Edição 115 - Março de 2016

Duelo de Maiorais

Em A Origem da Justiça, Batman e Superman podem redefinir as adaptações de HQs
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por Pedro Antunes

Zack Snyder arregala os olhos e quase engasga com uma garfada de couve-de-bruxelas, em um tardio almoço às 16h. “Uau, isso seria uma manchete e tanto para os jornais: ‘Jeremy Irons é preso ao bater um batmóvel’”, ele ri. Snyder acaba de saber que, horas antes, o ator inglês (que interpreta Alfred, mordomo de Bruce Wayne, em Batman vs Superman: A Origem da Justiça, com estreia em 24 de março) decidiu testar um dos dois modelos do automóvel usado por Ben Affleck quando sob o capuz do Morcegão.

Esta é a diária 104 de um total de 139 programadas para as filmagens – e o calendário corre contra Snyder e companhia na mais ousada empreitada da história das adaptações dos quadrinhos para o cinema. O diretor é, dentre todas as pessoas que trabalham no filme, aquele com o pescoço mais em risco. Ele comanda a aventura de criar um universo cinematográfico com os heróis da editora DC Comics: será o diretor dos dois filmes Liga da Justiça (nos cinemas em 2017 e 2019) e produtor dos longas Esquadrão Suicida (2016), Mulher-Maravilha (2017), The Flash (2018) e Aquaman (também previsto para 2018). Praticamente sem espaço na agenda sequer para fazer refeições, Snyder definitivamente torcia para não ter que lidar com a imaginativa possibilidade de que um de seus mais respeitados atores fosse fichado pela polícia ao circular por aí ao volante do batmóvel.

É outubro de 2014, e existe algum clima de tensão e excitação no ar frio de outono em Rochester, cidadezinha localizada no subúrbio de Detroit, no estado norte-americano de Michigan. Funcionários correm por todos os lados no gigantesco complexo de estúdios para manter o cronograma previsto. É, afinal, um dos títulos mais caros da história do cinema (segundo a revista Forbes, o valor gasto na produção pode ter chegado a US$ 410 milhões). Os dois antagonistas dessa batalha épica têm cenas separadas naquele dia – nenhuma substancial. Affleck, vestido como Bruce Wayne, caminha pela batcaverna montada quase inteiramente dentro de outro galpão. Henry Cavill, a caráter como o Homem de Aço, está suspenso diante de uma tela verde, fazendo algumas caras e bocas.

Nunca dois heróis de tamanhas dimensões foram colocados lado a lado (ou em lados opostos, conforme indicam o “vs” do título e os trailers). Claro, Capitão América e Homem de Ferro, da Marvel, concorrente da DC, também se enfrentam neste ano, em maio, mas por mais que os dois surfem na onda do sucesso atualmente, eles não chegam aos pés do status de ícones do pop de Batman e Superman. Ainda assim, há muito em jogo: enquanto a Marvel e a parceira Disney já têm um universo cinematográfico em expansão constante, a união DC/Warner luta para ter uma rede de megassucessos para chamar de sua. O lado de lá coleciona dez longas, enquanto o de cá fez a primeira tentativa,
de fato, com O Homem de Aço (2013).

“Como estão vocês, pessoas inteligentes?”, cumprimenta Cavill, mostrando o sotaque britânico deixado de lado quando interpreta o alienígena do planeta extinto Krypton. De volta ao papel, após O Homem de Aço (2013), o ator comemora a forma como o personagem evoluiu (e o fato de terem acrescentado um zíper ao seu uniforme, algo que poupa tempo entre as cenas que exigem troca de roupa). “O desafio, para mim, é manter o desenvolvimento dele. Sinto que nesta produção o vemos pela perspectiva dos humanos”, ele revela. “No primeiro filme, vimos Clark tentando se encaixar. Agora, o mundo tenta entender o que a presença dele significa.”

Cavill explica que a rivalidade que dará início ao conflito entre Batman e Superman deriva dos diferentes métodos adotados pelos heróis. Metrópolis e Gotham, as cidades defendidas por cada um deles, estão posicionadas geograficamente como Nova York e Nova Jersey, diz a produtora Deborah Snyder, esposa do diretor. Isso coloca a diferença entre eles mais em evidência. “O Batman é moralmente cinza, enquanto Superman é, na teoria, mais claro”, diz Cavill.

