Edição 108 - Agosto de 2015

Do outro Lado

Depois de conquistar a fama como Capitão Nascimento, Wagner Moura se estabelece como um dos melhores atores de sua geração ao mergulhar fundo outra vez no mundo das drogas – agora, interpretando Pablo Escobar, o maior traficante de todos os tempos
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por Andre Rodrigues

Wagner moura está novamente mexendo com drogas. Em uma tarde calorenta do inverno carioca, o ator baiano de 39 anos atravessa a sala de uma agência de comunicação e diz: “Não suporto a luz crua de uma lâmpada, assim como não suporto uma ação rude ou uma observação vulgar”. Ele não sabe bem o porquê, mas decorou falas da personagem Blanche DuBois, da peça Um Bonde Chamado Desejo. Seu improviso é tão convincente que não seria loucura apostar que o sujeito responsável por eternizar o rude Capitão Nascimento nos cinemas poderia um dia ser a perturbada protagonista desse texto de Tennessee Williams. Com 23 anos de carreira e reconhecido como um dos melhores atores de sua geração (para muitos, o melhor), hoje Wagner Maniçoba de Moura deixa a impressão de que poderia ser qualquer um, qualquer coisa. Mas, outra vez, escolheu mergulhar no universo dos entorpecentes.

A partir do dia 28 de agosto, Moura será mundialmente visto na pele do mais notório traficante de drogas de todos os tempos. Nessa data a Netflix vai estrear os dez episódios da primeira temporada de Narcos, série na qual ele incorpora o colombiano Pablo Escobar, chefe do Cartel de Medellín. Até hoje, o maior papel de Wagner Moura foi o de um policial que soltava o braço em cima dos distribuidores e consumidores de substâncias ilícitas. O personagem central dos dois Tropa de Elite (o segundo é a maior bilheteria da história do cinema nacional), ambos dirigidos por José Padilha, virou símbolo de quem vê na violência do Estado uma forma legítima e imprescindível de combater o crime. Agora, Moura está do outro lado.

Por conta própria, o ator passou uma temporada em Medellín, na Colômbia, e procurou durante quase dois anos entender profundamente as motivações de sua nova cria. Mais perceptível, no entanto, é o fato de ele ter ganhado 20 quilos. “As pessoas ficam muito impressionadas, mas é uma besteira. Você não ganha o Oscar só engordando”, ele afirma, enquanto come castanhas, amendoins e toma água. Em julho, Moura já havia perdido seis quilos,mas não pode emagrecer muito porque logo deverá gravar a segunda temporada do programa (a intenção dele, daqui para frente, é usar preenchimentos e computação gráfica para ficar mais semelhante ao
Escobar da vida real).

“Eu, na minha idade, não tenho nenhuma vontade de fazer o que quer que seja se não for pra ter um entendimento de alguma coisa, pra que aquilo acrescente alguma coisa na minha vida, pra que faça eu me conectar com algo que não sei o que é”, ele diz, explicando por que escolheu protagonizar Narcos, que tem direção-geral do parceiro José Padilha. Depois de mais de duas dezenas de filmes (incluindo o internacional Elysium), sete peças e duas novelas, Moura está querendo ficar cada vez mais lento – “Cada dia mais próximo da Bahia”, declara. O projeto dele para 2016 é dirigir um filme sobre o guerrilheiro brasileiro Carlos Marighella. Também está fazendo pesquisas com o diretor e roteirista Karin Aïnouz. “Ficamos com muita vontade de entender o movimento das igrejas neopentecostais e de ter um personagem que seja um pastor, um bispo.”

Seja como Hamlet (2008), no teatro, seja como Olavo, na novela Paraíso Tropical (2007), os personagens de Moura costumam combinar revolta com carência, brutalidade com gentileza, raiva com compreensão. Parece que ele some dentro de cada um para retornar logo depois e contar o que aprendeu, como faz na entrevista a seguir.

Como é ter que dar sua opinião sobre legalização das drogas, narcotráfico e política por causa de um trabalho como ator?

