Edição 112 - Dezembro de 2015

Guerreira da Liberdade

Aos 50 anos e com o primeiro disco completamente autoral da carreira, Daniela Mercury irradia discurso igualitário como porta-voz dos direitos LGBT
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por MAURO FERREIRA

Esse disco é um manifesto”, conceitua Malu Verçosa Mercury, esposa de Daniela Mercury,na mesa de um restaurante da zona oeste do Rio de Janeiro. A primeira palavra sobre Vinil Virtual, o primeiro álbum inteiramente autoral da discografia de Daniela, vem justamente da companheira dela. Malu já pode falar pela artista. A jornalista baiana é nome indissociável da história e da vida da cantora desde 3 de abril de 2013, quando Daniela postou uma foto das duas no Instagram com a legenda: “Malu agora é minha esposa, minha família, minha inspiração pra cantar”. A exposição da união homoafetiva mobilizou o Brasil, virou assunto do Jornal Nacional e foi parar na capa de duas revistas semanais, devolvendo à cantora uma visibilidade que ela até então somente tivera ao longo da década de 1990, quando se tornou o nome mais popular e com maior prestígio dentro do universo da música pop baiana rotulada como axé music.

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Ao longo destes quase três anos com Malu, Daniela se tornou uma das mais ouvidas porta-vozes da luta contra o preconceito dirigido a lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais e transgêneros – a população englobada pela sigla LGBT. Embaixadora (ao lado de Malu) da campanha Livres &Iguais, da Organização das Nações Unidas, Daniela tem saído em defesa das minorias em escala mundial. Em 20 de novembro, as duas deram um beijo na boca em solenidade na sede da ONU, em Nova York, onde foram participar de debate sobre os direitos da população LGBT na América Latina. No evento, a cantora lançou o clipe de “Maria Casaria”, música de Vinil Virtual que vai ser usada pela ONU em campanha contra a homofobia. A composição foi feita por Daniela especialmente para Malu.

Na música, a voz da baiana já transcendeu rótulos e as fronteiras de seu estado natal, ainda que gravite orgulhosamente em torno da produção afropop de Salvador. “Minha obra me desnuda mais do que a foto da capa do disco”, avalia a cantora. Daniela se refere à imagem clicada por Célia Santos que está exposta na capa do novo trabalho. A artista aparece nua, abraçada à esposa, reproduzindo a icônica pose de John Lennon e Yoko Ono registrada por Annie Leibovitz no último ensaio fotográfico de Lennon, que se tornou capa da edição 335 da Rolling Stone norte-americana (janeiro de 1981). “Nada melhor do que a arte para manifestar o que penso. A imagem da capa fala por si só”, diz Daniela. “Já fui convidada diversas vezes para posar nua para a [revista] Playboy e nunca quis. Agora uso meu corpo para fazer um manifesto pacifista e político contra a homofobia. Com essa foto, eu me posiciono mais uma vez de uma forma bela, amorosa. O amor é o grande elemento da transformação.”

Nascida há 50 anos em uma família de classe média de Salvador, Daniela Mercury de Almeida Verçosa tem se posicionado de maneira veemente desde que se entende por gente. “Tenho noção do meu poder desde pequena. Nunca levei desaforo para casa e nunca deixei de ocupar os lugares que queria ocupar por causa do preconceito alheio”, afirma a artista. “Quando eu anunciei meu casamento com Malu no Instagram, houve muita especulação de que eu estaria me promovendo com minha união com ela. Também ouvi gente dizer: ‘Não fala muito sobre isso, porque você pode estragar a carreira’. Teve quem questionasse: ‘Por que você não vive escondida esse amor?’ Para quem mandou eu me esconder, eu me mostro nua. Tenho uma noção clara do mundo em que eu vivo. Muitas pessoas começaram a falar atrocidades na internet. Mas não vou me esconder. Numa sociedade que é machista, e que não percebe o quanto é machista, um caso de amor entre duas mulheres é uma afronta ao poder do homem. Eu tive que vir nua na capa para mostrar às pessoas que não vou obedecer aos hipócritas babacas e machistas que me disseram para ficar quietinha e calada.”

