Edição 109 - Setembro de 2015

Marcha em Ritmo Próprio

Em Ricki and the Flash, Meryl Streep incorpora os maiores dilemas femininos e familiares
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por Stella Rodrigues

Em uma cena que mistura franqueza, autocomiseração e um leve sopro de maluquice, Ricki Rendazzo (Meryl Streep), vocalista da banda Ricki and the Flash, vomita entre soluços o desabafo que resume a lição mais óbvia de Ricki and the Flash: De Volta pra Casa. Ela explica que Mick Jagger teve uma porção de filhos com um punhado de mulheres, mas não ajudou a criar nenhum deles, já que estava o tempo todo na estrada com os Rolling Stones. E que, se uma mulher faz o mesmo, deixa os filhos de lado para seguir um sonho, ela é vista como um monstro. Mas a desigualdade entre homens e mulheres é apenas o que está na superfície do roteiro de Diablo Cody, que ganhou fama após o sucesso de Juno e enveredou pela trilha dos filmes amargos disfarçados de leves, esmiuçando nuances de conflitos familiares.

Em termos de sucesso, Ricki não é nenhuma versão de saias de Mick Jagger. Ela mora em um apartamento pequeno e desajeitado de Los Angeles e tem um segundo emprego como caixa de supermercado. Mas o grande orgulho da personagem é poder dizer que essa foi a vida que ela escolheu, algo que só pode fazer trocando sua outra “identidade”, a da mãe de família de subúrbio, cujo verdadeiro nome é Linda, pela de Ricki, que cai de cabeça no mundo.

É refrescante ver uma “senhora do rock”, não um jovem ou um homem mais velho, que são bem mais comuns. E fica melhor ainda quando ela canta faixas como “My Love Will Not Let You Down” (Bruce Springsteen) e “American Girl” (Tom Petty and the Heartbreakers). Com covers de rock (e um ou outro pop moderno, como “Bad Romance”, de Lady Gaga, que infelizmente aparece apenas por alguns segundos), a banda de Ricki é residente de um clube pequeno cheio de personalidade, daqueles que parecem ter deixado os dias de glória no passado. A maior fonte de intimidade da frontwoman é Greg (Rick Springfield), o charmoso guitarrista da banda com quem ela tem um “namoro casual” (à revelia dele, que tenta aproximar a relação dos dois). É um universo muito diferente do que Linda deixou para trás na capital de Indiana, onde protagonizava o típico comercial de margarina ao lado do engomado marido, Pete (Kevin Kline), e dos três filhos.

“É a história de muitos casamentos: você se sente atraída pelo seu oposto e, quando vai ver, não tolera mais aquilo”, analisa Meryl Streep, de 66 anos, dando entrevista em um hotel de Nova York. “Ele amava aquela personalidade de roqueira sexy dela; ela amava o quanto ele era estável! E aí ela passou a achar insuportável o quanto ele era tedioso e ele não aguentava o quanto ela era irresponsável. Cada um entende de uma forma. Muita gente julga Ricki uma pessoa terrível. Outros são mais solidários e entendem que o marido poderia ter se mudado para Los Angeles para apoiar o sonho da esposa, como ela sempre o apoiou. Ela deu a ele a família que ele tanto queria.”

Meryl Streep não é nenhuma novata no que diz respeito a cantar. Mas, depois de tantos anos abrilhantando o cinema norte-americano com os mais difíceis papéis, finalmente alguém deu a ela uma nova oportunidade de suar a camisa para levar uma personagem à tela. O diretor, Jonathan Demme, queria uma banda de verdade no palco, tocando sem truques. Ao mesmo tempo, precisava que eles soubessem atuar. Para o guitarrista Greg, a solução veio na forma do australiano Rick Springfield, de 66 anos, que já trazia todas essas habilidades no pacote. No caso de Meryl, ele colocou a atriz para fazer aulas intensivas de guitarra. E, sim, ela aprendeu a tocar. Com aulas e seis semanas de intensos ensaios com a banda. “Eu não acho que vá tomar o emprego de Rick tão cedo”, ri Meryl. “Respeito músicos demais e tentei me aprimorar ao máximo antes de tocar com eles.”