Eu gosto disso. Não me incomoda nem um pouco. A discussão do Tropa de Elite foi saudável. Foi muito bom conversar com jornalistas nessas viagens que eu fiz para a Europa para lançar Narcos e falar de uma realidade que eles veem de uma forma tão diferente. Pra eles é mais difícil julgar a eficácia da guerra às drogas. Pra gente é evidente que essa guerra não funciona quando você vê que no México 50 pessoas foram assassinadas de uma só vez. Quando eu vou lá para Berlim e falo que sou a favor da legalização das drogas, esse é um tipo de discussão que me parece boa. Outro dia uma menina norte-americana disse assim: “Eu não sei se quero ver um junkie vomitar no meu milk-shake”. Eu respondi que dá para lidar de alguma forma com isso. O que é difícil de lidar é com jovens pobres da periferia de países latino-americanos sendo assassinados e mortos nessa guerra. Então, o milk-shake é uma coisa contornável.

Você acha que todas as drogas deveriam ser legalizadas?

Eu acho. Não sei como. Acho que as drogas são diferentes e deveriam existir formas diferentes de tratar as diferentes drogas. Mas o que me parece evidente é que essa política de enfrentamento das drogas é ineficaz. E ela é ruim especialmente para nós, dos países mais pobres, que são produtores e exportadores.

O escritor João Paulo Cuenca publicou recentemente uma coluna no jornal Folha de S.Paulo assumindo que já usou drogas e dizendo que as pessoas deveriam sair do armário e falar se consomem entorpecentes. Você leu? O que pensa sobre isso?

Eu li e achei que vai muito bem até o parágrafo final, que é um tanto quanto chantagista. Se você é uma pessoa pública, então tem a obrigação de sair do armário, de dizer que é gay, que fuma maconha ou cheira cocaína? Desculpa, ninguém tem a obrigação de falar da vida pessoal. Nesse sentido sou liberal. Vale a liberdade de cada um. O compromisso do artista é com a sua arte. Nenhuma pessoa tem que colocar sua vida pessoal na roda.

Sobre drogas, você sempre responde que já teve experiências e não fala mais sobre isso...

Exatamente. Por um lado, não me oponho a falar de política. Mas não gosto de falar sobre a minha vida. Eu sou a favor da liberdade de cada um ser quem é. Não venha me chantagear.

Mas continuam perguntando e você fuma maconha...

E eu continuo respondendo o que eu acho sobre legalização das drogas. É isso que importa. A minha vida pessoal é minha vida pessoal. Por que eu não falo com revistas de celebridades? Porque é esse tipo de pergunta que elas iriam fazer. Então, não espero essa pergunta de outro tipo de jornalismo.

Qual é a sua reação imediata quando te convidam para fazer um personagem como Pablo Escobar?

Eu quero fazer! Na época do capitão Nascimento, as pessoas diziam que eu tinha humanizado o cara. Isso me parece tão doido. Eu não sei o que a pessoa quer que o ator faça. Como é que ela imagina que seria Será que era pra ser um desenho animado?

Eu não sei muito como responder. Mas não quer dizer que eu não tenha um juízo sobre aquilo.

Existe algum personagem que a prio-ri você não faria?

Pode ser que tenha. Por exemplo, eu tenho uma intolerância muito grande com coisa de criança sendo maltratada. Não consigo muito. Mas não é porque estou julgando aquele personagem. Não é porque ele é mau que eu não vou fazer. Mas é porque eu não quero me envolver com aquilo, eu não me sinto bem. Com o Pablo e o Nascimento, por exemplo, eu tive que lidar com uma energia ruim, baixo-astral. E eu vou fundo nessas coisas. Não é que você leva o personagem para casa, não é isso. Mas você lida com uma vibração ruim. E você busca coisas dentro de você e conecta essa energia com as coisas que a gente não vê. Parece um papo metafísico. Você conecta. Você está entendendo? O ator é antena e vibra naquela frequência, entendeu?

Como foi a preparação para o trabalho nesta primeira temporada de Narcos?

