Edição 06 - Março de 2007

Terra do Nunca

Foz do Iguaçu parece uma cidade imaginária. Mas se, para os turistas, ela se resume a cataratas e compras, para os mais observadores, é a nossa babel, com uma diversidade étnica digna das grandes metrópoles mundiais
  • Imprimir
por Marcio Fernandes

Uma enigmática comunidade que mistura pesquisa material com parapsiquismo, e que já tem 1,6 mil adeptos, está se formando em Foz do Iguaçu, uma complexa cidade no oeste do Paraná, encravada em uma ainda mais intrincada Tríplice Fronteira, que envolve Brasil, Paraguai e Argentina. O Centro de Altos Estudos da Conscientologia (Ceaec) é a estrutura mais visível da Projeciologia e da Conscientologia, autodefinidas como duas neociências, mas que, para muitos por ali, estão mais para conteúdos de uma seita que já se espalha pela América, Europa e Ásia. Para completar o cenário alternativo do Ceaec, seu líder é um sujeito com duas graduações na bagagem, na área médica, além do trunfo de ter sido parceiro do médium Chico Xavier por 10 anos. Waldo Vieira, 75 anos, mineiro, médico, dentista, dono de uma biblioteca de 65 mil volumes, é o líder do Instituto Internacional de Projeciologia e Conscienciologia (IIPC), um guarda-chuva para um crescente número de organismos e pessoas em busca de experiências de toda espécie - paranormalidade está na lista. Ele é daqueles que, antes mesmo de apertar firme sua mão, abrem um enorme sorriso e chamam, em tom de brincadeira, para uma queda-de-braço, para comprovar disposição. O homem é uma metralhadora verbal e adepto das experiências quase-morte, que responde antes de a pergunta ser finalizada, que diz estar subvertendo os paradigmas vigentes da Sociologia e da Antropologia e que seus detratores têm é dor-de-cotovelo. Algo e alguém assim só mesmo em Foz do Iguaçu.

Mas, para a maior parte da massa de 1 milhão de visitantes anuais, a generosidade dos sorrisos dos moradores locais, o fascínio high-tech do Paraguai e a opulência das águas das Cataratas são suficientes para fazer com que eles mandem para debaixo do tapete o interesse pela Conscienciologia e pelo que há para além dos estereótipos cercadores da cidade - que não são poucos e não cessam de crescer. Contestada por autoridades locais, uma pesquisa da Organização dos Estados Ibero-americanos diz que a cidade lidera o ranking de homicídios de jovens brasileiros entre 15 e 24 anos. E escapar dos roteiros tradicionais significa, entretanto, descobrir esse cenário de várias camadas. Uma caminhada, mesmo que rápida, pela avenida JK, permite que o visitante se fascine com mulheres árabes cobertas do cabelo aos pés com roupas pretas e tente tirar fotos delas. É prudente não chegar muito perto, como fez o fotógrafo André Porto, que apontou as lentes para elas em um final de tarde qualquer de fevereiro. Homens árabes (especialmente maridos) e máquinas fotográficas nem sempre se dão bem. Neste caso ficou só na ameaça (na base da cara feia de alguns que estavam em um bar), mas poderia ter sido diferente. Flashes, flashes e mais flashes em todas as direções: são os turistas japoneses que chegam a Foz, que não desgrudam das máquinas fotográficas. Na JK, mais light é olhar de longe e tomar algo para espantar o calor. Foz é um caldeirão quase o ano todo.

Em menos de meio século, o que era uma mera colônia militar se transformou em uma região do Brasil de complicada estrutura social, cujos pilares são as compras (clandestinas ou não) de um dos lados da fronteira, em Ciudad del Este (Paraguai), e uma enormidade de imigrantes (que não param de chegar, se estabelecer e tornar ainda mais intrincado o mapa do lugar). Tem sido assim nos últimos 50 anos, mas de uns tempos para cá outro grupo contribuiu para incrementar o cenário. São os esotéricos, alternativos, estudiosos das forças da natureza ou a alcunha que se queira dar. Esses últimos ainda não são muitos (se comparados, por exemplo, aos 20 mil estrangeiros legalizados), mas por lá já estão em número e barulho suficientes para fascinar boa parte dos 302 mil habitantes de Foz do Iguaçu, de um total de 800 mil da Tríplice Fronteira. Por fascínio, entenda-se que possa ser tanto encantamento como repulsa. Esses dois sentimentos, aliás, perseguem Waldo, um inteligentíssimo e vistoso senhor de barba e roupas brancas que busca consolidar, em Foz, um ambicioso projeto: a criação e consolidação da Cognópolis Conscienciológica, a partir do campus em formato circular que ele mandou construir no subúrbio da cidade. Ele, obviamente, repudia as suspeitas de quem o vê como mentor de uma seita disfarçada de associação cultural e científica. O grupo da Conscienciologia tem orçamento mensal de R$ 1 milhão, entre venda de livros, cursos e outras fontes de recursos. Seu discurso, que abrange vários campos, sustenta que, em Foz do Iguaçu, há quatro energias essenciais (geo, aero, fito e hidroenergias) e que o ser humano pode alcançar um nível mais elevado de auto-conhecimento se for pelo caminho da clarividência facial e do acoplamento energético. O Ceaec está aberto diariamente aos interessados.

