Edição 100 - Dezembro de 2014

Entrevista Rolling Stone: Stephen King

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por Andy Greene

O local onde fica o escritório de Stephen King está em uma rua sem saída especialmente sem graça nos arredores de Bangor, estado do Maine (Estados Unidos), bem perto de uma loja de armas, de uma concessionária de veículos removedores de neve e, como é bem apropriado, de um antigo cemitério. Do lado de fora, o prédio anônimo parece uma nova filial da Dunder Mifflin, uma escolha muito deliberada, feita para manter King e sua minúscula equipe em segurança. “Não podemos ficar em uma rua principal, porque as pessoas iriam nos encontrar”, diz um dos assistentes do escritor. “E não são pessoas que você vai querer que te encontrem. Ele atrai uma gente bem esquisita.”

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Depois de tocar o interfone e a porta abrir, o visitante entra em uma espécie de museu do autor – salas decoradas com criações de fãs, habitadas por personagens de seus livros, um bonequinho dele em Os Simpsons, um boneco assustador do palhaço demente do livro A Coisa (1986) – e pilhas e pilhas de livros. King tem uma casa gótica (com teias de aranha e morcegos no portão de entrada) a apenas alguns quilômetros de distância que atrai ônibus cheios de turistas, mas praticamente nunca vai lá. Na maior parte do ano, ele permanece a duas horas de distância do escritório, na cidade de Lovell. E durante o inverno, agora que seus três filhos estão crescidos, ele e a mulher, Tabitha, vão para Sarasota, na Flórida.

King só passa pelo escritório mais ou menos uma vez por mês. Hoje foi um desses dias e, como de costume, ele está cuidando de montes de projetos ao mesmo tempo. Acaba de dar os retoques finais em um esboço de seu próximo livro de serial killer, Finders Keepers (sequência de Mr. Mercedes , ainda inédito no Brasil), um feito bem surpreendente, levando em conta que ele também vai lançar dois livros neste ano nos Estados Unidos, escrever um roteiro de cinema baseado no conto dele A Good Marriage e continuar a refinar Ghost Brothers of Darkland County, musical que escreveu ao lado de John Mellencamp.

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Desde 1974, quando Carrie – A Estranha chegou às prateleiras, estima-se que King, de 67 anos, tenha vendido 350 milhões de livros. John Grisham e E.L. James, autora de Cinquenta Tons de Cinza, podem até vender mais do que ele hoje em dia, mas isso não é exatamente um problema. “King não é competitivo”, diz Chuck Verrill, agente de longa data do escritor. “O único sujeito com quem ele se incomodou na vida foi Tom Clancy. A certa altura, os dois estavam na [editora] Penguin, e deixaram bem claro para King que ele vinha depois de Clancy. Ele não gostou disso, mas está muito contente na posição que ocupa agora.”

Stephen King não deu muitas entrevistas longas à imprensa desde que quase morreu atropelado há 15 anos, mas resolveu receber a Rolling Stone para conversar sobre sua vida e carreira.

A ampla maioria dos seus livros trata de terror ou do sobrenatural. O que atraiu você a esses temas?
Está embutido [em mim]. Só isso. O primeiro filme a que eu assisti na vida era de terror: Bambi. Quando o pequeno cervo é pego em um incêndio florestal, eu fiquei apavorado, mas também em êxtase. Não consigo explicar.

Já sentiu vergonha por causa disso?
Não. Eu achava muito divertido assustar as pessoas. Também sabia que era aceitável do ponto de vista social, porque havia muitos filmes de terror por aí. Tive minhas primeiras experiências com gibis de terror como Contos da Cripta.

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Por escrever livros de terror, você entrou em um dos gêneros menos respeitados da ficção.
É. Esse é um dos gêneros que ficam do outro lado do muro na comunidade literária, mas o que eu poderia fazer? Era lá que estava a minha atração. Eu adoro D.H. Lawrence. E a poesia de James Dickey, Émile Zola, Steinbeck... Fitzgerald, nem tanto. Hemingway, nem um pouco. Basicamente, Hemingway é um saco. Se as pessoas gostam, maravilha. Mas, se eu me propusesse a escrever daquele jeito, sairia uma coisa vazia e sem vida, porque eu não sou assim. E eu tenho que dizer uma coisa: em certo grau, eu elevei o gênero do terror.