Vestido como o herói da cabeça aos pés, o ator não tem uma presença tão impactante quanto a de Affleck (em sua versão mais musculosa
já vista no cinema). Com 1,85 m de altura, Cavill destaca- -se daquele grupo de pessoas pelo uniforme azul colado ao corpo e pela letra S estampada no peito. Affleck, por sua vez, mesmo apenas poucos centímetros mais alto, com 1,92 m, tem o pescoço mais largo e é amedrontador – mesmo vestindo o figurino do milionário Bruce Wayne e não o uniforme do Batman.

A escolha de Affleck, duas vezes vencedor do Oscar, foi pauta por motivos que vão além do queixo quadrado que figura no rosto do ator e é
marca registrada do personagem. “Queria alguém que fosse maior do que Henry”, conta Zack Snyder. “Alguém que representasse um ser humano no auge da sua forma, capaz de lutar contra um sujeito como Superman.” Em uma cena, o Morcego, protegido por uma armadura diretamente inspirada naquela usada pelo personagem na HQ O Cavaleiro das Trevas (1986), de Frank Miller, base fundamental para a história na telona, é capaz de conter um golpe do Homem de Aço.

Todas as fichas estão apostadas nesse novo Morcego, que parece raivoso, mais velho e durão. Se de início Affleck gerou rejeição por parte dos fãs dos quadrinhos (por culpa do desastre de Demolidor, adaptação de 2003 estrelada por ele), o jogo agora mudou. Nos vídeos promocionais, aos poucos, a presença do Batman cresceu a ponto de ele ser mostrado, muitas vezes, como o protagonista da trama. “Isso é tudo muito grandioso, não é? O maior set que construí como diretor foi um escritório”, elogia Affleck, cuja carreira vinha trilhando um caminho diferente, principalmente após o Oscar de Melhor Filme para Argo (2013), que dirigiu e estrelou. “Inicialmente, eu pensava que não era a pessoa certa para esse papel”, ele afirma. “Argo abriu muitas possibilidades para mim. Conversei com Zack, ele me explicou sobre esse Batman mais velho, com cabelo grisalho, cheio de ressentimento e amargura, obstinado com uma raiva quase irracional. Percebi que queria entrar no projeto.”

O chamariz principal do longa reside no fato de que os grandes personagens do filme não ficaram resumidos aos dois que dão nome a ele. “Nos reunimos para pensar em como seria e, às vezes, quando se fala algo em voz alta, não tem mais volta. Depois que o Batman entrou, pensamos: ‘E que tal incluirmos também a Mulher-Maravilha?’”, conta Snyder. Dessa maneira, além de retornarem os veteranos de O Homem de Aço Diane Lane (como Martha Kent, mãe de Clark), Laurence Fishburne (Perry White, editor do jornal Planeta Diário) e, claro, Amy Adams (Louis Lane, com quem Superman mantém um relacionamento que evolui de um filme para o outro), foram acrescentados Jesse Eisenberg (Lex Luthor, tradicional vilão do Superman), Gal Gadot (Mulher-Maravilha) e Jason Momoa, que fará uma aparição como Aquaman. Chris Terrio, ganhador do Oscar de Melhor Roteiro por Argo, assume a mesma função aqui, o que garante uma história com “pés no chão”, como define Affleck.

A junção de tantos heróis em um mesmo ambiente é algo que cativa o moleque devorador de HQs, como fica provado com a reação de Jeremy Irons diante da tecnologia desenvolvida para dar vida e forma ao mundo dos quadrinhos. Ao ver o batmóvel estacionado no canto de um galpão com dimensões gigantescas, ele arregala os olhos. “O carro está funcionando?”, pergunta ao mecânico responsável por manobrar o veículo. “Posso testá-lo?” Sem esperar por uma resposta, ele salta para dentro. Engenhoca ligada, motor berrando, e o inglês engata a ré e parte para dar uma volta. Os risos e os aplausos se tornam mais nervosos quando o batmóvel se aproxima perigosamente dos presentes.

Remexendo a porção de vegetais do prato diante de si, Snyder deixa o assunto para trás ao saber que ninguém ficou ferido.

Há questões mais importantes em jogo. “Quando fizemos os testes de câmera e colocamos os três heróis juntos, Batman, Superman e Mulher-Maravilha, foi incrível. São três figuras importantíssimas da cultura pop. É incrível pensar como ninguém havia feito isso antes. Acho que hoje estamos enfim preparados para isso.” Ele deixa o prato de lado, os 20 minutos para o almoço chegaram ao fim. “E, para mim, é ótimo. Estou adorando.”