Edição 119 - Julho de 2016

O Maior de Todos os Tempos

1942-2016 As pessoas o desprezavam, até o insultavam. algumas o temiam. ele era ousado demais para ser suportado, mesmo quando provava ser o que alegava ser – o mais rápido, o mais impressionante boxeador já visto, além de um negro que não pedia permissão para se manter orgulhoso nem se submetia a convenções de imagem e valores. Era uma ameaça implícita. Alguns – milhões, na verdade – assistiam a suas lutas só para vê-lo nocauteado, arrasado.
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Esse foi apenas o começo, antes de as coisas ficarem sérias para Muhammad Ali, antes que ele mudasse os Estados Unidos e se transformasse em um exemplo de coragem perante o mundo. No dia seguinte à morte dele
– em 3 de junho, aos 74 anos, depois de anos sofrendo de mal de Parkinson –, o presidente norte-americano, Barack Obama, citou algo que o lutador havia dito uma vez: “Sou a América. Sou a parte que você não reconhece, mas se acostume a mim – negro, confiante, convencido; meu nome, não o seu; minha religião, não a sua; meus objetivos, só os meus. Acostume-se a mim”.

Ali era um símbolo do que ocorria nos Estados Uni- dos enquanto o país passava por décadas de ódio, medo, violência; enquanto o país duvidava de suas melhores promessas, às vezes alcançando uma graça transforma- dora, outras revelando seus piores paradoxos, dos dilemas de guerras e direitos civis a disputas envolvendo a liberdade religiosa. Muhammad Ali jogou uma luz sobre tudo isso, cometendo os próprios pecados e incorrendo em perdas irrevogáveis ao longo dos anos.

“Conquistei o mundo e isso não me trouxe a verdadeira felicidade”, ele disse uma vez. Ainda assim, sabia que tinha justificado seu tempo aqui. Para o bem e para o mal, apenas Ali definia seus próprios limites. O ex-campeão dos pesos-pesados George Foreman mais tarde discorreu sobre o que movia o homem: “Ele encontrou algo pelo que lutar que não era dinheiro nem cinturões de título. E, quando uma pessoa encontra algo assim, é difícil derrotá-la”. A história de Muhammad Ali é a história de como um jovem pegou o medo – medo pessoal e um pavor incitado pela história do povo negro nos Estados Unidos – e o transformou em algo que o próprio medo deveria temer.

Muhammad Ali nasceu Cassius Marcellus Clay, em 17 de janeiro de 1942, em Louisville, Kentucky, o primeiro filho de Cassius Clay Sr. e a esposa, Odessa. Clay Sr. recebeu o nome de um fazendeiro branco do século 19 que se tornou um abolicionista fervoroso e libertou seus escravos. Ele se orgulhava desse legado, mas sabia também que a vida em um país branco, no estado fronteiriço do Kentucky, tinha tolhido suas esperanças. Queria ter sido artista; em vez disso, era pintor de placas. Ali lembrou que o pai lhe contou sobre o horrível destino de Emmett Till, um negro de 14 anos de Chicago que foi espancado e levou um tiro na cabeça no Mississippi durante o verão de 1955 por falar com uma mulher branca em um supermercado. As imagens do cadáver mutilado de Till ficaram gravadas na mente do jovem.

Quando Clay Sr. bebia e se encontrava com outras mulheres, podia ser ameaçador ao voltar para casa; Odessa chamou a polícia mais de uma vez. Crescer temendo a volatilidade do pai pode deixar uma criança com impulsos afiados de proteção e premonições dolorosas mas sagazes sobre um possível perigo. Pode também deixá-la querendo construir abrigo em alguma outra parte de sua vida.

Em outubro de 1954, quando tinha 12 anos, Clay ficou chateado ao descobrir que sua bicicleta novinha tinha sido roubada. Procurou um policial, que ensinava boxe em uma academia das proximidades, e lhe disse que queria bater no ladrão. O policial, um branco mais velho chamado Joe Martin, respondeu que era melhor ele aprender a lutar primeiro. Em uma foto da época, o jovem e magrinho Clay exibe uma expressão nervosa e inabalável ao mesmo tempo.

Ele venceu sua primeira luta e informou à família que seria campeão. Mais tarde, aos 18 anos, depois de 108 confrontos (tendo vencido 100 deles) e de ter ganhado dois campeonatos
Golden Gloves, Cassius Clay lutou na equipe olímpica em Roma, em 1960, e voltou para casa com uma medalha de ouro. Mas nada o prepararia para o que viria dali em diante.

Atletas negros deviam agir respeitosamente em relação aos oponentes especialmente os brancos e nunca exibir arrogância ao triunfar. As coisas ficaram assim por causa de Jack Johnson, que, no início dos anos 1900, diminuía brutalmente aqueles contra quem lutava, incluindo o campeão branco Tommy Burns. Depois dele, nenhum afrodescendente teve permissão para competir pelo título até que Joe Louis o conquistou em 1937. Só que Louis teve de obedecer a um código de humildade. Agora, no início dos anos 1960, Clay ridicularizava seus rivais e anunciava suas habilidades. “Para me derrotar, você tem de ser melhor do que o melhor de todos”, declarou.

