Edição 106 - Junho de 2015

Estrada sem mapas

Tendo começado a carreira ao acaso, Chay Suede busca na fé o caminho para não se preocupar com o amanhã
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por Aline Oliveira

Chay Suede havia escolhido um restaurante no bairro de Pinheiros, em São Paulo, para conversar. Mas, ao chegarmos ao local, em uma noite fria de maio, encontramos as portas fechadas. Não havia um plano B. “Vamos andando até achar um lugar aberto”, ele sugere – sem se deslumbrar com o fato de ser um dos novos rostos mais celebrados da Globo, o ator tampouco se irrita com imprevistos. Vestindo camisa xadrez, jaqueta de couro, calça jeans rasgada e um par de All Star vermelho, anda pelas ruas expondo-se ao inesperado tal qual um anônimo, mesmo estando diariamente no horário nobre da TV.

Ele resolve parar no primeiro estabelecimento que surge – uma típica padaria paulistana, cujo cardápio vai do café da manhã ao jantar. Chay escolhe uma mesa na calçada, pede um café duplo e explica o motivo de estar com a barba por fazer, particularidade que o descaracteriza de Rafael, seu personagem em Babilônia, folhetim de Gilberto Braga. “Faz três dias que não gravo e por isso não fiz. E eu gosto da sensação de ter barba”, diz o ator, que completará 23 anos no final de junho. “Sem ela, fico parecendo mais novo do que eu já sou.”

É justamente o papel de um rapaz mais jovem o desafio do ator capixaba em Babilônia. E, além da responsabilidade do primeiro personagem fixo em uma trama das 21h, ele ainda contracena com figuras sagradas da dramaturgia, como Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg, mães dele na ficção. “É incrível trabalhar com elas. Me envaidece poder olhar nos olhos da Fernanda todos os dias”, afirma, em um dos poucos momentos em que as possibilidades da fama parecem de fato afetar seu orgulho próprio.

Outra parceira de cena é Luisa Arraes, filha do cineasta Guel Arraes, com quem ele faz par romântico. Laís, personagem de Luisa, pertence a uma família religiosa, incapaz de entender o fato de Rafael ser ateu. Para o ator, discussões como essa são válidas na novela enquanto instrumento de informação. “Acho importantíssimo levantar essa questão da intolerância, que não tem a ver com aquilo em que a gente acredita ou deixa de acreditar. Rafael não acredita em Deus, já eu acredito muito. Mas esse fato não o muda em nada [como ser humano], nem para mais nem para menos.” A fé é recorrente no discurso de Chay, e não aparece travestida na forma de pregação ou doutrinamento – para ele, existe como uma força propulsora, como um meio para a certeza de que há algo de bom reservado no caminho que escolheu trilhar. Sempre que questionado sobre o futuro, Chay cita sua crença em algo maior. “O ‘se’ nunca faz parte. Eu acredito no plano de Deus”, afirma. “Não existe outra possibilidade senão a que eu sempre vivo no momento.”

Chay suede está mais confortável em seu segundo papel de destaque na faixa das 21h. O primeiro foi na fase inicial de Império, novela de Aguinaldo Silva, quando interpretou o Comendador José Alfredo na juventude (o papel pertenceu a Alexandre Nero na maior parte da trama). Antes disso, sua experiência como ator tinha sido apenas em Rebelde, da Record. “Eu não tinha noção do que era estar na novela das 21h. Minha vida foi transformada depois de três episódios”, conta. É difícil mensurar o tamanho da mudança. No entanto, a abordagem das pessoas nas ruas e os números das redes sociais do ator – no Instagram, por exemplo, a quantidade de seguidores passou de 300 mil para 1,5 milhão – ajudam a contabilizar o impacto. O reconhecimento por parte do empregador também veio: a Globo fechou um contrato com ele por três anos.

A preparação para Império, Chay afirma, rendeu ensinamentos para além da telas. “O estudo com o [preparador de elenco argentino] Eduardo Milewicz mudou a minha vida”, diz. “Um dos aprendizados foi o de não tentar agradar. Ninguém vai gostar mais ou menos de você por isso; ninguém produz nada de interessante tentando agradar aos outros. E a segunda lição foi fracassar. Fracassar de novo e fracassar melhor.”

A vivência no cinema iniciou-se com dois filmes – a comédia Lascados, lançada em 2014, com direção de Vitor Mafra, e o ainda inédito A Frente Fria Que a Chuva Traz, do cineasta Neville D’Almeida, que narra a história de jovens milionários que promovem festas de arromba em lajes de comunidades cariocas. O papel mais emblemático, porém, ainda está por vir: no segundo semestre, Chay começa a rodar Minha Fama de Mau, cinebiografia de Erasmo Carlos, da qual será o protagonista.

Foi o interesse pela sétima arte, inclusive, que rendeu a Chay o sobrenome artístico. Nascido Roobertchay Domingues da Rocha Filho, o ator se impressionou com a história de Johnny Suede (1991), filme estrelado por Brad Pitt. Na película, o protagonista é um jovem fracassado e sonhador, que não se preocupa com os problemas do dia a dia e passa o tempo vestindo-se como nos anos 1950 e sonhando em ser um astro do rock. Chay assistiu ao filme pela primeira vez aos 15 anos, quando o pai dele se desfez da locadora da qual era dono, em Vitória. “Muitos filmes foram lá para casa e esse foi um deles. Mexeu muito com a minha imaginação. Tanto que fiz minha primeira música sobre a história desse personagem e passei a usar Suede em vez de Rocha nas redes sociais”, ele conta. “Foi uma brincadeira que ficou séria."

