Edição 109 - Setembro de 2015

Xucros e Furiosos

Outras malcriações no segundo round de farpas trocadas pela internet
  • Imprimir
Xucros e Furiosos
JONATHAN SHORT/INVISION
por Miguel Sokol

Mais preconceituosos do que antes, mais despropositados do que nunca e mais hostis do que o tolerável, eles estão de volta para te fazer rir e chorar – de desgosto.

Infelizmente, a falta de educação nas redes sociais precisou ganhar um segundo capítulo, tamanha foi minha indignação ao ver o cantor Sam Smith publicar no Instagram a foto de outra conta da mesma rede social, a @Gaysamsmith, dedicada única e exclusivamente a ofendê-lo.

“Meu desejo era ter o cérebro de um Tiranossauro rex para não ter de lidar com toda essa porcaria.” Essas foram as primeiras palavras que me vieram à cabeça ao ver isso. Elas estão no disco solo de estreia do John Grant, Queen of Denmark (2010), um álbum corajosamente autobiográ?co que conta como é ser um jovem gay em uma família religiosa do meio-oeste norte-americano. Parece impossível, mas Grant faz isso com beleza, humor e um sarcasmo de primeira qualidade – como se, por um instante, Elton John fosse Leonard Cohen. Os homofóbicos anônimos que ofenderam Sam Smith deviam escutá-lo, pois eu realmente acredito que a música seja capaz de mudar opiniões e comportamentos, até de gente xucra.

Vale lembrar que os xucros virtuais não são só anônimos. Todo dia aparece um novo caso de hostilidade virtual entre artistas de renome, como eu disse mês passado. De lá para cá, Katy Perry seguiu uma conta de Instagram chamada Slutty Taylor Swift (Taylor Swift “Piranha”). Além disso, o ex-One Direction Zayn Malik trocou tuítes mal-educados com o DJ Calvin Harris, namorado de Taylor. A razão da briga dos dois (e das duas) pode ser resumida ao seguinte: mimimi.

Eu me recuso a propagar baboseira, principalmente quando ela é estratégia de marketing disfarçada de falta de educação. A? nal, entre mortos e feridos, todos eles ganham likes, downloads e manchetes com tudo isso. Nós é que perdemos, ao sermos condenados a viver em um mundo em que todos os músicos adotaram o sobrenome Gallagher – como se não precisasse de talento para ser linguarudo. Se essa hostilidade xucra não for marketing, bem, aí a má notícia é que se trata de uma epidemia perigosa, e pelo visto contagiosa, de falta de educação. Mas a boa notícia é que já encontraram a cura, um simples comprimido sublingual. Ou melhor,Sub-Lingual Tablet, o recém-lançado 31? disco do The Fall. O vocalista Mark E. Smith entendeu tudo! Não bastasse o nome do disco, as duas últimas músicas se chamam, respectivamente, “Fibre Book Troll”, uma homenagem raivosa ao Facebook, e “Quit iPhone”, em que o vocalista rosna como um cão velho contra a humanidade, que, por causa do smartphone, está cada vez mais dumb.

Recomendadas