Edição 118 - Junho de 2016

Mundo Particular

Sem planos para um disco de inéditas, Marisa Monte se vê às voltas com as belezas e os sustos do dia a dia nos tempos de redes sociais
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por Mauro Ferreira

Marisa de Azevedo Monte é uma diva. No foyer e no pátio do Espaço Tom Jobim, o teatro carioca escolhido pela artista para conversar sobre a primeira compilação da discografia, há uma sutil tensão gerada por sua simples presença. Assessores, empresário e representantes da gravadora Universal Music se comportam com suposta naturalidade. A própria Marisa tenta colaborar para que o clima fique descontraído – antes da entrevista, se junta ao círculo em que conto, a pedido do empresário Leonardo Neto, a história de uma conhecida rusga que a cantora Alcione teve comigo, há mais de 20 anos (no palco de uma apresentação, Alcione me desancou por conta de uma resenha que eu havia escrito). Marisa ri. Todos riem. Mas ninguém tem dúvidas de que, sim, há uma estrela entre nós. Uma cantora que, no fim dos anos 1980, irrompeu como um furacão na música brasileira, derrubando o muro já frágil que ainda insistia em separar a tradicional MPB do jovial universo pop (re)construído no Brasil ao longo daquela década de 1980 com a abertura do mercado para o rock nacional. No primeiro álbum, estrategicamente lançado em janeiro de 1989, Marisa cantava Titãs, Tim Maia, Candeia e Luiz Gonzaga. Tudo misturado.

“Não fiz nada muito diferente do que outras pessoas já tinham feito antes, como Caetano [Veloso], por exemplo, que já tinha nos anos 1960 e 1970 uma atitude rock and roll e ao mesmo tempo uma coisa bossa nova”, discorre Marisa. “Vejo meu surgimento como uma reconciliação de dois gêneros que, nos anos 1980, eram antagônicos. Havia naquela época a história de que o rock havia acabado com a MPB; havia o contraponto de uma música que falava uma linguagem mais jovem com uma música de ar mais clássico. Mas tudo isso convivia com naturalidade dentro do meu trabalho e da minha formação, que também passava pela música clássica e pelo jazz. Eu não tinha motivo para abrir mão dessas referências.”

Decorridos 27 anos, a voz-guia que estabeleceu um padrão de canto feminino no Brasil soa mais suave e já menos imponente no mercado da música. Reitera, porém, o requinte e o ecletismo outrora pioneiro ao juntar em Coleção, compilação que idealizou para encerrar o vínculo contratual com o selo EMI da Universal, 13 gravações de músicas de Dorival Caymmi, Arnaldo Antunes, Caetano Veloso, Pixinguinha e Antonio Carlos Jobim feitas entre 1993 e 2014 para álbuns alheios, trilhas de filmes e projetos coletivos.

Prestes a completar 49 anos, em 1º de julho, Marisa mantém a aura ao seu redor desde 1987, ano em que shows feitos na zona sul do Rio, vistos pelas pessoas certas, lhe deram o status de cantora cult em uma das mais bem-sucedidas articulações da história da música brasileira. Dois anos mais tarde Marisa já era unanimidade nacional. “Bem Que Se Quis”, versão de Nelson Motta para canção do compositor italiano Pino Daniele, amplificou a voz da cantora iniciante e consolidou de imediato uma carreira em que cada passo parece ter sido pensado ao longo destes quase 30 anos. Mas Marisa recusa a fama de estrategista. “Não é exatamente ter tudo sob controle. Nada está sob controle na vida”, pondera. “Mesmo a criação tem vida própria. A música sai como ela quer, quando ela quer... Na minha carreira é tudo cuidado, pensado, feito com o meu melhor, mas dentro da realidade do imprevisto da vida.”

