Edição 118 - Junho de 2016

Incomparável “Professor”

De personalidade singular, Cauby Peixoto foi um dos mais vibrantes astros da música brasileira
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por Paulo Cavalcanti

A seis décadas o samba-canção era a trilha sonora de um Brasil em transição, que saía da ditadura paternalista de Getúlio Vargas e rumava aos tempos mais modernos de Juscelino Kubitschek. O menestrel do período era um rapaz magro de 25 anos que cantava apassional“Conceição”(1956),aquela que “ninguém sabe, ninguém viu”. Cauby Peixoto, dono de uma voz plena e cheia de técnica, era o intérprete da canção. O cantor, que morreu em São Paulo, no dia 15 de maio, aos 85 anos, de pneumonia, foi um astro a vida inteira e por décadas sobreviveu como pôde às intensas mudanças na indústria da música.

Cauby Peixoto nasceu em Niterói, Rio de Janeiro, em 10 de fevereiro de 1931. Sua família era envolvida com música, e ele foi um produto da era do rádio, mostrando-se eclético: ouvia jazz, bolero e canções românticas norte-americanas. Com essa bagagem, se aventurou pelo mundo artístico. “Saia Branca”, canção gravada para o primeiro compacto em 78 rotações dele, saiu em 1951 e não causou impacto. Ter uma excelente voz não era garantia de sucesso – por isso, a carreira de Cauby ganhou outro fôlego quando ele se uniu ao compositor e empresário Edson Collaço Veras, mais conhecido como Di Veras. De certa forma, a aura em torno de Cauby foi “fabricada” pelo marketing de Veras. Ele remodelou o visual do cantor e deu a ele um toque cosmopolita. Também pagava as fãs para rasgarem as roupas do ídolo, algo que alimentou a “caubymania”. Cauby aparecia na capa das publicações da época e era alvo de rumores sobre casos amorosos com outras estrelas (décadas mais tarde, ele se assumiria homossexual).

O artista ficou marcado pelas canções românticas, mas curiosamente foi um dos pioneiros do rock no Brasil. Em 1957, gravou “Rock and Roll in Copacabana”, que muitos pesquisadores apontam como a primeira canção no estilo a ter uma letra em português. No filme Minha Sogra É da Polícia(1958), ele canta “That’s Rock” acompanhado em cena por Carlos Imperial, Roberto Carlos e Erasmo Carlos. Nesse período também tentou a sorte nos Estados Unidos de forma intermitente, nomes Ron Coby e Coby Dijon. Lá, vários compactos e até participou do filme Jamboree (1957). Era seu auge, mas não muito depois a chegada da bossa nova e dos cantores “modernos” e de voz pequena esfriaria um pouco o sucesso. Cauby, no entanto, nunca saiu de cena. Seguiu gravando ocasionalmente, ainda que durante as décadas de 1960 e 1970 tenha sido mais requisitado no circuito de clubes noturnos nostálgicos do que no showbizz tradicional.

O renascimento aconteceu em 1980 com o lançamento do álbum Cauby! Cauby!. Marcando os 25 anos de carreira do intérprete, o trabalho foi intensamente promovido. No repertório estavam canções especialmente escritas para Cauby por nomes como Roberto e Erasmo Carlos, Caetano Veloso e Chico Buarque. E foi “Bastidores”, de Chico (do refrão “cantei, cantei”), que trouxe novamente o astro de volta às rádios. Com visibilidade renovada, assumiu de vez o jeito camp. Os maneirismos de palco se tornaram mais exagerados. Ele começou a usar um bigode à la Freddie Mercury; perucas extravagantes e roupas com brilho também se tornaram marca registrada. Um eterno cavalheiro das antigas, chamava a todos carinhosamente de do pelo qual também era conhecido. As entrevistas dele costumavam ser impagáveis.

Se Cauby tinha um lado altamente folclórico, em paralelo era muito sério em relação à música que canta. Nestes últimos nos, emprestou voz aveludada a ngbooks de outros cantores, como Frank Sinatra, Roberto O derradeiro trabalho de estúdio dele foi A Bossa de Cauby Peixoto, lançado em 2015 pela gravadora Biscoito Fino, no qual interpreta standards do gênero. Ele não cogitava a aposentadoria e se manteve na estrada até não ser mais possível por questões de saúde – a voz permaneceu firme mesmo próximo do fim. Pouco tempo antes de morrer, Cauby seguia se apresentando ao lado de Ângela Maria, amiga e parceira desde os tempos da Rádio Nacional. O recente documentário Cauby Começaria Tudo Outra Vez (2015), de Nelson Hoine , é obrigatório para quem quer entender o já saudoso ícone da música brasileira.