“O discurso de Daniela é o mesmo há 30 anos”, observa Malu Verçosa. Ela faz a afirmação com base em pesquisa de reportagens antigas sobre a esposa, cuja carreira começou nos anos 1980, década em que Daniela foi backing vocal da banda de GilbertoGil, artista baiano que ela reverencia em Vinil Virtual na música “De Deus, de Alah, de Gilberto Gil”, gravada com a participação do cantor e compositor. O discurso até pode permanecer intocado. Mas essa moça de 50 anos está mesmo diferente, para referenciar o título do samba de Chico Buarque, cantor e compositor que teve seu nome associado ao de Daniela na mídia, na década de 1990, por causa de um suposto aff air entre eles. A própria Daniela reconhece a diferença positiva. “Essa reviravolta na minha vida pessoal me deixou mais aguerrida. Eu também ganhei mais coragem na luta”, observa a cantora.

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De todo modo, Malu tem razão em apontar a coerência do discurso da esposa. Enquanto outras cantoras associadas ao gênero axé music parecem fazer discos com o mero intuito de vender abadás para os trios elétricos em que cantam no Carnaval da Bahia, Daniela sempre enxergou no canto da cidade de Salvador uma forma de dar visibilidade a compositores negros marginalizados dentro da indústria da música. Em 1992, quando foi contratada pela Sony Music, Daniela investia no gênero samba-reggae e ouviu de um diretor da gravadora que “Olodum já era”. Sem dar ouvidos ao diagnóstico pessimista do executivo, ela apostou no som percussivo dos blocos afro da Bahia e ultrapassou 1 milhão de cópias vendidas com seu segundo álbum solo, O Canto da Cidade (1992), produzido por Liminha. O sucesso fenomenal do álbum amplificou uma popularidade que já chamara atenção dos empresários da gravadora quando, no início da tarde de 5 de junho de 1992, Daniela literalmente parou o trânsito da Avenida Paulista ao reunir cerca de 20 mil pessoas em show realizado no vão livre do Masp, o Museu de Arte de São Paulo. Foi essa proeza que lhe rendeu um contrato com a Sony.

De lá para cá, a cantora sempre se posicionou com a garra de uma Iansã guerreira,vingadora dos fracos e oprimidos pelo sistema. “Iansã Guerreira” foi, inclusive, o epíteto que o jornalista e produtor musical carioca Nelson Motta deu a ela em artigo publicado no jornal O Globo. No texto, Motta saudava a chegada do canto solar da artista a um cenário musical então dominado por duplas sertanejas e por pagodeiros afastados da base percussiva do samba.

Daniela marcou posição inclusive nas capas de outros discos que lançou, em carreira fonográfica que completará 30 anos em 2018. Em Feijão com Arroz (1996), a cantora apareceu abraçada a um homem negro que muitos pensaram ser uma mulher. Em Sol da Liberdade (2000), fotografada por Mário Cravo Neto para a capa criada por Gringo Cardia, empunhava um galho seco que sugeria uma espada, mas o olhar pacífico eliminava qualquer intenção de guerra. “Ali eu representava uma iansã negra que libertava o Brasil da escravidão na comemoração dos 500 anos do país. A luta negra não é diferente da luta dos gays, das mulheres e de todos os seres humanos que não se sentem respeitados e representados dentro da sociedade machista”, ressalta Daniela.

Desde que assumiu a união homoafetiva com Malu Verçosa, Daniela Mercury trava uma luta particular no cotidiano. No grupo de WhatsApp que reúne mães do colégio onde estuda a caçula das três filhas que adotou ao lado de Malu, houve quem tenha considerado imoral o beijo dado pelas atrizes Fernanda Montenegro e Nathalia Timberg em cena do primeiro capítulo da novela Babilônia, exibida pela TV Globo em 2015. Daniela não se abalou e defendeu o direito dos que queriam acompanhar a novela. Já está acostumada a lidar com visões contrárias e segue marcando posição. “Uma parte da sociedade acha imoral o amor entre mulheres. Mas imoral é a violência. Ser lésbica é ser livre. Essa é a minha leitura da palavra lésbica. Volta e meia, me perguntam se o público dos meus shows ficou mais gay desde que eu assumi meu amor por Malu. Por que a gente sempre tem que segmentar tudo?”, ela questiona, certa deque a resposta está nas raízes machistas da construção da sociedade.