Eu não falava espanhol. Fiquei quase dois anos envolvido nisso. Li tudo e vi tudo sobre o Pablo Escobar. Eu me mudei pra Colômbia, conversei com gente. Em março de 2014 fui pela primeira vez para Medellín, antes mesmo de fechar com a Netflix. Paguei tudo. Ninguém sabia que eu estava lá. Eu nem disse pro Zé Padilha! Eu fui [risos]. Fui lá e me matriculei em um curso de espanhol para estrangeiros na Universidade Bolivariana, em Medellín.

E você falava que era o Wagner Moura, ator, que estava pesquisando para fazer o Pablo Escobar?

Não. Eles descobriram depois. Eu tinha vergonha de dizer que estava lá para interpretar Pablo Escobar. Eles iam rir da minha cara. Eu tinha muito pudor em dizer isso. Falava que estava lá para estudar espanhol.

Você ficou com receio?

Fiquei. Porque o Escobar é, internacionalmente, um mito. É como chamar um colombiano e falar que ele vai fazer a biografia do Pelé, sendo que nem preto ele é. Então, foi a coisa mais difícil que já fiz. E eles tinham acabado de ter aquele sucesso gigante da novela [Pablo Escobar: O Senhor do Tráfico, exibida no Brasil pelo +Globosat]. Mas eu não queria decepcionar o Zé [Padilha]. Então, fui lá e fiz.

E você pensa na reação dos colombianos ao seu Escobar?
Eu tenho muito orgulho do que fiz e da forma que eles foram me respeitando lá. Eles viram que pelo menos eu estava me esforçando pra caralho pra fazer aquilo direito. Imagine, o elenco chegou lá em setembro. Eu já estava lá desde março. Cheguei antes dos produtores.

E sobre esse processo de ter engordado 20 quilos?
Eu nunca mais vou fazer isso. Só fiz porque o Pablo existiu e as pessoas iriam comparar. Não quero engordar mais para outro trabalho. Eu me sinto horrível.

Qual foi o aprendizado desse período? Sem contar especificamente o aprendizado como ator.

Uma coisa muito boa dessa série foi que ela me conectou com um sentimento de latinidade. A gente é Brasil, consome nossa própria cultura. Eu fiquei com muita vergonha de não saber quem eram aqueles atores. E, cara, tem os melhores atores do Chile, México, Colômbia, Argentina. E eu não sabia quem eram. Fiquei com muita vergonha disso. E nunca me senti estrangeiro na Colômbia. Eu me identifiquei com o fato de ser brasileiro, latino-americano, terceiro mundo. A série me deu o sentido de pertencer a algo maior do que ser brasileiro.

Por um momento, nos últimos 20 anos, visualizamos uma América Latina diferente, unida, que poderia mostrar algo para o mundo. Hoje parece que isso se perdeu. O que você sentiu lá sobre isso?

Talvez tenha ocorrido no primeiro governo Lula um protagonismo político brasileiro na América Latina. Parecia que o Brasil finalmente exerceria sua vocação exótica e que esse exotismo se expandiria para o mundo como um exemplo incrível de desenvolvimento sustentável, de respeito às minorias, aos direitos humanos, à ideia deque a ecologia é uma coisa importante. Era o momento de um país alegre que fala português. Sabe? Não sei se isso era só na minha cabeça [risos].

E o que aconteceu?

O Brasil seguiu o modelo idêntico ao dos outros e isso em pouco tempo se mostrou mais um dos momentos em que o Brasil prometeu ser e..

Mas você acha que quase alcançamos algumas coisas ou ficou tudo na nossa cabeça?

Não, não. Não só quase chegamos a muitos lugares como realizamos muitas coisas, especialmente atacando o problema fundamental, que é a injustiça social. Mas você vê o que o Brasil é hoje, o que é a oposição, o que é a situação... Talvez nos momentos de crise a burrice tenha lugar. É tão dicotômica. Ou você é petralha ou... como é o outro?

Coxinha?