Poucas pessoas discordariam disso.
É algo mais respeitado hoje. Passei a vida toda expressando minha contrariedade à ideia de simplesmente desprezar áreas inteiras da ficção ao dizer que são de “gênero” e, portanto, não podem ser consideradas literatura. Não estou tentando parecer convencido nem nada. Raymond Chandler elevou o gênero de detetive. Pessoas que fizeram um trabalho maravilhoso realmente desafiaram os limites preestabelecidos.

Muitos críticos foram bem brutais quando você estava começando.
No início da minha carreira, o jornal The Village Voice fez uma caricatura minha que me magoa até hoje quando penso nela. Era uma imagem minha comendo dinheiro. Partia do princípio de que se ficção vendia muitos exemplares, era ruim. É a ideia de que se algo é acessível a muita gente, tem que ser idiota, porque a maior parte das pessoas é idiota. E isso é elitista. Não compro essa ideia.

Mudando de assunto, você deixou claro com o passar do tempo que ainda acredita em Deus.
É. Eu escolhi acreditar em Deus, porque assim as coisas ficam melhores. Você tem um ponto de meditação, uma fonte de força. Eu não pergunto a mim mesmo: “Bom, será que Deus existe ou não existe?” Escolhi acreditar que Deus existe e, portanto, posso dizer: “Deus, não consigo fazer isso sozinho. Me ajude a não beber hoje. Me ajude a não usar drogas hoje”. E isso funciona muito bem para mim.

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Descreva como é um dia típico na sua vida quando está trabalhando em um livro.
Eu acordo. Tomo café da manhã. Caminho uns 5,5 quilômetros. Volto, vou para o meu escritório em casa, onde tenho um manuscrito. A última página que me agradou fica por cima. Leio isso, e é como entrar na pista de decolagem. Sou capaz de repassar e revisar de me colocar – clique! – de volta naquele mundo, seja lá qual for. Não passo o dia todo escrevendo. Talvez eu escreva um texto novo durante umas duas horas, então retomo e reviso uma parte e imprimo o que gosto, e daí desligo tudo.

Você faz isso todos os dias?
Todos os dias, até nos fins de semana. Eu costumava escrever mais, e escrevia mais rápido – é só a idade. A gente fica um pouquinho mais lento.

Escrever é um vício para você?
É, com certeza. Eu amo [escrever]. E é uma das poucas coisas que hoje eu faço menos, mas da qual tiro mais proveito. Geralmente, com droga e bebida, você usa mais e obtém menos resultados à medida que o tempo passa. Continua sendo muito bom, mas é um comportamento obsessivo-compulsivo. Escrevo todos os dias durante uns seis meses e acabo com um esboço de alguma coisa nas mãos – então, eu me forço a parar completamente durante dez ou 12 dias para deixar tudo assentar. Só que, nesse período de parada, deixo minha mulher louca. Ela diz: “Saia da minha frente, saia de casa, vá fazer alguma coisa!” Vejo TV, toco violão e mato tempo, e quando vou para a cama à noite tenho montes de sonhos malucos, e eles geralmente não são agradáveis, porque o maquinário que você tem disponível é usado para escrever histórias, e ele não quer ser desligado. Então, se não vai para a página, vai para algum outro lugar. Sempre são sonhos que se concentram em algum tipo de vergonha ou insegurança.

Você teve um problema grave com bebida. Quando foi que isso começou a incomodar?
Comecei a beber quando tinha 18 anos. Percebi que era um problema na época em que o Maine se tornou o primeiro estado do país a aprovar a lei das garrafas e latas retornáveis. Já não dava mais para simplesmente jogar fora aquela merda toda, você tinha que guardar e entregar para um centro de reciclagem. E ninguém em casa além de mim bebia. Minha mulher tomava uma taça de vinho e mais nada. Então, fui à garagem certa noite e a lata de lixo que tinha sido separada para as latas de cerveja estava cheia até o alto. Na semana anterior, estava vazia. Eu estava bebendo mais ou menos uma caixa de cerveja por noite. Pensei: “Sou alcoólatra”. Isso foi provavelmente em 1978, 1979.

