Edição 111 - Novembro de 2015

Adele faz retorno triunfante com 25, o disco mais esperado do ano

Renovada e espirituosa como sempre, a cantora mostra como passou os últimos anos, longe dos holofotes, e conta de que maneira nasceram as canções do novo álbum; a edição 111 da Rolling Stone Brasil (novembro/2015) chega às bancas a partir desta terça, 17
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por Brian Hiatt

Adele estampa a capa da Rolling Stone Brasil de novembro, que chega às bancas a partir desta terça, 17. A edição 111 traz ainda um perfil da atriz Cleo Pires, os 50 anos do Calendário Pirelli, a discografia de Neil Young, entrevistas com Nasi e Arnaldo Antunes, um especial sobre corridas de rua e matérias sobre a turnê europeia do Boogarins e sobre o clube de motoqueiros russo que quer guiar o país de volta à glória do período soviético. Leia abaixo um trecho da matéria de capa, na qual Adele mostra como passou os últimos anos e conta de que maneira nasceram as canções de 25, o disco mais esperado do ano e cujo primeiro single, "Hello", bateu vários recordes.

Enquanto Adele entra em uma rua no sul de Londres dirigindo seu Mini Cooper de quatro portas, com a cadeirinha do filho vazia no banco de trás e restos de uma bebida com leite de amêndoas, couve e pepino no porta-copo, uma pergunta vem a ela: “O que está acontecendo no mundo da música?” Adele a profere com toda a sinceridade. “Estou me sentindo por fora!”

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A única resposta possível é fácil demais: bom, há um álbum pelo qual toda a indústria está esperando...

“Ah, vá à merda!”, Adele diz me dando um empurrão de leve e soltando a risada charmosamente indomada – uma cascata ascendente e forte de “ha ha ha” quase cartunesca – que inspirou uma montagem no YouTube chamada “The Adele Cackle” (“O Cacarejo de Adele”).

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"Ai, meu Deus, imagine”, continua, com os olhos verdes arregalados. “Quem dera! Acho que estou um ano atrasada.” É como se o último álbum dela, 21, lançado em 2011, não tivesse vendido milagrosas 31 milhões de cópias no mundo em uma era na qual ninguém compra música, como se não tivesse gerado a adoração de uma lista de cantoras que abrange de Beyoncé a Aretha Franklin, como se não tivesse recebido cada prêmio concebido, exceto um Prêmio Nobel da Paz.

“Falando sério, perdi contato com a música. Não toda música” – ela é fã de FKA Twigs, ama Alabama Shakes, ficou escondida no meio da multidão no festival Glastonbury para ver Kanye West – “mas sinto que não sei o que está acontecendo nas paradas e na cultura popular”. Adele ri de novo. “Não perdi contato com, tipo, a realidade, só com o que é atual.”

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Ela está dirigindo sob um céu que é cinza e triste até para os padrões das tardes de início de outubro em Londres. A chuva está chegando, ameaçando os planos de Adele de levar o filho de 3 anos, Angelo, ao zoológico mais tarde. Ninguém nos veículos ao lado a reconhece. Isso sempre acontece quando ela está neste carro. “Talvez se eu saísse toda montada, produzida, com cabelão e maquiagem”, afirma. “Ou seja: quase uma drag! Não tenho coragem suficiente para tanto.” Em vez disso, está vestida como uma universitária que se levantou pouco tempo antes de ir para a aula, com um suéter largo preto e azul feito de um tecido parecido com cânhamo (quase poderia ser da coleção de roupas de Kanye), uma legging preta e All Star branco de cano curto. O cabelo dourado está preso em um coque frouxo e ela usa dois brincos de argola em cada orelha. A maquiagem é mínima e, embora alegue estar ficando com uma ruga ou duas, ela parece incrivelmente jovem.

Adele acabou de sair de um ensaio com sua banda de apoio, tendo sentado em uma cadeira voltada para os músicos e cantado sua primeira versão ao vivo de “Hello”, o melancólico primeiro single de seu terceiro álbum, 25, que será lançado em 20 de novembro (ela fez 27 anos em maio, mas o nome do disco se refere à idade com a qual começou a trabalhar nele: “Vou ouvir tanto: ‘Por que é chamado de 25 se você não tem 25 anos?’”). “Oi, sou eu”, canta no início da canção, como se pudesse haver alguma dúvida. Quando finalmente lançou a música, algumas semanas depois desse nosso encontro, teve 50 milhões de visualizações no YouTube em suas primeiras 48 horas, um recorde.

