Edição 109 - Setembro de 2015

15 Canções Ray Davies

O líder do The Kinks fala de seu universo peculiar, repleto de canções que tocam a sensibilidade britânica
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por David Browne

Ray Davies é um cara que gosta de ficar em casa. “Eu não me dou muito bem quando vou a eventos”, ele diz em um escritório que fica bem perto de onde mora, na região norte de Londres. Davies não tinha opinião formada em relação a comparecer à estreia, no famoso West End londrino, de Sunny Afternoon, um musical que foca nas músicas do Kinks. “Foi um privilégio enorme”, ele diz. “Mas fui inundado por câmeras na minha cara.” Aquela noite trouxe de volta lembranças da ocasião em que, em 1990, o Kinks entrou para o Hall da Fama do Rock and Roll. “Eu quase fui embora, de tão nervoso que fiquei”, lembra Davies, de 71 anos. “Dei uma volta no quarteirão a pé e voltei na hora em que íamos ser apresentados. Prefiro observar a ser observado.”

Essas colocações, combinadas aos formidáveis riffs de guitarra criados pelo irmão dele, Dave Davies, construíram um dos maiores conjuntos de obra do rock, de “You Really Got Me” (1964) a “A Rock ’n’ Roll Fantasy” (1978). É possível ouvir a influência do Kinks em tudo, do hard rock ao metal (algo que foi sublinhado quando Ray subiu ao palco com o Metallica, em 2009), do punk a bandas de britpop, como o Blur, que se inspirou no caráter inegavelmente inglês dos irmãos.

A história do Kinks também é de muita luta e de oportunidades desperdiçadas: a banda perdeu quatro de seus anos mais gloriosos quando foi proibida de tocar nos Estados Unidos, de 1965 a 1969, depois de um desentendimento com o sindicato dos músicos. Ray lutou contra a depressão em algumas ocasiões e sofreu um colapso nervoso aos 21 anos. E ele e Dave brigaram durante décadas; Dave recentemente descreveu a relação deles como sendo quase sempre “tóxica”. O Kinks se separou em 1996, mas Ray continuou compondo canções e lançando álbuns solo. No momento, está trabalhando em um novo disco, que ele diz ter sido inspirado em sua autobiografia, Americana (2013).

Mas a antiga banda ainda o atrai. Há algum tempo, Ray chamou Mick Avory, o baterista original do Kinks, para ajudar em uma de suas novas faixas. “Eu estava com dificuldade com uma mudança de ritmo em uma música, por isso coloquei Mick no estúdio durante duas ou três horas para trabalhar em algumas ideias com ele”, Ray conta. “E ele continua tocando bem.”

No ano passado, Dave Davies disse que seria uma pena se Ray e ele não fizessem algo em 2015. “Mas eu não quero que seja um espetáculo de Ray Davies em que ele deixa o irmão mais novo ficar no cantinho. Tem que ser feito com respeito”, disse Dave. Assim, muito se especulou sobre a volta do Kinks este ano. Dave Davies e o baterista Mick Avory falaram que estavam dispostos. Só que será difícil isso ocorrer neste momento, já que os irmãos Davies já têm turnês solo agendadas. Mesmo assim, Ray Davies afirma que “pode acontecer um dia”. Nesse ínterim, ele passou um par de horas falando sobre as canções que marcaram a carreira dele.

“You Really Got Me” 1964

Quando eu era estudante de arte na faculdade, costumava me apresentar em clubes no Soho, em Londres, com bandas que tocavam jazz tradicional. Eu me lembro de o líder da banda dizer: “Se você não é capaz de fazer um solo, acompanhe a gente com riffs”. Assim, esses acordes se tornaram uma característica prevalente no meu jeito de tocar. Eles criaram o som do Kinks. Eu compus o riff básico e a melodia de “You Really Got Me” antes de entrar para a banda. Vi uma garota dançando e me inspirei. Tivemos dois fracassos antes desse e a gravadora não achou que valia a pena gravar “You Really Got Me”, mas deixou a gente fazer como uma última tentativa. Queríamos que soasse distorcido e forte, sem ser barulhento demais. Fizemos o som evoluir com agulhas de tricô enfiadas nos alto-falantes. Dave fala que cortou o alto-falante com uma lâmina de barbear. E, veja só, a música se transformou em um enorme sucesso. Se você ouve “You Really Got Me” hoje, não é acachapante como heavy metal. Continua tendo um clima de jazz/blues. Passa pela prova do tempo.