“Foi realmente impressionante a forma como ela aprendeu em um período tão curto, fiquei observando o movimento das mãos ao assistir o filme”, diz o experiente Springfield.
“As habilidades dela como guitarrista não são tão maravilhosas quanto as de atriz. Mas ela deu tanta vida à personagem, fez funcionar totalmente, cantou e tocou como Ricki faria”, elogia ele, que levou fãs às lágrimas ao cancelar a primeira turnê que faria na Austrália em 30 anos para atuar no longa. “Tuitei pedindo que entendessem, porque se o Jonathan e a Meryl me pedissem para cancelar algo para lavar o carro deles, eu não só aceitaria como também levaria meus próprios baldes”, ele brinca.

A vida de roqueira de Ricki faz uma pausa quando a filha, Julie (Mamie Gummer, de 32 anos, filha de Meryl com o escultor Don Gummer), tem uma crise depressiva ao ser trocada por outra mulher. O divórcio da jovem, determinada a ter a família tradicional que perdeu quando a mãe, no entendimento raso e não verbalizado dela, “trocou” o pai por outro (o rock), faz com que a personagem entre em uma espiral de loucura que é, ao mesmo tempo, a parte mais viva e mais caricata do filme. De qualquer forma, o surto inspira Pete a
convocar Ricki de volta ao seio familiar, hoje composto também pela nova esposa dele (Audra McDonald).

“Acho que toda atriz sempre gosta de interpretar mulheres malucas”, ri Mamie. “O que gostei na Julie é o quanto ela é ferina e selvagem. A Diablo escreveu um roteiro muito esperto e cheio de sacadas e piadinhas rápidas. Quando eu li, nos ensaios, fiquei muito satisfeita, porque senti que estava mandando bem nas piadas, todo mundo estava rindo bastante. E
aí o Jonathan me pediu para não ser engraçada. Ele queria que eu tirasse toda a vida da personagem.” Se atuar já não é algo desconcertante para Meryl e a parte musical estava sob controle – ela revelou que ouvia fitas de uma turnê de Lucinda Williams “todos os dias, o dia todo” para não perder “o senso de autenticidade e integridade roqueira” –, a atriz tinha
uma preocupação extracurricular. Enquanto aperfeiçoava suas técnicas, ela teve que adaptar a relação real com a filha para a ficção. “Jonathan me pediu para eu não falar com a Mamie. Eu não entendi, mas obedeci. Por um tempo, pelo menos, depois ignorei. Somos muito próximas. Mas imaginei que ele tinha os motivos dele. Só descobri há dois dias que ele nunca disse isso para a Mamie!” (“Eu estranhei, porque telefonava e minha mãe logo me dispensava”, conta a jovem atriz.) “Fiquei brava”, esbraveja Meryl, docemente, “porque senti que era uma manipulação. Ele estava preocupado que nossa conexão infl uenciaria [o resultado] e queria controlar isso. Mas as garotas Gummer são incontroláveis!”

Fã confesso de taylor Swift e autor de uma ótima cover de “Roar”, de Katy Perry, Rick Springfield tem certeza de que não seria ninguém na cena musical se tivesse começado há poucos anos. Nem ele, nem Ricki and the Flash. “Se você vai a clubes pequenos, todos os músicos são ótimos. Eles só não tiveram a oportunidade. Tenho amigos que são muito melhores do que eu e nunca ‘chegaram lá’. Eu não sei exatamente, acho que é uma mistura de sorte e persistência. Você tem que ser uma mula teimosa, às vezes”, refl ete ele, comparando o sucesso à loteria e garantindo que há muita música de qualidade sendo produzida. “O que está uma porcaria é a indústria. Isso, claro, é culpa dos imbecis gananciosos que controlam tudo [risos]. Lembro-me de ler o Bono falando que, se o U2 começasse hoje, eles também não teriam tido sucesso. Vivemos a era do American Idol, você vai de nada a estrela gigantesca e, se não conseguir lançar um disco cheio de sucessos, some logo depois. Eu tive a chance de começar por baixo e ir melhorando.”

Springfield também concorda com a teoria de muitos artistas (incluindo Taylor Swift) de que outro grande vilão é o streaming. “Recebo uma pilha enorme de papéis mostrando quanto minha música tocou e aí vem um cheque de US$ 25”, reclama, enquanto afirma que nenhum artista entra nessa para ganhar dinheiro, e sim por paixão. “Mas roubar dessas pessoas a oportunidade de ganhar a vida com o trabalho delas não é justo. Agora que abriram essa porteira, não tem como voltar atrás, então temos que encontrar outras formas de ganhar dinheiro.”