Coxinha. Veja a discussão sobre a redução da maioridade penal no Congresso. Alguns poucos deputados falam: “Olha só, existem dados que dizem que reduzir a maioridade penal não adianta nada. E são pesquisas que foram feitas por sociólogos e antropólogos, as cadeias são escolas do crime etc”. Mostram diversos argumentos contra. E aí o argumento que vence é: “Está com pena do bandido, leva pra sua casa”. Veja só! E não estou isentando a esquerda dessa burrice. Porque a esquerda brasileira nesse momento dicotômico é igualmente burra. Porque é muita burrice também, e muita soberba, você, por um olhar ideológico, burro e antigo, não enxergar que há uma crise evidente no país. Uma crise moral, de valores, política.

Mas, vendo de fora os acontecimentos dos últimos dois anos, qual é a sua percepção?

Quando você vê as notícias que saem sobre o Congresso... A oposição não vota nada pelo Brasil, ela vota contra o governo, contra o PT. É uma guerra declarada. Ou quando o PMDB diz claramente nos jornais: “Governo libera cargos do segundo escalão e PMDB vota a favor”. Que porra é essa? E dessa forma explícita! Você dá um cargo e eu voto no seu negócio. E a gente não se espanta!

Você não ficava angustiado por acompanhar tudo isso estando na Colômbia?

Eu fiquei feliz de não estar aqui durante o segundo turno das últimas eleições. Porque eu vi um emburrecimento muito grande do debate. Amigo deixando de falar com amigo, gente batendo em gente. E esse recrudescimento da direita. A desmoralização do PT é ruim em si, porque ela é ruim para o país, porque o PT é governo, porque tinha uma história. Mas é ruim também porque houve um recrudescimento da direita mais sinistra, a direita que tinha vergonha de dizer o nome, tinha vergonha de dizer “eu sou racista, homofóbico”.

O que acha da oposição política hoje no Brasil?

É uma oposição sem projeto, sem ideia, destrutiva. É uma oposição golpista mesmo. E o Brasil tem uma tendência ao golpismo. O Brasil é um país golpista. E é evidente que os jornais têm uma agenda. Não é paranoia. Eu estou fora dessa onda de a esquerda ser vítima, vitimizada. É pobre demais. O PT não tem a decência de fazer um mea culpa. O PSDB não tem projeto para o Brasil. O projeto do PSDB é foder o PT.

Você deu várias declarações no passado apoiando Marina Silva (ex-senadora e duas vezes candidata à presidência, a última em 2014 pelo PSB). Como você vê a força política dela hoje? E tem vontade de ser mais ativo no cenário atual?

Eu sempre defendi muito a Marina. Porque acho a Marina uma pessoa muito interessante, que viveu na floresta. Ela tem uma história, uma conversa de que eu gosto. E mais do que tudo: sempre defendi Marina de um preconceito da classe média pelo fato de ela ser evangélica. Parecia que todo mundo que morava na zona sul do Rio de Janeiro dizia que não votaria na Marina porque ela é evangélica. É como dizer que não vota em alguém porque não gosta de pagode. É um preconceito elitista babaca. Você não pode confundir a Marina com aqueles escroques da bancada evangélica que estão no Congresso. Mas ela foi muito pragmática nas últimas eleições. E no momento em que ela cedeu a uma pressão dos evangélicos para tirar o que havia sobre homossexualidade no programa dela eu dei um passo para trás. E quando ela apoiou o Aécio [Neves, candidato à presidência em 2014 pelo PSDB] eu realmente achei que não precisava.

Como você enxerga o atual momento político nacional? Com ceticismo ou esperança?

O momento é evidentemente ruim. Eu recebi um convite da OIT [Organização Internacional do Trabalho] para ser embaixador da Boa Vontade no mundo, viajar para lugares onde pessoas trabalham em condições análogas às da escravidão. Vão lançar uma campanha contra o trabalho escravo. A ideia era lançar no Brasil. Mas, na avaliação deles, o Brasil vive um momento tão obscuro politicamente que a própria OIT acha que não é o momento de fazer isso no país. Pra você ver como é um momento obscuro.