Com um filho para criar, Adele não teve pressa em gravar o álbum. Seis meses se passaram entre compor os versos de “Hello” e acertar o refrão. “Tínhamos meia música escrita”, conta o produtor e cocompositor Greg Kurstin, que não sabia se ela voltaria para terminá-la. “Tive de ser muito paciente.”

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A letra soa como se Adele estivesse falando de um ex-namorado perdido há muito tempo, mas ela diz que não é sobre alguém em particular – e que já superou o destruidor de corações que inspirou 21. “Se ainda estivesse escrevendo sobre ele, seria terrível”, afirma. “‘Hello’ é muito sobre voltar para mim, sobre me reconectar comigo mesma.” Quanto ao verso “hello from the other side” (“olá do outro lado”): “Soa um pouco mórbido, como se eu estivesse morta, mas na verdade é só do outro lado de virar adulta, sair viva do final da adolescência, dos 20 e poucos anos”.

Adele ainda não decidiu se fará uma grande turnê para promover 25 – no momento, os ensaios são para aparições na televisão. A banda dela tem alguns novos integrantes e ela está especialmente empolgada em ter um percussionista pela primeira vez, uma adição inspirada por seus ídolos de infância: “As Spice Girls tinham um percussionista incrível”.

Em público, pelo menos, Adele teve pouco a dizer – e nada para cantar – nos últimos anos, desde que ela e o colaborador Paul Epworth ganharam um Oscar por “Skyfall”, a primeira canção-tema decente de James Bond em muito tempo. “Quando não tenho nada a dizer, prefiro não falar”, ela afirma. Só que bastam poucos minutos para perceber que o silêncio não é exatamente seu estado natural. “Só estou esperando pela porra do Frank Ocean lançar a merda do disco dele”, diz. “Está demorando pra caralho.” Ela pisca, faz uma pausa e ri novamente. “Isso soa tão estúpido vindo de mim, não?”

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De certo modo, Adele se recusa a deixar que o sucesso penetre demais em sua cabeça. Ela ainda se vê como “uma garota qualquer de Londres”, embora seu pequeno carro precise ser seguido por um guarda-costas em uma Range Rover. Com o classicismo retrô de suas composições e arranjos quase militantemente orgânicos, 21 ficou à margem do pop mainstream, mesmo tendo, de alguma forma, vendido mais do que tudo. Adele está tentando fazer um truque semelhante com sua carreira. “Minha carreira não é minha vida”, afirma. “É meu hobby.” Ela quer ser capaz de lançar discos, viver em público por um tempo e, depois, voltar para sua existência privada – durante vários anos por vez, talvez, para que possa viver o suficiente para compor as músicas seguintes. “Acho que ela fará uns 20 álbuns”, diz seu empresário, Jonathan Dickins. “Estamos nesta empreitada a longo prazo.”

“As pessoas acham que odeio ser famosa”, Adele conta. “Não odeio. Fico bastante assustada com o sucesso. Acho que é realmente tóxico e que é muito fácil ser arrastada para dentro dele.” No começo da carreira, enfrentou comparações musicais frequentes com Amy Winehouse, que encontrou poucas vezes: “Ver a Amy se deteriorar é um dos motivos pelos quais tenho medo. Todos ficamos muito entretidos com a bagunça que ela virou. Fiquei triste demais com aquilo, mas, se alguém me mostrasse uma foto em que ela estivesse mal, eu olhava. Se não tivéssemos olhado, teriam parado de tirar fotos dela. Esse nível de atenção é realmente assustador, especialmente se você não vive em torno de toda essa coisa do show business”.

