Edição 123 - Novembro de 2016

Luta de Classes Redefinida

Em 3%, Netflix investe em ideia nacional alinhada com tendência global do entretenimento; a série estreia à 0h desta sexta, 25
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por Stella Rodrigues

Realidades distópicas tomaram conta da TV e do cinema internacionais nos últimos anos e a tendência chega à produção nacional com 3%. Da série Black Mirror à cinessérie Jogos Vorazes, o tema foi ganhando espaço no entretenimento, nas bilheterias e no coração do público de maneiras tão diversas que não é nenhuma surpresa que, depois de cinco anos no Brasil, a Netflix tenha escolhido esse filão para finalmente fazer sua primeira série original desenvolvida no país.

3% é livremente baseada em um piloto desenvolvido por Pedro Aguilera e que estava no YouTube. A Netflix comprou a ideia e chamou o renomado Cesar Charlone, indicado ao Oscar pela Direção de Fotografia de Cidade de Deus, para dar uma nova roupagem e desenvolver a partir dali oito episódios (que chegarão ao serviço de streaming simultaneamente no dia 25 de novembro). De cara, pelos teasers que dão um primeiro vislumbre do trabalho, nota-se a ausência do aspecto militarizado e cinzento estabelecido em outras obras do gênero. “Gosto porque foge de como costumam fazer cenários distópicos. É tudo trapo de roupa, mas é colorido”, analisa Bianca Comparato, uma das estrelas da série.

Na história, o mundo vive uma escassez de água potável e ar limpo. Em um lugar não determinado do Brasil, a população vive uma existência difícil no chamado Continente. Mas até os 20 anos de idade, o povo se apoia em uma esperança: de ser bem-sucedido quando, ao atingir essa idade, passar pelo chamado Processo, um teste que lembra uma mistura de vestibular com prova de reality show. Durante o Processo, os candidatos precisam provar que são aptos e dignos de viver “do outro lado”, em um lugar almejado e supostamente paradisíaco chamado Mar Alto. Lá, as condições de vida melhoram significativamente. Contudo, a cada ano somente 3% dos candidatos que se submetem às provas físicas, desafios emocionais e dilemas morais dessa peneira conseguem passar para o lado de lá.

Mas o que tem do lado de lá, exatamente? Como refugiadas de guerra, essas pessoas lutam para chegar a uma realidade sobre a qual só ouvem falar, uma terra prometida em que todos os problemas mais graves encarados durante uma situação de miséria e sofrimento ficam para trás. Pelo menos na primeira temporada, não saberemos. Essa leva de episódios foca no Processo. “Imagino o Mar Alto meio como Fernando de Noronha”, chuta Bianca, que compara o Continente à realidade dos filmes da franquia Mad Max. “O Mar Alto é um paraíso da abundância, com ar e água limpos, essas coisas que são preciosas.”

Bianca vive Michele, uma jovem que tem “uma motivação pessoal nesse Processo, porque foi criada pelo irmão, que passou para o outro lado. Muitos ali só querem uma vida melhor, mas ela tem essa coisa do irmão”. Michele não é a única com motivos familiares para sentir uma pressão extra. Representante da elite nessa realidade, Marco (Rafael Lozano) carrega consigo o senso de merecimento típico dos jovens de família rica em qualquer sociedade. Ele é de uma “aristocracia falida”, conforme explica Lozano. “Talvez ele se alimente melhor que os outros, e tem uma casa maior, cuidada por uma espécie de governanta. Mas isso é tudo que ele tem de diferente.” Isso e o fato de que toda sua família passou para o outro lado, de forma que, inicialmente, ele se sente como alguém que já está garantido dentre os 3%. “Ele estava confiante, mas, quando as coisas começam a sair do controle, isso passa a ser um peso”, revela o ator.

Além de beber de fontes comuns para esse tipo de produção (a ideia das provas que lembram as de reality shows, por exemplo), a série levanta diversas questões relacionadas ao papel do governo. “Discute-se muito meritocracia para justificar falhas do Estado no que diz respeito a condições sociais”, opina Vaneza Oliveira, intérprete de Joana, personagem independente e cheia de personalidade. “A série traz uma profundidade muito bonita para todas essas questões abordadas, e discute muito as individualidades de cada personagem, por isso temos tantos protagonistas. Cada um deles traz uma identificação diferente para o público.”

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