Com a decadência lenta e controversa do comércio de fronteira, por conta de projetos políticos de toda espécie dos governos paraguaio e brasileiro, o eixo central da sociedade de Foz começa a se deslocar para a pluralidade étnica que ali reina. Dependendo do interlocutor que passe informações a qualquer interessado, o número de etnias presentes é de 60, 70 ou mesmo 100. Há quem se orgulhe de que, nas Américas, somente Nova York e São Paulo são mais pluralistas nesse item. O que ninguém discorda é que, apesar de tanta variedade - ou justamente por causa disso -, não há uma proposta eficiente de criação de uma identidade fronteiriça, capaz de fazer com que os moradores se mobilizem de modo maciço toda vez que pairam dúvidas na mídia sobre a presença ou não de células terroristas nas cercanias, notadamente envolvendo os grupos Hezbollah e Al Qaeda. No começo da década, um evento no Gramadão da Vila A, área originariamente pertencente à Usina de Itaipu, reuniu milhares de pessoas no movimento Paz Sem Fronteiras, em um final de semana. Ao que parece, pouco se fez dali em diante de prático e lugares como a Mesquita Omar Ibn Al-Khatab continuam a ser um ponto de interesse turístico para um punhado de gatos pingados, preocupados mais em sacar rapidamente fotos em frente ao monumento de cor branca por fora do que entender o significado do letreiro que ornamenta as paredes internas. Outros ficam na mesma situação. Dá para listar o Templo Budista, o Centro de Altos Estudos em Conscienciologia, cuja imagem aérea lembra, digamos, algo além-Terra, e por aí vai.

Trinta pessoas por dia, em média, é o volume de visitantes da mesquita, segundo o sheik Ahmad Mazloum, um dos líderes espirituais da imensa comunidade árabe de Foz, que tem no currículo cinco anos de estudos em Teologia Islâmica na Arábia Saudita, além de ser hábil com as palavras. "Sobre esse assunto é melhor nem falar mais", resume Mazloum, quando questionado sobre os laços terroristas da turma daqui com os de lá. O assunto, claro, é motivo de ojeriza pelos árabes locais, assim como outras imagens coladas neles. Tomemos dois tabus - a burca e a visão muçulmana de líderes espirituais como Jesus e Abraão. Mazloum vai direto ao ponto: "Se a freira católica se cobre por fé, por qual razão o mesmo não pode acontecer com a mulher islã?"

Em circunstâncias normais, o uso do véu em locais públicos já seria o suficiente para atinar o olhar curioso de qualquer um, mas em Foz há um ingrediente extra. O sol que castiga a cidade e leva qualquer um a níveis preocupantes de suor parece não afetar mulheres de burca, peça de vestuário que, diferentemente do que se pensa em geral, é apenas o lenço que cobre a cabeça e não algo inteiriço que vai da ponta do cabelo aos pés. O chamariz só não é maior pelo fato de que a maior parcela dos turistas da cidade não se dá ao trabalho de andar a pé, desejando apenas o ar-condicionado das vans e dos ônibus que cortam as ruas tortuosas e inclinadas da cidade brasileira, esquecendo-se de um bom passeio ao longo do dia na avenida Brasil, uma via de layout polêmico e que, à noite, apresenta características similares às de qualquer município de médio porte (prostituição pode ser posta aí). Em meia-hora sentado em um bar qualquer da via, é possível notar a fauna humana que é Foz do Iguaçu.

