Edição 123 - Novembro de 2016

Jota Quest - Os Donos do Groove

Fiéis às próprias vontades e hoje imunes às críticas, integrantes do grupo comemoram duas décadas de sucesso e o posto de maior banda pop do Brasil
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por Mauro Ferreira

José do Prado Lara, pai do guitarrista Marco Túlio Lara, se assustou quando soube que o filho abandonaria o curso de engenharia para se dedicar à música. Naquela época, em 1994, o futuro ainda parecia incerto para Marco Túlio, Rogério Flausino, Marcio Buzelin, PJ e Paulinho Fonseca. No ano anterior, os cinco tinham formado em Belo Horizonte, Minas Gerais, uma banda de soul music chamada J. Quest que militava incansavelmente pelo circuito independente de shows da capital mineira. A situação era tão precária que Marco Túlio inventou um empresário fictício, o Marco Antônio, e se passava por ele ao telefone para falar com contratantes de shows do grupo.

Nem o pai de Marco Túlio e muito menos os músicos poderiam imaginar que dois anos depois eles fariam parte do elenco de uma das grandes multinacionais do disco, a gravadora Sony Music, e iniciariam uma consistente escalada de sucesso. Em 2016, o Jota Quest – que teve que alterar o nome em 1998 para evitar atrito judicial com a empresa norte-americana Hanna-Barbera, produtora do desenho Jonny Quest – completa 20 anos de presença nas rádios e com a mesma formação dos tempos do empresário imaginário. Ocupa, sem concorrentes, o posto de maior banda pop do Brasil, sempre disposta a fazer canções cheias de groove. E, claro, agora conta com um empresário real, Helber Oliveira, que chefia os quatro funcionários da casa-escritório de Belo Horizonte em cujo terreno o grupo construiu um estúdio próprio, o Minério de Ferro, nos anos 1990.

Ferro, nos anos 1990. Nos decorrer destas duas décadas, o presente passou a ser um lugar seguro para a banda que, nos primórdios, se reunia em uma pastelaria de BH, a Dom Pastel, como se lá fosse seu escritório. E que começou a ensaiar em um espaço exíguo de 3 metros quadrados. Para aguentar o calor humano, no sentido literal do termo, a solução foi fazer vaquinha para comprar um ar-condicionado. “Houve muita ralação. Hoje, eu me sinto um herói da resistência. Inclusive porque, com esse tempo de carreira fonográfica, a gente fez recente mente dois discos com músicas inéditas”, ressalta Marco Túlio. “A gente ainda está na batalha, ainda corre atrás e ainda se reúne para compor repertório e gravar um disco. Não entramos na onda dos singles. Ainda fazemos álbuns”, completa o vocalista, Rogério Flausino.

A rigor, o Jota Quest tem feito grandes discos na presente década – podem até ser considerados os melhores da carreira. Para festejar, o quinteto lança uma caixa com a discografia completa, renovada a partir do álbum La Plata (2008), o primeiro realizado no estúdio do grupo. “Com o La Plata, o som do Jota Quest começou a ficar mais universal. A gente sempre foi soul, mas foi descobrindo a vocação pop da banda. Nossa vocação é tocar no rádio”, avalia o baixista, Paulo Roberto Diniz Junior, o PJ.

Apesar da pausa para a celebração revisionista, o quinteto se recusa a focar apenas passado, tendo gravado em sequência dois álbuns revigorantes, Funky Funky Boom Boom (2013) e Pancadélico (2015), ambos com faixas feitas com o “toque Chic” da guitarra do músico norte-americano Nile Rodgers, um dos produtores fundamentais na arquitetura do pop-disco-funk do fim da década de 1970. Rodgers foi o mentor da banda norte-americana Chic e gerou hits mundiais para Diana Ross, David Bowie, Madonna e, recentemente, Daft Punk. “Sempre fui fã do Chic. O Nile, afinal, foi o cara que fez ‘Like a Virgin’ [Madonna]”, contextualiza PJ, com justificado orgulho.

