Edição 121 - Setembro de 2016

Ontem, Hoje e Sempre

Vinte anos após a morte de Renato Russo, obra do artista alimenta não apenas a aura de mártir mas também a ideia de que seu trabalho jamais será equiparado
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por Mauro Ferreira

Em 23 de julho de 1983, Renato Russo era quase um desconhecido em sua cidade natal, Rio de Janeiro. Fato que mudaria naquela noite, quando um show feito pelo Legião Urbana no projeto Rock Voador deixou alucinada a plateia que foi ao Circo Voador para ver Lobão, Capital Inicial e a então novata banda formada por Renato em Brasília no ano anterior. Quando a agitadora cultural Maria Juçá, produtora do projeto, foi ao camarim cumprimentar o Legião, se surpreendeu ao encontrar Renato quieto, recolhido, quase deprimido. Mesmo assim, rasgou elogios à performance dele no palco. “Ele me escutou calado e, muito sério, se voltou para mim e disse: ‘Eu não mereço isso. Esse carinho todo do público é muito maior do que o que eu ofereço a ele. Eu esperei muito por esse momento, por esse show. Chamei todos os meus amigos, mas agora não quero falar com ninguém’”, conta Maria. “Com um olhar deprimido, Renato me deu um abraço e, naquela noite, não quis nada além de se recolher à solidão dele.”

O episódio deu a pista do que seria dali em diante o comportamento controvertido e inusitado de Renato Manfredini Jr., cantor, compositor, músico e grande ícone do rock brasileiro. “Renato era do signo de Áries e tinha reações inesperadas como as de uma criança”, reitera Marcelo Bonfá, baterista do Legião Urbana e parceiro de Renato em canções há anos enraizadas no imaginário nacional.

Nascido na madrugada de 27 de março de 1960, em uma abastada clínica do Rio de Janeiro, Renato Russo morreu na primeira hora de outra madrugada, a de 11 de outubro de 1996, na mesma cidade – que, a essa altura, já sabia muito bem quem era o artista que se tornou espécie de messias pop da juventude dos anos 1980 e 1990.

Vítima de complicações decorrentes da contaminação pelo vírus da aids, Renato viveu apenas 36 anos. Tempo suficiente para deixar obra imortal, que será revitalizada a partir de outubro. Um álbum com regravações de músicas do astro por bandas da cena independente brasileira, reedições de discos, lançamentos de livros, montagem de peça escrita pelo artista e uma megaexposição, prevista para 2017, vão reavivar a obra e a personalidade de Renato 20 anos após a despedida do poeta.

A obra de Renato Russo permanece forte como o mito alimentado em torno da figura dele, um homem de temperamento ansioso e humores oscilantes. Mas ele era também, e sobretudo, um ser humano generoso, inteligente ao extremo e com sensibilidade à flor da pele. “Para mim, era como se o Renato fosse um irmão mais velho”, caracteriza Dado Villa-Lobos, guitarrista do Legião Urbana. “Ele era agregador no sentido de realizar ideias em comunidade. Renato era inteligente, perspicaz, um grande sedutor. As ideias e o discurso dele eram incríveis. Ele era catalisador, fazia com que as pessoas pensassem e produzissem mais.” Dado tinha 15 anos quando sentiu o sangue correr mais forte nas veias ao ver e ouvir, em 1980, Renato tocar guitarra em um show do Aborto Elétrico, banda punk de Brasília formada em 1978. Dado não poderia imaginar que, em março de 1983, seria convidado a ocupar o posto do guitarrista Ico Ouro Preto no Legião Urbana, a banda criada por Renato em 1982 após a dissolução do Aborto Elétrico (e depois de uma breve fase em que Renato se apresentou sozinho ao violão e com o epíteto de Trovador Solitário).

Embora constantemente o rondasse, a solidão nem sempre fez parte do cotidiano do poeta. Filho de Renato, Giuliano Manfredini lembra com saudade e emoção dos períodos lúdicos vividos com o pai no apartamento do bairro carioca de Ipanema que concentrava o acervo pessoal do artista, atualmente em processo de restauração pelo MIS – Museu da Imagem e do Som de São Paulo. “O período em que morei com meu pai neste apartamento foia fase mais feliz da minha vida”, diz Giuliano, na sala do local, repleto de discos, livros e quadros. “Eu passava brincando por esta sala, desenhando, enquanto o meu pai compunha. Ele estava sempre com um papel e uma caneta na mão. Era um cara muito família, brincava comigo de cavalinho, de guerra de travesseiro, e lia muito pra mim. Também tenho várias memórias dele me levando para ver peças de teatro. Tinha esse lado paizão. Ao mesmo tempo, também era um pai tradicional, daquele que diz ‘isso não pode’. Ele sempre foi e é muito presente na minha vida. Eu acordo pensando nele, durmo pensando nele. Meu pai é o meu herói.”

