Edição 123 - Novembro de 2016

Mano Brown

Lançando disco solo, MC dos Racionais comenta The Get Down e eleições em São Paulo
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Mano Brown
Marcelo Pretto/Divulgação
por Lucas Brêda

Está previsto para este mês o aguardado primeiro disco solo de Mano Brown. Boogie Naipe foi inspirado por funk, soul e disco music do fim dos anos 1970. “É aquilo misturado com o que tem hoje”, diz o rapper dos Racionais MC’s, que investe em uma abordagem mais íntima, mas sem mudar o ponto de partida. “Estou fazendo música romântica? Sim, mas com o espírito da rua.”

Mudou alguma coisa na dinâmica de compor para um trabalho solo?

Foi a mesma dos Racionais: com os amigos, conversando, ouvindo música. Nunca fui um compositor recluso, de escrever escondido, de madrugada. Sempre compus no meio do “auê”. O bagulho a milhão e eu fazendo música.

E em relação aos anos 1980?

A diferença é que eu nunca tinha batida para cantar em cima. Eu fazia a letra e depois ia procurar a batida. Nesse disco, eu já comecei com um instrumental que me agradava para desenvolver uma ideia a partir dali. Isso muda o estilo da música. É uma roupa que foi criada para você, não uma que qualquer um usaria.

Como era esperado, a faixa “Amor Distante” recebeu críticas pela dita falta de parecer político. Você teme esse tipo de cobrança?

O que tem me movido hoje é isso, cara. Tem umas ideias que já deixaram de ser úteis pelo desgaste, pelo uso demasiado da palavra e do argumento. As ideias se renovam. As pessoas não lutam mais por cesta básica, como em 1990. Hoje, com cesta básica na favela, você não resolve o problema de ninguém. Sou um cara que está na rua, com o povo. Estou fazendo música romântica? Sim, mas com o espírito da rua. O espírito gangsta não morre. Isso de “não pode falar disso porque não vende”, para mim, não serve. E não vejo coração em fazer isso.

Assisti à série The Get Down e fiquei imaginando como foi aquele período no Brasil. Do que você se lembra?

Tivemos nossas aventuras, mas tinha um delay. The Get Down começa em 1977, eu tinha 7 anos. O rap para mim é depois de 1980 e não se chamava rap, era funk. Na periferia era “balanço”: “Esse balanço é da hora”.

Vocês também riscavam os vinis para marcar as batidas em loop?

Sim, o KL Jay marcava os discos com fita adesiva. Durante muito tempo rimávamos naquele pedaço instrumental curto, só que marcado, aí não dava erro.

Era um hip-hop mais básico, mas em Cores & Valores vocês atualizaram bem o som com o eletrônico.

Aquele é o rap mais cru, mas a vertente eletrônica é muito forte. E você sabe que fomos criticados, né?

Não é muito purismo?

Tem dos dois lados. Se o cara diz que gosta de hip-hop, tem que procurar saber de onde veio. O cara se apega ao estilo de música do rádio e todo mundo tem que ser igual àquilo? É uma ditadura na música, morô? Não quero doutrinar ninguém.

Você já usou esse discurso de “não doutrinar” para falar de política. São Paulo teve uma eleição surpreendente. Como você acha que funcionou esse jogo de influências?

[A eleição] foi totalmente influenciada pela Globo, pela vontade dos ricos. O Brasil tem um espírito colonial, precisa do patrão, do senhor da casa grande para dar as ordens. Estão sempre procurando um coronel. Os espíritos rebeldes são minoria. A maioria quer isso: primeiro atira, depois pergunta. Quer pizza, internet e polícia na rua. O que passou a ser a famigerada classe C hoje quer botar a polícia para defender o que conquistou. Diferença de classe sempre haverá, então o pobre que não é mais pobre acaba agindo como rico.

Muita gente criticou a política do Fernando Haddad (PT) nas periferias, pontuando como principal motivo para ele ter perdido.

Acho que foi uma rejeição em massa ao partido. Os adversários fizeram questão de aproveitar o fato de ser uma sigla demonizada. Pode ver que nas eleições o maior perdedor foi o PT. Não vi ninguém ponderar sobre a administração do Haddad. Vi as pessoas querendo tirar porque ele é do PT, mano. É muito louco: tudo que o Brasil tem de errado é o PT, porque a Globo falou. A Jovem Pan passou uns dois anos induzindo a população a aceitar o que estava acontecendo: um golpe. O Brasil é um país confuso, mas ao mesmo tempo previsível: quando a Globo quer uma coisa, ninguém segura.

E para material novo dos Racionais, tem previsão?

Tem umas pedradas guardadas para depois do meu disco.

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