Ela ainda se sente deslocada quando está entre celebridades. No começo deste ano, quando foi aos bastidores de um show para conhecer um de seus ídolos, a cantora Stevie Nicks, Adele se viu chorando incontrolavelmente (“Nariz escorrendo e tudo”). “Não sei se um dia deixarei de me sentir um pouco deslumbrada quando vou a lugares cheios de astros”, diz a cantora, que passou sua primeira década de vida no bairro pobre e violento de Tottenham, em Londres. “Sempre acho que vou ser expulsa. Ou que acabará sendo algo como uma pegadinha de câmera escondida. Como se alguém fosse me mandar de volta para Tottenham”. Ela tem sonhos recorrentes em que cai de edifícios altos.

Estamos sentados no escritório iluminado e moderno de seu empresário em uma rua tranquila de Notting Hill, decorada com suvenires esportivos e alguns prêmios.

Ela sabe que suas músicas têm sido um consolo para os fãs. “Se minha música pode curar o coração de alguém, isso é, tipo, a coisa mais satisfatória que já existiu”, afirma. “Não acho que o disco tenha um clima de ‘uhuuu, estou totalmente feliz!’, mas, como estou em um lugar melhor na minha vida amorosa, meus fãs ficarão desapontados porque não consigo consertar o coração partido deles com uma canção triste? Não quero decepcioná-los, mas, ao mesmo tempo, não posso escrever um disco triste para todas as outras pessoas. Não seria um álbum real, a não ser que eu estivesse de fato triste."

Adele ri quando lembro que sua última entrevista para a Rolling Stone terminava com ela imaginando o que aconteceria se estivesse em um relacionamento estável: “Nada de música!”, brincou na época. “Meus fãs ficarão assim: ‘Gata, por favor! Peça o divórcio!’”
Só que ela não pensa mais dessa maneira. “Seria um pouco trágico fazer um álbum de coração partido novamente. Nem mesmo trágico, seria um clichê! Um baita clichê. E se eu estivesse arrasada? Sobre que porra escreveria? Porque não posso compor uma merda de disco triste de novo! Então, é só inverter as coisas.”

Ela entende a tentação bastante comum entre artistas de criar caos em suas próprias vidas. “Estaria totalmente disposta a isso se não tivesse um filho”, afirma. “Não achava que sossegaria. Sempre amei o drama, sabe? Sempre quis estar apaixonada, mas sempre amei o drama, desde muito jovem.”

Desde que Angelo nasceu, a vida de Adele tem sido completamente doméstica – mas, ela enfatiza, não reclusa: “Já estive em todos os parques, todas as lojas, todos os supermercados que você possa imaginar”. Ela está em um relacionamento “muito sério” com o pai de Angelo, Simon Konecki, um banqueiro barbudo de 41 anos que se tornou filantropo e tem um sorriso acolhedor. Eles se conheceram quando o fenômeno de 21 estava atingindo o pico. “Ele me apoia muito”, conta. “E é preciso um grande homem para isso, porque sou muito bem-sucedida no que faço. Meu último namorado ficou desconfortável com o tamanho do meu sucesso e com o fato de ter que me dividir com muita gente” (ela se refere ao cara de 21, embora tenha existido outra relação nesse meio-tempo).