Para além disso, há a noção muçulmana de outros líderes seculares. Árabes se orgulham de estudar seu livro sagrado, Alcorão, no idioma em que foi escrito. E dizem que a Bíblia pode não ser um livro completamente confiável por ser lido e interpretado hoje em línguas diversas, cujos equívocos de tradução podem ter distorcido as mensagens originais. Tudo na condicional para evitar discussão desenfreada. Ainda assim, demonstram enorme respeito por Jesus, dentre outros. Mas é interessante notar que absolutismo é algo relativo à população árabe. Parece contradição, já que se pensa que o Islamismo é uma das mais dogmáticas religiões da contemporaneidade. Mas não. Uma busca apurada permite encontrar na cidade brasileira árabes não praticantes do Islã, a maior parte filhos e netos de imigrantes. Nael Saleh, 30 anos, médico, passou sete anos na Palestina, dos 6 aos 13. Diferentemente do pai, Mustafá, 72 (comerciante e proprietário de imóveis), não sonha em retornar a Ramallah, cidade-chave nos conflitos do Oriente Médio. "Não conseguiria morar em um país onde não é possível entrar e sair a qualquer momento", aponta, referindo-se ao rígido controle feito por Israel e ao fato de que não há atenuante nem devido à condição de seus pais (a mãe se chama Zouhdeieh, ou Judite, como é conhecida) como palestinos genuínos. Uma vez lá, ele será tratado como simples turista. Nael também não tem planos definidos para visitar Meca, um dos cinco pilares do Islamismo. Rezar com freqüência ele reza, além de obedecer outros preceitos, mas não com a rigidez que marca os muçulmanos extremados, os xiitas. Nael é um moderado, um sunita, maioria dentre os 12 mil árabes estimados em Foz.

A partir dessa linha de pensamento, Tsun Shing Tao, 56 anos, também é um moderado. Os Tao (que incluem a mãe, Meizhen, e a filha Eliana) são moradores de Foz de risos fáceis e afáveis, mas integração étnica e religiosa não é o forte deles. E eles, que mantêm um altar budista em casa, não vêem problemas nisso, optando por preservar as tradições dentro de seu sobrado. Fofocas no seio da comunidade chinesa - um hábito tão brasileiro - os afastaram um pouco da massa de quase 2 mil imigrantes legais de Foz vindos do país asiático. Esse número é o segundo maior contingente étnico dali, atrás dos libaneses - 4 mil, segundo projeções da Polícia Federal. Mais integrados portanto aos brasileiros, os Tao deixam transparecer outras adaptações obtidas desde que saíram da província de Shantoung, na China - Tsun fala um português corretíssimo, aí incluindo gírias. Você quase se engasga com o chá verde com jasmim e especiarias que está tomando quando ouve da boca de Tsun expressões como "né, meu!" e "soltar os cachorros".

O fato é que os Tao, do mesmo modo que o clã Saleh, são um espelho da trajetória de dezenas de famílias imigrantes de Foz, quase sempre viajantes regulares pelo planeta, tentando deixar conflitos bélicos e pobreza para os recantos bem obscuros da memória. Ilustra-se: Tsun, formado em Matemática e hoje consultor de empresas, morou nos Estados Unidos e trabalhou anos no Paraguai. Nael fez Medicina na Argentina, enquanto seu irmão e igualmente médico, Munir, se prepara para instalar consultório na problemática Ramallah. O que diferencia Munir de seu pai é o ramo de negócio: Mustafá, agricultor na terra natal, desembarcou no Brasil quatro décadas atrás como comerciante têxtil e no comércio seguiu até se aposentar. O filho é especialista em Reprodução Humana. "Considero-me brasileiro, com a cara de chinês e o raciocínio oriental", diagnostica-se Tsun, em cuja casa, na garagem, repousa um veículo pouco comum a alguém da turma asiática de Foz - uma moto BMW 1963 cuidada por ele com capricho.

Não fosse isso suficiente para causar surpresa, descobre-se que Tsun é fã de blues e tem todos os discos e CDs dos Rolling Stones.