Embaixadora da Unicef há 20 anos, Daniela também luta contra o trabalho infantil. Na sua casa, em Salvador, a batalha diária é exercida na educação das filhas. A caçula, Ana Isabel Verçosa de Sá Mercury, de 6 anos, já carrega o sobrenome de suas duas mães na certidão de nascimento. As mais velhas, Ana Alice e Márcia, de 14 e 17 anos, respectivamente, ainda não têm o mesmo sobrenome, mas é uma questão de tempo e de resolução dos trâmites judiciais. Mãe de outros filhos de casamento anterior, Gabriel Póvoas, de 30 anos, e Giovana Póvoas, de 23, Daniela acredita que seu atual esforço político pode englobar não só a música, como também a maternidade. Gabriel, por exemplo, virou parceiro na profissão, assinando duas canções de Vinil Virtual. Ele está em cartaz na Bahia com show em que canta o repertório da mãe.

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De todo modo, a artista faz política sem tomar o lado de nenhum partido político. O contato maior é com colegas igualmente engajadas. Ela já participou de vários eventos na ONU em que teve oportunidade de conhecer pessoalmente mulheres artistas e ativistas como Yoko Ono e a cantora africana Angélique Kidjo. No Carnaval da Bahia, onde já tocou até música clássica do alto de seu trio elétrico, Daniela fez manifesto para que as pessoas não se xingassem por diferenças de cor ou origem. “Ninguém é igual a ninguém, mas nós todos somos iguais”, discursa, recorrendo à sentença que costuma repetir na luta contra a opressão das minorias. Mas ela sabe que, na realidade cotidiana, uns se acham mais iguais do que outros. Por isso, se posicionou quando, ao ser convidada a participar de um seminário pró-LGBT promovido no Congresso Nacional pelo deputado baiano Jean Wyllys, gay assumido, soube que uma assessora de comunicação do Congresso se negou a veicular a imagem-convite do evento por considerá-la fora dos padrões (uma foto que mostrava um quase beijo de Malu e Daniela). “Eu e Malu demos um selinho no meio do seminário. Foi o primeiro beijo gay dado dentro do Congresso Nacional. Foi uma comoção”, exulta.

Daniela saiu do armário. E luta para que outras pessoas façam o mesmo, sejam negros, sejam crianças e adolescentes que sofrem abuso sexual. “No caso das crianças, muitas vezes a violência é exercida por pessoas próximas. Há um medo de denunciá-las. É preciso estimular quem sofre violência a sair da escuridão e a ocupar seu lugar na sociedade. O medo tem atrapalhado a conquista dos direitos pelas minorias. O negro, por exemplo, não pode aceitar o lugar de exclusão que geralmente lhe é destinado”, sentencia.

Ao assinar todas as 15 músicas do álbum Vinil Virtual, sendo dez sem parceiros, Daniela vem ocupar o posto de compositora que, muitas vezes, lhe foi negado pela crítica, mais elogiosa quando a cantora dá voz a músicas de outros autores. “Eu escrevo desde menina e já era compositora desde a Companhia Clic (banda integrada por Daniela na segunda metade dos anos 1980, antes de sair em carreira solo). Ao completar 50 anos, em julho, disse para mim mesma que eu tinha de fazer tudo melhor do que antes”, afirma. “Ninguém nunca me obrigou a gravar nada nestes anos todos de carreira solo. Quis ser, e fui, a porta-voz da afirmação do negro ao gravar compositores da Bahia que faziam uma música conectada com Salvador. Todos os conceitos dos meus discos e shows sempre vieram de mim. Mas agora quis ser integralmente a compositora do meu trabalho. Até porque os compositores que me mandaram canções não traduziram em suas músicas o que eu queria dizer neste momento. Ao me assumir integralmente compositora, sou porta-voz do que penso.”

Por falar o que pensa mesmo quando não é convidada a se pronunciar publicamente, Daniela tem consciência de que não é unanimidade no meio em que vive. Há quem a rotule como “metida” nos bastidores da indústria da música. “Não sou metida. É que eu não tenho a percepção do mundo que a sociedade espera de uma mulher. Se eu fosse homem, iam dizer que eu era uma pessoa séria porque me interesso por todos os aspectos do meu trabalho”, se defende. “Ela é mais distraída do que metida”, intervém Malu.