“Tired of Waiting for You”1965

Os kinks tinham gravado os primeiros dois álbuns e eu estava ficando sem ideias. Daí, eu me lembrei de “Tired of Waiting for You”, que eu compus na faculdade. Gravamos a parte instrumental naquele mesmo dia, mas eu não conseguia me lembrar da letra. Eu estava resfriado, então disse: “Posso ir para casa tomar remédio para poder fazer o vocal?” Eu escrevi a letra no dia seguinte, durante o trajeto de trem até a cidade, e entrei em estúdio e gravei. Foi só um momento de descontração. E, nos Estados Unidos, foi um sucesso maior do que “You Really Got Me”.

“Till the End of the Day” 1965

Eu havia acabado de ter minha primeira filha com a minha mulher, que era um ou dois anos mais nova do que eu. Estava sobrecarregado com a família. Não ia a clubes nem nada. Meu empresário achou que eu tinha secado, e eu estava bem deprimido e esgotado. Depois de alguns dias de folga, pensei: “Preciso fazer todos pensarem que está tudo bem comigo”. Então, a minha primeira rima foi: “Baby, estou me sentindo bem”. E daí: “Do momento em que eu acordo eu me sinto bem, da manhã até o fim do dia”. E isso era uma mentira completa.

“Where Have All the Good Times Gone” 1965

A minha família se reunia ao redor do piano para cantar, e eu queria compor uma música que o meu pai ou os meus parentes pudessem cantar. Eles sempre falavam de como as coisas eram ótimas antes e durante a guerra – acho que toda geração pensa assim. Eu me lembro de estar sentado no carro com o meu pai, e ele disse: “Você está escrevendo para uma pessoa velha, dá para ver”. Então, funcionou nesse sentido. Continua sendo uma música forte para tocar. Tem aquela dureza antiga do Kinks, mas, ao mesmo tempo, a letra é reflexiva e comovente.

“Sunny Afternoon” 1966

Essa veio em um momento muito difícil. Eu estava muito sobrecarregado com o trabalho e com inseguranças – passando por tudo que uma pessoa de 21 anos passa. Antes de ela ter sido gravada, o Kinks fez uma turnê pela Europa sem mim. Estávamos no meio de um monte de processos e o nosso dinheiro estava congelado. Não tínhamos nada para o imposto de renda levar. Enquanto eu me recuperava, comecei a compor notas descendentes e formar essa melodia. Eu me entreguei e criei um alter ego para essa música. O vocal meio que tem uma pureza inocente, que é um homem arrastando as palavras perto de um microfone, encontrando seu rumo no mundo. Foi um momento mágico. O sucesso dela fez com que eu me animasse por um tempo.

“Waterloo Sunset” 1967

Mick e Dave, especialmente, não entenderam o que eu estava escrevendo. Só mostrei a música para a banda quando cheguei para cantar. Essa era uma música romântica sobre a geração da minha irmã mais velha. Talvez mostrando o amor da vida dela, caminhando para o futuro, atravessando aquela ponte.

“This Time Tomorrow” 1970

Passamos três anos e meio sem poder nos apresentar nos Estados Unidos. Perdemos Woodstock, o Festival de Monterey. Fiquei em casa e escrevi músicas sobre a Inglaterra, que me colocaram em uma jornada diferente. Eu compus “This Time Tomorrow” em um avião, voltando dos Estados Unidos depois desse período. A música fala de ir a um território inesperado e inexplorado.