E como é criar seus filhos nesse panorama no Rio de Janeiro?

Eu sinto que meus filhos vivem em uma bolha social. Isso me incomoda muito. Pela minha própria origem, de eu ter vivido no sertão, ter um pai que era sargento e uma mãe dona de casa. Eu não era pobre, mas tive uma infância bem modesta. As minhas crianças vivem em um mundo em que elas são muito alienadas. Elas veem gente na rua e acham que é assim mesmo, por mais que você tente explicar e tal. Então, me dá muita pena quando eu vejo esses articulistas de direita fazerem troça de qualquer vontade que você tenha de conversar ou falar sobre isso com os filhos ou com as pessoas. Falar que existem formas mais justas de convivência social, mais honestas. O Brasil chegou num ponto tão engraçado que a moda hoje é fazer pouco disso. Eu consegui prosperar na minha vida como artista, tenho condições de pagar escola particular para meus filhos, mas se falar sobre injustiça social sou considerado hipócrita. Entende o que estou dizendo?

Sim. Eles te rotulam.

O que eles dizem é que eu sou “esquerda caviar”. É uma forma muito canalha de defender... Existe um termo chamado discurso “ad hominem”. Ele é muito eficaz. É o discurso usado por esses caras todos. Eles não atacam o seu discurso. Eles atacam você. Ele se resume mais ou menos numa frase: “Quem você pensa que é pra dizer o que você está dizendo?” Quer dizer, se você prosperou socialmente, você não tem direito de defender um homem que mora na favela porque você não mora na favela. Ou você não tem o direito de defender as cotas porque você não é preto. Você não tem o direito de defender os homossexuais porque não é viado. Isso é uma coisa estúpida. Mas é engraçado, porque tanto a esquerda burra quanto a direita burra pensam dessa forma, que a condição social da pessoa determina o olhar dela sobre o mundo.

E como responder?
Eu não consigo responder pra esses caras porque não tem como. Você parte de um pressuposto muito surreal. Então, também não leio e não procuro saber. Eu fui saber de um desses caras porque li um texto do Francisco Bosco [filósofo e presidente da Funarte] me defendendo desse cara. Aí fui procurar saber e meu Deus! Realmente é um indigente mental.

Mas não pensa em sair do Brasil?
Não. Brasil sempre. Eu nunca quis que meus filhos fossem educados em outro país. Eu não entro nem nessa onda de colocar as crianças em escola bilíngue. Não quero que eles aprendam uma cultura que não seja a brasileira. Apesar de achar que eles têm que falar inglês, e falar bem. Eu vivo aqui. A minha vida é no Rio, minha vida é na Bahia.

A questão é que você tem opiniões contundentes. E algum colunista vai escrever que você fala assim, mas faz filmes em Hollywood.

Pois é. É ridículo. Vamos lá. Você acha que o Brasil pode ser socialmente mais justo? Eu acho. Você acha que as pessoas podem ter os mesmos direitos civis? Eu acho. Você acha que a mulher tem direito a abortar? Eu acho. Você acha que os homossexuais têm direito a se casarem? Eu acho. Você acha que o governo tem que interferir quando há um evidente caso de disparidade social? Acho. Você acha que há uma dívida do estado brasileiro com a população negra do país? Eu acho. Tem que ter cota? Tem. Isso é ser de esquerda? Se for, eu sou. Agora, meu irmão, nunca assinei nenhum manifesto... Como assim [me dizer] “vai pra Venezuela”?

No lançamento do filme Praia do Futuro [em que Wagner Moura interpreta um salva-vidas gay], ano passado, em alguns lugares a obra foi alvo de preconceito. Agora a novela Babilônia também recebeu alvejadas morais por causa de um beijo lésbico. O que está acontecendo? Essa cruzada moral está piorando?

Só piora. Num país que é líder em violência contra homossexuais... aqueles caras irem lá no Congresso fazerem oração e mostrarem não sei o que lá. Eu acho perigoso. Eu acho grave Eduardo Cunha ser presidente da Câmara dos Deputados.