Tal miscigenação cultural, religiosa ou qualquer outra denominação que se queira dar, e que tende a levar ao distanciamento das origens, não é uma prerrogativa só de asiáticos. Jacqueline Calvo, 42, médica, deixou Barranquilla (Colômbia) e parou em Foz, acompanhando o marido, brasileiro, descendente de árabes (de nome Ramsés). De sorriso ainda mais fácil que outros personagens entrevistados pela RS, ela se diz bastante adaptada ao Brasil e se surpreende quando informada que há quase 100 colombianos registrados na cidade. Em outras palavras, Jacqueline não conhece seus patrícios. Não se pode, contudo, pensar que o círculo de convivência dela se restringe a três filhas e dois sobrinhos (igualmente colombianos): há meses que a médica integra a Comunidade Evangélica das Nações, um organismo que abriga fiéis paraguaios, um pastor boliviano e até coreanos. E, se alguém se surpreender com a informação de haver um pastor boliviano em Foz, isso é pouco diante da presença do padre católico Wilibrodus Wedho, 36, na Paróquia São João Batista.

Wili, alcunha dada pelos fiéis, nasceu na Indonésia, ponto do globo onde os muçulmanos são maioria. Seu colega de clero ali não deixa por menos: Germano Luck, 72, bateu em Foz do Iguaçu pela primeira vez em 1972, enviado pela Congregação do Verbo Divino. Nesses 25 anos, retornou à Alemanha apenas para férias (para rever o vilarejo natal) e tratamentos médicos, já que um acidente de carro no interior do Paraná o deixou paraplégico, no final da década de 70. Mas isso não o impediu de celebrar missas.

Mas a diversidade de pensamento em foz não se encerra na lista acima. Kamal Nagraj, 32, e a esposa, Geetika, 31, chegaram à cidade em 1998. Cultos, bem-humorados e donos de um apartamento com ambiente zen, eles são também uma conseqüência da relativização e da globalização que atinge os moradores da cidade. O casamento foi em Nova Delhi (Índia). Nos anos seguintes, andaram por Porto Rico, Estados Unidos, Suíça e Hong Kong. Agora, são quase ex-vegetarianos, por influência da variedade e disponibilidade de carnes na mesa brasileira. Mas ainda falta conhecer em detalhes a principal churrascaria da cidade, que costuma oferecer um plus a seus clientes, um show nativista gauchesco. "Aqui, nossos melhores amigos são coreanos", conta Kamal, que, com Geetika, segue preceitos estipulados por um líder espiritual colombiano, Samael Aun Weor, que, em boa parte do século 20, pregou religiosidade a partir da mescla de fundamentos kardecistas, egípcios e hindus, dentre outros. No altar instalado na sala do apartamento, uma foto de Weor faz companhia a estátuas de tradicionais divindades hindus. Novidades à parte, Kamal mantém um hábito bastante indiano - jogar críquete (esporte similar ao beisebol) aos sábados à noite, no lado paraguaio da fronteira. Assim como a médica Jacqueline Calvo não se aproximou dos colombianos de Foz, o casal Nagraj pouco sabe dos 90 outros indianos contabilizados no banco de dados da Polícia Federal local, segundo o delegado Eustáquio Conceição, chefe do Núcleo de Migração (Numig) da PF de Foz.

A adoção de uma doutrina que faz um mix de áreas distintas é outra das ações que contribui para aumentar a salada social de Foz do Iguaçu. E, neste ponto, ninguém tende a superar o professor Waldo Vieira, cujas credenciais fascinam cada vez mais gente Brasil afora. "Não sigo dogma algum", justifica ele, que rejeita o que se chama de gurulatria a seu favor, embora uma visita ao enorme campus construído sob a autoridade dele no bairro do Tamanduazinho acabe por levar a indícios contrários. Quando Vieira fala a um interlocutor, o fascínio toma conta de quem é membro da Conscienciologia e está nas proximidades (dúzias de psicólogos, administradores, professores universitários, engenheiros residentes em Foz estão entre os membros do Ceaec). Seu raciocínio ágil, o gesticular incessante e o sorriso largo magnetizam ouvintes. Não bastasse isso, a vasta barba branca e o hábito de se vestir (há mais de três décadas, informa) somente na mesma cor branca contribuem para o encanto coletivo. E isso sem contar o glamour pelos três convites que garante ter recebido para atuar em filmes em Hollywood, devido ao seu arquétipo físico. Em uma das películas, jura, seu personagem seria um amante latino.