“Lola” 1970

foi uma grande conquista quando nós finalmente voltamos aos Estados Unidos e tivemos um sucesso com “Lola”, retomando nosso status. “Lola” era uma canção de amor, e a pessoa por quem se está apaixonado é um travesti. O apaixonado não tem culpa – ele não sabia –, mas a gente sabe que não vai durar. Foi baseada em uma história sobre o meu empresário [Robert Wace].

“20th Century Man” 1971

Imaginei um homem destruindo uma fileira de casas, igual àquela que tem na parte de dentro do álbum Muswell Hillbillies (1971). Esse homem do século 20 se fecha com um monte de dinamite, tranca as portas e não vai se entregar para ninguém. É meio que cantada em baixo registro com uma voz profunda, e sou apenas eu querendo fazer uma afirmação. Ainda toco ao vivo, e ainda tenho essa energia.

“Celluloid Heroes” 1972

Os Kinks tiveram um ressurgimento nos Estados Unidos no final da década de 1960 e início da de 1970. Quando eu estava em Los Angeles, costumava ficar em um hotel a um quarteirão da Calçada da Fama. A diferença entre o sucesso e o fracasso, literalmente lado a lado, sempre me fascinou. “Celluloid Heroes” não tinha a intenção de fazer sucesso, mas eu queria que fosse ambientada de modo adequado. Quando entra o refrão, ainda sinto um calafrio quando canto.

“A Rock ’n’ Roll Fantasy” 1978

Meu irmão queria sair da banda mais ou menos nessa época. O baixista e o tecladista anunciaram que não queriam fazer outro álbum depois de Misfits. A música foi quase uma homenagem a eles. Enquanto eu compunha, foi anunciada a morte de Elvis Presley. Eu estava em Nova York na época, olhei pela janela mais ou menos às 5h da manhã, e tinha uma luz acesa em um prédio. Isso se transformou no personagem Dan, o Fã. Eu me refiro à morte de Elvis Presley: “O rei está morto, o rock acabou. Você pode ter encerrado, mas eu mal comecei” . O inovador tinha morrido, mas a causa prossegue.

“(Wish I Could Fly Like) Superman” 1979

O Studio 54 ficava perto do local onde eu me hospedava em Nova York. Um lugar interessante, mas eu não costumava ir com muita frequência. A parte boa da disco: não há contato quando se dança. Bom, essa é uma música muito política a respeito de gente fazendo greve. Foi a nossa versão do groove da disco, mas tinha mais balanço do que a disco, era um pouco rock and roll. Nós fomos a muitas discotecas para ter certeza de que era o groove certo, e a garotada adorou.

“Give the People What They Want” 1981

Essa música soa como se devesse ser escutada das últimas fileiras do Madison Square Garden. Colocamos telhas de aço nas paredes do nosso estúdio, o Konk, para dar aquela força à bateria. O álbum é quase um disco de protesto sobre os perigos do sucesso.

“Come Dancing” 1983

“Come Dancing” é sobre as mudanças no período das big bands e foi inspirada em uma das minhas irmãs, que morreu em um salão de baile no meu aniversário de 13 anos. Ela saiu para dançar e sofreu um ataque do coração aos 31 anos. Tem muito de mim naquela música. A gravadora não estava bem certa em relação a ela. [O diretor] Julien Temple e eu criamos um vídeo, e a faixa foi um dos nossos maiores sucessos nos Estados Unidos.

“Working Man’s Café” 2007

Fui visitar Dave na cidade de Exeter. Eu perguntei: “Onde você está?”, e ele respondeu: “No café da esquina”. Eu disse: “Tudo bem, telefono para você quando chegar”. Essa letra é a música. É uma música sobre mudanças no mundo. A ideia começou em um shopping center na Europa, que poderia muito bem ser [na pequena cidade de] Poughkeepsie, em Nova York. Mas, dentro daquele shopping center, eu encontrei meu irmão, almoçamos e batemos um papo legal. Eu acho que o Kinks ainda vai ressurgir, sem dúvida. Ainda não estou vendo evidências de um desastre iminente.