Nesse cotidiano do imprevisível, Marisa já se pegou surpreendida pela pergunta da filha Helena, de 7 anos, sobre o significado da palavra “pedofilia”, lida pela garota em reportagem de um jornal carioca. Marisa não se aprofundou na explicação, mas tampouco fugiu da questão. A cantora se ateve ao caso retratado na reportagem e disse a Helena – nascida em novembro de 2008 da relação entre Marisa e o atual marido, Diogo Pires – que era o termo usado para designar casos como o daquele homem do jornal, que gostava de namorar meninas mais novas. Mãe também de Mano Wladimir, filho de 13 anos gerado no casamento com Pedro Bernardes, Marisa desconstrói a mítica que paira ao seu redor no exercício cotidiano da maternidade. Para manter o convívio com os filhos, diminuiu a duração das turnês internacionais e aumentou o espaço entre os shows. “Sou uma mãe apaixonada”, afirma, rindo. “Sou supercolada neles. Porque uma coisa é você acompanhar e outra é estar presente na hora em que as coisas acontecem. A maternidade é uma experiência existencial única. Quando você cria uma família, é uma renovação. Quando você tem filhos, inevitavelmente cria raiz.”

Apesar de ter um lado mais caseiro, ela continua atuante em uma sociedade que classifica como “terrivelmente assustadora”. E toma partido da relativização diante das posições extremistas defendidas por muitos brasileiros no atual momento político do país. “Vejo o Brasil com preocupação pela polaridade que a gente está vivendo. Por outro lado, vejo também uma transformação que eu acho que pode ser boa para a democracia. Mas não me interesso pelas discussões muito extremas. As pessoas estão mais brigando do que conversando. Política é diálogo.”

Em 2 de maio, a cantora promoveu seu diálogo em forma de música ao fazer show de graça em um colégio do estado do Rio de Janeiro que tinha sido ocupado por estudantes. Nos jovens, Marisa identificou o que chamou de “força transformadora”. Na ocasião, ela cantou quatro músicas com o amigo Dadi Carvalho, baixista com quem divide a interpretação do acalanto “Da Aurora até o Luar” em gravação de 2005 rebobinada na atual novela das 21h da Rede Globo, Velho Chico.

Com o benefício da perspectiva, Marisa Monte lembra que a geração dela também viveu e sobreviveu em um mundo assolado por aspectos terríveis, especialmente por conta da Guerra Fria (“Parecia que tudo ia explodir”, recorda). Por isso, ela conversa com os filhos à medida que a realidade cotidiana já possa ser absorvida por eles, mas sempre com espaço reservado a cotas diárias de beleza. “Na infância, você preserva mais. Mas não dá mais para filtrar nada para o meu filho de 13 anos. Ele já está no mundo e fico imaginando o quão assustador deve ser isso tudo para ele”, declara Marisa, que se permitiu pôr um filtro na realidade quando ninou os filhos com histórias belas, verdadeiras ou inventadas. Quando eles passaram a preferir os causos reais, ela contou passagens da infância vivida com a mãe, Sylvia Marques de Azevedo Monte, e com o pai, Carlos Monte, ex-diretor da tradicional escola de samba Portela. E pode muito bem ter contado que, em 2000, reuniu os bambas da Velha Guarda da Portela em estúdio para produzir Tudo Azul, álbum da veterana turma de compositores da agremiação carioca. O disco foi lançado em 2000 pelo selo da cantora, Phonomotor.

Sem filtro, Marisa encara com aparente resignação a realidade fragmentada do mercado fonográfico. O último álbum de músicas inéditas, O Que Você Quer Saber de Verdade, foi lançado em outubro de 2011, há quase cinco anos. E não há outro à vista. Ela até cogita a ideia de lançar gravações inéditas na internet sem o compromisso de atrelar esses registros a um álbum. “Tô livre! Acabei de encerrar um compromisso com a indústria e posso fazer o que eu quiser. E não sei ainda se eu preciso e quero fazer álbuns. Posso gravar duas músicas inéditas e lançá-las de maneira avulsa.”

O baú de inéditas está cada vez mais cheio. Desde o último álbum, que gerou em 2012 a turnê eternizada no DVD Verdade uma Ilusão, Marisa nunca parou de compor. Já abriu parceria com a cantora e compositora carioca Teresa Cristina e acabou de fazer três músicas com outro novo parceiro, o cantor e compositor capixaba Silva, nome da cena contemporânea à qual Marisa está atenta. “Eu me interesso pelas pessoas. Sou da conversa. Não sou possessiva com a minha criação. Gosto de dividir, gosto de somar”, declara. “A construção das parcerias vai acontecendo de forma natural. E gosto de música. Não tem um estilo do qual eu não goste. Gosto dos contrastes, das misturas. Ser brasileiro é estar acostumado às misturas.”

