Edição 120 - Agosto de 2016

10 Anos de política

Se rebobinarmos uma fita imaginária com o registro dos acontecimentos dos dez anos que se passaram entre 2006 e 2016, vemos algo na mesma linha do filme Irreversível, de Gaspar Noé, só que de maneira inversa à mostrada pelo diretor: no cenário brasileiro, a trama começa no mais límpido céu e desemboca em uma profusão de lava infernal. O início da narrativa tem a economia em alta, o real apreciado, o varejo batendo recordes, a classe média vivendo o sonho do consumo e a política pacificada em torno da liderança do “sobrevivente” Luiz Inácio Lula da Silva. O petista chegou ao ano de 2006 acuado e lutando para se impor diante das consequências políticas do mensalão. Deu a volta por cima, reelegeu-se, elegeu uma sucessora sem experiência e conseguiu que ela também tivesse a chance de um segundo mandato presidencial. Mas o que viria a seguir seria a desonra na trajetória da estrela vermelha do PT. Não há tanta violência como no conto de vingança filmado por Noé, mas representa bem a imprevisibilidade da vida: quando a Rolling Stone chegou ao Brasil, este ainda era o país do futuro; hoje, o território verde-amarelo vive um novo capítulo depois de uma vertiginosa e dolorida queda.
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por Pedro de Castro

2006 Ainda na Briga

Fantasma do mensalão rondava o PT, mas Lula se mantinha por cima

O ano começou com a ressaca do mensalão, até aquele momento o maior escândalo de corrupção da história da democracia brasileira. O caso da compra de votos de parlamentares com dinheiro público, revelado pelo então deputado Roberto Je erson (PTB), dominou a agenda do Congresso Nacional e feriu o PT em 2005, mas não de morte.

A expectativa era de que a oposição viesse forte na eleição presidencial em 2006. Porém, Luiz Inácio Lula da Silva surfou na boa fase da economia e dominou o processo eleitoral do começo ao fim, vencendo Geraldo Alckmin no segundo turno com quase 58,3 milhões de votos (Alckmin teve 39,54 milhões).

“O ano de 2006 foi de pujança, crescimento econômico e aumento do consumo da classe C”, lembra o sociólogo Jairo Pimentel, professor de ciência política da Fundação Escola de Sociologia de São Paulo. O economista André Perfeito, da Gradual Investimentos, pontua que 2006 também marcou o início da bolha imobiliária, graças ao poder de compra exercido pela classe média. “O preço dos imóveis explodiu”, relembra.

2007 Semente do Mal

Escândalos no Senado sopraram o vento da descrença

Com a popularidade em alta, Lula deu início ao segundo mandato com capital político para montar uma base parlamentar coesa. O processo de investimento em obras públicas, a ampliação do crédito e a promoção de programas sociais se acentuaram.Em paralelo, o cenário na economia mundial permaneceu no azul, o que contribuiu para os bons índices de popularidade do petista. “Lula dobrou a aposta com políticas de incentivo econômico”, explica o economista André Perfeito. No entanto, começava a ficar mais difícil de se desfazer a mácula do mensalão:
em agosto, o Supremo Tribunal Federal (STF) acatou denúncia contra diversos envolvidos. Era a semente da descrença no cenário político, regada ainda por escândalos no Senado: Renan Calheiros renunciou após a revelação de que um lobista pagava as contas de sua amante, Mônica Veloso; Joaquim Roriz fez o mesmo após ter sido vinculado a desvio de dinheiro público. Amenizando o clima, houve a confirmação do Brasil como sede da Copa do Mundo de 2014. O evento virou uma vitrine da gestão Lula. A promessa era de que a Copa deixaria um “legado” para as cidades envolvidas.“A Copa e as Olimpíadas foram as cerejas do bolo de um Brasil triunfante. Lula era um popstar nacional”, recorda Cláudio Couto, professor da Fundação Getúlio Vargas – FGV. Ledo engano: a abertura mambembe da Copa, zombada mundialmente, e o caos nas Olimpíadas, com obras entregues no último minuto, provaram que, se há um legado, é o da vergonha.

