Edição 117 - Maio de 2016

Tributos

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Tributos
Ap Photo/Mark J.
por Joe Levy

Sheila E.

Um amigo me deu um pôster do primeiro álbum do Prince. Eu fiquei tipo: “Ai, meu Deus, ele é lindo”. Coloquei ao lado da minha cama com colchão de água. Eu olhava para ele e dizia: “Um dia vou conhecer você”. Daí eu vi Prince tocar. Ele estava vestido com um trench coat, fio-dental e polainas. Mais tarde fui apresentada a ele, e aquilo era praticamente o que ele vestia no dia a dia. Perguntei: “Tem certeza que você vai usar isso na rua?” Eu nunca tinha visto um homem se vestir daquele jeito. Ele era meu guitarrista preferido no mundo. Foi por isso que me apaixonei. Estávamos tocando “Purple Rain” na turnê Sign ‘O’ the Times. Eu estava com os olhos fechados, em um paraíso, à beira do choro. Abri os olhos e ele me pediu em casamento. Eu meio que disse “sim”, e nós continuamos tocando. Ficamos amigos primeiro, depois nos apaixonamos, depois nos distanciamos. Daí ficamos como irmãos. Eu o chamava de “Honey” ou “Baby”. Ele era meu amigo. A música era a vida dele, e ele vivia e morria por ela. Esse é o legado de Prince.

Lenny Kravitz

Prince abriu a minha imaginação e me mostrou aonde eu queria ir como artista. Lá estava um sujeito afro-americano como eu, tocando guitarra como eu queria tocar. E ele tocava quase todos os instrumentos nos álbuns. A música, o clima, as cores, o cabelo – eu era adolescente e tudo aquilo era fantástico para mim. Por meio da arte, ele dizia: “Você é capaz de fazer isso. Foi assim que eu fiz. Agora você faz do seu jeito”. Anos depois, pude conhecê-lo como amigo. Nós nos encontramos pelo mundo todo: Paris, Nova York, Amsterdã, Minneapolis, Miami – qualquer lugar em que ele por acaso estivesse. Eu o visitava em Paisley Park, que era um lugar incrível. Era tipo Willy Wonka e a Fábrica de Chocolate – um grande complexo que simplesmente era o mundo dele. A gente ia para o estúdio e ficava tocando, e ele filmava e gravava. Quando terminávamos, ele me entregava uma fita cassete. Dizia: “Isso aqui é só para você, eu fiquei com a fita master e vou guardá-la trancada”. Nem tudo é comercial.

Tem a ver com a arte, com o momento, com a memória. Ele costumava acabar comigo na sinuca: tinha a mesma atitude que tinha no palco, simplesmente vinha para cima de você. Uma vez, quando eu estava namorando [a modelo] Vanessa Paradis, eu a levei ao apartamento dele em Paris. Acho que ficamos lá das 11h da noite até umas 6h da manhã. Prince perguntou se ela queria jogar sinuca, achando que iria acabar com ela. E ela acabou com ele. É uma lembrança maravilhosa. Ele sabia ser incrivelmente engraçado. Eu me lembro de assistir a um especial do Chris Rock na casa dele, e a gente deu muita risada. Em outra ocasião, passei um tempo com ele e Dave Chappelle. Ele adorava ter pessoas talentosas ao redor, fossem músicos, artistas, dançarinos ou comediantes. Era uma pessoa amorosa. Se gostava de você, gostava de verdade, e te tratava de um jeito lindo. Às vezes, ele sumia. Tinha tempos que eu passava um ano sem ter notícias dele, daí ele aparecia quando você menos esperava.

Ainda não me recuperei. De verdade, sinto que uma parte de mim morreu.

Stevie Wonder

A música de Prince era tão pitoresca que até eu conseguia enxergá-la. Eu também era capaz de sentir aquela “Purple Rain”. As canções dele eram vigorosas assim, as imagens eram fortes assim. Acho que eu me identificava com o jeito como Prince via as coisas porque nós dois fomos criados no Meio-Oeste, onde conhecemos todo tipo de gente e tivemos um enorme espectro com o qual aprender. Nós dois fomos criados ouvindo blues, rock and roll, jazz e gospel, e encontramos o valor nisso tudo. Na última vez em que Prince e eu nos falamos, conversamos sobre como precisávamos consertar este mundo. Toda essa besteirada de retomar o país e de “Make America Great Again” – a América sempre foi grande. A gente só precisa impedir que as pessoas encham a cabeça de mentiras e de preconceito e que se abram para as possibilidades. Prince era tão inspirado, e tão inspirador. Ele era bondoso,disciplinado e sabia para onde queria ir. Era capaz de fazer grandes transições. Se Michael Jackson era o Rei do Pop, Prince deveria ser o Imperador. Ele lutava por sua liberdade artística. Não permitia que ninguém nem nada ficasse no caminho dele. Ao seguir seu próprio trajeto, levou a música a um lugar completamente diferente, como os Beatles fizeram. Queria mudar o jeito como as coisas eram, como Marvin Gaye fez. Quando você faz isso, tem que ser muito seguro de si. Esse espírito que o movia nos deu um reservatório incrível de música. Ele adorava funk, por isso precisava mesmo saber como deixar as coisas animadas. Adorava jazz, por isso precisava dissecar o que fazia as coisas fluírem de verdade. Se Prince queria falar de amor e sexo, ele entrava de cabeça – bem fundo. E ele fazia a gente ver e sentir tudo com ele. Aliás, estou tentando descobrir qual dos meus filhos foi gerado porque eu estava escutando Prince.