Renato também tinha os próprios heróis. Os Beatles e os Rolling Stones, entre eles. Foi um garoto que amou as duas bandas inglesas na adolescência vivida nos anos 1970.

Crítico de Crítico de rock que conviveu com o artista nos bastidores de shows e gravadoras, o jornalista carioca Jamari França lembra o entusiasmo de Renato com o universo pop dos anos 1960, a ponto de ele ter juntado, ao vivo, “Gimme Shelter”, clássico dos Rolling Stones de 1969, com “Ainda É Cedo”, música do primeiro álbum do Legião Urbana, lançado em janeiro de 1985, sem alarde, no mês em que todos os olhos da imprensa musical estavam voltados para a primeira e histórica edição do festival Rock in Rio. “Renato tinha um fascínio grande pelo rock dos anos 1960 e 1970. Uma vez conversamos sobre isso no Noites Cariocas [extinta casa de shows situada no Morro da Urca, no Rio]. Ele me perguntou sobre a sensação de ter comprado aquele e outros discos na época em que saíram, quando a linguagem do rock ainda estava sendo escrita”, recorda França. “Renato dizia que os anos 1980, no Brasil, eram na verdade os anos 1960. Por isso, escreveu ‘Bem-vindos aos anos 70’ no encarte de V, o primeiro álbum lançado pelo Legião na década de 1990. No show daquela noite, ele me dedicou ‘Ainda É Cedo’ e falou que eu tinha comprado o álbum Let It Bleed [lançado pelos Stones em 1969] quando o disco saiu.”

Renato Russo, porém, nem sempre era afetuoso. “Ele era alegre, divertido, intenso, sensível e contestador. Mas também era perturbador. O telefone tocava de modo diferente quando ele ligava para falar sobre alguma coisa”, afirma Marcelo Bonfá. A perturbação poderia se manifestar no corte dos pulsos, como Renato fez em 1984, ou em um ataque de cólera como o presenciado pela produtora do Circo Voador, Maria Juçá, quando ela sugeriu que o Legião Urbana migrasse de Brasília para o Rio de Janeiro. A cidade concentrava as matrizes das grandes gravadoras e viver nela baratearia os custos das apresentações da banda no Circo Voador, palco então decisivo para a consolidação da carreira de qualquer grupo de rock no Rio e, por extensão, no Brasil. “Ele explodiu, dizendo que eu queria transformar o Legião em uma peça de alcatra, exposta em um açougue para ser consumida por um bando de famigerados. E que ele jamais permitiria isso, que não viria morar no Rio de jeito nenhum. Bem, eu fiquei puta e devolvi, dizendo: ‘Eu não quero te transformar numa peça de alcatra – você já é uma peça de alcatra e todos irão te consumir’.”

Maria foi profética: em agosto de 1985, o Legião acabou se mudando para o Rio de Janeiro. Nessa época, a banda já estava sendo “consumida” por milhares de ouvintes e compradores de discos. Após meses de quase nenhum burburinho em sua volta, o álbum Legião Urbana decolou espontaneamente, a reboque do estouro de “Será”, primeiro dos hits radiofônicos do repertório do disco. Na sequência, a gravação e a edição em 1986 do álbum Dois, de tom mais contemplativo, ampliaram o alcance – o número de hits cresceu e transformou o Legião Urbana não em uma peça de alcatra mas no filé-mignon da gravadora EMI-Odeon. Tanto que a companhia ignorou a crise de criatividade de Renato Russo como compositor e pressionou a banda a fazer o terceiro álbum em 1987. O impasse foi resolvido com a decisão de gravar o repertório do seminal Aborto Elétrico no álbum que veio a ser intitulado Que País É Este? 1978-1987. A faixa-título e “Faroeste Caboclo” foram feixes de pólvora que atearam fogo à relação já passional do Legião com o público em um momento em que o Brasil atravessava um turbulento processo de redemocratização e tentava domar o dragão da inflação.