Negando vários boatos contraditórios, ela afirma que os dois não se casaram nem se separaram. “Já falei 1 milhão de vezes que não sou casada e todo mundo diz que somos”, comenta, “mas, sim, ainda estamos juntos. Não terminamos. Nunca nos separamos. Somos um casal. Simplesmente não sentimos a necessidade de nos casarmos. Temos um filho. Acho que este é um compromisso suficientemente grande”.
Uma faixa nova, “Water Under the Bridge”, é sobre Konecki. É uma canção de amor transparente, com uma sensação que lembra vagamente “Human Nature”, de Michael Jackson: “Se não sou a mulher certa para você, por que enfrentamos o que enfrentamos?”, ela canta; o refrão implora: “Se você for me decepcionar/ Faça isso com delicadeza”. “É meio que sobre uma relação ficando muito, muito séria, ficar um pouco apavorada com isso, e depois perceber: ‘Acho que deve estar certo. É a relação que quero ter durante o máximo de tempo possível’.” Ela ainda não tocou o álbum inteiro para Konecki: “E se ele não gostar?”
Adele parou de fumar (“Amava fumar, mas não é tão bonito quando penso em mim morrendo de uma doença ligada ao cigarro e meu filho ficando arrasado”) e toma, talvez, um drinque por semana. “Eu conseguia beber mais que todo mundo e ainda fazer um show bom, mas com crianças a ressaca é uma tortura. Elas simplesmente sabem. Percebem e ficam te atazanando.”
Ela é assídua em uma rotina de aquecimento para proteger a garganta, que foi ameaçada por uma hemorragia nas cordas vocais em 2011 que levou ao cancelamento de shows e a uma cirurgia, seguida por aquele retorno dramático aos palcos no Grammy de 2012. Depois da operação, sua voz que já abalava o mundo ficou ainda maior e com um tom mais puro. Além disso, ela acrescentou quatro notas ao seu alcance vocal. “Realmente deixa sua voz nova em folha”, afirma. “Para falar a verdade, no começo não gostei, porque eu tinha certa aspereza na voz, e isso desapareceu por um tempo.”
A cantora está tentando aumentar a resistência para uma possível volta à estrada, então está diminuindo o consumo de açúcar, mas não de todos os carboidratos (“Nunca me privaria dessa forma!”), e indo à academia (“Para entrar em forma por mim mesma, não para ficar magérrima nem nada disso”). Seu regime de exercícios? “Basicamente reclamo”, brinca. Dá uma risada. “Não vou saltitando para a porra da academia. Não é prazeroso. Gosto de levantar pesos. Não gosto de me ver no espelho. Os vasinhos no meu rosto estouram facilmente, então fico prestando atenção quando levanto pesos para não deixar que estourem. E se não fizer turnês você pode me encontrar no restaurante chinês!”
Então, aos 27 anos, Adele é saudável e tranquila, sem vícios e com uma enorme responsabilidade: criar um filho enquanto cuida de uma carreira de abrangência global. Para resumir, então, nada de diversão? Ela concorda, rindo: “Não sou nada divertida”.
Tudo aconteceu muito rápido. “Tenho esse anseio sufocante em relação a mim mesma”, ela reconhece. “Todo dia tenho isso por uma fração de segundo. Não toma conta da minha vida, mas anseio por quem eu era há uns dez anos, quando minha única responsabilidade era compor músicas para mim mesma antes que alguém se importasse e chegar à escola a tempo. E havia algo tão incrível nisso. Quer saber? O que me irrita mais é que você não percebe o quão incrível é ser apenas uma criança.”
Além da família, Adele passa o tempo com poucos e bons amigos que tem desde a adolescência ou da infância – um escreve livros para crianças, outro é produtor de TV. “À medida que 21 foi crescendo, comecei a voltar a falar com todos os antigos amigos”, conta, mencionando a esperança de levá-los na turnê, caso resolva fazer uma. “Preciso muito deles.”
