Edição 113 - Janeiro de 2016

Roger Waters

O ex-líder do Pink Floyd comenta o projeto de um novo álbum conceitual, Israel e Hillary Clinton
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Roger Waters
DAVID PARRY/AP IMAGES
por Andy Greene

Depois de lançar um CD e DVD comemorando os três anos da turnê de The Wall, Roger Waters hoje diz ter uma nova percepção de por que o clássico do Pink Floyd perdurou. “Enquanto andam sonâmbulas pelo capitalismo imperialista, as pessoas estão começando a entender que a lei está sendo erodida, os militares estão tomando conta do comércio e as corporações assumiram o governo”, afirma. “E que nós, o povo, não temos mais uma voz. The Wall, de certa forma, pergunta: ‘Você quer uma voz?’” Recentemente, Waters foi manchete graças ao papel de longa data como crítico de Israel, tendo inclusive pedido que Caetano Veloso e Gilberto Gil não se apresentassem no país. Ele comenta o assunto e ainda dirige palavras duras a Donald Trump, Howard Stern e a nós.

Agora que você encerrou The Wall, o que vem a seguir?
Tenho passado um tempo sentado com uma guitarra, todas as demos, um bloco de anotações e uma caneta, remexendo tudo e escrevendo as coisas. É uma tentativa de chegar a um formato, um rabisco do que poderá ser esta pintura quando terminar. E o truque que estou usando é pensar nele como um show “de arena”. Estou tentando descobrir como alternar essas faixas novas com as antigas em uma apresentação coesa e para a qual consiga atrair algumas pessoas. A pergunta básica do álbum é: “Por que estamos matando as crianças?”

Você tocou The Wall 219 vezes entre 2010 e 2013. Acha que tocará novamente?
Se Israel trabalhar pela igualdade e pela democracia verdadeira, real e legítima, sem apartheid ou racismo contaminando a sociedade, irei até lá e tocarei The Wall de novo. Tenho pedaços do cenário guardados e reconstruirei os que não guardei.

Você defende há muito tempo um boicote cultural a Israel, afirmando que o tratamento que o país dá aos palestinos é apartheid. Isso levou algumas pessoas a chamá-lo de antissemita.
[Risos] Elas tentam, mas a analogia que faço é com a luta pelos direitos civis nos estados sulistas dos Estados Unidos e na África do Sul pré-Mandela. A sociedade civil global – embora muita gente não saiba disso, porque não é noticiado – pensa o mesmo que eu sobre o governo israelense. Não estou falando do povo israelense, dos judeus, do judaísmo.

O radialista Howard Stern te acusou de querer que os judeus “voltem para o campo de concentração”. Você tem alguma resposta?
Não gastaria uma gota de saliva com esse fi lho da puta. Acho que acabei de gastar. Foi uma perda de tempo, então vamos em frente.

Como é sua relação com o resto do Pink Floyd?
O [baterista] Nick Mason e eu nos adoramos. Houve um breve abalo quando saí da banda, mas agora somos ótimos amigos. David [Gilmour] e eu nunca fomos amigos, então não temos nada a ver um com o outro e estou satisfeito com isso.

Tenho certeza de que é irritante todo mundo sempre perguntar sobre uma reunião do Pink Floyd que obviamente nunca acontecerá.
Darei a mesma resposta que dei sobre Howard Stern.

Poderia resumir?
[Gritando] Não, não vou resumir! Por que você não me pergunta qual é a porra da minha cor preferida? Sabe, não dá para ser mais besta do que isso. Todos sabem a resposta. E todos ficam fazendo a mesma pergunta. É tão idiota. Desculpe minha irritação. Você só está fazendo seu trabalho.

Vamos falar sobre Donald Trump. Você está horrorizado por ele ir tão bem nas pesquisas?
Não dá para olhar para qualquer candidato republicano sem ficar horrorizado. Eles estão muito sedentos por matar todas as pessoas do mundo. Vou me meter em encrenca por dizer isso, mas as atitudes deles são muito fascistas. Trump acha que é mais esperto porque ganhou uns trocados e tem um programa de TV péssimo.

Gosta da Hillary Clinton?
Com toda certeza ela seria uma alternativa melhor do que qualquer candidato republicano. Mas Hillary me preocupa. Me preocupo com a ideia de ela querer se tornar a primeira presidente mulher a lançar uma porra de bomba nuclear em alguém.

Você mora em Nova York. Se Trump for eleito presidente, deixará os Estados Unidos?
Não. Se o Trump ganhar, todos nós de bom coração precisaremos ficar aqui e nos organizarmos para nos livrarmos dele assim que possível, antes que ele destrua o mundo.

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