Cantora cujo sucesso avassalador impulsionou no início da década de 1990 a abertura da indústria para colegas como Adriana Calcanhotto e Cássia Eller, Marisa teve a atenção recentemente despertada para a obra de Ava Rocha, a filha do cineasta Glauber Rocha. Observar colegas é um comportamento natural para ela, intérprete que se transformou em compositora depois do primeiro álbum. Ainda inéditas, as parcerias de Marisa com Silva e com Teresa Cristina expandem obra autoral que começou a ser desenvolvida no segundo álbum, Mais (1991), Lançado três anos após o disco e show Mais, o álbum seguinte, Verde Anil Amarelo Cor-de-Rosa e Carvão (1994), consolidou a cosmopolita obra autoral da compositora, agregando parceiros como Carlinhos Brown. Com Brown e Arnaldo Antunes, a cantora formaria ainda o trio Tribalistas, que lançou um único álbum em 2002 e jamais saiu em turnê, tendo feito apenas alguns shows.

Como jamais considerou a ideia de fazer turnê inspirada na compilação Coleção, Marisa está eventualmente na estrada com o que chama de “show de férias”. “É um espetáculo portátil, leve, gostoso, com o qual tenho ido a lugares onde nunca tinha cantado, como o Chile, por exemplo”, explica. Ela também quis ir para as praças públicas com um show inédito feito com orquestra. Teve autorização para buscar patrocínio através da Lei Rouanet, mas não conseguiu captar a quantia necessária e manteve o projeto no plano das ideias. “Eu nem ia ganhar tanto dinheiro, não. Só ia fazer uma coisa que eu não posso fazer sem uma lei de incentivo fiscal. Não dá para não ter incentivo à cultura em um país como o Brasil”, ela afirma, semanas antes do anúncio da extinção (posteriormente revogada) do Ministério da Cultura no governo do presidente interino Michel Temer.

Marisa Monte reclama da falta de informações detalhadas sobre discos e canções em serviços de streaming, mas acha “interessante que o mundo tenha menos matéria, menos plástico” – ainda se faz ouvir no universo pop brasileiro. Há as músicas em novelas, os clipes no YouTube e a presença nas redes sociais, mantendo viva uma carreira que completará 30 anos em 2017. Há quem a veja tão somente como uma estrategista, espécie de Madonna (do ponto de vista administrativo, claro) do lado debaixo da linha do Equador. Há quem a veja como uma grande artista que encontrou um lugar próprio. Talvez Marisa Monte seja o equilíbrio entre essas duas visões. “Para mim, não tem diferença entre o produto e a criação artística”, ela pontua. “O produto é uma consequência da criação. A criação artística é o mundo ideal das ideias. O produto é a ideia posta no mundo da realidade. É fácil ter ideias. Difícil é botar uma ideia no mundo.” Definitivamente, Marisa Monte é uma diva.

Curadoria

Faixas da primeira compilação da carreira de Marisa foram selecionadas a partir de “critério emocional”

Marisa Monte precisava lançar uma coletânea na linha “greatest hits” para encerrar o contrato que assinou em 2000 com a EMI, gravadora encampada pela Universal Music em 2013. Foi daí que surgiu o disco Coleção. Só que, em vez de uma compilação de maiores sucessos, a artista sugeriu lançar uma coletânea com status de álbum. “Quis um disco que tivesse uma curadoria, um olhar mais pessoal sobre a minha obra”, conceitua Marisa. Na visão dela, as 13 gravações de Coleção agregam valor à sua discografia. Lançados entre 1993 e 2014, os fonogramas foram escolhidos dentre os cerca de 40 registros avulsos contabilizados pela cantora. “O critério da seleção foi emocional. São músicas de que eu gosto e gravações que acho representativas dentro da minha obra.” Até então dispersas na discografia de Marisa, as gravações incluem duetos com David Byrne (a versão bilíngue de “Águas de Março”, 1996), Cesária Évora (“É Doce Morrer no Mar”, 1999) e Paulinho da Viola (“Carinhoso”, 2003). Duas gravações são inéditas em disco: “Cama”, que saiu em 2008 batizada como “Uma Palavra”, e “Fumando Espero”, tango de 1922 lançado no Brasil por Dalva de Oliveira em 1955 e reavivado por Marisa em show com o grupo argentino Café de Los Maestros em 2009.

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