2008 Presente do Tio Sam

Caos na economia dos Estados Unidos teve consequências para o Brasil

A crise econômica mundial, gestada no setor de empréstimos imobiliários dos Estados Unidos, resultou na quebra de grandes bancos do país mais poderoso do mundo.Os efeitos foram sentidos por aqui, apesar do discurso sempre otimista do presidente Lula. Um exemplo: em novembro de 2008 foram criados 41 mil novos postos de trabalho – bem menos que a metade do que foi registrado em novembro do ano anterior (125 mil). Para enfrentar a turbulência, o governo brasileiro abriu uma série de incentivos para a indústria, como a redução do IPI para automóveis, construção civil e eletrodomésticos. O ano também foi de eleições municipais – e lá estava a memória do mensalão fazendo o PT perder força.Apesar de ter o comando da máquina federal, o Partido dos Trabalhadores elegeu “apenas” 557 prefeitos, menos que o PMDB (1.202) e o PSDB (791).

2009 Os Donos do Poder

Caciques como José Sarney se envolveram em escândalos, mas seguiram mandando

A crise financeira internacional afastou investidores de fora. A baixa liquidez do sistema financeiro levou a uma redução do crédito e o dólar se valorizou sobre o real. Mas, no final das contas, o pior foi evitado.

“Em 2008 e 2009 o Brasil se saiu bem da crise”, avalia André Perfeito. A estratégia foi a ampliação do volume de crédito por intermédio dos bancos públicos, o reforço das políticas e dos programas de transferência de renda e o aumento do incentivo à indústria.

Em meio ao pior ano da crise econômica mundial, Lula começou a construir a sua estratégia de sucessão. O petista chegou a flertar com o plano, defendido por setores da esquerda, de promover uma mudança na Constituição para permanecer no poder, como fez Hugo Chávez na Venezuela. A ideia não prosperou, e o presidente passou então a buscar um sucessor. “As opções anteriores eram mais claras, mas o José Dirceu caiu no mensalão; o segundo nome era o de Antonio Palocci, que acabou envolvido no escândalo do caseiro [Francenildo Santos Costa, que depôs contra Palocci na CPI dos Bingos]. Surgiu então a Dilma Rousse como um quadro controlável pelo PT. Foi uma candidata poste”, afirma Jairo Pimentel, da Escola de Sociologia e Política. “A escolha de Dilma foi errada. Ela nunca teve sensibilidade política. E a promessa de que era uma boa gestora não se confirmou na prática”, complementa o consultor Gaudêncio Torquato, um dos principais conselheiros políticos do atual presidente interino, Michel Temer. Então ministra-chefe da Casa Civil, Dilma assumiu o protagonismo da gestão no final do segundo mandato de Lula.

Enquanto isso, o Congresso ficava marcado por escândalos que não atingiram o Palácio do Planalto, mas fragilizaram seus novos aliados. O presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), teve que se explicar sobre o recebimento de verba irregular e pouco depois sobre a nomeação de funcionários por meio de atos secretos. Na Câmara, o deputado Edmar Moreira foi apontado como dono de um castelo avaliado em R$ 20 milhões. Moreira sumiu da política, mas Sarney reelegeu-se presidente do Senado em 2011.

Ao explicar o fenômeno da sobrevivência política de Sarney e de outros políticos envolvidos em escândalos, o cientista político Vitor Marchetti, professor de políticas públicas da Universidade do Grande ABC, aponta que figuras como Sarney e Renan Calheiros têm um forte poder regional e estão há muito tempo dentro das instâncias políticas. “Eles têm um capital que poucos têm. A renovação de nomes no Congresso é muito grande. Isso dá muito poder a quem sobrevive no sistema, que é muito instável.”