Metida ou distraída, Daniela Mercury é reconhecida de forma unânime como a cantora mais importante da controvertida axé music, gênero que completou 30 anos em 2015. A artista sabe que transcende o ritmo, tendo deixado isso bem claro já no título do sexto álbum de estúdio, Sou de Qualquer Lugar (2001), batizado com o nome da música que ganhou dos compositores Lenine e Dudu Falcão. No entanto, ao mesmo tempo, afaga a Bahia que lhe deu régua, compasso e a música base de seu repertório. “A Bahia é a Península Ibérica do Brasil. Tudo que passa por lá vira baiano, numa celebração antropofágica”, acredita a filha de São Salvador, alimentando o mito de que a Bahia é a terra da felicidade, como já descreveu samba de Ary Barroso.

Cantora que sempre valorizou as vozes de seu estado natal e o batuque dos blocos afro de Salvador (“No meu disco, o repique é tocado como é tocado no bloco Ilê Aiyê”, avisa, com orgulho), Daniela sabe que a axé music é gênero de importância minimizada por quem escreve a história oficial da música do Brasil. E tem discurso para explicar tal desdém: “O legado do axé é a alegria, e eu venho celebrando estes 30 anos de axé. Mas alegria é algo que muita gente rechaça e desdenha, porque entende que essa alegria faz a gente ser intelectualmente menor. Por aqui, parece que dançar é pecado”.

Daniela dança, inclusive por ter formação acadêmica de bailarina, mas não dança conforme a música. Tropicalista pela própria natureza baiana, a artista já pôs até música eletrônica no trio elétrico, no início dos anos 2000, quando a pista das raves jamais tinha sido amarrada ao cordão dos trios elétricos. A cantora, aliás, adora viver sob a temperatura tropical e a efervescência cultural do Brasil. “Aqui quase não tem frio, exceto no Sul. A gente vive no melhor lugar do mundo e resmunga. Vamos ser tropicalistas, antropofágicos”, propõe.

Mesmo com essa fome pela mistura, a criadora do álbum Canibália (2009) se recusa a engolir a corrupção que infesta a política do Brasil. E não se deixa arrastar emocionalmente pelo mar de lama e óleo sujos que inundaram o país nos últimos anos. “Por mais que uma porção da sociedade seja corrupta, a gente não pode se sentir emocionalmente destruído. Parte dos líderes políticos do país não representa o que é a maioria do povo brasileiro. Apesar de a gente sentir um certo desencanto com tudo isso, nosso povo não é responsável por nosso sistema político ter tão pouca ética e ser pautado por trocas de favores, propinas. A questão é estrutural”, resume, no mesmo tom firme com que fala de seu posicionamento em favor dos direitos LGBT.

Dentro dessa estrutura corrompida, a artista alivia o lado da presidente Dilma Rousseff . “Ela tentou organizar o que não era possível organizar. Dilma já chegou questionada ao poder, pegando a rebarba de uma crise mundial. Lula pegou um país organizado. Ela pegou a rebarba da crise. Como gosto da alternância de poder, eu celebrei a chegada de Fernando Henrique Cardoso, de Lula e de Dilma à presidência. Até por ser mulher, eu me emocionei quando ela assumiu. Mas nunca fiz campanha política para Dilma nem para ninguém. Tampouco sou partidária ou afiliada de algum partido político. Sinto muito que essa bolha tenha estourado com Dilma e lamento que os políticos do Congresso Nacional se deem o direito de não votar questões que são essenciais para a população. Lá dentro, parece que tem somente briga de torcida. E eles não podem parar o Brasil porque estão zangados uns com os outros. Com essa situação, o povo brasileiro está abatido, está precisando de axé, de um novo ‘Canto da Cidade’”, avalia, aludindo à música de Tote Gira, finalizada por Daniela, que projetou a cantora no Brasil de forma definitiva, em 1992, e que batizou o disco recordista de vendas naquele ano.