Aprojeciologia e a conscienciologia perpetram estudos sobre experiências fora do corpo e acúmulo e sistematização de conhecimentos em diversos campos do saber, respectivamente. O biotipo de Waldo, a existência de um campus longe do centro da cidade e a construção de condomínios fechados (total de 500 lotes) e destinados aos seguidores do professor são alguns dos pontos que contribuem para aguçar o interesse dos moradores que têm vontade, mas não coragem, de conhecer mais sobre o que se passa na rua da Cosmoética, 1511, onde fica o Ceaec. Dentre as dúvidas, a de saber como tudo é financiado. A versão do professor Waldo e seu grupo fala sempre na comercialização de livros, cursos e negócios imobiliários, além de doações dos membros. Não faz muito tempo e a venda dos terrenos vizinhos ao Ceaec para os seguidores de Waldo começou a se tornar uma boa fonte de renda. Parte do que é arrecadado é revertido para bancar a Conscienciologia. O advogado Carlos Cordioli, 34 anos, com escritório instalado em Florianópolis, já comprou um dos lotes. Até agosto, conta ele, deve estar residindo em definitivo em Foz (ele já fica 15 dias por mês na cidade, colaborando com o Ceaec).

Um passeio pelo Centro poderá levar o visitante a um dos laboratórios individuais intrigantemente denominados - Mentalsomática, Cosmograma, Despertologia, Paragenética, entre outros - ou à Holoteca, essa última um edifício que oferece a qualquer interessado livros sobre parapsiquismo, gibis e coleções de toda espécie. A Holoteca, garante o professor, é algo sem precedentes na história do homem. Só de recortes de periódicos, há mais de 320 mil, quantia que aumenta a cada dia. "Temos uma verdadeira linha de montagem intelectual aqui", sintetiza Laênio Loche, 32, psicólogo. Ele se referia ao trabalho de dezenas de voluntários (assim auto-identificados) que diariamente fazem aumentar a coleção do Centro, que caminha para ser a maior organização do mundo em pesquisas da consciência, se é que ainda não ostenta tal honraria. Tanta informação está para ser reunida na obra Enciclopédia do Conhecimento, um catatau de vários projetado para ser um inventário da humanidade, nas palavras de quem ali está auxiliando na confecção. A Enciclopédia é um dos orgulhos de Waldo, que conheceu Foz no final dos anos 50, quando os primeiros imigrantes árabes estavam aportando.

Caso o turista acabe o tour perdido diante de tanta variedade de conhecimentos no Ceaec, talvez encontre uma claridade ao cruzar pela Aléia dos Gênios, um corredor ao ar livre que leva à Holoteca que oferece a visão de 28 bustos de famosos - Allan Kardec, Isaac Newton, Santos Dumont, Carl Jung (psiquiatra) e Monteiro Lobato estão na lista. Se não encontrar respostas, o curioso ainda terá uma oportunidade ímpar se entrar em vigor uma estranha sugestão dada à turma do Centro pelo tradutor, jornalista e ecologista espiritualizado Jackson Lima, o Jacão. Que tal alugar um dos laboratórios do Ceaec?

Pois é isso que propõe Jackson, personagem-chave no enigmático mundo além-matéria de Foz. A trajetória desse alagoano, 52 anos, é um fascínio só. Testemunha de Jeová nos anos 70, chegou ao Paraguai para pregar a doutrina, mas se desentendeu com missionários americanos que por ali já estavam. Em Ciudad del Este, a caminho do Brasil, foi assaltado. Sem quase nada, passou a Ponte da Amizade, pisou em Foz e nunca mais saiu em definitivo, embora tenha sido guia turístico no Panamá e se embrenhado vez em quando na selva amazônica em território colombiano. Nos últimos 30 anos, circulou entre seguidores das linhas Hare Krishna, Seicho-No-Ie, Baha'í, Xamanismo guarani, Mórmon, Catolicismo, Osho e Nova Era. Escritor também, publicou o livro Os chackras das Cataratas, sob a ótica de que, para a Garganta do Diabo (o mais famoso dos 275 saltos), convergem todas as energias do mundo. Detalhe: Jackson prefere chamar a queda de Ventre da Deusa, em uma alusão a Y-Guaçu, uma figura de ascendência indígena. Religião é como escola, define ele. "Passa-se da creche à pós-graduação", argumenta, também com sorriso pra lá de aberto. Mais um, claro, que criou sua miscelânea filosófica e feliz anda na cidade, sobrevivendo das traduções que faz (embaixadas estão em seu portfólio de clientes).