Ao mesmo tempo, sua fanfarrice gerou uma empolgação que não se via no meio havia anos. Quem o observou se aperfeiçoar como profissional em Miami e derrotar 19 oponentes no período do final de 1960 a meados de 1963 – não perdendo para ninguém – o recebeu com surpresa e admiração.

Naquele período, Cassius Clay desenvolveu opiniões fortes sobre o dilema racial nos Estados Unidos. Em 1964, enquanto a maioria dos líderes na linha de frente pelos direitos civis notavelmente Martin Luther King Jr. – aconselhava a não violência, Clay se voltava contra esses ideais. “Sou um lutador”, disse a Pete Hamill, do New York Post. “Se você matar meu cachorro, é melhor esconder seu gato.”

Clay estava estudando as doutrinas da Nação do Islã, mais popularmente (e depreciativamente) conhecida na época como Muçulmanos Negros (Black Muslims). Ele abraçou a declaração da organização de que os afrodescendentes não precisavam buscar consentimento para direitos civis – em vez disso, deveriam se orgulhar de sua identidade racial e batalhar pelo que queriam. O rosto público do movimento era Malcolm X, que desde 1954 tinha sido o principal ministro da mesquita da Nação no bairro do Harlem, em Nova York, e braço direito do determinado líder da organização, Elijah Muhammad (um homem de fala mansa, mas de personalidade impiedosa).

Malcolm não tinha ouvido falar de Clay antes de eles se conhecerem, em 1962. A Nação opovia o boxe como uma prática que explorava os negros. Só que ele ficou encantado com o entusiasmo autêntico de Clay e viu nele alguém que poderia aumentar o apelo da Nação do Islã para outros jovens afro-americanos.

Um dia depois de tirar de Sonny Liston o cinturão dos pesos-pesados em uma polêmica luta, em fevereiro de 1964, Cassius Clay anunciou que estava mudando de nome. “Serei conhecido como Cassius X.” No mês seguinte, Malcolm X, que queria começar a trabalhar com líderes de direitos civis, incluindo Luther King, se afastou da Nação do Islã. O campeão ficou do lado de Elijah Muhammad, que, dias depois do anúncio de Malcolm, abraçou Cassius e lhe deu um novo nome: Muhammad Ali, que significa “amado por Deus” (o New York Times, entre outros veículos, recusou-se a reconhecer o novo nome e continuou se referindo a Ali como Cassius Clay por mais seis anos). Não ter retomado o contato com Malcolm antes de o líder ser assassinado, em fevereiro de 1965, marcou Ali profundamente. “Virar as costas para ele foi um dos erros de que mais me arrependo na vida. Queria poder ter pedido desculpas.”

Em meio a suas buscas religiosas, o fato de Ali ter o título dos pesos-pesados continuou irritando os críticos, alguns em posições de poder. O campeão ficou perturbado ao saber que estava correndo risco de ser convocado pelo Exército norte-americano, quando a guerra no Vietnã estava se intensificando. Aos 18 anos, não havia atingido os padrões de serviço (era disléxico e tinha dificuldade para ler), mas sua classificação mudou depois de ele se tornar campeão. Os Estados Unidos provavelmente estavam tentando reduzir a possibilidade de ele servir como modelo para outros jovens negros, mas quando Ali reagiu proclamando que não concordava com o propósito do país na Guerra do Vietnã sua influência sobre os jovens – brancos e negros
– só cresceu. “Não tenho problema nenhum com os vietcongues”, disse a um repórter. “Eles nunca me chamaram de ‘negão’.”

Ali acreditou que se livraria do serviço militar ao alegar que suas crenças religiosas na Nação do Islã eram incompatíveis com as razões e intenções da guerra. Mas o Estado se opôs a qualquer isenção, determinando que a religião dele era “racista e política”.

Em 28 de abril de 1967, Ali recusou a indução ao Exército norte-americano. Menos de uma hora depois, a Comissão Atlética do Estado de Nova York retirou seu título e qualquer licença para lutar no estado; outros comitês estaduais rapidamente fizeram o mesmo. Muhammad Ali não era mais o campeão em lugar algum dentro dos Estados Unidos e não podia mais trabalhar
no boxe ou sair do país para trabalhar. Seria condenado pela recusa a servir e sentenciado à pena máxima: multa de US$ 10 mil e cinco anos em prisão federal. “[Se] tudo o que restasse naquele momento fosse cumprir os cinco anos e esquecer o boxe, eu estava preparado”, ele escreveu na biografia The Greatest: My Own Story (que saiu no Brasil com o título O Mais Poderoso: A Minha História).