Rodgers, apresentado ao Jota Quest por Jerry Barnes, baixista do Chic, avaliza a discotecagem pop variada dos mineiros. “No meu ponto de vista, eles são tão bons quanto as melhores bandas de soul e funk com as quais toquei. Cada integrante é um músico de primeiro time. Dá para perceber isso nos shows”, ressalta ele, convidado da apresentação do Jota Quest no Brazilian Day, em Nova York, no último mês de setembro. A performance, realizada em um palco armado na esquina da 6th Avenue com a 44th Street, permanece viva na memória do quinteto pelo efeito catártico que a música “Mandou Bem” (o pop black gravado com Rodgers para o álbum Funky Funky Boom Boom) proporcionou na plateia e, sobretudo, pela conexão ao vivo com Rodgers. “Você nunca imagina que aquele cara que é seu ídolo um dia vai chegar de Uber no seu show, tirar a guitarra, conferir a música e tocar com você”, narra o baterista, Paulinho Fonseca. “Mais surreal para mim é o Jota tocando e ele do lado, dançando e filmando o show”, relata o tecladista, Marcio Buzelin.

Se Rodgers chegou ao Jota Quest por meio de Jerry Barnes, este conheceu o grupo através de um contato inicial feito por PJ. Barnes produziu Funky Funky Boom Boom e Pancadélico com entusiasmo. “Eu me senti abençoado pela oportunidade de fazer música com um grupo tão talentoso de artistas. Todos eles compõem, tocam e produzem música. Isso é raro. Eu ouvi gravações do Jota Quest e encontrei nelas uma linha comum de inspiração. Quando as pessoas ouvem ‘Blecaute’, elas sorriem e começam a dançar. Pra mim, isso diz tudo”, elogia Barnes.

“Blecaute” é uma parceria de Nile Rodgers e Barnes com Rogério Flausino, Wilson Sideral e Marcio Buzelin. Rodgers tocou guitarra na canção, gravada pelo Jota com a participação de Anitta, musa do pop funk carioca. “Somos uma banda popular. Gostamos de fazer shows em arenas, com todo mundo cantando junto”, argumenta Marco Túlio diante da possibilidade de críticas por conta da união com a cantora. “Não existe crise de identidade. Até gostamos mais de nós mesmos agora”, avisa Paulinho.

Mas houve um tempo em que muita gente, sobretudo na imprensa musical, mas também no meio artístico, decidiu odiar o Jota Quest. Até porque o quinteto, em determinado momento, deu munição ao inimigo e se tornou a própria “banda numa propaganda de refrigerante”, como cantou, afiado, o compositor gaúcho Humberto Gessinger em um verso lapidar de “Terra de Gigantes”, balada lançada pelo Engenheiros do Hawaii em 1987. A gravação foi feita 13 anos antes de o Jota Quest associar o nome a uma marca de refrigerante em troca de patrocínio para a turnê nacional do terceiro álbum, Oxigênio (2000). O disco foi lançado com pompa e circunstância pela Sony Music, que armou um circo pop em torno do grupo com intimidadora imponência para promover as canções do trabalho, editado um ano após o Jota ter feito, em 1999, o primeiro show movido a energia solar no Brasil, em parceria com a ONG Greenpeace.

“Em alguns momentos, a gente deu motivo para receber as pedradas”, avalia Marco Túlio. Na época da polêmica, Rogério pôs lenha na fogueira ao pintar o cabelo com cor similar à da bebida, da qual o Jota Quest virou “garoto-propaganda” por dois anos. “Neguinho queria matar a gente. Era uma inveja fodida. Depois, muitos dos que nos criticaram acabaram fazendo o mesmo. A associação de bandas e cantores com grandes marcas da iniciativa privada existe no mundo pop para ajudar, para melhorar o lado artístico e para aprimorar o staff”, argumenta o vocalista, lembrando a relação do cantor norte-americano Michael Jackson (1958-2009) com outra marca de bebidas. “Reconheço que houve uma superexposição da banda. Mas Oxigênio não é um disco horrível. Ao contrário, é um álbum legal pra caralho. E sofrer aquela pressão toda naquele momento foi bom. A gente ficou mais cascudo logo cedo, aprendeu a jogar o jogo lá atrás”, pondera Rogério. “Pegávamos a grana boa vinda da propaganda e investíamos em turnê”, emenda Paulinho.

"Mais do que o passado, o que motiva e une a gente é o futuro”, diz Marcio Buzelin. Seja como for, quando o passado vem à tona, traz consigo mágoas que parecem não ter sido totalmente diluídas ao longo da carreira. “A gente não era da turma da Banguela [Records, selo criado pelos Titãs com o produtor Carlos Eduardo Miranda em 1994], da turma da maconha, da turma da MTV”, alfineta PJ. Rejeitado para o elenco da Banguela Records, que investiu na banda brasiliense Raimundos, o Jota acabaria contratado pelo selo Chaos. “Na época, toda banda queria soar como os Raimundos. E a gente queria soar como Jota Quest mesmo. Mas todas aquelas bandas sumiram. A Banguela recusou o Jota e também acabou. E a gente está aí.”