Não fosse isso suficiente de se dizer sobre Jackson (mantenedor de 30 blogs, aproximadamente, em português, inglês e outras mais), vale afirmar que é ele o autor de um mais do que alternativo roteiro pelo Parque Nacional do Iguaçu, no lado brasileiro. Se dependesse dele, turistas fariam sobretudo uma viagem de renovação espiritual por lá. Em direção às quedas d'água, os viajantes desceriam silenciosos, de mãos dadas, com fotos só no final da aventura e nada de capa de chuva, já que absorver a neblina criativa (expressão largamente usada por ele) da Y-Guaçu é salutar. O mesmo Jackson é o mentor de uma lista de 100 coisas para se fazer na tri-fron (Tríplice Fronteira). No documento, além do trivial, está sugerido que viajantes busquem ter experiências xamânicas e ayurvédicas.

À presença da fauna humana permanente de Foz pode se acrescentar a contribuição dos turistas tradicionais. E é aí que o Parque Nacional das Cataratas tem papel preponderante. Em 2006, nativos de mais de 160 países estiveram diante da Garganta do Diabo. Costumeiramente, argentinos, americanos e espanhóis estão no topo da lista de países que mais despacham gente. Uma checagem das estatísticas do ano passado permitirá ver que um sujeito de Burkina-Fasso também esteve no local. Outro veio de Serra Leoa e mais um da Mongólia. O Malaui foi mais generoso - três pessoas. Oficialmente, 954.039 homens e mulheres cruzaram o portal de acesso do Parque no ano passado. Uma parcela considerável esteve na Usina de Itaipu, fez compras no Paraguai, freqüentou os cassinos da Tríplice Fronteira e assistiu shows de tango e samba. Um viajante que fizer tais programas terá conhecido as principais vértebras da estrutura da região. Não há estatística confiável, mas uma quantia mínima, quase irrisória, esteve no Templo Budista, um ponto de visitação tipicamente para inglês ver, segundo a sabedoria popular. Lá, não há guias, folders ou acesso aos 20 monges residentes. A recepcionista oriental faz de conta que não entende muito o português e vai logo despachando quem muito pergunta, como fez nas duas vezes no mesmo dia que esteve diante de alguém com uma edição da RS nas mãos. Nada de entrevistas ou máquinas digitais dentro do Templo e somente cliques, portanto, nos jardins, adornados com mais de uma centena de imagens sagradas para budistas. "Os chineses acham que já está tudo explicado, por isso falam tão pouco, pois todo o resto é especulação mental", avalia Jackson, com certo tom irônico.

E, se não há nada de muito convidativo no Templo, no lado argentino pouco melhora. Atravessar a ponte internacional Tancredo Neves, em direção a Puerto Iguazu, é entrar em um terceiro mundo quase no mesmo lugar da Terra. Combalida economicamente, Iguazu sobrevive de um mix de turismo (o lado deles das Cataratas é muito mais bonito, há quem pense), pequeno comércio interno e dos brasileiros que gostam, por exemplo, de se acabar nos bares e nas boates na noite. O leitor não terá ido genuinamente a Puerto Iguazu se não se entregar ao som dos DJs do La Barranca, a boate-mor da cidade. Mais adiante, dá ainda para encontrar minas de pedras preciosas em Wanda e até a casa em que morou Che Guevara na infância (esse lugar, aliás, está para ser descoberto por turistas e pela mídia internacional, já que dizem que foi lá que Ernesto Guevara de La Serna teria moldado sua mentalidade socialista).

Neste ponto - da organização para turistas -, muçulmanos estão em vantagem perante a opinião pública de Foz. Ahmad Mazloum, o sheik mencionado no início do texto, explica que, dentro do possível, sempre há alguém para orientar o visitante da Mesquita. Máquinas fotográficas e filmadoras são permitidas dentro do espaço religioso e, se bem relacionado com alguém da comunidade árabe, o turista pode até conseguir acesso à missa semanal das sextas-feiras à tarde, considerada por muitos como equivalente à celebração dominical de domingos à noite dos católicos. A abertura da Mesquita a leigos pode ser encarada como mais um dos mecanismos dos árabes locais para tentar se livrar dos estigmas neles colados. A mera observação da missa, entretanto, pode levar à formação de mais estereótipos, se avaliada isoladamente. Durante a cerimônia que a RS presenciou, no final de fevereiro, o sheik Taleb Johma pregou durante 25 minutos sem interrupções para uma platéia de 120 homens (espalhados pelo piso térreo) e 20 mulheres (no andar superior). Em instante algum, ele olhou para cima, em uma sintomática atitude que tende a reforçar o paradigma de que, no Islamismo, elas ficam sempre em segundo plano.

