Edição 107 - Julho de 2015

Vitalidade Imortal

Como um herói de filmes de ação e ex-governador passa seus anos dourados? Se ele for Arnold Schwarzenegger, a todo vapor
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Vitalidade Imortal
Peter Yang
por Jonah Weiner

Arnold Schwarzenegger entra em um elevador ao lado de um mural de Arnold Schwarzenegger, sobe para o 3º andar e passa por um corredor coberto de fotos de Arnold Schwarzenegger, abre duas portas protegidas por uma estátua em tamanho natural de Arnold Schwarzenegger e entra em seu escritório em Santa Monica. Ele se senta em uma poltrona de encosto alto revestida de couro de crocodilo, em frente a uma mesa de centro cheia de frutas frescas, porcelana fina e pilhas de guardanapos impressos com o brasão do governador do estado da Califórnia. Os braços dele são enormes e as panturrilhas estão ressaltadas por baixo do short azul de ginástica; o ator e político acabou de se exercitar.

Arnold Schwarzenegger reinterpreta as falas mais icônicas de seus personagens.

Schwarzenegger – há mais de quatro anos de volta ao setor privado, depois de dois mandatos comandando o estado – faz reuniões sobre filmes e negócios aqui. Em uma parede distante estão estojos exibindo troféus de antigas competições de fisiculturismo. Atrás da mesa dele há um retrato imenso em silk-screen, feito por Andy Warhol, de Russell Means, ator e ativista indígena norte-americano; abaixo, uma pequena foto de Meinhard Schwarzenegger, o lindo irmão mais velho de Arnold, que morreu em um acidente de carro aos 24 anos. O ator se esqueceu do som da voz de Meinhard, mas constantemente pensa nele. “Sempre fiquei extremamente irritado com a ideia da morte”, diz. “É um desperdício. Sei que é inevitável, mas que diabos é isso? Você trabalha a vida inteira, tenta se aprimorar, economizar dinheiro, investir bem e então, de repente, puf. Acabou.” Arnold Schwarzenegger tem 67 anos. “A morte me irrita mais do que nunca”, afirma.

Imortalidade – o modo como legados podem viver mais do que nós – é uma obsessão de longa data para ele. Schwarzenegger acredita que alguns homens nascem para liderar e outros nascem meramente para seguir, mas mesmo na primeira categoria há uma ordem hierárquica: ele faz um gesto em direção à parte oeste da sala, onde estão reunidos bustos em bronze de Abraham Lincoln, John F. Kennedy e Ronald Reagan. Alguns metros a leste há um busto de Vladimir Lenin. “A ideia é mostrar perdedores” – aponta para Lenin e depois para o oeste – “e vencedores”. Schwarzenegger cresceu na Áustria da era da Guerra Fria, em Thal, uma cidadezinha rural que vivia com medo das forças soviéticas. Por um tempo, em Los Angeles, cercou sua piscina com estátuas de “Josef Stalin, Nikita Khrushchev, Yuri Andropov, Konstantin Chernenko – todos os líderes russos, menos Leonid Brejnev e Alexei Kosygin”. Colocou-as sobre colunas ornamentais, como se fossem inimigos derrotados enfiados em estacas.

Dois novos filmes estrelados por Schwarzenegger estrearam no Brasil em julho: Maggie – A Transformação e O Exterminador do Futuro: Gênesis. O salário dele para O Exterminador do Futuro 3, o último filme que lançou antes de se tornar governador, foi de US$ 30 milhões, mas em Maggie – A Transformação ele diz não ter recebido 1 centavo. Durante a maior parte da carreira, nunca se interessou em fazer um drama, caso do filme, no qual interpreta um fazendeiro que assiste à filha pequena se tornar um zumbi. “O pior pesadelo de um pai é ver o filho morrer. Estou naquela idade em que esse tipo de coisa tem muito mais apelo emocional.”

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Mas ele também volta para casa com O Exterminador do Futuro: Gênesis, seu quarto filme na franquia. Além disso, uma refilmagem de Conan, o Bárbaro foi anunciada.

