Edição 115 - Março de 2016

Na rede de Tiago Iorc

Graças à internet, o cantor se tornou figura carimbada nas trilhas sonoras da Globo. Mas a trajetória dele vai além do que se ouve na televisão
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Na rede de Tiago Iorc
Rafel Kent/Divulgação
por Mauro Ferreira

Tiago Iorc é, literalmente, um cantor de parar o trânsito. Em 6 de dezembro de 2015, ele fez um show-surpresa na Avenida Paulista, uma das principais vias da cidade de São Paulo. Era domingo, mas, mesmo assim, a apresentação anunciada apenas meia hora antes de seu início teve que ser interrompida pela polícia por causa do fluxo de público. Mais de mil pessoas se aglomeraram na avenida. A confusão é indício concreto do sucesso nacional feito por esse cantor e compositor de 30 anos, nascido em Brasília com o nome de Tiago Iorczeski, mas criado na Inglaterra até o 4º ano de idade e, na volta ao Brasil, radicado em Curitiba.

Galeria - Minha vida em músicas: Tiago Iorc

“Mal vejo o apartamento que aluguei aqui no Rio”, conta Iorc, sem lamentar, sentado em uma das salas do estúdio carioca Fibra, onde estreia como produtor musical no primeiro álbum do Anavitória, duo feminino do Tocantins. “É libertador e gostoso estar do outro lado. Sei exatamente o que elas estão passando”, assegura o cantor, que viu a carreira engrenar quando um registro da canção “Nothing But a Song” foi ouvida por um estagiário da gravadora Som Livre, abrindo para Iorc as portas da companhia fonográfica vinculada às Organizações Globo. Foi um pulo para que a partir daí, em 2008, o artista se tornasse figura fácil nas trilhas sonoras de novelas da emissora de TV.

Antes da pausa estratégica para produzir o disco das meninas e para se preparar para a primeira gravação ao vivo, programada para abril em Belém, o artista fez 43 apresentações no segundo semestre de 2015. Juntas, elas totalizaram 41.153 ingressos vendidos. São números expressivos para um estranho no ninho do sertanejo, gênero que dá o tom do mercado brasileiro de shows. A virada na carreira aconteceu em meados do ano passado com o lançamento do quarto álbum, Troco Likes, em que o artista adotou um som mais pop e um repertório composto em português. Até então, o inglês era a língua dominante no cancioneiro de Iorc, que passou um período fundamental da juventude (dos 10 aos 11 anos) nos Estados Unidos.

Com Troco Likes, Iorc testemunhou aumentar a plateia que queria vê-lo ao vivo. “O público já vinha crescendo, mas agora fica gente de fora das casas de shows, sem poder entrar”, diferencia, nunca alterando o tom sereno que marca seu jeito de falar. O sucesso pode ter sido gradativo, mas a explosão ocorreu em 9 de novembro do ano passado. Nesse único dia, Iorc gravou, editou e lançou, em parceria com Rafael Kent, um clipe que viralizou já nas primeiras 24 horas, com 1,5 milhão de visualizações. Feito em tons minimalistas e sensuais com a atriz Bruna Marquezine, o vídeo de “Amei Te Ver” gerou um EP, lançado em fevereiro, com seis versões diferentes da canção, incluindo dois remixes produzidos pelo DJ DeepLick.

O artista reconhece que a troca do inglês pelo português na composição do repertório ajudou a detonar a explosão. “Foi um processo intenso. Eu estava acostumado a escrever em inglês e já tinha um jeito cômodo de compor. Tem a coisa da dicção, do jeito como a melodia se afina com a música das palavras. Tanto que, quando sentei papara fazer a primeira música em português, ela veio em inglês”, rememora Iorc, se referindo à canção “‘Till I Am Old and Gray”, alocada como faixa-bônus em Troco Likes.

Na visão de Iorc, Troco Likes é uma extensão natural da discografia que ganhou impulso em 2008 com a edição do primeiro álbum, Let Yourself in, gravado em inglês. “Sei que tem pessoas que me acompanham apenas desde o Troco Likes, mas não comecei ontem. Quando morava em Curitiba, tocava na noite em banda de covers para ganhar meu dinheiro”, conta o artista.

Iorc, que até o fechamento desta edição contabilizava 50 milhões de visualizações no canal dele no YouTube e mais de 720 mil curtidas na página oficial do Facebook, já movimentava as redes antes mesmo de ter o nome associado à música que canta e compõe. Quando a canção “Nothing But a Song” começou a tocar na trilha sonora da novela juvenil Malhação, exibida nos fins de tarde pela Rede Globo, uma comunidade na extinta rede social Orkut chegou a abrir um tópico de discussão para descobrir a identidade do cantor da música. “A minha história começou há alguns anos. Eu passei por muitas coisas ao longo desse tempo que me deixam tranquilo para saborear o sucesso”, afirma o cantor.

A trajetória é dividida com Felipe Simas, empresário e sócio de Iorc. O selo aberto por ambos, Forasteiro, vai editar o primeiro álbum do Anavitória. Ana Caetano e Vitória Falcão entraram na vida musical de Iorc quando enviaram para ele um vídeo com a versão de uma música do artista, “Um Dia Após o Outro”. Cantor e sócio detectaram algo a mais nas meninas da cidade de Araguaína e resolveram investir nelas. Iorc virou parceiro de composição de Ana. “A gente viu uma ruralidade genuína no som delas. Ana e Vitória são meninas do dia de hoje, com som peculiar e atual”, conceitua.

Paralelamente à produção do disco da dupla, Iorc gestou um novo EP, programado para chegar em março à web com três músicas inéditas (“Chega pra Cá”, “Mulher” e “Amor sem Onda”) que vão figurar no repertório do primeiro DVD do artista. A ideia é viralizar as faixas para que sejam cantadas pelo público na gravação, em abril. Sempre trabalhando, Tiago Iorc deita na rede sem se acomodar .