Você pretende dirigir seu primeiro filme ano que vem. Por que escolheu um personagem como Carlos Marighella, guerrilheiro, como tema para essa estreia?

A nossa geração, que nasceu durante a ditadura militar, é muito alienada. Quando você pensa que um jovem de 17 anos saía de casa, vivia na clandestinidade e entregava sua vida, não pensava em ter carreira, casar, ter filhos... Eu queria entender essa entrega, porque isso faz pouco sentido pra gente, pra quem nasceu em 1976, por exemplo. Eu quero entender essas pessoas que fazem parte de um passado muito recente. Claro que a gente pode discutir se a luta armada valeu a pena ou não. Mas certos veículos vão reduzir meu filme à glorificação do terrorismo. Só que eu não tenho medo nenhum disso. Você tem que olhar isso [as revoltas sociais] como uma parte muito honesta e legítima da história brasileira.

E sobre os artistas, como Lobão e Roger, que estão em evidência defendendo a oposição?

Você não tem redes sociais.Não é pressionado para abrir contas?

Graças a Deus não tenho. A Netflx quis muito que eu tivesse, porque para eles é plataforma de divulgação. Mas eu quero dar um passo para trás. Estou quase não querendo mais ter celular. Eu quero andar. Quero voltar para a Bahia. Quero que meu caminhar seja cada vez mais lento. Quero que cada personagem que eu faça tenha uma maturação parecida com essa do Narcos. Que eu consiga passar um ano envolvido, dois anos, com um personagem, um projeto. Para mim, parece saudável não participar disso [redes sociais]. E eu já ouvi todos os argumentos a favor. O que me incomoda é a proliferação de perfis falsos. Pedi ajuda à Netflix, mas eles disseram que o único jeito era eu criar meu perfil ou os falsos iriam voltar. Então, falei: “Foda-se” [risos]. Eu não tenho 5 mil amigos. Não sei se tenho 15. Não me parece verdadeiro. E é engraçado, parece que é uma coisa de quem não tem o que dizer. Come comida e aí posta a foto de uma comida. É a exaltação de uma alegria falsa. Já disse uma vez que, para mim, redes sociais parecem uma revista de celebridade autoeditada. E eu não tenho tempo pra isso. Não consegui nem ver Breaking Bad [risos].

Nessa correria, o teatro fica de lado. Não é triste?
Putz... Sabe o que eu queria fazer, cara? Queria fazer um projeto de teatro-dança. Eu queria dançar [risos]. Mas não vamos falar disso, não.

Impossível soltar isso e recuar. Como assim?
[Risos] Então... Os dois artistas que eu mais admiro, independentemente de posição, que mais falam à minha sensibilidade: Caetano Veloso e Pina Bausch. E, para mim, Hamlet foi tão forte... Hamlet e o show que eu fiz com o Legião Urbana foram as duas coisas mais impressionantes que serviram para a minha vida. E Hamlet... Como eu amo essa peça. Decidi que vou ler um pedaço de Hamlet todo dia para o Bem, meu filho mais velho. Eu poderia ficar fazendo essa peça até morrer, só ela. Velhinho fazendo Hamlet. Depois dela eu não consigo encontrar uma coisa que me mova a dizer algo. Acho que a dança, a dança-teatro... É louco porque agora sou um gordo de quase 40 anos [risos].

Mas a arte ainda é um refúgio para todas essas coisas ruins de que falamos, não é?

Eu fui ver [a bailarina] Marilena Ansaldi no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. E ela entrava em cena e te levava. Isso é arte. Foda-se política, comprometimento político, tudo. Leva para outro lugar, onde você vislumbra a possibilidade de um mundo melhor, de a vida ser melhor, de os homens se entenderem. A arte te leva para esse lugar de esperança.

E você tem tempo para ver essas coisas, para ler, acompanhar filmes etc.?