No trailer de Gênesis, Schwarzenegger diz o icônico “I’ll be back” (eu voltarei) e salta de um helicóptero. Esse salto, pensando de maneira analítica, espelha a rápida colisão de Schwarzenegger quando saiu da política e voltou aos filmes de ação. Ele foi um candidato quentíssimo nas eleições ao governo da Califórnia em 2003: conquistou 48,6% dos votos e teve um índice de aprovação de 65% logo no início; houve vitórias e uma ampla margem na reeleição. Só que ele também sofreu derrotas legislativas brutais e viu sua pauta prejudicada pela recessão. No final, tinha 23% de aprovação e a dívida do estado havia quase triplicado. Nesse contexto, Schwarzenegger fazer um filme do Exterminador pode parecer menos uma volta olímpica graciosa e mais uma regressão nada digna.

No entanto, se você acha que o artista vê as coisas dessa forma, não sabe nada sobre ele.

O homem passou a vida transformando detratores em espectadores, céticos em defensores. “Sempre fui subestimado e isso sempre trabalhou a meu favor”, afirma. “É a coisa mais maravilhosa, ser subestimado.”

Schwarzenegger anda de bicicleta em Santa Monica (em recente passagem pelo Brasil, ele também foi visto praticando o esporte, no Rio de Janeiro). “Faço isso uma, duas, três vezes por semana, se não estou viajando”, conta. Ele pedala até a Gold’s Gym, ignorando semáforos vermelhos e fechando carros para virar à esquerda. Alguns pedestres notam o ex-governador. Um rapaz no ponto de ônibus mostra o polegar para baixo e faz um barulho de peido com a boca. Em Venice, em frente à Gold’s Gym, um paparazzo está aguardando. “Arnie! Arnie!”, o fotógrafo grita, tentando de leve provocar uma reação. “Você é o líder de uma gangue de triciclos?” Schwarzenegger está impassível. “Ignoro as perguntas estúpidas deles”, diz.

Dentro da Gold’s, um jovem Schwarzenegger – de músculos avantajados e brilhantes, fazendo poses impossíveis – sorri nas fotos emolduradas. Quando ele era garoto na Thal pós-guerra, ficava maravilhado com os fisiculturistas de Venice nas revistas norte-americanas sobre musculação. O pai dele era policial e ex-nazista de carteirinha com uma atitude amarga e derrotada. A fim de ganhar dinheiro, Schwarzenegger se tornou um vigarista – trapaceava por trocados na cidade vizinha, Graz, vendendo sorvete com 200% de ágio. Imagens da praia de Muscle Beach se misturavam com filmes de Hollywood em sua mente para formar um retrato dos Estados Unidos como a terra dos vencedores.

Ele era bom em matemática, e o fisiculturismo oferecia uma forma quantificável de excelência: se fizesse tantas repetições, seu bíceps ficaria tantos centímetros maior. “A academia que frequentava tinha paredes de madeira e eu escrevia com giz cada repetição, cada progresso”, conta. Schwarzenegger venceu grandes competições e foi para a Califórnia. Seu objetivo de grandeza às vezes parecia assustadoramente frio. No documentário O Homem dos Músculos de Aço, de 1977, ele lembra sua reação nada sentimental ao ouvir sobre a morte do pai: estava a dois meses de participar de uma competição quando sua mãe ligou dando a notícia, e ele se recusou a interromper o treinamento para ir ao funeral. “Ele está morto”, disse a ela. “Não há nada a fazer.”

Mesmo quando conta isso, Schwarzenegger é desconcertantemente carismático. Um de seus maiores dons como fisiculturista não tinha nada a ver com músculos, mas sim com sua capacidade de encantar plateias. Ele entrava na mente dos outros atletas, pregava peças neles. Essa esperteza interpretativa passou para Hollywood, claro, e para a política. “Se faço um discurso, preciso conseguir brincar com o público como se fosse massinha.”

Dez esportistas que se aventuraram na TV e cinema.

Em 1986, o astro, um republicano moderado, casou-se com Maria Shriver, autora e herdeira da família Kennedy. Em 2003, o então governador da Califórnia, Gray Davis, estava mal nas pesquisas e Schwarzenegger, que havia considerado entrar para a política, habilmente conseguiu o cargo. No capitólio, em Sacramento, uma de suas atitudes mais extravagantes foi erguer uma imensa tenda, onde fumava charutos cubanos e recebia convidados sob um retrato dele em preto e branco. “Era meu domínio”, diz hoje.