Mais: a sunitas ou xiitas de Foz não lhes parece de bom tom que adolescentes de qualquer raça freqüentem a noite aleatoriamente, em um cenário que, em muitas vezes, envolve álcool e outros adereços. Meninas brasileiras namoram e dançam muito cedo, avaliam. Árabes (e outras etnias) vêem tal situação como sinal de fraqueza de laços familiares. "Na vida árabe, a família participa ativamente da formação dos filhos", reforça a médica Mônica Ahmad, 36 anos, demonstrando uma visão que é compartilhada por imigrantes chineses, por exemplo. "Infelizmente, as pessoas se incomodam com nossa cultura e nos colocam como bicho-papão. Só nos vinculam ao terrorismo e ao cerceamento de mulheres, mas o fato é que convivemos muito bem com outras culturas", continua Mônica. Jacqueline Calvo é tão franca quanto a colega de profissão. "Eu enfartaria se minha filha dissesse que iria passar um final de semana na praia com o namorado." Coincidência ou não, convém lembrar, seu marido tem origem libanesa.
Jackson Lima, o tradutor, oferece a sua lógica do sistema. "Aqui é todo mundo na sua e é o maior preconceito um contra o outro." A professora Rosicler do Prado, diretora-geral de um grupo escolar na cidade, tem um episódio a relatar para suplementar isso, "já que, logo depois do 11 de setembro, alunos vinham para a aula com o símbolo da bandeira americana nos bonés e, com muito jeito, pedimos que eles tirassem, para não haver provocações". Rosicler há 27 anos pisa em ovos, por estar à frente de uma instituição que abrange 7,2 mil estudantes (da pré-escola à pós-graduação) de dezenas de nacionalidades. "Respeito tem sido nossa palavra-chave sempre", conclui.

O respeito mencionado pela educadora parece mesmo ser mola-mestra da sociedade multifacetada de Foz. Se não há a aproximação que se imagina cabível em um pedaço do Brasil assim, não há também registros nos últimos anos de incidentes graves envolvendo membros de uma etnia perante outra. A escola árabe que funciona ao lado da Mesquita corrobora isso. Nem todos os 300 alunos têm ascendentes no Oriente Médio e, entre eles, há a estratificação entre sunitas e xiitas, além de uma razoável influência das marcas-símbolo das economias americana e européia. Estar no pátio do colégio durante o intervalo é ter a oportunidade de observar meninas de 10 anos de burca e tênis americano, além da lata de Coca-Cola na mão. Aqui cabe uma curiosidade: ao passo que suas mães têm aversão a fotos, meninas da escola se encantam com a possibilidade de que sejam retratadas em uma das páginas da RS. Em outra parte da cidade, assistir a uma missa na Paróquia São João é ver fiéis lado a lado nascidos no Paraguai, Bolívia, Itália ou Alemanha e de ouvidos atentos à pregação de sotaque indonésio do padre Wili.

Mas o leitor pode até se perguntar se, diante de tanta consideração entre etnias, não há mesmo integração entre si? A convivência se dá no âmbito superficial, quando ocorre. Saidon Saleh, 29, administrador, faz parte de uma geração que aprendeu a apreciar o churrasco gaúcho, dentro dos limites preconizados pelo Islã, certamente. Aos domingos, os Saleh vez em quando acendem a fogueira - carne suína e bebidas alcoólicas ficam de fora. "Tem é bastante refrigerante, tabule e música oriental", descreve, contando em seguida que, para variar, eventualmente eles vão a um pesque-pague. Em outra ponta da cidade, Meizhen Tao, 55 anos e no país desde os anos 80, assiste novela global com regularidade, não sem certa dificuldade, devido ao idioma. "Eu sou a tecla SAP dela, para as traduções", diverte-se a filha, Eliana, 25, já nascida em solo brasileiro. SAP, diz-se, é o recurso da televisão que permite assistir a determinado programa na língua original.

