabou contaminando muito mais do que Lourenço imaginava. Publicado em 2002 pela Devir, mesma editora que lançou algumas de suas HQs, o romance recebeu críticas elogiosas de gente como Arnaldo Antunes, Valêncio Xavier, Marcelino Freire e outros representantes das belas artes. "Foi uma mudança muito grande. Muitas portas começaram a se abrir. Eu comecei a participar de eventos literários. E o que mais me comoveu foi que eu era tratado como um igual, não mais como aquele cara que chegou depois, numa área que já era deles. Esses caras me receberam como eu nunca fui recebido no meio dos quadrinhos."

Mas o vôo estava só começando. Um dia, o escritor e roteirista de cinema Marçal Aquino se deparou com uma cópia do livro e resolveu mostrá-la a Heitor Dhalia, que estava então rodando Nina, seu primeiro longa-metragem. "A gente estava na véspera de produção do Nina quando Marçal me ligou: 'vi um livro que acho que você vai gostar!'. Na hora pensei: 'Nossa, que nome louco'. Não agüentei de curiosidade, fui à livraria, comprei, li, adorei, li de novo. Aí, saí e comprei todos os quadrinhos do Mutarelli. Falei: 'Vamos atrás do Lourenço, que estou a fim de fazer esse filme'", lembra Dhalia.

Ao encontrar Lourenço, o diretor pernambucano radicado em São Paulo não só fez a proposta de comprar os direitos do livro como também aproveitou para convidá-lo para fazer as animações de Nina, cuja personagem principal era uma garota atormentada, inspirada no universo de Dostoievski e interpretada pela atriz Guta Stresser.

Foi também nesse período que Selton Mello, que fez uma participação em Nina, acabou tomado - essa é a palavra - pelo O Cheiro do Ralo. "Eu não conhecia o Muta. Soube que o Heitor ia filmar um romance dele. Fui atrás e li. Paixão à primeira vista. Personagem da minha vida. Pensei: 'Caralho, preciso fazer esse filme de qualquer maneira'."

E fez. Depois de insistir com Heitor Dhalia que seria a pessoa ideal para o papel e de inclusive assumir a produção executiva do filme, Selton encarnou Lourenço - o personagem do livro - na adaptação de O Cheiro do Ralo, que chega aos cinemas brasileiros em 23 de março, após uma performance surpreendente nos festivais dos quais já participou (além de receber diversos prêmios nas mostras do Rio e de SP, o longa foi exibido na seção principal do festival de cinema independente de Sundance deste ano).

Fiel ao espírito e ao texto do romance, mas com um verniz "cool" acrescentado pela trilha sonora, locações e figurinos, o filme tem conseguido, em sua curta carreira, agradar tanto aos antigos fãs das HQs de Lourenço quanto ao público de cinéfilos em geral. Muito se deve ao humor ácido do livro, e outro tanto, à interpretação espetacular de Selton Mello.

"Ele é repulsivo, solitário, mas também é engraçado dentro da podridão em que vive. É uma montanha-russa. Vi um potencial incrível de voar muito alto como intérprete. É um personagem que você odeia, mas gosta. Acha um puta escroto, mas entende a viagem. Você vive uma relação de amor e ódio o tempo inteiro", revela o ator de O Auto da Compadecida e Lisbela e o Prisioneiro. "O fato de eu fazer o personagem, de minha relação com o público ser uma relação 'simpática' - vamos usar essa expressão - ajuda a atrair um público que vai ver aquele cara lá e toma uma rasteira. O filme não tem a cara brasileira clichê, não tem samba, não tem sertão. Ele tem uma levada meio anos 70, que você não sabe direito de onde é: poderia ser argentino, dinamarquês... É algo que não tem pátria, que poderia ser universal", diz.

Lourenço, o autor, concorda: "Às vezes, eu acho o filme melhor do que o livro. Ele vai fundo na história e no personagem, mas com uma elegância e uma sutileza que não são minhas, mas frutos dessa estética do Heitor, do carisma do Selton e do belíssimo trabalho da Paula [Brown], que é a Bunda."