Sim, o Jota Quest está aí, na ativa e na estrada, em turnês quase incessantes que provocam inevitáveis desgastes físicos e emocionais. “A irritação aflora nas viagens e isso já foi motivo de briga”, admite Paulinho. “O lado mais difícil é o transporte. Mas já nos acostumamos”, garante Marcio. “A gente gosta mais de viajar em turnê de ônibus, porque conseguimos dormir no trajeto. Não tem que ir para o aeroporto”, detalha Rogério Flausino.

Ao longo da carreira, a irritação também eventualmente apareceu quando cobraram do Jota Quest uma fidelidade canina à ideologia musical black dos primórdios da banda. “Às vezes, chega alguém pra gente e diz: ‘Vocês mudaram muito’. Aí eu digo: ‘Você que não ouviu o disco inteiro’. O DNA black, motivo pelo qual a banda se uniu, está presente em todos os álbuns”, relata Paulinho. “É que as pessoas se baseiam apenas nas músicas que ouvem no rádio”, simplifica Rogério. “A nossa discografia tem uma coerência, mas tem também as particularidades de cada momento, de cada disco”, ressalta Marco Túlio. “O primeiro álbum foi mais soul, black music mesmo. O segundo, De Volta ao Planeta, teve a abertura pop com o estouro de ‘Fácil’. O terceiro, Oxigênio, teve mais rock e experiências eletrônicas. O quarto, Discotecagem Pop Variada, remeteu mais ao primeiro, foi com uma volta às raízes. E por aí foi.”

As tais “raízes” do Jota Quest apontam, a rigor, para os anos de 1988 e 1989, época em que PJ e Paulinho Fonseca mantiveram uma banda chamada Primavera de Praga, com o som voltado para o rock. “Os ensaios eram na minha casa. Eu matava aula. A música sempre falou mais alto”, lembra o artista. Por meio de Haroldo Ferretti, baterista da banda mineira Skank, então também em início de carreira, Marco Túlio chegou até PJ e Paulinho. E foi por intermédio de Marco que Marcio Buzelin entrou no grupo. Os dois já se conheciam e tinham, inclusive, tocado juntos em outras bandas. Quando Marcio retornou a Belo Horizonte, após uma temporada em Brasília, estava formado o quarteto que geraria o Jota Quest. O grupo começou a andar pelos bares de BH à procura de um vocalista. Mineiro nascido na cidade de Alfenas, Rogério Flausino chegou à capital mineira em janeiro de 1993 e foi o 14º cantor a ser testado. Ficou com a vaga pela vocação pop e pela afinidade intuitiva com a soul music e com os músicos. Mesmo já tendo tocado em uma banda (Contato Imediato, formada em 1985 com o irmão Wilson Sideral), o jovem interiorano ficou fascinado. “Lembro que, quando cheguei a BH, disse para mim mesmo: ‘Estou na cidade certa’. Quando conheci a banda deles, pirei. Nunca tinha visto um grupo de funk, black e disco tocando ao vivo”, se recorda.

O passaporte para o ingresso de Rogério na empreitada foi uma canja no show de uma banda local. Marco Túlio e Marcio assistiram à performance, e o teste definitivo veio em um ensaio em outubro de 1993. Na ocasião, os cinco tocaram músicas de Ed Motta, cujo repertório de soul era o único que Flausino conhecia bem a ponto de poder cantar de bate-pronto. “Mas ele tinha uma sintonia com a identidade musical da banda. Lembro que levou uma pilha de discos para casa e fez uma imersão no universo da black music”, relata Marco Túlio.

Com Rogério Flausino efetivado como vocalista, deu-se início a uma via-crúcis para obter um lugar ao sol na cena musical de BH. Os primeiros shows foram feitos para um público que gravitava em torno de 20 a 30 espectadores. Decidido, o quinteto – já então com aquela que seria a primeira e única formação – gravou uma demo com as músicas “Vício”, “Jogo” e “J. Quest”. “A gente ia nas rádios com a demo e com a cara de pau”, conta o frontman. O grupo até conseguiu fazer uma cópia da gravação chegar às mãos do titã Nando Reis, na esperança (vã) de um contrato com o selo Banguela.

