Edição 114 - Fevereiro de 2016

Em som e familía

Fincados nos laços de sangue, os irmãos Shultz olham para o passado e fazem do Cage the Elephant uma das melhores bandas recentes do rock
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por DAVID FRICKE

Este lugar era tudo para mim e para o Brad”, conta Matt Shultz, de 32 anos, enquanto uma chuva forte cai sobre o para-brisa da SUV dele. Matt, vocalista da banda de rock Cage the Elephant, parou no estacionamento de um conjunto de prédios na cidade de Bowling Green, Kentucky, perto de um edifício de baixa renda onde ele e Brad Shultz, 33, seu irmão mais velho e guitarrista do Cage, passaram a infância.

“Queria saber como está por dentro”, diz Matt, olhando para seu antigo apartamento no 2º andar. Agitado e falante, com cabelo castanho-claro emoldurando um rosto ainda de menino, ele ri quando se lembra do carpete verde gasto onde encontrava pedaços velhos de cereal e os comia como se fossem um tesouro secreto.

Fundado em Bowling Green há uma década, o Cage the Elephant – Matt, Brad, o baixista, Daniel Tichenor, e o baterista, Jared Champion – agora moram no estado vizinho, Tennessee, na cidade de Nashville. Todos estão casados e Brad e Champion são pais de meninas. O quarteto original convive desde a adolescência. “Se a banda terminasse, você perderia alguém que conhece a vida inteira, não um cara que viu a primeira vez há cinco anos”, alega Brad.

O Cage é a maior exportação roqueira de sua cidade natal. O primeiro álbum do grupo, homônimo, ganhou disco de ouro e veio com o single de platina “Ain’t No Rest for the Wicked”; Thank You, Happy Birthday (2011) e Melophobia (2013) chegaram ao Top 20 da parada. O novo disco, Tell Me I’m Pretty, produzido por Dan Auerbach, do The Black Keys, é o melhor dos quatro trabalhos – rock de garagem melodicamente firme com floreios psicodélicos e uma pitada de tensão.

Quando lançaram o álbum de estreia, em 2008, conseguiram a ajuda do empresário para colocá-los no mercado do Reino Unido. Moraram em Londres por dois anos, onde viviam à base de nuggets e lutavam para firmar um público no meio “de todo aquele pop dançante”, segundo Matt. Na América, não foi mais fácil. Champion ri quando descreve um show no final de 2007, em Toronto, Canadá, abrindo para o Queens of the Stone Age. “Ninguém tinha ouvido falar da gente. O Matt estava dançando e ninguém se empolgava. Ele pulou no meio da plateia, que deu
um passo para trás. Caiu tão duro no chão que ficou sem sapatos, mas se levantou, ainda dançando.” Uma foto na parede do Tidball’s, o equivalente de Bowling Green ao CBGB, mostra Matt em ação, pendurado pelos tornozelos em uma corrente no teto do clube. “Ele fazia qualquer coisa para impressionar as pessoas”, Brad continua, com ternura e espanto. “Já se machucou muito – quebrou costelas, levou pontos. Testava os limites todas as vezes.”

Depois da passagem pelo Tidball’s, Matt me leva a um edifício no qual foi encanador. “Meu chefe me flagrou compondo letras – falou que eu não podia escrever no trabalho”, recorda. A partir daí o vocalista passou a fazer anotações nas paredes e nos canos enquanto trabalhava. “Quando todos iam embora, à noite, eu voltava e passava tudo a limpo.” Matt deixou os rascunhos
intactos – eles ainda estão na construção. “Adorei a ideia de deixar minha marca.”

Diante do apartamento onde viveu com os pais, Matt Shultz sai do carro e contorna seu velho prédio, chegando a um gramado com árvores onde ele, Brad e outros meninos brincavam juntos e felizes até julho de 1996, quando uma vizinha, Morgan Violi, de 7 anos, desapareceu do estacionamento. O corpo dela foi encontrado em outubro daquele ano no Tennessee; o caso de sequestro e assassinato continua sem solução.

“Muita inocência foi perdida”, diz Brad, que tinha 12 anos na época. Ele e Matt começaram a levar canivetes no bolso para se proteger. “Para mim, acabou”, diz o vocalista. “Não penso mais nessa parte da minha vida.” Ele foi parar em uma escola disciplinar, tomou drogas (“na maioria das vezes, comprimidos”) e buscou incansavelmente a carreira musical, inspirado por discos como Is This It (2001), do Strokes, e The Freewheelin’ Bob Dylan (1963).

Matt finalmente relembra a morte de Morgan no novo álbum do Cage the Elephant, no folk rock esparso de “Sweetie Little Jean”. É uma faixa sobre perder alguém para problemas emocionais. A letra também menciona vigílias à luz de velas e cartazes de uma pessoa desaparecida. “Depressão grave – pode parecer que aquela pessoa foi abduzida”, afirma. “Isso me fez revisitar a história
de Morgan. Foi muito pesado.”

Tell Me I’m Pretty mostra uma nova maturidade dos rapazes da banda. E isso tem muito a ver com olhar de uma maneira mais serena para o que ficou para trás. “É um disco bem enraizado no passado”, Matt define. “É sobre finalmente aceitar a maneira como as coisas aconteceram.”

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