Uma pausa para a bunda, se me permite. Quando não é o cheiro a perseguir o personagem principal durante toda a história, o único outro pensamento que não lhe sai da cabeça é a imagem do traseiro da garçonete do boteco onde ele costuma almoçar todo dia. Ele mal sabe pronunciar o nome da moça; tudo o que sabe é que precisa comprar aquela bunda. "Lembro de uma seqüência que já entrou para os anais", brinca Selton Mello, fazendo questão de deixar no ar o trocadilho. "É a cena em que eu beijo a Bunda. Nêgo não acredita quando chega essa cena. Fiz uma vez, e não rolou para mim, mas o Muta estava ali, eu colei nele e perguntei: 'O que eu faço?' E ele disse: 'Se agarra a essa bunda como se fosse a sua tábua de salvação, como se fosse o contrário do ralo, que agora está te tragando'. E aí rolou. Eu chorava feito criança."

A obsessão de Selton com O Cheiro do Ralo era tanta que ele circulava pelo set de filmagens com um exemplar do livro debaixo do braço. "Eu era o advogado do Lourenço." Sempre que o diretor queria cortar alguma cena ou mexer em determinada passagem, era o ator, e não o autor, quem tinha a palavra final. A Lourenço Mutarelli, no entanto, foi dado o que ele mais gostaria de ter ganho: um papel no filme. Se você já tiver visto ou se ainda for ver o filme, não será difícil lembrar: o escritor é o sujeitinho careca de abrigo vinho que faz o personagem do segurança da loja de antigüidades. Não tem erro.

A idéia surgiu quando o criador de O Cheiro do Ralo começou a fazer umas cenas no lugar do protagonista para ajudar os outros atores nos dias em que Selton Mello não podia aparecer para filmar. Dhalia gostou do que viu e resolveu ampliar a presença que o segurança tinha no livro para poder usá-lo melhor no filme. O que mais impressiona, porém, é que, em sua primeira atuação em um longa-metragem, Lourenço Mutarelli esteja tão à vontade diante das câmeras.

"Eu já tinha feito um curta A [Cidade do Tesouro], mas não me vejo como ator. Atuar é puro exercício de concentração para mim. É uma brincadeira que adoro fazer. Adoro mesmo. Descobri tardiamente, mas quero fazer muito isso ainda. Mas eu não me sinto ator, eu brinco que eu sou galã. Protagonista e galã. Mas eu não me levo a sério em nada. Nunca me compararia com nenhum escritor de verdade. Eu tenho um personagem escritor. Ponho até um chinelinho para fingir, mas não acho que sou um escritor de verdade, assim como não sou ator."

Seja como for, ator ou autor, o fato é que os elogios conquistados com O Cheiro do Ralo - livro e filme - geraram uma projeção até então inédita para a carreira de Lourenço. Ele não ficou rico. Ganhou R$ 30 mil, pagos ao longo de quatro anos em magras parcelas, que mal e mal davam para cobrir as velhas dívidas e garantir o dinheiro do aluguel do apartamento na Vila Mariana onde mora com a mulher, o filho e os gatos. Em termos práticos, no entanto, orgulha-se em dizer que nunca mais lhe faltou trabalho. Só em 2004, um ano antes do início das filmagens do Cheiro, colocou dois novos livros nas estantes. Jesus Kid é a história de um escritor de westerns de bolso baratos que é contratado para escrever um roteiro para um filme "de ação" enquanto permanece confinado durante três meses em um hotel luxuoso. Encomendado pelo próprio Dhalia, o livro é um misto de teatro do absurdo temperado por situações - igualmente absurdas - que Lourenço diz ter vivido durante sua curta experiência lidando com o business do cinema. Em seus freqüentes encontros com o diretor e produtor, Eugênio, o alter-ego de Lourenço, vai recebendo sugestões cada vez mais bizarras para serem incluídas no roteiro do futuro filme, com direito a pin-ups, uma enfermeira ninfomaníaca, membros da máfia chinesa e, claro, o caubói Jesus Kid. "Não esqueça: cinema é ação, Eugênio! Ação!"

