Edição 115 - Março de 2016

Pilantra até o Fim

As muitas façanhas e facetas do agitador cultural Carlos Imperial chegam ao cinema
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por José Flávio Júnior

O que Roberto Carlos, Erasmo Carlos, Elis Regina e Wilson Simonal têm em comum, além de integrarem o patamar mais alto da música popular brasileira? Todos foram moldados e lançados por Carlos Imperial (1935-1992). O compositor, produtor, cineasta, jornalista, empresário, apresentador de televisão e político (entre outras atividades) de Cachoeiro do Itapemirim (ES) exerceu papel decisivo nos bastidores da cultura do nosso país entre as décadas de 1950 e 1980. Foi um dos lançadores do rock no Brasil e teve mão no sucesso da Jovem Guarda. Promoveu a soul e a disco music feitas por aqui. Produziu, dirigiu e estrelou vários filmes e programas de televisão. Também popularizou o bordão “Dez! Nota dez”, utilizado na apuração
das notas das escolas de samba. Dirigido por Ricardo Calil e Renato Terra (os mesmos de Uma Noite em 67), o documentário Eu Sou Carlos Imperial, com estreia em circuito agendada para 17 de março, assume a difícil tarefa de relatar toda essa influência em uma hora e meia, e ainda dar conta da personalidade singular da lenda.

Imperial não transava drogas. “Os vícios dele eram mulher, Coca-Cola e trabalho”, diz o filho, Marco Gracie Imperial, a certa altura do filme. Frequentemente acompanhado por um grande número de jovens garotas (as quais ele chamava de “lebres”), o capixaba de 1,82 metro e mais de 100 quilos alegava ter sido um intelectual quando garoto. “Fugi da intelectualidade quando descobri que intelectual não comia ninguém. Tornei-me um cafajeste”, assume, em uma das primeiras cenas do filme. Declarações do tipo fizeram com que parte do Brasil o entendesse apenas como um bufão com espaço na mídia. Mas essa
era só uma de suas facetas.

A mais interessante, sem dúvida, era a de formador de ídolos e criador de hits (ainda que não fossem necessariamente compostos por ele). Por meio de depoimentos de Roberto, Erasmo, Paulo Silvino, Tony Tornado e muitos outros, Eu Sou Carlos Imperial dá bastante enfoque ao tino que o apelidado Gordo tinha para revelar talentos – e também para se desapegar dos ditos-cujos quando já se achavam maiores do que o mentor. Um de seus projetos mais bem acabados foi Simonal, que por anos atuou como seu secretário, e acabou se tornando o porta-voz da pilantragem, um híbrido de samba e rock temperado com jazz, sempre em clima de festa. Imperial se declarava o rei da pilantragem.

Pilantragem essa que, no sentido original do termo, ele exercia registrando músicas do folclore popular em seu nome (vide “Meu Limão, Meu Limoeiro”) ou excluindo parceiros na hora de registrar os fonogramas (Eduardo Araújo sentiu isso na pele com “O Bom” e “Mamãe Passou Açúcar em Mim”). Para não ser enrolado por Imperial, só sendo mais malandro do que ele. O paraguaio Fábio, cantor e melhor amigo de Tim Maia, relata no filme como “Azul da Cor do Mar” quase acabou virando mais um dos hits dorei da pilantragem. Por confiar no faro de Imperial, Tim quis lhe mostrar a balada que meses mais tarde o consagraria. Quando ouviu a parte do “tchururururu”, o Gordo já foi logo inventando um verso: “olha, minha linda...” Tim o interrompeu de imediato. “Não, não! Aqui só tem tchururururu!”

O curioso é que todos os comparsas recordam Imperial com saudade, o que surpreendeu Calil, um dos diretores. “A gente achava que as pessoas falariam mal dele. Mas, mesmo as sacaneadas, mostram um grande carinho, pois o cara fez a carreira delas deslanchar. Ele tinha um senso de promoção que faz falta aos artistas que têm dificuldade de voltar ao mercado. Era um marqueteiro avant la lettre [antes do conceito ser inventado]”, analisa. Autor de Dez, Nota Dez! Eu Sou Carlos Imperial (Editora Planeta), o ótimo livro que serviu de base para o documentário, Denilson Monteiro acredita que, se Imperial estivesse vivo, seguiria aprontando mil e uma. “Ele sabia de tudo o que acontecia no mundo sem precisar de internet. Lançou Renato e Seus Blue Caps cantando Beatles antes do primeiro LP dos ingleses sair aqui. Em 1991, decidiu que só trabalharia à beira da piscina, pois tinha comprado um fax e uma impressora matricial. Hoje, com um smartphone, faria o diabo!”

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