As três músicas foram registradas oficialmente no mal distribuído álbum J. Quest, lançado de forma independente em 1995. “Vício” foi repaginada pelo produtor Dudu Marote e aproveitada, ao lado do sucesso “Encontrar Alguém”, no primeiro álbum da banda lançado por uma grande gravadora, também chamado J. Quest e colocado no mercado pelo selo Chaos, aberto pela Sony Music na década de 1990.

Antes da estreia, contudo, ao longo de 1994, os integrantes começaram a buscar locais para tocar em Belo Horizonte. Foi quando entrou em cena o fictício empresário Marco Antônio, interpretado ao telefone por Marco Túlio. Nessa fase, teve importância a entrada do Jota na programação do Drosophyla, descolado bar de Belo Horizonte aberto em 1986 e ainda em atividade. Foi lá que o quinteto conseguiu a oportunidade de se apresentar às quintas-feiras, dia nobre na agenda do local, quando a banda que anteriormente ocupava aquele dia da semana migrou para outra casa. O Jota Quest não contava com ver o público minguar de 1,2 mil pagantes para cerca de 150. Só que o fracasso inicial não influenciou a dona do bar, Lili Wong. Conhecida na cena pop mineira como Madame Lili, ela apostou nos rapazes. “Lili é a nossa madrinha. Ela gostava da gente e sempre olhava para nós com um olhar carinhoso, com o qual as pessoas não costumam ver bandas iniciantes”, reverencia Rogério Flausino, em tom de gratidão.

Se Lili foi a madrinha, o padrinho foi Fernando Furtado, empresário do Skank, que já fazia sucesso nacional na Sony Music, por onde tinha lançado dois álbuns entre 1993 e 1994. Furtado fez a ponte do Jota Quest com a gravadora. O contato frutificou, a ponto de Ronaldo Viana, diretor artístico do selo Chaos, ter ido a Belo Horizonte em 1995 assistir a um show do grupo no Bar Nacional.

O contrato com a Sony foi assinado em dezembro de 1995. Dois meses antes, a MTV já havia recebido a demo que continha a gravação de “Encontrar Alguém” e a releitura de “As Dores do Mundo”, balada de alma soul lançada pelo cantor e compositor baiano Hyldon em 1975. Não era a primeira vez que eles abordavam repertório alheio em disco. O álbum independente de 1995 trazia uma releitura de “O Sal da Terra”, canção de 1981 do conterrâneo Beto Guedes com letra de Ronaldo Bastos. “A lei na banda para gravar versão de música alheia era não ficar ouvindo a gravação original da composição. Nosso registro de ‘As Dores do Mundo’ nasceu de um groove num ensaio”, conta Paulinho Fonseca.

As incertezas do mundo independente cessaram definitivamente para o Jota Quest a partir de outubro de 1996. Naquele mês, o grupo promoveu o primeiro álbum pelo selo Chaos abrindo para o Skank em minitemporada no Olympia, antiga casa de shows da cidade de São Paulo. Foi a oportunidade de ser captado pela primeira vez pelas lentes da MTV, emissora de TV que então exercia papel fundamental na promoção de uma banda. Nas decisivas apresentações de 4 e 5 de outubro de 1996, o Jota tocou um medley que unia “I Got You (I Feel Good)”, sucesso de James Brown (1933-2006), e “Kiss”, hit de Prince (1958-2016), outro gênio da música negra norte-americana. Rogério Flausino usava peruca black power, que, reconhece, divertido, o deixava parecido mais com Sidney Magal do que com Prince. “Por coincidência, acabamos tirando as fotos para a capa desta edição da Rolling Stone em 3 de outubro, exatos 20 anos após aqueles shows com o Skank”, exalta o cantor.

Gravado com a participação de Tony Tornado na música “Há Quanto Tempo”, J. Quest foi quase um remake do álbum independente, mas com os recursos de um grande estúdio e com o toque do produtor Dudu Marote. A regravação de “As Dores do Mundo" ajudou a chamar atenção para o trabalho e para a banda. Dois anos depois, em 1998, “Fácil”, parceria de Rogério Flausino com o irmão Wilson Sideral, consolidou e expandiu o sucesso inicial, fazendo pulsar a veia pop do Jota Quest. A faixa chegou ao topo das paradas e alavancou as vendas do álbum seguinte, De Volta ao Planeta (1998).