Já O Natimorto, lançado pela DBA, fala de um agente que descobre uma cantora que tem "a voz da pureza", dona de um timbre tão perfeito, mas tão perfeito, que só ele é capaz de escutar. Frustrado com a falta de sensibilidade do restante das pessoas, O Agente decide se internar para sempre com A Voz em um quarto de hotel, permitindo a ela que saísse apenas para comprar comida e cigarros - como num jogo de tarô secreto, ele julga ser capaz de ler seu destino nas figuras escabrosas impressas na parte de trás dos maços que recebe. Um dos seus trabalhos preferidos até hoje, Lourenço conta que O Natimorto já teve seus direitos vendidos para a produção de um filme que pode ser dirigido por Paulo Machline, do curta Uma História de Futebol, que chegou a ser indicado ao Oscar da categoria em 2001.

Além dos dois novos romances e de propostas para criar roteiros para séries de TV, Lourenço embrenhou-se também pelo teatro nesse mesmo ano. Montada pela Companhia da Mentira, a peça O Que Você Foi Quando Era Criança fala de um palhaço que se sente deslocado quando deixa o circo em que trabalhava. Admirador incondicional do dramaturgo Eugène Ionesco, a quem inclusive já pensou um dia em homenagear em uma HQ, ele conta que descobriu uma paixão latente pelo teatro e que pensa até em dirigir sua própria peça. "Pela primeira vez, eu podia ver as coisas que eu tinha pensado serem encenadas ali na minha frente sem que tivesse de esperar um ano para isso. Como não sou um cara conhecido, eu podia ir às apresentações e ver ali o que funcionava ou não."

E a cereja do bolo para Lourenço Mutarelli, ressalta, foram os convites que recebeu para atuar em outros dois curta-metragens, Pugile, de Danilo Solferine, e Antonio Pode, de Ivan Morales.

"O ano passado e o retrasado foram os melhores anos da minha vida, sem dúvida. Em meu próximo livro, eu quero explorar isso. Fazer a história de um cara que começa a ganhar uns presentes, ganhar umas coisas que ele nunca imaginou e não sabe de onde vem essa generosidade. Sempre fui muito mal-tratado e, ultimamente, tenho sido muito bem tratado e preciso me acostumar com isso. É muito melhor. Você conhece muita gente interessante, muita gente fascinante."

Mas, se hoje lourenço acredita estar no céu, é porque um dia ele já esteve no inferno. Nascido e criado em São Paulo, nas proximidades de um circo "cheio de pessoas tristes e animais que fedem", ele se recorda de sua infância como um período de completa solidão. "Eu era muito sensível e tinha realmente alguns distúrbios que hoje poderiam ser facilmente tratáveis. O horrível é que não conseguia me sociabilizar nem fazer amigos. Tinha momentos de confusão mental e, quando fazia comentários, as pessoas riam de mim. E isso era muito desagradável, muito desagradável mesmo. E eu ia me fechando." Filho de uma dona-de-casa com um delegado de polícia, tentava de toda forma pedir ajuda, mas não era correspondido. "Desde criança, a minha mãe tentava esconder esses pequenos desajustes que eu pudesse demonstrar. Eu apanhei porque pedi para me levarem ao psiquiatra como pedido de aniversário de 10 anos. Eu apanhei porque a mãe de um amigo pediu que eu fizesse um encéfalograma. Minha mãe sempre falava: 'Eles vão descobrir que você é louco'."