Daniela quer e precisa se expressar. De volta ao assunto dominante na entrevista – que mais parece um monólogo, cortado por intervenções de Malu e da reportagem –, fala novamente das tomadas de posição que tem na vida e na música. “Eu sou uma artista que convoca a população a pensar em si mesma. Proponho um poder afetivo, tropical, humanizado. A Rainha Má vem à cena dizer que a gente tem que acreditar mais na gente e que o brasileiro tem que ter mais fé em si mesmo”, adverte.

Rainha Má é a personagem encarnada por Daniela Mercury no baile-show que criou para divulgar o álbum Vinil Virtual e que saiu em turnê pelo Brasil antes mesmo do lançamento do disco, que tem produção da artista ao lado de Yacoce Simões. A personagem existe desde novembro de 2014, quando a cantora lançou na internet a música “A Rainha do Axé”, reivindicando para si o trono que, a rigor, nunca foi ocupado por sucessoras, como Ivete Sangalo e Claudia Leitte. “A arte é revolucionária, transformadora”, repete. Rainha das opiniões, dadas com ou sem consentimento alheio, Daniela Mercury de Almeida Verçosa segue sua sina, falando sobre o que acredita, irradiando de maneira solar, como faz na música, a liberdade do próprio pensamento.




A Voz e o Violão do Axé

DVD celebra repertório de Daniela e covers em versão despida

Na turnê do show A Voz e o Violão, a cantora tem aproveitado o formato íntimo do recital para interagir com a plateia em apresentações que podem chegar perto das três horas de duração. Em cartaz pelo Brasil desde agosto de 2015, a performance será eternizada em 2016 nos formatos CD e DVD, em produção viabilizada por parceria da empresa da artista, a Páginas doMar, com o Canal Brasil. Antes mesmo de lançar o álbum Vinil Virtual, a baiana fez o registro audiovisual de A Voz e o Violão na cidade natal de Salvador, em 13 de novembro, em apresentação na sala principal do Teatro Castro Alves, palco no qual pisou pela primeira vez como bailarina aos 10 anos, em um espetáculo infantil de dança. “Para a gravação, eu alterei o roteiro. Tirei sucessos da MPB e botei mais samba e reggae. Ficou axé com voz e violão”, explica a artista. A mudança não se restringiu ao setlist. Daniela também trocou de músico ao longo da turnê: saiu Alex Mesquita e entrou Alexandre Vargas, violonista e guitarrista que toca com a cantora há mais de 20 anos e que ficou com a incumbência de sintetizar, no toque do violão, a batida percussiva da axé music.




Fora das Fronteiras Baianas

Geleia geral de Vinil Virtual inclui funk para o Rio de Janeiro e tributo a São Paulo

O anúncio do casamento de Daniela Mercury com Malu Verçosa em 2013 fez tanto barulho na mídia e nas redes sociais que abafou o disco que a cantora lançou naquele ano, Daniela Mercury & Cabeça de Nós Todos.
Com a edição de Vinil Virtual, álbum que marca o ingresso da artista baiana na gravadora carioca Biscoito Fino, Daniela tenta novamente ser assunto por causa da música que faz e canta, e não pelas posições que tem tomado como cidadã do mundo. Vinil Virtual alinha 15 músicas assinadas por Daniela. Duas foram feitas ao lado de Marcelo Quintanilha (“Três Vozes” e “Minha Mãe, Minha Pátria”). Outras duas trazem também o nome de Gabriel Póvoas, filho mais velho da artista. Uma delas, “Senhora do Terreiro (Mãe Carmem)”, manda um axé para a ialorixá Carmem Oliveira da Silva, filha e espécie de sucessora da ialorixá conhecida como Mãe Menininha do Gantois na hierarquia do candomblé da Bahia. A outra, “Frogs in the Sky”, tem versos em inglês. Das dez músicas assinadas somente por Daniela, a mais surpreendente é “O Riso de Deus”, celebração da cidade do Rio de Janeiro feita na batida do funk carioca. Já “Antropofágicos São Paulistanos” reverencia, no ritmo baiano do axé, a multiplicidade de São Paulo.
Primeiro disco solo de estúdio da cantora desde Canibália (2009), Vinil Virtual também traz declarações de amor a Malu em forma de música. “Sem Argumento” e “Maria Casaria” são poemas escritos pela compositora para a esposa que ganharam melodias posteriores.