Adele para na frente de um prédio de tijolos nada charmoso de três andares, perto de um posto de gasolina. No andar térreo há uma loja que vende produtos com descontos. Aos 14 anos, ela morou em um apartamento no andar de cima com a mãe, Penny. O pai basicamente esteve ausente desde que Adele era um bebê – ele é o tópico de discussão que a cantora mais detesta e ela se recusa a dar qualquer importância à ausência dele em sua vida. “As minhas eram a quarta, a quinta e a sexta janelas”, conta, apontando para elas. Adele nasceu quando Penny tinha apenas 18 anos e elas têm uma relação divertida que a cantora poderia comparar a Gilmore Girls se tivesse assistido à série. Ainda morava com a mãe mesmo durante o sucesso de 21 e as duas continuam próximas. “Sempre conversamos sobre tudo”, diz. “Nunca tive vergonha de falar sobre nada com a minha mãe, e acho que é por isso que nunca fui rebelde.” Adele nem chegou a experimentar maconha.
As músicas do primeiro álbum dela, o majoritariamente acústico e com toques de jazz 19 (2008), foram compostas neste apartamento. Ela assinou contrato com a poderosa gravadora indie XL assim que saiu de um colégio de artes performáticas, ao estilo daquele do filme Fama, basicamente graças à força de algumas demos no MySpace (ela não fez concessão alguma à mentalidade moderna do selo: “Ela assinou com a XL e falou em entrevistas que seu grupo preferido era Spice Girls”, conta Dickins. “Não é como se dissesse que sua banda favorita é Einstürzende Neubauten ou Nitzer Ebb!”). Do outro lado da rua há um supermercado onde antes havia um pub no qual ela bebia mesmo sendo menor de idade e uma Hollywood Nails, onde fazia as unhas. Ela voltou lá, para delírio da proprietária, para se arrumar para o Brit Awards de 2012.
Mais ou menos na época em que engravidou, Adele estava se sentindo sobrecarregada por conta do próprio sucesso. Ficou particularmente espantada com o fato de 21 continuar vendendo a uma taxa alarmante enquanto estava de repouso com a voz prejudicada e não fazendo nada para promover o disco. “Senti que tinha perdido o controle da minha vida a certa altura”, conta. “Quanto maior sua carreira fica, menor sua vida fica. Encontrei uma salinha minúscula. Era meu pequeno espaço no mundo. Era suficiente. Estava perfeitamente bem. Só que a ideia de ter de abrir mão daquele espaço realmente me assustou.”
Ela havia acabado de superar seus problemas vocais, tinha ganhado todos os seus Grammys e estava pensando em se mudar para Nova York quando descobriu a gravidez. “Todos os meus planos foram por água abaixo”, afirma. “Pensei: ‘Vamos ver se consigo lidar com tudo isso e também ter um bebê’, mas acho que, na verdade, a gravidez veio na hora perfeita. Poderia ter parecido o momento mais ridículo para ter um filho, mas eu estava começando a ficar com um pouco de medo de tudo.” Angelo acabou com esse medo. “Quando ele nasceu, tudo ficou bem e confiei em tudo, porque o mundo tinha me dado esse milagre, sabe? Daí fiquei um pouco hippie, uma ‘mãe Terra’.” Adele diz casualmente: “Não sei se teria voltado se não tivesse tido meu filho”.
É difícil encontrar a influência sonora direta, mas uma das principais inspirações para 25 foi Ray of Light, de Madonna. “Sabe o que achei tão incrível nesse disco? É o álbum que a Madonna compôs depois de ter o primeiro filho [Lourdes Maria], e para mim é o melhor dela.” Adele se sentiu desconectada de seu lado artístico depois de dar à luz. “Fiquei muito enlouquecida depois de virar mãe, porque meus hormônios estavam a mil. Estava à deriva e não conseguia encontrar muitos exemplos em que pensasse: ‘Porra, elas realmente voltaram a si mesmas’, até que alguém falou ‘bom, obviamente, tem o Ray of Light’.”
Em casa, está quase na hora do cochilo de Angelo, então Adele para o carro novamente para fazer uma sessão rápida de FaceTime com ele antes de o menino dormir (na vida real, diferentemente do clipe de “Hello”, ela não usa um celular antigo). É compreensivelmente protetora com relação ao filho, até processando paparazzi britânicos (e ganhando a causa) que tiraram fotos dele, então pede que eu não descreva a aparência do menino (só para constar, ele é muito bonitinho). Por um tempo, tentou até manter o nome do garoto em segredo, mas está tatuado em uma de suas mãos – no mesmo ponto onde, na outra, há uma tatuagem com a palavra “paradise” (“paraíso”).
“Você se divertiu na biblioteca?”, Adele pergunta ao molequinho na tela. “O que você leu?” Há uma conversa sobre elefantes e Elmo, da Vila Sésamo, sobre botões de chocolate e macarrão com queijo antes de Adele mandar carinhosamente Angelo ir cochilar. “Você aperta o botão vermelho? Amorzinho? Aperta o botão vermelho...”