Numa tentativa desesperada de se sociabilizar, descobriu o sexo e as drogas muito cedo. Aos 12 anos, entre uma visita e outra à farmácia para roubar remédios de tarja preta, já freqüentava o centro da cidade para sair com prostitutas e travestis. Acabou contraindo duas doenças venéreas, entre elas um herpes genital que, naquela época, praticamente não tinha tratamento. Para o bem e para o mal, conseguiu ao menos chamar a atenção dos pais, que o levaram finalmente a um médico, onde recebeu prescrição para tomar alguns comprimidos de Lorax para aliviar a ansiedade. Companheiro inseparável de Lourenço até hoje, o medicamento tornou-se, mais que um vício, a sua própria razão de ser. Em muitos de seus quadrinhos, há referências quase religiosas aos psicotrópicos que o acompanharam durante todo esse tempo. "Acho difícil separar os remédios da minha vida, do meu dia-a-dia. Uma vez alguém me perguntou: 'O que o Lorax faz com você?' É tanto tempo que eu tomo e me faz tão bem, que ele faz o que eu sou."

Até o dia em que Lourenço se matou. Era seu aniversário de 24 anos e os amigos resolveram fazer uma "brincadeira" com ele. No meio da festa, quando saía com uma amiga para comprar cigarros, os dois foram abordados na rua por homens armados que os vendaram e os obrigaram a entrar no carro. Colocado no banco de trás, ele podia sentir os sujeitos fazendo roleta russa com o cano do revólver apontado para a sua cabeça enquanto especulavam sobre o que poderiam fazer com eles. Num esforço descomunal para tentar "morrer psiquicamente" antes que os supostos bandidos o fizessem por ele, Lourenço entrou em um buraco negro do qual levaria muitos anos para sair. Quando finalmente tiraram a venda e ele percebeu que estava no meio de uma festa surpresa armada na casa de sua avó, já era tarde demais.

"Naquele momento, eu senti que 80% de mim tinha morrido mesmo. É como perder um grande amor, você sente um vazio muito grande", afirma. Descrito mais tarde em uma HQ chamada Réquiem, que foi incluída numa edição comemorativa de Transubstanciação, primeiro álbum de quadrinhos de Mutarelli, publicado originalmente em 1991, o episódio desencadeou uma crise profunda na qual costuma dizer que chegou a "tocar o fundo do poço".

"Da brincadeira até o fundo do poço foram dois anos. Dois anos de coisas na minha cabeça, de chiados, de confusões, de mal-estar físico, de falar que eu não estava bem e que eu precisava de ajuda, e ninguém sabia o que era. Eu nunca tinha ouvido falar em [síndrome do] pânico, que era o que teria um tratamento mais próximo. Foi uma época em que eu fiquei três meses encolhido igual a um feto no chão da sala. Eu não conseguia ir a outro lugar. Me cagava nas calças, não tomava banho, não cortava as unhas. Não conseguia fazer nada. Eu tinha uma média de oito ataques de ansiedade por dia, em que você tem a sensação de morte iminente. Tinha uma taquicardia que não me dava força para subir a escada. Emagreci, cheguei a pesar 44 quilos. Eu não conseguia comer nada. Tinha uma aflição muito grande, não conseguia respirar. Eu só comia gelatina, caqui mole e coisas que descessem muito rápido pela minha garganta. Tudo o que eu queria era melhorar, era sair da confusão. Eu tinha alucinação, uma depressão muito profunda, e misturava demais tudo. E achava que não tinha saída. Eu tinha certeza de que não tinha saída, que eu estava me perdendo em mim e lutava desesperadamente para poder voltar."

A recuperação foi lenta. Para voltar à superfície, Lourenço teve de re-aprender a fazer tudo: andar até a porta, tomar banho sozinho. "E eu não conseguia de primeira." Nessa época, uma das poucas coisas que o distraía e acalmava era assistir aos especiais do Jacques Cousteau que passavam na TV Cultura (SP). Em um deles, soube que existiam expedições de mergulhadores que se embrenhavam em cavernas submersas escuras nas quais o homem nunca tinha se aventurado com medo dos labirintos e da falta de oxigênio. "E eu falei: 'É isso que tenho que fazer. Tenho que entrar nisso que está acontecendo em mim e entender'. Então comecei a me analisar, a perceber, a identificar quando vinha uma crise. Isso foi me ajudando muito a ir conquistando o mundo e o meu espaço. E sempre que eu melhorava um pouco, eu trabalhava no Transubstanciação."

