Edição 108 - Agosto de 2015

Finalmente em Paz

Percorrendo Los Angeles, comendo tacos e assistindo a jogos de basquete com Brian Wilson, o gênio do pop que deixou para trás seus dias sombrios
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por Jason Fine

Se você quiser, é bem fácil encontrar Brian Wilson em Los Angeles, em qualquer dia. Ele pode estar sentado em um espaço reservado à janela do restaurante Beverly Glen Deli, com uma tigela de mirtilos e um hambúrguer, ou arrastando os pés por uma trilha de um parque arborizado perto da casa dele, em Beverly Hills. Ele percorre este
circuito – restaurante, parque, casa – duas ou três vezes por dia, coisa que chama de “o meu regime diário”, para se manter em forma e aquietar a mente. “Eu sou ansioso, deprimido, sinto muito medo”, diz Wilson, de 73 anos. “É assim faz uns 42 anos. O parque ajuda a me manter na linha. Eu chego lá me sentindo mal, e saio bem. Ele sopra tudo que é ruim para fora do meu cérebro.”

Tirando quando está no estúdio ou em turnê, essa é a vida de Brian Wilson como um ex-beach boy da terceira idade: ele circula por Beverly Hills em seu Mercedes azul-escuro, faz paradas para comer cachorros-quentes e ir ao médico ou quem sabe se exercitar um pouco. Então, volta para casa e se acomoda em uma grande poltrona vermelha na sala, onde fica escutando a estação de rádio que toca música dos anos 1950 e assiste ao programa Wheel of Fortune enquanto a vida da família faz um redemoinho ao redor dele. Não tem passatempos. Não usa e-mail nem internet; também não lê jornal. Ele perdeu o celular há alguns anos e nunca mais comprou outro. Raramente vê velhos amigos. “Eu nem saberia como entrar em contato com a maior parte deles. Nem saberia o que dizer.”

Wilson e a mulher com quem é casado há 20 anos, Melinda, têm cinco filhos, com idades entre 5 e 18 anos, e cerca de uma dúzia de cachorros (Wilson também tem duas filhas, Carnie e Wendy, do primeiro casamento). Os mais novos, Dakota e Dash, sobem no colo do pai em sua poltrona vermelha, e a família toda está em sintonia com as excentricidades tranquilas dele. “Quando eu era muito pequena, entendi que o meu pai nunca seria igual aos outros pais, mas ele continua tendo jeito de pai”, conta Daria, 18 anos, que fez a arte (e sugeriu o título) para o novo álbum do artista, No Pier Pressure.

Às vezes, Wilson vai para o andar de cima, para sua sala de música, mas ele se desencoraja facilmente. “Não consigo escrever uma música por nada nesse mundo”, afirma. “Eu me sento ao piano e tento, mas só quero reescrever ‘California Girls’. Como é que eu vou fazer algo melhor do que aquilo? É uma viagem fodida.”

Certa tarde, assistimos a uma sessão de The Wrecking Crew, documentário a respeito do espetacular time de músicos de estúdio de Los Angeles que tocaram em álbuns de todo mundo que importava, de Nat “King” Cole a Phil Spector, passando pelos clássicos dos anos 1960 dos Beach Boys. O filme começa com clipes de Wilson no estúdio, gravando Pet Sounds, aos 24 anos: o autor aparece cheio de confiança com seus óculos grandes e camisa psicodélica, impulsionando os artistas veteranos a dar vida à música complexa e emocional que ele queria fazer.

Foi surreal – e um pouco desconcertante – estar em um cinema lotado, assistindo a Wilson assistir a si mesmo. A experiência também não foi relaxante para ele. Ele ficou sentado contra o encosto da cadeira, impassível, enquanto sua versão mais jovem saltitava pelo estúdio, cheia de vigor e determinação. Depois de 45 minutos, Wilson se retirou. Eu o encontrei em um banco no lobby. “Aquilo foi um chute no saco”, ele soltou. “Uma coisa pesada de nostalgia. Eu tinha tanta energia, sabia o que estava fazendo. Adoraria ter um pouco disso de volta.”

Para um sujeito que reconhece que a aposentadoria pode não estar muito longe, Wilson é extremamente ocupado. Em abril, ele lançou No Pier Pressure, que traz vocalistas convidados, como Nate Ruess e Zooey Deschanel, e no mês passado tocou em anfiteatros e ginásios nos Estados Unidos. Além disso, a cinebiografia Love & Mercy estreou recentemente no país (ainda não há nome e data de lançamento no Brasil).