2010 Primeiro Passo para a Queda

Lula pegou Dilma pela mão e a levou ao cargo de presidente

A economia se recuperou e ajudou Lula a transformar a desconhecida Dilma Roussef, que nunca havia disputado uma eleição, em favorita no pleito presidencial. Além de explorar o fato de que ela seria a primeira mulher no cargo de presidente, o PT vendia a imagem de uma gestora “técnica” e “durona”. O PSDB lançou na disputa o ex-governador José Serra, que deixou o Palácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista, para disputar o cargo. “Foi feito um trabalho de construção da imagem de Dilma. Nesse período, ela teve um problema de saúde [um linfoma] que acabou aumentando sua visibilidade. Subiu precocemente nas pesquisas, sempre agregada à figura de Lula”, avalia o cientista político Jairo Pimentel. José Serra, por sua vez, fez uma campanha errática e se descolou do legado do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso na economia. A chapa Dilma/ Temer foi eleita no segundo turno com 55,752 milhões de votos, enquanto Serra ficou com 43,711 milhões.

2011 A Vez Dela

A presidente ganhou o povo e terminou o ano com aprovação

Em seu primeiro ano de presidência, Dilma enfrentou fortes turbulências com a equipe que a cercava. O ministro Antonio Palocci foi reabilitado na Casa Civil, mas deixou o governo após o desgaste de sua imagem por causa de acusações de enriquecimento ilícito. Ele não foi o único a cair no que Dilma tentou chamar de “faxina ética”. Seis ministros foram demitidos entre junho e dezembro. Na esteira da ideia de uma democracia mais transparente, nasceu a Lei da Ficha Limpa. Dilma estava com tudo: criou a Comissão Nacional da Verdade e foi a primeira mulher a discursar na Assembleia da ONU. Terminou o ano com índices de aprovação superiores aos de Lula.

2012 Bye, Bye, Dirceu

Prestígio político do ex-ministro da Casa Civil foi enterrado sob uma montanha de acusações

O julgamento do mensalão dominou boa parte da agenda política. Sob o comando de Joaquim Barbosa (alçado ao posto de paladino pela opinião pública), o STF condenou 25 dos 37 réus, entre eles Marcos Valério e José Dirceu, que viu sua carreira política chegar ao fundo do poço: a sentença enterrou o ex-todo-poderoso ministro da Casa Civil de Lula. Mas o principal “novo” escândalo político do ano envolveu um senador que se apresentava como um bastião da ética: Demóstenes Torres, do DEM, cassado após ser acusado de beneficiar o bicheiro Carlinhos Cachoeira. Apesar dos ecos do mensalão, a eleição municipal desse ano foi boa para o PT. “O partido ficou em segundo lugar em número de prefeitos eleitos”, detalha Vitor Marchetti, da UFABC. “Isso certamente mudará nas próximas eleições.” Em 2012 também entrou em vigor a Lei de Acesso à Informação, que obriga órgãos públicos a fornecerem informaçõessobre suas
atividades.

2013 De Ponta-Cabeça

Protestos ganharam as ruas e mudaram de rumo no meio do caminho

Grandes manifestações marcaram o ano e deram um nó na cabeça de especialistas: começaram com as ruas ocupadas pelo Movimento Passe Livre (MPL), alinhado à esquerda, e terminaram com o aumento da visibilidade do Movimento Brasil Livre, de matriz ultraliberal e programa de direita. O MPL lutava contra o aumento das tarifas de ônibus em São Paulo, e de início a adesão a essa bandeira não foi massiva. No entanto, a truculenta ação da polícia militar na capital acabou fomentando um movimento de indignação geral. “Há um paradoxo nesse processo”, diz Cláudio Couto, da FGV. “A mudança ocorreu depois da grande repressão da PM aos manifestantes na Rua da Consolação. Isso causou indignação generalizada e as manifestações aumentaram muito, desta vez contra a truculência policial. E é aí que surge o paradoxo. Esse sentimento levou para as ruas um segmento que normalmente não se mobiliza: cidadãos não alinhados à esquerda tradicional, que era quem hegemonizava as ruas. O efeito foi levar para a rua uma militância conservadora e com sua própria pauta. Houve uma inversão do processo dominante.”