Quase sempre autobiográficos, seus quadrinhos acabaram funcionando como uma forma eficaz de terapia. O trabalho era duro e, para se disciplinar, Lourenço se trancava em um quartinho e desenhava horas a fio, ao som de tango argentino, sem se preocupar com os problemas do mundo de fora. "Eu não precisava viver, só fazer quadrinhos. Não precisava fazer mais nada. Era terapêutico, eu drenava muito, expunha muito, jogava para fora e depois dispensava."

Como em Transubstanciação, a história de um poeta que todos julgavam ser louco, o combustível de suas próximas HQs acabou se tornando, em suas palavras, a própria dor de existir. Os personagens de Desgraçados, de 1993, e Confluência da Forquilha, publicada em 1997, eram todos seres sensíveis e atormentados, vivendo num universo de pessoas deformadas física e moralmente. No Asilo Arkham de Lourenço Mutarelli, desfilavam toda sorte de charlatões, assassinos, viciados, estupradores, padres sodomitas e psiquiatras. Em mais de uma ocasião ele escreveu que as páginas de seus quadrinhos eram na verdade um espelho apontado para a sua própria loucura.

Houve, entretanto, um momento, nesse período, em que o homem que só desenhava demônios vislumbrou um novo horizonte. Chamado às pressas para substituir Angeli em uma palestra na Gibiteca Henfil, da qual participariam também os quadrinistas Marcatti e Glauco, Lourenço acabou chamando a atenção de Lucimar, uma menina que estudava história da arte e com quem - mal podia imaginar - viria a se casar. "Quando terminou a palestra, fui até ele pedir um autógrafo e perguntei a data do seu aniversário para anotar na minha agenda", ela conta. "Ele falou 18 de abril, mas essa folha já estava preenchida com as coisas que eu escrevia, então pedi para ele falar outra data qualquer. 'Quando é o Dia dos Mortos?', ele perguntou, 'anota nesse dia aí.'" E Lucimar anotou: "Nome, RG, estado civil e número de telefone."

Os dois começaram a namorar pouco tempo depois e, numa homenagem que se tornou uma das declarações de amor mais públicas do quadrinho brasileiro, Lourenço escreveu e desenhou Eu Te Amo, Lucimar. Com uma arte mais limpa e bem-acabada se comparada a seus trabalhos anteriores, a HQ de 1994 conta a história de Cosme, que depois de assassinar seu irmão gêmeo, Damião, mergulha numa espiral de depressão da qual só consegue se libertar quando se apaixona por sua professora de desenho geométrico. "Lucimar lecionava a pureza das formas, as dimensões; as propriedades das linhas, superfícies e volumes; os sólidos tridimensionais, os espaços bidimensionais; as figuras planas... Os seres matemáticos", escreve à certa altura do quadrinho. "De uma forma curiosa, Lucimar, a professora que deveria ensinar a lógica formal, acabou por ensiná-lo o avesso das formas e medidas, o indefinido, o abstrato, o inexplicável... O amor."

"Tem um lado que ele sempre elogia em mim que é a coisa da praticidade, de resolver as coisas no banco e fazer várias coisas ao mesmo tempo", diz Lucimar, em carne e osso. Casados há 16 anos, ela terminou por funcionar como a outra metade que faltava para botar ordem ao caos de Lourenço. Cuida das contas a pagar, dos e-mails que o marido recebe, de atualizá-lo com as notícias de jornal e, principalmente, da vida social da família Mutarelli. "É uma coisa de aproveitar a vida, de querer sair, de ir a festas. De certa forma, eu 0 obriguei a participar, a ir mais a eventos da própria família dele, casamentos da prima, essas coisas."