Tudo isso acontece no final de um dos terceiros atos mais inesperados e surpreendentes do rock and roll. Desde 1999, quando Wilson saiu pela primeira vez na vida em uma turnê solo, aos 56 anos, ele vem surfando uma onda de criatividade, com a finalização da obra-prima dos anos 1960 Smile, em 2004, fazendo shows pelo mundo com sua banda e até deixando de lado décadas de tensão e processos judiciais para voltar a tocar com os Beach Boys em um álbum (That’s Why God Made the Radio, de 2012) e uma turnê de 50 anos.

“Carreguei muito peso nos ombros – uma carga pesada”, Wilson diz. “Para mim, música é amor. Amor é a mensagem que eu quero compartilhar. Espero que as pessoas sintam o amor na minha música. Isso faz com que o trabalho pesado valha a pena.”

Às vezes, Brian Wilson pode te surpreender. Hoje, em vez de almoçar no restaurante de sempre, sugere ir até Malibu para comer sushi.
“Quanta gasolina você tem?”, ele pergunta enquanto entra no meu carro, vestido com seu uniforme de sempre: camisa com estampa tropical, calça de moletom e tênis branco. O cabelo, que ontem estava penteado para trás à perfeição, hoje está uma confusão ondulada.
Ele parece feliz.

“Temos mais de meio tanque – isso é bastante gasolina.”
O trânsito está parado. “Ei, não se preocupe com o trânsito, cara”, Wilson diz. “Vamos relaxar. Tem gasolina suficiente?”

Ele pede que eu coloque o ar condicionado em congelantes 18 oC e aumente o som na estação de rádio preferida dele, a K-Earth 101. Canta junto “Rock ’n Me”, de Steve Miller, “You Should Be Dancing”, do Bee Gees, e “Another One Bites the Dust”, do Queen. Depois de alguns segundos de “Thriller” (Michael Jackson), pede para eu tirar o som.

Então, pergunta: “Ei, você já ficou sem gasolina algum dia?” Não, nunca.

“Bom, então por que diabos estamos preocupados?”, ele diz com uma risadinha nervosa.

Pelo caminho, Wilson aponta a rua no bairro de Pacific Palisades onde ele alugou uma casa no começo dos anos 1980, quando pesava quase 140 quilos e vivia à base de bife, coquetéis de creme de menta e cocaína. “Eu era tão preguiçoso que mijava na lareira”, relembra.

Mais adiante, ele me mostra o ashram que costumava frequentar, na época em que os Beach Boys começaram a fazer meditação transcendental com os Beatles. “Eu meditei até não poder mais. Fiz isso durante uns dois anos. Daí parou de funcionar, então larguei.”

Wilson morou em Malibu de 1982 a 1995, nove desses anos sob os cuidados de Eugene Landy, um terapeuta nada convencional que foi contratado em 1983 para controlar o uso de drogas de Wilson e fazer com que ele voltasse a trabalhar depois de anos de comportamento errático e autodestrutivo. Em alguns aspectos, o programa de Landy funcionou. “Eu aliviava a pressão com exercícios – fiquei em forma, no estilo de atleta olímpico”, Wilson conta, orgulhoso. Mas Landy praticamente transformou o músico em um prisioneiro: ele se mudou para a casa de Wilson e o colocou em um imóvel alugado na praia; instalou cadeados na geladeira e guarda-costas residentes para monitorar o comportamento dele; também cortou o contato com os amigos e familiares. Landy manteve Wilson afastado das drogas ilegais, mas lhe deu doses perigosas e altíssimas de sedativos e psicotrópicos que o deixaram desanimado e, de vez em quando, quase catatônico. “Achei que fosse meu amigo, mas ele era um sujeito muito perturbado”, afirma o artista, que raramente diz algo negativo a respeito de qualquer pessoa. Melinda foi um dos portos-seguros que ajudaram Wilson a se reerguer – foi fundamental para fazer com que Landy fosse removido da vida dele, e desde que se casaram, em 1995, ela o ajuda a obter tratamento adequado para seus transtornos mentais, além de ter orquestrado o fantástico retorno dele à música. Apesar de vários triunfos, Melinda reconhece que a jornada tem sido tumultuosa. “A gente nunca sabe o que vai acontecer com Brian”, ela diz uma noite, durante o jantar. Melinda tem uma beleza nobre e fala com doçura sobre a trajetória ao lado do marido. “Este sujeito maravilhoso e complicado me surpreende todos os dias há 20 anos. A vida dele é igual a um cabo de guerra. Tem altos e baixos. Esse é o ciclo. É igual a qualquer pessoa que sofre de depressão. Mas, em meio a isso tudo, ele é também a pessoa mais corajosa e mais bondosa que eu conheço.”