A Gold’s Gym também é domínio dele. Ele vai da máquina de peitoral aos halteres e depois ao aparelho para bíceps – repetições aqui, repetições ali. Vê um octogenário usando calça esportiva dando duro em uma bicicleta ergométrica. “Mahoney!”, chama. Mahoney, cujo nome é Chuck, é um ex-fisiculturista. “Esse cara uma vez carregou dois pesos de 113,5 kg, um em cada mão, indo e voltando da Muscle Beach”, Schwarzenegger conta. “São 113,5 kg agora?”, Mahoney responde, sorrindo. “Você precisa acertar essa história, Arnold. Fiz isso duas vezes – 29,50kg na primeira, 50 kg na segunda.”

Schwarzenegger volta para os exercícios e as pessoas se aproximam segurando celulares. Ele posará para fotos, diz a cada uma delas, quando terminar os exercícios. A fila cresce. “Depois”, afirma diante de novos suplicantes. Resmunga entre repetições: “Depois!”

Ele e Maria têm quatro filhos: dois rapazes e duas garotas. Como pai, lutou para traçar a linha entre dar o que nunca teve e mimá-los. “É muito difícil, porque eu não tinha nada e eles têm tudo”, relembra. “Então, claro, você sempre pensa nisso: ‘Por que eu daria um carro a um moleque de 16 anos?’ Só que você percebe que, se ele não tiver um carro, será o único entre os amigos a ficar sem, e compra um Audi. O menor deles. Ou um jipe pequeno. O bom é que eles sempre foram responsáveis.”

Em 2011, houve a revelação de que Schwarzenegger tinha um quinto filho, Joseph, agora adolescente, com a governanta da casa. Segundo sua autobiografia, quando a esposa, Maria, o confrontou, ele garantiu: “Tenho tanto tesão por você quanto tinha no primeiro encontro”. Ela pediu o divórcio. Schwarzenegger se recusa a discutir o assunto agora, mas comenta que ele e Joseph são próximos. “Não penso nisso”, afirma. “Sigo em frente.” Depois de se separar, começou a namorar uma fisioterapeuta, Heather Milligan, que o ajudou a se recuperar de uma lesão no ombro, e sua vida hoje pode parecer com a de um aposentado “bon vivant”: ele fuma charutos, viaja, pinta. “Normalmente pinto na época do Natal, faço cartões para amigos e parentes, então a maioria das coisas tem Papai Noel e bonecos de neve.”

Após sete anos na política, Schwarzenegger retorna ao cinema e ainda sonha em ser presidente.

Quando termina seus exercícios, Schwarzenegger pedala até a Muscle Beach. Está frio e há poucos fortões de regata levantando pesos. Vendedores oferecem pinturas horríveis, chinelos de má qualidade, bonecos talhados em madeira. “Este lugar não mudou”, afirma. “Lunáticos. Viciados. É exatamente como os anos 1960.”

As pessoas o veem e se juntam, animadas. Schwarzenegger acena, exclama “Oi! Oi!”. Não deve alegria a elas, mas parece feliz em dar isso tão facilmente. Esse é o motivo pelo qual está fazendo Exterminador novamente, relata: “É um daqueles personagens icônicos que fascinam. Sempre estive no ramo de divertir ou servir às pessoas”.

Pouco tempo depois, pega a bicicleta e parte rumo ao escritório. Um rapaz com cara de cansado em uma mountain bike emparelha com ele. “Conan, o Bárbaro foi seu melhor trabalho, cara”, comenta.

“Obrigado”, Schwarzenegger responde, sem virar a cabeça nem desacelerar. “Achei que era você passando. Identifiquei pelas costas.”

“Pela dorsal!”, Schwarzenegger brinca. O rapaz vai em direção à areia. Schwarzenegger segue para o outro lado, onde um semáforo está ficando vermelho. Ele não presta atenção. “Eu deveria concorrer a prefeito do calçadão de Venice!”

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