“Renato tinha uma personalidade complexa, que, associada aos acontecimentos políticos e sociais da época, o tornou uma das pessoas mais emblemáticas da história da redemocratização do Brasil”, interpreta Marcelo Bonfá. Importância que, no entender do filho, Giuliano, não se dissolveu ao longo destes 20 anos sem Renato. “A obra dele continua atual. Quanto mais o tempo passa, mais ela vai ficando atual. Tanto que a música ‘Que País É Este?’, composta por meu pai quando ele tinha 15 anos, virou um hino de indignação nas recentes manifestações políticas do país”, argumenta Giuliano. “Renato entendeu que não podia passar a vida em vão e ajudou a criar uma identidade para o rock do Brasil”, completa Dado Villa-Lobos.

Renato Russo teve a fama de estrategista. E, de uma forma forma ou de outra, ela corresponde à realidade para todos que testemunharam os passos calculados do Legião Urbana. Executivo com longa história na indústria fonográfica brasileira, João Augusto confirma essa fama com base nos quatro anos de convivência – caracterizada por ele como “relativamente intensa” – que teve com Renato no período em que foi produtor e diretor artístico da gravadora EMI. “Tudo na carreira do Legião Urbana teve o comando do Renato. Para o sim e para o não, porque quando ele determinava que alguma coisa não seria feita, não rolava mesmo”, ressalta Augusto. “Note, por exemplo, que o Legião lançou pouquíssimos videoclipes, embora fosse uma banda de rock alinhada com o que se fazia de melhor no gênero em todo o mundo. Renato detestava videoclipes e lutava insistentemente contra a ideia de que o artista deveria gerar imagens associadas a uma música além das que já são imaginadas por quem a ouve. A gravação do vídeo de ‘Perfeição’, música do álbum O Descobrimento do Brasil (1993), foi uma exceção dentro do universo dele, mas ninguém precisou forçar a barra para que o clipe fosse filmado. O próprio Renato decidiu que queria fazê-lo.”

Certo dia, Renato Russo admitiu a João Augusto a vontade de compor uma ópera. Diante da resolução, o executivo exerceu o papel de ouvinte paciente de vários telefonemas em que Renato discorreu sobre a estrutura de uma ópera, a sequência dos textos e o uníssono das melodias. “Cultíssimo, Renato tinha a noção da carga de informações que passava a mim e a qualquer outro interlocutor dele. E deliciosamente abusava do direito de nos ensinar, de expressar os pensamentos, os gostos e os hábitos dele. Confesso que chego a me arrepender um pouco de nunca ter gravado essas conversas, uma vez que entendo que nada que expresse tão claramente o que ia na cabeça daquele gênio, que tanto se destacou na geração dele, foi publicado até o momento”, avalia Augusto.

O amplo conhecimento cultural de Renato Russo foi adquirido sobretudo a partir de 1975, ano em que foi diagnosticado com epifisiólise, doença que geralmente acomete adolescentes, provocando a dissolução da cartilagem que liga a perna (no caso de Renato, a esquerda) à bacia. Sem poder andar direito, Renato passou um ano e meio entre o repouso forçado na cama, a cadeira de rodas e as muletas. Somente começou de fato a melhorar a partir de 1977. Contudo, o período forçosamente sabático foi usado para um mergulho no universo pop, com a audição de inúmeros discos e a leitura de livros e revistas. Foi quando Renato criou a fictícia 42nd Street Band, grupo de rock liderado pelo também fictício Eric Russell, alter ego de Renato, embora Russell tenha sido idealizado na mente do artista como um tecladista loiro de olhos azuis. “Ele queria ter cabelo loiro”, entrega Giuliano.

Renato também queria ter feito filmes. “O grande sonho do meu pai era virar cineasta”, revela o filho. Como se sabe, Renato nunca fez filmes, mas duas famosas canções do Legião Urbana, “Faroeste Caboclo” e “Eduardo e Mônica”, inspiraram longas-metragens, sendo que o segundo ainda é inédito. Em contrapartida, o artista escreveu livros e até uma peça de teatro nunca encenada, chamada A Verdadeira Desorganização do Desespero. “É uma peça de teatro de absurdo, pronta para ser montada”, exulta o filho-fã.

No período de dor e criação que foi de 1975 a 1977, Renato também escreveu a biografia da 42nd Street Band, livro que finalmente vai ser lançado. “A história dessa banda serviu de mote para toda a carreira do Renato, desde a época do Aborto Elétrico”, revela Giuliano, leitor privilegiado dos originais do pai. “A fantasia dele alimentava a realidade do artista.”