“Alguns políticos tentaram surfar nessa onda e não conseguiram. Ocorreu um derretimento das organizações tradicionais”, completa Vitor Marchetti. Em uma reviravolta, as manifestações acabaram se virando contra Dilma e passaram a ser lideradas por organizações fortes no ambiente virtual, como Vem pra Rua, MBL e Revoltados Online.

2014 Lavando Tudo

Surgia a Lava Jato, marco na luta contra a corrupção nos meandros da política

Em março, quando o mundo político estava voltado para as eleições presidenciais, a Polícia Federal deflagrou a Operação Lava Jato, a maior investigação sobre corrupção já conduzida no Brasil. Ela começou modesta no Paraná, sob comando do hoje onipotente juiz Sergio Moro, investigando uma rede de doleiros que atuavam em vários estados. Acabou esbarrando em um imenso esquema de corrupção que atingiu todo o espectro partidário, sobretudo o PT. O desdobramento da operação (acontecimento recente: no final de julho, Lula e mais seis nomes viraram réus sob acusação de tentarem obstruir a Lava Jato) se deu em paralelo a um processo eleitoral caótico. Lula optou por apostar novamente em Dilma, apesar do movimento de parte do PT para lançá-lo na disputa. Quando parecia impossível que as coisas ficassem mais complicadas, Eduardo Campos, do PSB, morreu em um acidente aéreo; o lugar dele foi ocupado por Marina Silva, que chegou a liderar a disputa. Na campanha, Dilma acusou a adversária de alinhamento com banqueiros e seguiu uma linha agressiva. Foi ao segundo turno contra Aécio Neves e venceu com uma pequena margem de votos no embate eleitoral mais acirrado da história do país.

2015 O Inverno Chegou

A economia desceu ao ponto mais baixo em tempos

Um longo e gélido ano. “O pior momento da economia nesta década foi em 2015. Todos os indicadores estavam apontando para baixo. A inflação explodiu e foi a mais de 10%”, lembra André Perfeito. Ele avalia que a presidente reeleita deu uma guinada de 180 graus no segundo mandato, se distanciando do projeto de governo apresentado durante as eleições. Colocou
o ministro Joaquim Levy para comandar a economia, subir a taxa de juros e fazer ajuste fiscal. “A sociedade não entendeu o que ela queria fazer.” Para Claúdio Couto, da FGV, a crise econômica foi gestada nos quatro anos do primeiro mandato de Dilma. “A política econômica foi um fiasco total, um desenvolvimentismo sem desenvolvimento”, diz. O cientista político acredita que, em boa medida, é possível afirmar que houve uma espécie de “estelionato eleitoral”. “Ela dizia que as medidas [que mais tarde adotou] seriam tomadas pelos adversários. Marina foi colocada como lacaia de banqueiros [sendo que a presidente se alinhou a eles após ser reeleita]. Houve imperícia da Dilma em conduzir o processo.
Ela não é política, mas sim um híbrido de militante e burocrata.”

Para incrementar a impopularidade com os parlamentares, Dilma tentou uma jogada política arriscada e que se mostrou um desastre: afastar-se do PMDB para criar uma nova base aliada com siglas do centrão, como o PSD de Gilberto Kassab. “O PMDB não foi considerado parceiro do governo. Isso foi um erro”, diz Gaudêncio Torquato, o conselheiro de Temer. A soma de crise política no Congresso, economia em frangalhos, Lava Jato e um presidente da Câmara dos Deputados combativo, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), abriu as portas para o processo de impeachment.

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