Não. Quando eu trabalho fico muito dentro daquele universo. Tenho muita dificuldade de tirar a cabeça dali. E quando estou em casa são os desenhos. Sabe qual eu adorei? Divertida Mente. Como fizeram aquele roteiro? Esse me emocionou. Eu chorei.

Prole Insatisfeita

Filho de PabloEscobarpretende processar a Netflix por causa de Narcos

O arquiteto Juan Pablo Escobar, filho de Pablo Escobar, não está nada ansioso para a estreia de Narcos. Hoje conhecido como Sebastian Marroquin – ele mudou de nome para se distanciar de associações ao tráfico de drogas –, o colombiano tem vocalizado seu desgosto pelo fato de não ter sido consultado pela produção da série. A Netflix, por sua vez, afirma que não se trata de uma trama sobre Pablo Escobar, mas sim acerca do narcotráfico. “Basta ver o trailer, em que o nome do meu pai é mencionado exaustivamente. É claro que não é a história de Al Capone”, Marroquin rebate, irônico, em entrevista por e-mail. “Vou fazer valer os meus direitos e os da minha família. Não vou permitir que terceiros continuem lucrando sem autorização. E, se isso significa ir ao tribunal, vou sem hesitar. Pablo Escobar não é um produto comercial que pertence a eles.” Marroquin também se diz insatisfeito com todas as caracterizações que viu até hoje, inclusive a de Wagner Moura. “Não sou juiz de atores, mas não é o meu pai. O problema com os que tentam imitá-lo é que não o conheceram. O pior é que nenhum ator nunca se deu ao trabalho de perguntar aos filhos e viúva: ‘Como era Pablo?’ Então, caem no estereótipo do mafioso. Nunca vi nada sério sobre a vida do meu pai e não creio que esta série será exceção.”

Insatisfeito com a forma como a trajetória da família tem sido contada, o colombiano lançou no ano passado o livro PabloEscobar– Meu Pai (publicado no Brasil em junho, pela Editora Planeta). “Com todo o respeito aos biógrafos não autorizados, o único livro que narra sem meias-palavras como as coisas aconteceram é o meu. O resto é lixo que pode ir para o centro de reciclagem mais próximo”, afirma. “Escrevi esse livro para dar às vítimas o direito de acesso à verdade, que é um dos princípios de reparação. Quis deixar uma mensagem aos jovens para que nunca aconteça de eles repetirem a história do meu pai, mostrando os motivos que me mantêm longe de me tornar o Pablo Escobar 2.0.” Morando atualmente na Argentina, Marroquin crê que a Colômbia hoje é um país melhor do que na época em que Escobar era o rei do tráfico, e se diz otimista com o futuro, embora acredite que a proibição das drogas seja a principal causa da violência em lugares como seu país natal. Era essa, inclusive, a visão de Pablo Escobar. “Meu pai acreditava que nosso nome poderia um dia ser lembrado como o dos Kennedy. Dizia que no futuro a droga seria legalizada, como aconteceu com o álcool, que tanto deu dinheiro aos Kennedy enquanto estava proibido”, ele conta. “Meu pai escolheu ser um bandido e morreu em sua lei.”

Visões Distintas

Escobar tem importância crucial, mas foco da série são agentes da polícia

Impossível falar em tráfico de cocaína e não pensar em Pablo Escobar. “El Padrino”, conforme define o personagem de Johnny Depp no filme Profissão de Risco, “era o cara, o chefe de tudo, O Mágico!” Mas o famoso traficante colombiano não é o tema principal de Narcos, caso de outras grandes produções para o cinema e para a televisão. Sob o ponto de vista do DEA, a agência antidrogas dos Estados Unidos, a história foca especialmente em dois agentes, além de outros traficantes. “Muitos filmes falharam ao tentar humanizar Pablo Escobar. Nós não [fizemos isso], ele é um sociopata, um terrorista. Achou um produto perfeito e que foi entregue para o mercado perfeito, os Estados Unidos”, explica o produtor executivo da série, Eric Newman. “A série examina o narcotráfico em diversos países”, completa o roteirista e também produtor executivo Chris Brancato.