Giuliano lembra que leu chorando, em apenas cinco horas, o manuscrito original de outro livro do pai, Só por Hoje e para Sempre – Diário do Recomeço. Neste livro-diário, lançado em 2015 pela editora Companhia das Letras, Renato narrou, sem pudor e sem maquiagem dos fatos, os 29 dias que passou internado em uma clínica de reabilitação para dependentes químicos. O músico lutou contra o vício em álcool e drogas – combustíveis que potencializavam a oscilação de humor e que não escondiam as contradições do temperamento conturbado, das quais Dado Villa-Lobos foi testemunha. “Eu comecei a fumar cigarro muito cedo. E, certa vez, o Renato chegou para mim e disse que eu deveria parar de fumar porque os meus pulmões ainda não estavam totalmente formados e que o alcatrão iria deixar marcas neles. E ele com o cigarro na mão...”, lembra Dado, rindo.

Na cabeça de Renato – e para quem o cercava– nem sempre era fácil detectar o limite entre fantasia e realidade. “Ele era um cara místico, jogava tarô e tinha um mentor no Rio. Ele falava que o mentor dizia que a gente tinha que fazer assim ou assado. E eu nunca soube se ele inventou a figura desse mentor para nos convencer das ideias dele”, pondera Dado, sem jamais deixar de expressar a admiração pelo ex-companheiro de banda: “Renato foi um grande cara, um grande artista, dos maiores que eu conheci na vida”.

Marcelo Bonfá exprime a mesma admiração pelo parceiro de várias composições. As letras, de caráter filosófico ou político, muitas vezes foram escritas pelo vocalista após a criação coletiva das melodias, como relata Bonfá. “Acima de tudo, Renato era um cara muito democrático. Assim como sabia aproveitar das pessoas o que precisava para levar adiante as próprias ideias, ele também sabia deixar fluir as composições em grupo. Quando o Legião se tornou um power trio, no início da criação de cada composição o Renato me pedia para começar uma batida para ele bolar uma linha de baixo. Assim nasceram várias canções, nas quais posteriormente todos intervinham, dando palpites nas melodias e nas estruturas harmônicas. As letras sempre vinham depois”, explica Bonfá.

O relato de Bonfá mostra que, ao contrário do que normalmente se pensa, ele e Dado tinham importância fundamental na criação do repertório já mítico do Legião Urbana, ainda que muitos enxerguem Renato Russo como o criador fundamental da banda (o que de fato é válido quando pensamos exclusivamente nas letras). “A música ‘Perfeição’ foi feita a partir de um loop que eu criei nos teclados. Dessa forma, surgiram também algumas outras canções, como ‘Vento no Litoral’ e ‘Angra dos Reis’”, exemplifica Bonfá

Uma dessas canções, “Clarisse”, composta por Renato com Dado e Bonfá e lançada em 1997 no álbum póstumo Uma Outra Estação, está bem guardada na memória de Dado por causa da força heroica de Renato na gravação da música, em 1996, quando já estava bastante debilitado devido ao avanço da aids, que o mataria naquele mesmo ano. “Renato era um grande intérprete. ‘Clarisse’ tinha um loop de oito compassos. Ele cantou aquilo tudo de primeira, em um take, com a saúde já avariada. Aquilo me emocionou demais.”

Diferentemente de Cazuza (1958-1990), único ícone da geração 1980 cuja obra ombreia com a de Renato, o trovador se reservou o direito de expiar quase solitariamente os efeitos da contaminação pelo vírus HIV. Somente o círculo mais próximo de familiares e amigos – incluindo Dado e Bonfá – soube do diagnóstico, dado em uma época em que a aids ainda era fortemente associada à homossexualidade. Esta, contudo, não era mais segredo ou problema para Renato. Ele já tinha se assumido para si mesmo, para a mãe e para os amigos no fim da adolescência. A saída pública do armário viria em 1989, aos 29 anos, por meio de verso de “Meninos e Meninas”. A música está no messiânico quarto álbum do Legião Urbana, As Quatro Estações, o primeiro gravado sem o baixista Renato Rocha (1961-2015), o Negrete, expulso da banda por Renato por causa de desajustes profissionais, atrasos e faltas no cumprimento da agenda do Legião.