Uma noite, Wilson recusa ingressos de área vip para um jogo do time de basquete Lakers porque quer ir ao jogo de basquete do filho Dylan em um centro de recreação local. O time de Dylan, Thunder, estava invicto, e a família – Brian, Melinda, Daria, Dash e Dakota, além da empregada, Gloria, e duas babás (a outra filha do casal, Delanie, de 17 anos, mora fora, em um internato) – saiu de Beverly Hills para torcer para o garoto.

No caminho, paramos para jantar no Ernie’s, um dos restaurantes mexicanos mais famosos de San Fernando Valley. Wilson se senta à cabeceira da mesa, bebe refrigerante diet de canudinho e anuncia: “Ninguém precisa comer correndo. Temos tempo de sobra”.

“Dylan, vamos vencer hoje”, ele completa. “Estou com um bom pressentimento.”
Em meio a enchiladas e tacos, Wilson fala a Dylan sobre sua própria carreira atlética na infância, algo que o menino escuta atenciosamente e absorve com deleite. Wilson foi um talentoso jogador de beisebol na escola Hawthorne High e também jogou como quarterback no time de futebol americano, mas largou no último ano. No jogo, a família Wilson se acomoda em um banco perto de uma das pontas da quadra. Houve uma ocasião em que Brian atravessou a quadra no meio da partida, mas nessa noite ele ficou sentado em uma cadeira dobrável de mãos dadas com Melinda.

Com 11 minutos para acabar o segundo tempo, o Thunder está perdendo por 10 pontos. “Talvez a gente se dê mal, querida”, Wilson comenta. O time se recupera no finalzinho, em parte graças a duas cestas marcadas por Dylan, e vence o jogo. Dakota e Dash pulam e o garoto corre para abraçar o pai. “Está vendo, Dylan”, Wilson diz. “Se você se empenhar, as coisas dão certo no fim. Não sempre, mas às vezes.”

Em momentos assim, Wilson parece relaxado como jamais vi. Logo, ele teria que deixar o seu idílio em Beverly Hills para sair em turnê – três semanas extenuantes pelos Estados Unidos, encerradas em julho – e a ansiedade começava a se instalar. “Estou tentando não pensar muito nisso, ou vou ficar nervoso”, ele diz enquanto passamos de carro pelo Hollywood Boulevard. “Depois que começar, tudo vai ficar bem, mas é difícil fazer a transição.”

Minutos depois, “California Girls” começa a tocar no rádio e, diferentemente da maior parte das vezes quando alguma música dele toca, Wilson não abaixa o volume – pede para aumentar. “Eu chamo a mim mesmo de Brian Willpower [Força de Vontade] Wilson”, afirma. “Me ajuda a enfrentar as coisas difíceis. Sabe, eu sinto que tenho mais uns 15 anos, então quero aproveitar ao máximo. Levo as coisas de um jeito mais leve agora. Tipo quando eu acordo de manhã, em vez de falar ‘Ai, não, mais um dia’, eu falo: ‘Ó Deus, obrigado por mais um dia!’”

Retrato da Dor
Filme mostra períodos conturbados da trajetória do artista

Os anos mais difíceis da vida de Brian Wilson são retratados em detalhes apavorantes no filme Love & Mercy. A obra do diretor Bill Pohlad se concentra em dois períodos distintos da vida do artista: Paul Dano o interpreta em meados dos anos 1960, quando estava produzindo seus melhores álbuns, mas se acabando do ponto de vista emocional; John Cusack faz a parte de quando ele vivia sob os cuidados de Eugene Landy como um homem perdido e praticamente esquecido. “Foi difícil assistir a primeira vez”, Wilson reconhece. “Eu me senti exposto. Mas é um filme factual. Tudo o que ele mostra aconteceu de forma muito pior na vida real.” Cusack diz que aproveitou bem o tempo que passou com Wilson para se preparar para o papel. “Ele é de uma força incrível”, afirma o ator. “Uma força de verdade. Ele não é perfeito, mas tem saúde, está feliz e faz música, e sobreviveu. Michael Jackson não conseguiu. Elvis Presley não conseguiu. Brian conseguiu.”

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