Edição 112 - Dezembro de 2015

Volta por Cima

Coldplay se une ao grupo de produtores que fabricou os sucessos de Beyoncé para fazer disco “hippie”
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por Patrick Doyle

Há alguns anos, chris martin estava se sentindo “deprimido e sobrecarregado”. Eram os últimos estágios do casamento dele com a atriz Gwyneth Paltrow, com quem ficou por dez anos, e ele reconhecia estar cada vez mais inseguro em relação à música que fazia. “Não estava vendo as coisas de um jeito saudável”, conta.

Então, um amigo lhe deu alguns livros, incluindo Em Busca de Sentido, autobiografia do psiquiatra e sobrevivente do Holocausto Viktor Frankl, e um do poeta persa do século 13 Rumi. Martin diz que um poema, “A Casa de Hóspedes” – que sugere “convidar” pensamentos sombrios – o ajudou a enfrentaro período do divórcio. “Meio que mudou minha vida”, afirma. “Diz que tudo que acontece com você é bom. A ideia é aceitar o que acontece e não fugir de nada – e confiar que tudo desabrochará e ficará colorido.”

Martin declama o poema em uma psicodélica porção falada do sétimo álbum do Coldplay, A Head Full of Dreams (lançado em 4 de dezembro), que aborda a recuperação de uma época de ansiedade e tristeza. “É tudo verdade”, diz Martin. “É sobre amor e aceitação e abraçar o que acontece com você. É um disco bem hippie. Todos os nossos álbuns foram uma jornada para chegar a este.”

Ele afirma que o último trabalho do Coldplay, Ghost Stories (2014), era propositadamente um “disco menor”. “Isso te liberta para fazer o que quiser em seguida.” Em vez de fazer uma turnê para promoverGhost Stories, a banda ficou no estúdio. “O Universo ficava me mandando tantas músicas que falei: ‘Preciso continuar gravando’”, conta Martin.

Desta vez, o Coldplay estava mais ambicioso. O grupo começou a trabalhar com o Stargate, coletivo de produtores noruegueses por trás de hits de Beyoncé e Rihanna. “Queríamos casar toda a música que amamos, de Drake a Oasis”, declara Martin. “Havia uma sensação de que não tínhamos nada a perder. Agora já estamos muito à vontade com o fato de que [nosso som não é] para todos.”

Os produtores foram exigentes. Pediram demos para cada música (“Nos sentimos novamente como na época em que não tínhamos contrato”, compara) e os integrantes tinham de concordar unanimemente sobrequais faixas gravar. “Para cada uma que entrou, oito ou nove ficaram de fora.”

O quarteto foi encorajado a recrutar convidados diversos. Noel Gallagher toca guitarra em “Up & Up” e Beyoncé aparece em duas faixas, incluindo o batidão para a balada “Hymn for the Weekend” (até a filha dela, Blue Ivy, recebe crédito como vocal de apoio), mas a participação mais surpreendente foi a de Gwyneth Paltrow, que canta na balada de despedida “Everglow”. “Simplesmente fizemos essa no estúdio um dia. Foi amigável.”

O momento preferido de Martin é o que menos soa como o Coldplay: “X Marks the Spot”, em que ele cospe rimas através de um vocoder sobre loops de bateria. “A maioria dos instrumentos nessa faixa não existia quando gravamos nosso primeiro álbum”, diz. “Aqueles que querem que a gente seja uma banda de rock podem ficar decepcionados, mas acho que não somos realmente uma banda de rock.”

No ano passado, Martin deixou os fãs em pânico quando sugeriu que o álbum seguinte do Coldplay seria o último. “Não tenho ideia do que vai acontecer”, afirma agora. “Se um dia fizermos outro disco, será maravilhoso.” Em seguida, esclarece: “Definitivamente não estamos nos separando”.

A turnê mundial do trabalho passará pelo Brasil em 2016. São Paulo e Rio de Janeiro receberão a banda em abril. “Acho que terá um pouco de jazz fusion por seis ou sete horas”, brinca Martin sobre como serão os shows do disco. “Terá uma produção incrível. Se você é fã de Coldplay, vai amar. Se não gosta de nós? Não se preocupe. Não tem problema.”

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