Em que ponto as drogas pesadas entraram em cena?
Provavelmente por volta de 1978, mais ou menos na mesma época em que percebi que estava fora de controle com a bebida. Bom, eu achei que tinha controle, mas, na verdade, não tinha. Fui usuário pesado de cocaína entre 1978 e 1986, algo assim.

Na época, você tinha três filhos pequenos. Deve ter sido muito estressante guardar isso em segredo e ao mesmo tempo equilibrar todas as suas responsabilidades.
Eu não me lembro.

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Sério?
Sério. Aquela época toda é bem nublada para mim. Eu simplesmente não usava perto dos outros. E não bebia em ocasiões sociais. Eu costumava dizer que não queria ir a bares, porque estavam cheios de cuzões iguais a mim.

Se você tivesse que escolher seu melhor livro, qual seria?
Love: A História de Lisey. Esse me pareceu ser um livro importante, porque era sobre casamento, e eu nunca tinha escrito sobre isso. Eu queria falar sobre duas coisas: uma é o mundo secreto que as pessoas constroem dentro de um casamento e a outra era que, mesmo nesse mundo íntimo, continuam existindo coisas que não sabemos um a respeito do outro.

Você fez uma fortuna ao longo dos anos. Muita gente estaria aproveitando, comprando casa no sul da França, enchendo o lugar com obras de Picasso. Obviamente, isso não é para você. Como você aproveita seu dinheiro?
Eu gosto de ter dinheiro para comprar livros e assistir a filmes, comprar música e coisas assim. Para mim, a melhor coisa do mundo é fazer o download de séries de TV no iTunes, porque lá não há comerciais; se eu fosse um trabalhador comum, jamais teria dinheiro para isso. Mas eu nem penso em dinheiro. Tenho duas coisas maravilhosas na vida: não sinto dor e não tenho dívidas. Dinheiro significa que eu posso sustentar minha família e continuar fazendo o que eu amo. Não existe muita gente neste mundo que pode dizer isso, e não há muitos escritores que possam dizer isso. Eu não ligo para roupas. Não ligo para barcos. Nós temos uma casa na Flórida, mas moramos no Maine, caramba. Não é uma comunidade da moda nem nada. Temos as casas e tal – minha mulher gosta disso tudo, mas eu não me interesso muito por coisas. Gosto de carros, porque fui criado no interior e ter um carro era importante. Então, temos mais carros do que precisamos, mas esta é a nossa maior extravagância.

Ao longo dos anos, você sempre criticou o filme O Iluminado, de Stanley Kubrick. Fica surpreso com o culto construído ao redor do longa?
Eu não entendo. Mas há muitas coisas que não entendo. As pessoas obviamente adoram o filme, e não compreendem por que eu não gosto. O livro é quente, o filme é frio; o livro termina com fogo, e o filme, com gelo. No livro, existe um verdadeiro arco em que você vê este sujeito, Jack Torrance, tentando ser bom, mas que, pouco a pouco, vai se tornando maluco. E, quando assisti ao filme, Jack era louco desde a primeira cena. Tive que ficar com a boca fechada na época. Era uma exibição antecipada, e Jack Nicholson estava presente. Mas fiquei pensando comigo mesmo, no momento em que ele apareceu na tela: “Ah, eu conheço esse cara. Eu já o vi em cinco filmes de motoqueiro, em que Jack Nicholson fazia o mesmo papel”. E é tão misógino. Quero dizer, Wendy Torrance simplesmente é apresentada como uma dona de casa que não para de berrar. Mas essa é só a minha opinião, é só o jeito como eu sou.

Você ameaçou se aposentar algumas vezes, mas obviamente nunca levou a ideia até o fim. Se vê escrevendo quando estiver com 80 anos, e até depois?
Sim. Que outra coisa eu vou fazer? Você tem que fazer alguma coisa para preencher o dia. Isso me preenche. Tem duas coisas nesse trabalho das quais eu gosto: me deixa feliz e deixa outras pessoas felizes.

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