O estilo de se vestir do ator parece influenciado pelo Suede de Brad Pitt. Jaqueta de couro, jeans, peças de cores escuras e um topete remontam a um visual rockabilly. Chay faz questão de escolher suas próprias roupas sem a ajuda de um personal stylist. “Acho baixo-astral [ter um personal stylist]. Quando vejo alguém vestido por um, é tão gritante. E a roupa tem muito a ver com o que você quer causar, dizer. Quando se coloca essa função inteiramente na mão de alguém, você perde coisas que são suas”, diz o artista, fã de comprar peças em brechós. “Tá vendo este tênis aqui?”, ele indaga, levantando o pé por cima da mesa. “Paguei só R$ 15.”

As motos, outra paixão, também vieram na adolescência. “Moto é parte de mim. Ganhei minha primeira scooter com 15 anos.” Hoje, ele vai diariamente ao Projac, onde grava Babilônia, usando uma das três motocicletas que mantém na garagem do apartamento em que mora, no bairro carioca da Gávea.

Apesar de ter, até o momento, encontrado maior sucesso na carreira de ator, foi cantando que Chay Suede apareceu pela primeira vez na televisão. Ele participou do programa Ídolos, da Rede Record, em 2010, tendo ficado em quarto lugar. Mesmo não tendo sido eleito campeão, a performance lhe rendeu o papel em Rebelde e foi o fator decisivo para ele deixar Vitória, sua cidade natal, e ir morar no Rio de Janeiro.

Músico não profissional, o pai de Chay foi quem mais incentivou o filho a se inscrever no programa. “Ele fez questão e eu fui, sem muita pretensão”, relembra. “Ser um calouro de reality show é estar em um lugar complicado, frágil. Mas, depois que passei por isso, vi um mundo de possibilidades na minha frente.” Antes das eliminatórias, Chay não tinha planos de seguir a carreira artística diante das câmeras: havia passado no vestibular para o curso de Cinema na Universidade Federal do Espírito Santo, e só desistiu dos estudos para entrar no programa.

Fã de Elvis Presley e Johnny Cash, ele também gosta de Beatles, Bob Marley e música brasileira. “Estou ouvindo muita música paraense, carimbó, guitarrada, brega”, elenca. Além de cantar, compõe, e afirma que as letras que faz dependem muito da época que está vivendo. “Agora estou em uma linha mais romântica”, revela Chay, que namora a atriz Laura Neiva há nove meses. As canções em que está trabalhando atualmente são apresentadas “somente a amigos, sem pretensão” (aliás, “sem pretensão” é uma expressão que ele repete algumas vezes durante a entrevista). Porém, não descarta a possibilidade de gravar um disco no futuro ou até voltar a fazer shows quando acabar Babilônia, como fez ao término de Império, em 2014.

Dono de talentos que foram surgindo sem grandes ambições – não fosse a insistência do pai para a inscrição em Ídolos, Chay poderia nem estar hoje na TV –, ele descarta a ideia de setorizar carreiras. Além de atuar, cantar e compor (na época da novela Rebelde, ele ainda fazia shows pelo Brasil junto a outros cinco integrantes do elenco), Chay também já foi apresentador da MTV, com o programa Hora do Chay, veiculado em 2013. “Não consigo entender ser uma coisa ou outra, quando o mundo nos dá possibilidade de ser mais de uma. Não entendo isso de colocar cada coisa em seu lugar, de setorizar talentos, sexualidade. Acho que a gente, enquanto humano, não é assim”, analisa. “Eu gosto de cantar, de compor, de atuar, e nunca vou me sentir na obrigação de ter que escolher. Essa coisa de escolher acho que é passado, acho careta.”

Por natureza, Chay Suede não vive disposto a anseios. Assim como o amor pela estrada (um exemplo: ele viajou do Rio de Janeiro a São Paulo, para se encontrar com a mãe e fazer esta entrevista, dirigindo o próprio carro), a predileção por viver sem roteiro definido é inerente ao rapaz. “Quando se cria expectativa, tudo o que pode acontecer é você se frustrar”, ele teoriza. “Quando não se cria, milhares de coisas podem acontecer.”

Paixão Nordestina
Depois de império, ator almeja interpretar um cangaceiro

Chay não tem nenhuma ascendência nordestina. Sua família está dividida entre os estados do Espírito Santo e Minas Gerais. No entanto, a cultura sertaneja o impressiona desde pequeno. Começou quando assisti O Auto da Compadecida”, lembra. “Foi a primeira vez que tive contato com aquele tipo de cultura. Não conhecia aquilo. Hoje, tenho muita vontade de interpretar um cangaceiro.” Além da obra de Ariano Suassuna (cuja versão no cinema foi dirigida por Guel Arraes), Chay lista o filme pernambucano O Som ao Redor, de Kleber Mendonça Filho, como um de seus preferidos. O desafio de reproduzir o sotaque de Pernambuco em Império também o alegrou. “Pensaram que eu fosse mesmo de lá – isso me deixou muito feliz.”