Desde então, um dos pilares do grupo tem sico a harmonia e a amizade entre os cincos músicos, que diluem eventuais rusgas surgidas na estrada seguida por entre os cerca de 120 shows que fazem anualmente. A história de Rogério Flausino, em particular, é a de um menino do interior que foi para a cidade grande e lá realizou o sonho pop de entrar para uma banda e fazer sucesso. “Comecei a cantar com 13 anos e entrei para o Jota Quest com 21. Tinha uma vontade grande de fazer alguma coisa, de vencer, e eles viram isso em mim. Eu era o cara que queria a mesma coisa que eles. A gente ficou amigo e sempre foi feliz, sempre foi parceiro”, orgulha-se o vocalista.

Outro fator que contribuiu para as boas relações do quinteto foi o diálogo franco do cantor com os colegas quando o assunto era a sempre delicada questão de o vocalista ser a voz e a cara de uma banda, angariando, pela própria condição de frontman, mais atenção e espaço na mídia. “Eu nunca quis um destaque maior do que todos. Nunca fui de querer impor a minha posição. Durante um tempo, eu nem me colocava à disposição para fazer algo que não fosse junto com a banda toda. Sempre fui aberto a discussões, mostrando a eles o quanto podiam confiar em mim. E hoje, um confia no outro. A gente se conhece profundamente.” Rogério reforça que a exposição maior que tem é algo bem resolvido. Diz que já tiveram discussões, reconciliações e desavenças, mas que sempre se acertaram. “Acho totalmente normal que eles tenham tido esse grilo em algum momento. Mas foram pensamentos rápidos”, afirma. “Tudo o que fazemos é em nome dos cinco. Procuro sempre fazer o exercício de ser um vocalista agregador.” Casado com a médica Ludmila Carvalho e pai de dois filhos, Miguel (de 1 ano e meio) e Nina (de 9 anos), Rogério valoriza a vida em família nos períodos de folga entre os shows. “A Ludmila já me conheceu assim, artista que vive em turnê. Somos um casal diferente. Mas rola muito amor entre a gente”, gaba-se ele, que perdeu a mãe há um ano, vítima de câncer.

Marcio Buzelin, de 46 anos, também é pai. A filha, Gabriela, tem 15 anos e mora atualmente em São Paulo, tendo residido dos 2 aos 7 anos em Belo Horizonte. O tecladista foi o segundo músico do Jota Quest a viver a experiência da paternidade. “Mostrei para minha filha que, por mais lúdico que possa parecer, o trabalho numa banda nunca deixa de ser também um trabalho, por mais prazeroso que seja”, relata.

Na lida com o Jota Quest, Marcio diz que procura ser conciliador. “Eu escuto muito mais do que falo. Faço minha colocação depois de ter ouvido os pontos de vista de todos. Às vezes, rola um BBB, como em qualquer sociedade. No entanto, mais do que as diferenças, existe uma cumplicidade. E tenho mais prazer em ficar na minha. Ser o porta-voz de uma banda é incômodo, porque você perde um pouco da privacidade”, pondera.

Marco Túlio Lara sabe muito bem disso. Ele nem sempre teve toda privacidade que queria, porque, após a saída de cena do inventado empresário Marco Antônio, assumiu involuntariamente o papel de guitarrista-galã, dividindo a luz dos principais holofotes com o vocalista. “No começo, você fica empolgado. É um auê e eu, na época de solteiro, vivi isso nos primeiros anos. No momento seguinte, o assédio começa a incomodar. Mas depois o incômodo passa e você se conecta com a vida pé no chão. Até porque nunca foi minha vontade cantar. Nunca olhei para o Queen vendo o Freddie Mercury. Sempre vi primeiro o Brian May”, diz o guitarrista, atualmente com 45 anos, citando a banda inglesa formada em 1970.

Além de também estar na linha de frente do Jota Quest, Marco Túlio tem papel decisivo nos bastidores, alicerçando a estrutura empresarial que mantém a banda de pé. “Gosto de organizar as coisas na parte interna, de fazer o movimento para que tudo continue funcionando. E, em um grupo, nada pode ser muito desorganizado. Por outro lado, também não pode ter a organização rígida de um escritório de advocacia”, analisa ele, que é casado há 16 anos e pai de dois meninos, João Marcos (ou Johnny) e Theo, de 12 e 5 anos, respectivamente.

Conciliar turnê e casamento nunca foi problema para o guitarrista. “Tenho a sorte de ter uma esposa, a Angela, que preenche bem esse espaço que eu deixo vago quando estou na estrada. De todo modo, a banda é somente um pedaço da vida de cada um de nós. Nunca é 100%”, ressalta.