Nos anos seguintes, Muhammad Ali se tornou uma das pessoas mais popularmente insultadas, mas também uma das mais admiradas dos Estados Unidos. A perseguição determinada do governo norte-americano a ele fez com que muitos – até mesmo líderes negros que tinham ficado incomodados com a associação dele à Nação do Islã – o vissem com mais simpatia. Julian Bond, ativista social que havia sido eleito para a câmara dos deputados da Geórgia em 1965, disse: “Quando Ali se recusou a dar aquele passo, todos souberam disso momentos depois. Pessoas que nunca tinham ouvido falar da guerra– brancas e negras – começaram a pensar nela por causa dele”.

Ali escapou da prisão, mas a Justiça veio lentamente. A Associação Mundial de Boxe realizou uma série de disputas que, em fevereiro de 1970, gerou um novo campeão, Joe Frazier. Foi uma espécie de conquista oca. “Joe Frazier não é o campeão de nada”, afirmou o narrador Howard Cosell. “O campeão mundial dos pesos-pesados foi e ainda é um homem chamado Muhammad Ali.”

O exílio de três anos e meio de Ali do boxe cobriu o que poderia ter sido seu auge, aos 20 e poucos anos. Ele conseguiu voltar a lutar e, em 1970, pôde tentar reaver o título de Frazier – depois de uma série de insultos (“Frazier é o tipo errado de negro”, chegou a dizer), acabou perdendo a luta. A revanche veio em 1974 – Ali venceu depois de 12 rounds, mas Frazier já havia perdido o cinturão um ano antes para George Foreman. Ainda assim, foi essa a luta que permitiu que Ali disputasse novamente o título de campeão. O desafio era enorme: Foreman, de 25 anos – sete anos mais jovem que o oponente –, parecia destinado a bater Ali. Em uma das mais famosas lutas de sua carreira, em outubro de 1975, no Zaire, Ali provou o contrário. “As pessoas gostam de ver milagres”, disse. “Gostam de ver azarões que chegam lá. Elas gostam de estar onde a história é escrita.”

Ali tinha planejado fazer da luta contra Foreman sua última, mas defendeu seu título recuperado mais três vezes.

O último combate de Muhammad Ali foi contra Trevor Berbick, em 11 de dezembro de 1981. Ele perdeu por pontos. Depois de 21 anos como boxeador profissional, parou para nunca mais pisar em um ringue novamente. Não poderia – seus problemas de saúde estavam evidentes demais.

Ali teve uma vida incansável depois do boxe. Com a luta contra Foreman no Zaire, tinha encontrado uma imagem heroica mundial – pouco depois do embate, o presidente norte-americano Gerald Ford o convidou a visitar a Casa Branca, situação que teria sido impensável anos antes –, e ele pretendia fazer jus a ela. Em 1980, o presidente Jimmy Carter enviou Ali em uma
missão diplomática a diversos países africanos, em uma tentativa de conquistar apoio ao boicote dos Estados Unidos às Olimpíadas de Moscou naquele ano. Em 1990, encontrou o ditador iraquiano Saddam Hussein e garantiu a libertação de 15 reféns norte-americanos. Também visitou a África do Sul depois que Nelson Mandela saiu da cadeia, entregou suplementos médicos a Cuba e viajou em missões para o Afeganistão e para a Coreia do Norte.

O tempo transformou Ali em um símbolo de resistência, reconciliação, luta e triunfo. Ele se manteve fiel à sua visão espiritual e entendia bem que as distorções dessas crenças poderiam resultar em custos políticos e mortais consideráveis. Depois dos ataques do 11 de Setembro, Ali falou publicamente pela primeira vez em anos, no show beneficente America: A Tribute to Heroes, em Nova York. “Acho que as pessoas deveriam saber a realidade sobre o Islã”, disse, apesar dos tremores. “As pessoas me reconhecem por ser um boxeador, um homem da verdade. Eu não estaria aqui representando o Islã se ele fosse realmente como os terroristas fizeram parecer.”

Durante metade de sua vida, sofreu com o mal de Parkinson; poderia ter se tornado amargo em relação à sua condição. Às vezes, quando ficava desconfortável com a fala balbuciada, dava fim abrupto a uma conversa, por vergonha ou desejo de não sentirem pena dele, como fez durante uma entrevista com o jornalista Ed Bradley no programa 60 Minutes, em 1996. Mas Ali era bastante reflexivo sobre o problema. “Sei por que isso aconteceu”, afirmou a David Remnick. “Deus está me mostrando que sou apenas um homem como qualquer outro. E te mostrando, também. Você pode aprender comigo dessa maneira.” Nada diminuiria tudo o que ele havia feito. Durante anos, Muhammad Ali foi a história em movimento, transformando o
improvável em vitórias que não achávamos possíveis. Não tinha como durar para sempre, mas ver que aquilo poderia ser feito foi algo extraordinário.

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