Eliana Tao é um bom exemplo do hábito da perseverança que costuma motivar imigrantes e seus descendentes. Atingida por uma lesão desde a infância que lhe dificulta o caminhar, Eliana (fluente no idioma mandarim) correu o mundo com os pais em busca de assistência médica. Voltou para Foz, cursou uma faculdade e está prestes a concluir um MBA pela prestigiosa Fundação Getúlio Vargas (FGV). Ela repete um tanto da trajetória do pai, Tsun, que, meio século atrás, veio para o Brasil (tinha 6 anos) ao encontro dos pais e acompanhado de um tutor por intermináveis 52 dias de navio desde o Extremo Oriente. Ou até mesmo do padre Germano, que teve a casa da família vasculhada por soldados americanos no final da Segunda Guerra e que, dentre ir para o antigo Congo belga (no coração do continente africano) ou o Brasil, avaliou ser melhor o clima tropical daqui. Ou, ufa, de Geetika Nagraj, que quer se naturalizar verde-amarela, depois de ter se formado em Psicologia, Filosofia e Antropologia na Índia - além de ser artista plástica e de namorar Kamal por três anos via cartas manuscritas, agora cuidadosamente guardadas, quando ele residia no Paraguai.

E é a própria Geetika quem fornece outras nuances de que os tempos estão se alterando em Foz do Iguaçu e que há mesmo uma complexidade social crescente por detrás da casca que os turistas costumam ver. Os filhos dela não estudarão na Índia, um ato contraditório a um costume de imigrantes que aportaram nas últimas décadas na cidade fronteiriça. "Hoje, com o mundo globalizado, está tudo igual aqui e lá", justifica, feliz por estar em uma cidade cuja infra-estrutura é por ela considerada adequada, com a exceção de segurança pública, diagnóstico feito com regularidade por outros estrangeiros (o assassinato de um turista francês há poucos anos, quando saía de seu hotel no centro de Foz, contribuiu para essa visão).

Quanto às mudanças drásticas, pode-se dizer que Foz está acostumada. Tem sido desse jeito desde as primeiras visitas do colonizador espanhol. No século 16, o conquistador Alvar Nuñez Cabeza de Vaca saiu da Europa, chegou ao sul do Brasil e, a pé, deu com os costados na Garganta do Diabo, uma façanha que entrou para a memória da região. Séculos depois, a Tríplice Fronteira veria a elevação do mate como centro das disputas transnacionais por poder, terras e dinheiro, o que levou o Império a estabelecer um posto militar por ali para tentar ofertar um mínimo de estabilidade coletiva. Na primeira metade do século 20, outra revolução, motivada por uma campanha do aviador Santos Dumont para criar um parque nacional na zona das Cataratas. Já nos anos 60, de novo, quando a Ponte da Amizade ligou Brasil e Paraguai. E, ufa de novo, o ciclo mais recente havia sido a obra da Usina Binacional de Itaipu, que, por alguns anos, provocou uma movimentação migratória humana que guarda semelhanças com Serra Pelada, lá nos anos 80.

Desta vez, porém, as mudanças em curso são mais sutis, mas não menos transformadoras dos parâmetros sociais. Aos poucos, o grupo da Projeciologia e da Conscienciologia se entranha na cidade e no imaginário das pessoas. Não é um processo fácil, em virtude dos ares de desconfiança que pairam no ar cheio de mormaça contínua dali. E tanto não tem sido fácil que, pela primeira vez em sua trajetória, o professor Waldo Vieira autorizou recentemente a emissão e publicação em jornal de uma imensa nota de esclarecimento (duas páginas) negando especulações recorrentes de ser contrário à maternidade e repelindo o estigma de que, na rua da Cosmoética, há uma seita em formação.

Tome-se tais casos mais os índices crescentes de ocidentalização dos filhos e netos de imigrantes e o caldo está pronto. E em ebulição. Isso sem contar a relatada queda no volume de sacoleiros, que injetam boa parte dos US$ 2,5 bilhões anuais do comércio de Ciudad del Este. Para uma cidade orgulhosa de abrigar um elevado contingente de etnias e de receber com fervor turistas de qualquer perfil, a situação exige bastante atenção dos poderes público e privado. Alterando-se o quadro econômico de Ciudad, haverá reflexo considerável em Foz e nos seus moradores que atuam nas ruas e nos shoppings da segunda maior cidade paraguaia. Pelos balcões, escritórios e gabinetes de Foz, muitos são os que estão tentando compreender em que isso tudo vai dar. Na Vila Portes, grudada na ponte que leva ao Paraguai, há comerciantes de cabelo em pé (é chavão dizer isso, mas é real a preocupação) com a queda considerável nas vendas. Cada um se preocupa a seu modo. Há uma exceção. Para Jackson Lima, o blogueiro, não haverá tempo ruim: "Eu nasci no Sertão, cara, eu me viro", avisa. Uma fina ironia, afinal, na terra da abundância das águas e das energias cósmicas.