Se Marco Túlio procura organizar a estrutura interna que move o Jota Quest, o baterista, Paulo Alexandre Fonseca, assume nos bastidores o papel do “cara mais tecnológico da banda”, na definição do próprio músico, que aprendeu a tocar bateria em 1986, quando completou 20 anos. “Corro atrás de inovações. O estúdio é minha Disneylândia. Sou o cara que sabe ligar o estúdio, que sabe acionar os botões”, conta. Por tal intimidade com as técnicas de gravação, teve papel determinante na hora de equipar o Minério de Ferro. “Gosto de interferir até na parte da iluminação dos shows. Puxei essa responsa para mim. Sempre fui o Professor Pardal da banda”, brinca ele, que se casou antes de o Jota Quest despontar para o sucesso nacional. Paulinho tem dois filhos com a segunda mulher, a advogada Graziela, Lucca (um guitarrista de 17 anos) e Arthur (que tem 10 anos e já toca bateria). O terceiro, Lui, estava previsto para nascer neste mês de novembro. Deverá ser mais um a reclamar da ausência do pai nos fins de semana em que o Jota Quest está em turnê. “Os meninos cobram”, admite.

Já PJ cobra humor no cotidiano. É do baixista que saem as tiradas mais sagazes nos bastidores. “Uma banda fica chata quando começa a se levar muito a sério”, acredita. Articulado, foi PJ quem trouxe o produtor norte-americano Jerry Barnes para trabalhar com a banda e, através dele, Nile Rodgers, antes de o guitarrista ter o passe revalorizado no mercado por causa da bem-sucedida conexão com o duo francês de música eletrônica Daft Punk. Casado há 13 anos com Manuela, PJ é pai de Clara, Pedro e Gabriel. Com 6 e 10 anos, respectivamente, os meninos já se encaminham para ao mundo da música.

Assim, entre a banda e a família, caminha a humanidade que forma o Jota Quest. Se existisse, o empresário Marco Antônio certamente exultaria com a trilha percorrida pela banda. Da mesma forma que, se pudesse prever o futuro, o senhor José do Prado Lara certamente teria apoiado a decisão do filho Marco Túlio de abandonar o curso de engenharia.

Box Comemorativo

Caixa junta raridades e disco independente da era pré-fama

Um ano antes de assinarem com a gravadora Sony Music e lançarem, em 1996, o álbum que os projetou em escala nacional, os integrantes do Jota Quest gravaram um disco independente que virou item de colecionador. Originalmente intitulado J. Quest, o trabalho integra os títulos que serão relançados em uma caixa comemorativa, ainda sem previsão de lançamento. O pack vai embalar os nove álbuns de estúdio do quinteto, o projeto lançado em 2003 na série MTV ao Vivo e o DVD comemorativo dos 15 anos de sucesso, Folia & Caos. Ainda terá um CD duplo com gravações raras e avulsas nunca incluídas na discografia oficial da banda. Entre as raridades, há o registro de “Manguetown” (1996) – sucesso do Nação Zumbi cantado pelo Jota em 1998 em uma festa do selo Chaos – e uma versão de “Mulher de Fases” (1999), hit do grupo Raimundos tocado pelos músicos mineiros no VMB de 2004. Além do box, o Jota Quest também estuda a gravação de um projeto acústico.

As Raízes Soul

Grupo é herdeiro da black music abrasileirada

O Jota Quest chegou à cena 25 anos após a primeira geração de artistas do soul e do funk brasileiros. A linhagem nacional do groove começou com Tim Maia e Cassiano. O carioca Maia se imortalizou ao misturar o funk e o soul com ritmos brasileiros, como samba e baião, dando identidade nacional ao gênero a partir de 1970. O paraibano Cassiano fez soul menos miscigenado, com melodias sinuosas de difícil assimilação popular. A eles se juntou o baiano Hyldon, que estourou em 1975, um ano após a explosão do movimento Black Rio, detonado por jovens cariocas que dançavam música negra norteamericana nos bailes.

No fim da década de 1980, Ed Motta, sobrinho de Tim Maia, repôs o soul e o funk nos trilhos, a reboque da banda Conexão Japeri. Quando o Jota Quest deu os primeiros passos, no início da década de 1990, o soul e o funk já estavam à margem do mercado, abafados por gêneros que tinham apelo de massa, como axé e pagode. A vontade de fazer frente a esse movimento nas rádios justificou a boa dose de pop branco adicionada pelo grupo ao som negro norte-americano que ganhou o mundo.

M.F.

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