Foi Lucimar também que, em 1991, quando leu pela primeira vez Transubstanciação - "sem olhar os desenhos" - profetizou: "Acho que o seu público não é de quadrinhos, não. Seu público é de literatura". Diga isso a Lourenço hoje, e ele certamente concordará. "Tenho uma mão muito pesada e venho buscando um pouco mais de delicadeza no meu trabalho. Algumas pessoas falavam isso, mas nunca fiz quadrinhos para chocar. Hoje, procuro evitar fazer algo que fique insuportável para quem esteja lendo e que, mais tarde, possa acabar se tornando embaraçoso para mim."

Mas, junto com essa reviravolta profissional e amorosa, Lourenço é enfático ao enumerar um elemento químico que teria sido decisivo para a sua melhora: "Cloridrato de Sertralina, esse é o princípio ativo. De laboratório, o original é o Zoloft, mas eu tenho tomado um concorrente que é o Serenata", fala, tirando a cartelinha (já vazia) para mostrar. "Faz uns três anos que mudei a medicação. E sabe que quem percebeu a mudança foi a Lu. Porque ela me viu falando com uma mulher no Pão de Açúcar. Eu não falava com as pessoas. Na rua, se alguém me perguntasse a hora, eu mostrava o relógio. Não conseguia falar com quem eu não conhecia. E ela me viu conversando com a mulher do café no Pão de Açúcar e falou: 'Será que ele está paquerando?'. Mas aí, viu que era muito feia. Depois me perguntou e eu contei que agora eu tenho um monte de amigos no bairro: tem o Juninho, o cara da banca, são todos meus amigos. Muito bom. Sou muito sociável, sou ator."

Quando tinha uns sete ou oito anos, Lourenço Mutarelli tentou voar. Certo de que seria capaz, arremessou-se de um barranco num clube de campo do qual sua família era sócia e... se estatelou lá embaixo. "Quando eu caí em mim fiquei muito envergonhado, tive de me esconder. Foi um episódio estranho, uma coisa muito ruim para a minha família."

Quase 34 anos depois, um jovem cineasta chamado Ivan Morales o convenceu a tentar de novo. Diretor do curta-metragem Antonio Pode, rodado no início deste ano, ele chamou Lourenço para ser o protagonista do filme, uma parábola praticamente sem diálogos na qual Antonio é descrito como "alguém que não vem daqui, um estrangeiro na terra dele, que está aprendendo a viver". No curta, vestindo um terninho branco alguns números acima do seu manequim, Lourenço encarna uma espécie de Buster Keaton contemporâneo, que tem de aprender a respirar, a ver, a conversar, a ajudar, a acreditar, a temer e, finalmente, a negar a gravidade. Içado a cerca de seis metros do chão por um sistema de cordas preparado pela trupe da Nau de Ícaros, ele enfim decolou. "É uma sensação muito boa. Por mim, eu ficaria suspenso até o infinito."

E, como que para provar que o céu ainda não é o limite, Lourenço já prepara um vôo ainda mais alto do que esse. Vestindo macacão e capacete de astronauta russo, ele é o personagem central e modelo fotográfico (!) de O Andar de Cima, história em quadrinhos em produção assinada pelos estreantes Flavio Moraes e Fernando Saiki. A novidade aqui é que, apesar de ter anunciado que deixaria o mundo dos quadrinhos de uma vez por todas, Lourenço acabou concordando em escrever o roteiro da história. Não só aprovou o material como sente que tem uma dívida com a nova geração.

"Já está mais do que na hora de a gente ceder o nosso espaço para que novos quadrinistas apareçam. Se o Angeli vive em crise e o Laerte teve lá os seus problemas, por que eles não cedem o espaço para essa moçada publicar?"

Este é o Lourenço 2007: já aprendeu a voar e agora quer levar todo mundo com ele.