“Ele é um anjinho”, afirma. “Ele traz à tona tudo o que gosto em mim mesma, e é a única pessoa que me diz ‘não’. Manda totalmente em mim. É como se fosse meu chefe e é tão engraçado as outras pessoas verem isso, porque sou a chefe de tudo na minha vida profissional.”
Ela não consegue deixar de sentir culpa quando o trabalho a deixa longe de Angelo. “Eu me sinto mal o tempo todo”, afirma. Ainda assim, conseguiu voltar ao trabalho, inspirando-se nos shows do retorno de Kate Bush. “Isso me fez querer correr para acabar meu disco”, conta. “Na verdade, fiquei desesperada para voltar.” Adele havia lido que o filho adolescente de Kate a havia estimulado a voltar a se apresentar e que ela “meio que organizou o show em torno do filho”.
“Pensei: ‘Não quero esperar até meu filho ter 16 anos para mostrar a ele quem sou’. Porque tenho muito orgulho do que conquistei. E, antes de ter o Angelo, não tinha. Não entendia, mesmo, o que tinha conseguido e como tinha ido longe. Todos querem fazer algo na vida e nem todos têm a oportunidade porque algumas merdas atrapalham. Então, eu me sinto sortuda pra caralho por os astros terem se alinhado para mim e permitido que eu tivesse a jornada mais incrível possível.”
Há cerca de um ano e meio, Adele achou que poderia ter músicas quase suficientes para um álbum. Seu empresário não tinha tanta certeza e eles levaram as demos para Rick Rubin, que havia dado uma ajuda valiosa em 21 – embora a cantora tenha acabado descartando algumas produções dele e favorecido tomadas mais brutas. Rubin ouviu – coçando a barba, provavelmente –, olhou para Adele e disse: “Não acredito em você”. A coletânea original de músicas tinha um tom mais leve do que tudo que ela já fez. “Sabe canções pop que são fantásticas, mas não têm muita profundidade?”, pergunta Adele. “Elas eram um pouco assim.”
“Adele estava ansiosa para acabar o novo álbum e seguir em frente com sua vida”, conta Rubin. “Ressaltei que a coisa mais importante era ser fiel à própria voz, mesmo se demorasse mais e desse mais trabalho... No novo material que ouvi, estava claro que ela não era a compositora principal – muitas das músicas soavam como se pudessem estar no disco de outro artista pop. Não é só a voz dela cantando qualquer música que a deixa especial.”
“Na verdade, aceitei aquilo bem”, Adele lembra a respeito dos conselhos do produtor. “Quando ele falou, não consegui definir se ficaria arrasada, se iria me acabar de chorar, mas depois disse: ‘Realmente não acredito em mim agora, então não estou surpresa por você ter dito isso’.” Rubin e Dickins falaram que ela soava como se estivesse com pressa. “E não é assim que se faz nenhum disco”, Adele afirma. “Especialmente quando estou tentando compor para a porra de um sucessor para 21. Então, voltei aos rascunhos.”
No começo deste ano, ela passou dois meses em Los Angeles, determinada a seguir em frente pra valer com o álbum. Entre outras sessões, acabou trabalhando com o onipresente mago pop Max Martin (junto ao colaborador dele, Shellback) na provocante “Send My Love (To Your Lover)”, que pode ser a música mais contagiante e moderna já gravada por Adele, construída em torno de um lick de guitarra de som quase africano que ela própria compôs há vários anos.
Adele comemorou um aniversário recente no Kurobuta, um restaurante que serve comida japonesa e cultiva um clima rock and roll; o jornal The Guardian o descreveu como “insanamente delicioso” e “ridiculamente caro”. Adele voltou esta noite e o restaurante providenciou para nós uma sala privada à luz de velas nos fundos, no andar de baixo. Temos uma mesa comunitária enorme de madeira envelhecida só para nós – quase cômica, de tão grande. Às vezes, é bom ser uma garota qualquer de Londres.
Enquanto estudamos o menu, cheio de pratos fritos, ela se diverte ao ouvir que estou tentando comer poucos carboidratos. “Vamos trapacear [na dieta]”, diz, persuasivamente. Atrás dela há diversos pôsteres vintage de rock, incluindo a capa de Axis: Bold as Love, de Jimi Hendrix. “Vamos nós dois, é meu dia de fugir da dieta. Vamos enlouquecer!” Ela olha para o menu novamente. “Vou enfiar o pé na jaca – mandar ver pra caralho!”
