Edição 120 - Agosto de 2016

Capítulo Findo para o Chefão

Uma visita ao set da segunda temporada de Narcos, que mostrará o final do traficante Pablo Escobar
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por Paulo Cavalcanti

Com quase 10 milhões de habitantes, Bogotá, capital da Colômbia, é uma cidade convidativa, cercada por montanhas e sem vias expressas. Por causa disso, o trânsito carregado leva a crer que certas distâncias são maiores do que as medidas em quilômetros. É o caso de algumas das locações de Narcos, série da Netflix estrelada por Wagner Moura e com produção executiva de José Padilha.

Em maio, em um bairro industrial não muito longe do centro (ao menos no mapa), repleto de galpões de antigas fábricas, um estúdio está montado para receber jornalistas de diversos países. Depois de adentrar por passagens escuras que se assemelham a labirintos, surge uma reprodução de um laboratório de refinamento e estocagem de drogas. A visão é impressionante: são pilhas infindáveis de pacotes que parecem estar estufados de cocaína. Aparelhos cenográficos para o processamento da substância estão alocados em todos os cantos e, ao lado deles, montanhas de pó branco. Estamos em Bogotá, mas quando tudo isso for para as telas, a partir de 2 de setembro, o público vai pensar que é Medellín. Nas décadas de 1980 e 1990, o município era o quartel-general de Pablo Escobar, o temido narcotraficante que ficou bilionário exportando drogas para inúmeras partes do mundo.

O êxito de Narcos, cuja primeira temporada estreou em agosto de 2015, jogou holofotes na Colômbia, um país da América do Sul que nunca esteve no primeiro escalão do continente americano, muito por causa da associação com o tráfico de drogas. Além de ser um dos exemplos da força do serviço de streaming Netflix na produção de conteúdo original, tem o trunfo de ter Moura no elenco, interpretando Escobar de forma bastante convincente – ele inclusive foi indicado ao Globo de Ouro de Melhor Ator em Série Dramática pelo papel, no ano passado.

Os dez episódios da segunda temporada cobrirão o período da fuga do traficante da prisão La Catedral e o mostrarão sendo caçado implacavelmente pelo serviço secreto colombiano e por agentes norte-americanos. Já não é segredo: nesta temporada veremos a morte sangrenta de Escobar, ocorrida em dezembro de 1993.

Em maio, Moura está na Colômbia para realizar alguns “pick-ups” – como são chamados os breves takes adicionais que são feitos depois de as filmagens principais de uma obra terem sido concluídas. Aqui, ele “é” Escobar: ostenta o bigode característico, cabelos desgrenhados e ainda aparenta estar acima do peso. A única coisa que o diferencia do Escobar da vida real é o figurino mais discreto, bem distante das roupas de gosto duvidoso que o falecido chefão do tráfico usava na época em que era o “rei” da Colômbia. No contato com o ator, é possível perceber que há um sentimento dúbio por parte dele em relação a viver o personagem. “Preciso me livrar dele”, diz o brasileiro, falando não apenas do visual mas também do peso de retratar uma figura como a de Escobar.

As gravações da cena da morte do criminoso, que foi abatido a tiros no telhado da casa onde se escondia em Medellín, foram “muito tensas”, segundo Moura, que explica que os novos episódios têm outro ritmo. “Nós tivemos de ser mais dinâmicos. Esta temporada cobre muita coisa na vida do Pablo. Agora, ele não tem mais poder, está sendo caçado. É outro cara. Tudo vai ser bem diferente do que todo mundo viu antes.”

Naqueles dias em que concluía o trabalho na série, Moura podia finalmente avaliar a experiência de entrar na pele de uma das figuras mais controversas da história – amado por muitos, já que tinha uma relação paternalista com o povo de Medellín, e odiado por outros tantos pelo crime e pelas mortes que promoveu. "Sim, pessoas como Pablo Escobar e Osama bin Laden fizeram coisas muito ruins, mas obviamente não eram monstros nem tinham superpoderes”, afirma Moura. “Eram pessoas como nós. Porém, procuro sempre enxergar outro tipo de dimensão nos personagens. Li muito sobre Pablo. Ele já levava uma vida violenta antes de entrar para o mundo das drogas.”

Antes do início das gravações de Narcos, o ator morou por um tempo na Colômbia, tendo estudado espanhol em Medellín. “Eu já conhecia o país antes da série, mas foi importante passar um tempo aqui e me envolver mais. A Colômbia está sendo reconstruída, se firmando e o povo vem ganhando cada vez mais confiança.” Segundo Moura, a exposição da série tem sido positiva para o território. “As pessoas daqui ficaram estigmatizadas por anos. Mostrar o passaporte era um ato difícil para o colombiano". Ele acredita que outra vitória de Narcos foi trazer diversidade estilística à produção televisiva ao mostrar ao mundo histórias interessantes que não pertencem necessariamente ao imaginário norte-americano ou europeu.

Para o norte-americano Boyd Holbrook, intérprete do antagonista de Escobar em Narcos – Steve Murphy, agente federal do Departamento de Narcotráficos dos Estados Unidos –, gravar na Colômbia também foi muito significativo. "Fique impressionado com o país e em saber o quanto estão empenhados em esquecer um passado que não foi muito bom”, relata. Mas ele sabe que lidar com a figura de Pablo Escobar ainda requer certo cuidado. “Percebi isso particularmente quando estávamos filmando algumas cenas em Medellín. Lá, existem excursões aos locais onde ele morou e frequentou, e Escobar ainda é uma figura mítica, quase um santo.”

Já Pedro Pascal, que vive o agente Javier Peña, acha que Narcos faz um trabalho de conscientização. “Eu já conhecia bem a Colômbia e acho importante que esta história seja contada, já que o povo aqui não quer mais ser associado à cultura das drogas.”

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