A rigor, Renato Russo gostava mais de meninos do que de meninas. Lia muito sobre a homossexualidade. Certa vez, deixou na portaria da amiga Marina Lima, com quem costumava conversar ao telefone, um exemplar do livro Jung, Jungians & Homosexuality,escrito em inglês, e insistiu para que a cantora o lesse. “Ele tinha uma necessidade íntima de compartilhar conhecimento geral com os outros, não por arrogância ou soberba, mas porque aquilo parecia nutri-lo com a vontade de saber mais”, interpreta João Augusto, o interlocutor dos longos telefonemas sobre ópera. “Meu pai era compulsivo por informação. Essa compulsão alimentava a arte dele”, confirma o filho, Giuliano.

Em 1994, Renato propagou informação sobre o movimento gay ao lançar o primeiro dos dois álbuns da discografia solo (estendida após a morte do cantor com títulos póstumos feitos com sobras de gravações). Ele fez referência explícita, já no título, The Stonewall Celebration Concert, à reação gay ocorrida em 28 de junho de 1969 no bar Stonewall-in, em Nova York, Estados Unidos. Naquela noite, a rebelião dos gays contra a cotidiana repressão policial se tornou um marco na luta pelos direitos da população homossexual dos Estados Unidos e do mundo.

A sede por tanta informação, consumida e repartida, é exemplificada na sala-escritório do apartamento de Ipanema, para onde Giuliano Manfredini planeja se mudar em um futuro não muito distante. Lá, no apartamento adornado com violetas roxas na janela, livros e discos se misturavam com quadros de artistas plásticos da geração 1980, como Luiz Zerbini e Barrão, admirados pelo vocalista do Legião Urbana.

É nesse microcosmo cultural que Renato Manfredini Jr. desenvolveu a obra que começou a esboçar aos 15 anos, paralisado na cama. A partir dali, montou duas bandas, sendo que uma delas se tornou objeto de culto pelo repertório contido em oito álbuns que permanecem relevantes e atuais. O equilíbrio emocional pareceu muitas vezes difícil de alcançar, como o próprio artista explicitou no título do disco solo de 1995 (Equilíbrio Distante), no qual cantou sucessos da música italiana, mas sua obra o aproximou do Brasil. Talvez tanto pelas canções de amor quanto pelos valores éticos propagados nas músicas politizadas que falavam do país.

As tormentas pessoais jamais empanaram o brilho de um artista criador, catalisador, voz-guia de geração que teve heróis mortos, não por overdose, mas pela devastação sem trégua provocada na época pelo vírus da aids, atualmente controlado pela medicina com medicamentos que neutralizam sua ação.

“O Renato é a pessoa mais interessante que eu conheci na minha vida e com a qual tive o prazer de conviver por anos durante uma fase muito rica de nossa existência”, resume Marcelo Bonfá.

Decorridos 20 anos após a morte do trovador, ele parece ainda maior do que foi nos meros 18 anos que separam a formação do Aborto Elétrico – criado em 1978 em uma Brasília povoada por uma juventude que se alimentava do punk para escapar do tédio – e o fim do Legião Urbana sem o mentor (Dado e Bonfá marcaram 2016 com uma turnê celebratória). Uma banda que parece ter ainda, e sempre, a força dos tempos áureos da vida de Renato Russo, artista que, ao contrário do que imaginou na noite de 23 de julho de 1983, merece, sim, todo o carinho e devoção do público.

Nota Desafinada na História da Banda

Dado Villa-Lobos e Marcelo Bonfá, remanescentes do Legião, e Giuliano Manfredini, filho de Renato, brigaram na Justiça

Lançada com atraso em março de 2016, a edição dos 30 anos do álbum Legião Urbana (1985) chegou ao mercado sem a anunciada música inédita “1977”. A ausência foi consequência de mais uma pendenga judicial entre o filho e herdeiro de Renato Russo, Giuliano Manfredini, e os dois remanescentes da formação clássica do Legião, o guitarrista Dado Villa-Lobos e o
baterista Marcelo Bonfá. Em 30 de outubro de 2014, Dado e Bonfá conseguiram na Justiça o direito de usar o nome Legião Urbana em produtos e atividades artísticas, como os shows da turnê Legião Urbana XXX Anos, que segue na estrada com André Frateschi nos vocais. Contudo, Giuliano é o dono legal da marca. A desarmonia entre o trio foi amplificada naquele ano de 2014 quando o site oficial da banda voltou ao ar sem a participação de Dado e Bonfá.

Por ora, não parece haver possibilidade de conciliação. Giuliano se mostrou reticente ao abordar a questão nesta entrevista. De início, Dado e Bonfá preferiram não falar com a RS Brasil – mudaram de opinião quando souberam que o foco da reportagem seria um perfil de Renato, e não a questão legal.

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