Adele pede um amaretto sour – que chama de drinque da novela Days of Our Lives –, mas depois muda de ideia e pede uma taça de vinho branco. “Não sei se deveria ser tão voraz”, diz. “Acabei de lembrar que estou sendo entrevistada.”
Ela tem certeza de que alguns críticos usaram sua imagem e música “classuda” como uma arma contra as Miley Cyrus do mundo e realmente não gosta disso. “Preferiria não ser a pessoa contra quem todos são colocados”, diz. “Se elas decidem mostrar o corpo, prefiro não ser essa pessoa, porque isso é só colocar uma mulher contra a outra e não tenho superioridade moral sobre ninguém. Então, esse negócio tem me irritado um pouco. Não que eu vá começar a mostrar os peitos agora!”
Adele continua pensando alto. “Eu mostraria meu corpo se fosse mais magra? Provavelmente não, porque meu corpo é meu, mas às vezes fico curiosa para saber se teria sido tão bem-sucedida se não fosse ‘plus size’. Acho que faço as pessoas se lembrarem de si mesmas. Não estou dizendo que todos são do meu tamanho, mas é identificável porque não sou perfeita e acho que muita gente é retratada como perfeita, inatingível e intocável.”
Ela acha muitas perguntas que ouviu sobre essas questões descaradamente sexistas. “Já me perguntaram ‘você posaria para a Playboy?’ tantas vezes que é ridículo”, diz. “É porque sou mulher ou porque sou gorda?”
A artista esteve tão ocupada nos últimos anos que está apenas levemente ciente do novo domínio do feminismo no discurso cultural pop. “Se há um movimento, ótimo”, declara. “Quem está fazendo isso? Você vai me perguntar se sou feminista? Não acho que perguntem a muitos homens em entrevistas se são feministas.”
Não faço a pergunta, mas ela quer responder mesmo assim. “Sou feminista”, afirma, tomando um gole do vinho. “Acredito que todos devem ser tratados da mesma maneira, incluindo raça e sexualidade.” Ela se lembra de não ter sido levada a sério em reuniões de negócios cheias de homens, de encontrar uma atitude “O que diabos você sabe?” “É tipo: ‘Bom, sou a porra da artista’”, continua, sentando mais ereta na cadeira. “‘Então sei tudo, caralho! Não venha me menosprezar!’”
Adele gostou de trabalhar com Sia no novo álbum, embora as faixas tenham ficado de fora (uma delas, “Alive”, acabou virando um single para Sia), e percebeu que nunca havia colaborado com uma mulher. “Amei a dinâmica de nós duas juntas no estúdio, simplesmente sendo mandonas”, diz rindo. “E todos aqueles homens produtores borrando as calças porque estávamos lá.”
“V“Você acha que todos ficarão decepcionados porque estou feliz?”
Alguns dias se passaram desde nosso jantar e Adele está vestindo um conjunto parecido de legging e suéter, com a adição glamourosa de botas Margiela cintilantes.
A questão de uma turnê ocupa a cabeça de Adele e ela se deu até o Natal para decidir. “Quando sentei e pensei ‘O que posso fazer para trazer algo novo?’, a resposta foi só ‘turnê’. Porque não fiz uma direito.” Ela acredita que este novo álbum pode ser a última chance em muitos anos para cair na estrada – quando Angelo estiver na escola, ela não vai querer tirá-lo de lá.
Independentemente de haver ou não uma maratona de shows, onde quer que se apresente, ela promete incorporar as coisas antigas, brincando que tem “para sempre 21 [‘Forever 21’, em inglês, fazendo piada com o nome de uma rede de lojas e de seu segundo disco]”. “Ser definida por qualquer disco é um sonho realizado quando se é artista. É como quando vou ver algumas bandas – não darei nomes – e elas não tocam seu maior sucesso. Putos! Isso realmente me irrita.”
“Para o público em geral, não se trata do conjunto de sua obra”, afi rma. “Na maioria dos casos, tem a ver com a música que os faz pensar em algo em sua vida. As pessoas levam você para o coração delas.”
“Isso é, tipo, a maior coisa do mundo.” Adele sorri e os olhos se iluminam com toda a música que ainda existe para ser feita. “Você tem de tocar aquela música.”

A Anatomia das Canções


POR DENTRO DE 25, O TERCEIRO ÁLBUM DA CARREIRA DA CANTORA

O anseio de Adele por quem ela era antes da maternidade invade várias faixas de 25. A favorita dela é a balada “When We Were Young”, ao estilo de Elton John, coescrita com o cantor e compositor Tobias Jesso Jr. A canção compartilha um pouquinho de DNA com “The Way We Were”, tema do filme O Nosso Amor de Ontem (1974), que a levou às lágrimas quando viu Barbra Streisand cantá-la ao vivo no Oscar 2013. De última hora, Adele mudou o nome de outra faixa de destaque de “We Ain’t Kids No More” para “Send My Love (To Your Lover)”. “Caso contrário, você poderia simplesmente chamar a porra do álbum de Old [velho]”, brinca. A melancolia do álbum sobre a passagem do tempo é muito real, embora levemente prematura. “Tive muitos arrependimentos desde que fiz 25 anos”, Adele afirma. “E a tristeza não me atinge mais da mesma maneira de sempre.” Na adorável “Million Years Ago”, que soa como uma balada de Madonna dos anos 1990 misturada com “Garota de Ipanema”, Adele canta: “Às vezes, sinto que fui a única/ A nunca me tornar quem achava que seria”. Ela tem a sensação de que parte do percurso de sua vida está definida, que algumas portas já estão fechadas. “Acredito que nunca mais conseguirei fazer muitas coisas”, afirma. “Não porque sou famosa, mas porque acho que nunca mais terei tempo. Como ser jornalista ou professora.” Ela respira fundo. “E nunca mais vou ficar sozinha. Sou mãe e estou em um relacionamento muito sério, então nunca será só eu de novo. Não me arrependo, não são esses meus arrependimentos, mas sinto que não vivi muito tempo para mim mesma. Fui filha da minha mãe e agora tenho um filho.” Adele ri. “Tive uma janela de, tipo, cinco anos sendo apenas eu.” Mas há outros tipos de canções em 25. “Send My Love (To Your Lover)” é uma faixa de despedida (a única neste álbum), endereçada ao homem que Adele namorou antes do amante de 21 e de Simon Konecki. “É uma daquelas músicas: ‘Estou bem pra caralho, então vá se foder’.” Uma faixa inicial essencial foi “Remedy”. Ela canta com uma ternura fantástica: “Quando a dor corta demais e a noite não te deixa dormir, serei seu remédio”. A faixa a fez chorar enquanto ela escrevia a letra e tem um efeito semelhante nos ouvintes. “É sobre meu filho, mas cantei para todos que realmente amo. Quando a compus, voltei a confiar na minha escrita, porque acreditei em mim mesma.”


Entre Amigos – e nem Tanto


ADELE E BRUNO MARS SE DERAM BEM DE CARA, MAS A TENTATIVA DE PARCERIA COM DAMON ALBARN FOI UM FIASCO

Há outros colaboradores em 25 além de Tobias Jesso Jr., Max Martin e Sia (cujo trabalho acabou não entrando para o disco). Entre eles está Bruno Mars, que ao lado de Adele tentou trabalhar em uma música animada. Em vez disso, os dois criaram a balada escancaradamente dramática “All I Ask”, que mostra a cantora fazendo o que chama de alguns de seus vocais mais “exibicionistas”. “Nunca cantei desse jeito”, diz. “Nunca tão agudo. O engraçado é que o Bruno também estava atingindo essas notas no estúdio” (“Ela é uma superestrela e atrevida pra caramba”, comenta Mars, que se lembra de uma breve discórdia sobre um verso. “Assim que ela gravou, virou uma das minhas partes preferidas. Ela me disse que espera que eu esteja na plateia quando cantar esse trecho para que possa me mostrar o dedo do meio). Em apenas um caso uma colaboração deu incrivelmente errado. Adele criticou uma gravação com o líder do Blur, Damon Albarn – e ele acabou dizendo à imprensa que Adele era “insegura” e que sua música estava “no meio do caminho”. “Acabou sendo um daqueles momentos ‘não conheça seu ídolo’”, ela conta. “E o mais triste é que eu era muito fã do Blur quando era mais nova, mas me arrependo de tê-lo conhecido.” Eles não terminaram nenhuma música. “Não! Nada daquilo deu certo. Nenhuma se encaixava no meu álbum. Ele disse que sou insegura, mas sou a pessoa menos insegura que conheço. Pedi a opinião dele sobre meus medos, sobre voltar com uma criança envolvida nisso – porque ele é pai – e ele me chama de insegura?”

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