Edição 123 - Novembro de 2016

Punks e Maduros

O Green Day deixa para trás os problemas do líder, Billie Joe Armstrong, e volta a brilhar com um trabalho sem grandes pretensões
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por Brian Hiatt

Billie Joe Armstrong tinha regras rígidas para o Green Day. Isso foi na época em que ele pressionou a banda a gravar três álbuns quase ao mesmo tempo e depois ter ido parar na reabilitação. E também antes de uma indução ao Hall da Fama do Rock ter provado que ele não tinha nada a provar aos outros. Naquele tempo, uma regra era mais importante que as demais: cada álbum precisava ser acompanhado por uma turnê, sem pausa. Bandas que paravam não voltavam do mesmo jeito, Armstrong dizia. Ele comparava o trio a um carro esportivo antigo: “Você precisa manter tudo funcionando sempre. Se fica parado, acumula ferrugem”. Eles ensaiavam até seis vezes por semana, como uma banda de garagem se preparando para o primeiro show. “Era ridículo”, diz o baixista, Mike Dirnt, “e, ao mesmo tempo, ótimo. Baixamos a cabeça por 20 anos e não olhamos mais para cima.”

Nesse modus operandi, tudo tinha de ficar maior e mais ambicioso. Nasceu, então, o disco conceitual American Idiot (2004), em uma época na qual o público estava faminto por guitarras. O trio de maconheiros irreverentes oriundos da classe operária começou a fazer shows em estádios e desenvolveu o hábito de usar delineador. 21st Century Breakdown (2009), o álbum seguinte, era repleto de faixas fortes, mas a seriedade extrema e o tom bombástico tomaram conta, como em “American Eulogy (Mass Hysteria/ Modern World)”. “Tudo ficou muito apocalíptico”, relembra Armstrong. “Perdemos um pouco do nosso lado bobo, justo a parte do Green Day de que sempre gostei.”

Em 2012, Armstrong estava bebendo em excesso. Perdeu o controle e a maior parte da perspectiva. Mesmo enquanto compunha compulsivamente e gravava músicas para os mal recebidos e quase simultâneos álbuns ¡Uno!, ¡Dos! e ¡Tré!, combinava remédios e álcool “de um jeito que me deixava surpreso de acordar no dia seguinte”, conta. Embora tivesse uma esposa e dois filhos adolescentes em casa, o raciocínio dele era suficientemente “confuso” para a ideia da morte não o perturbar muito. “Estava sendo muito egoísta.”

Agora, Armstrong está em seu quarto ano de sobriedade. Também está tentando se livrar das piores tendências na carreira. O Green Day acabou de lançar Revolution Radio e o álbum reflete essa nova fase. Com a banda recém-saída da maior pausa que fez em 28 anos de história, o cantor, compositor e guitarrista não pensa mais no trio como um carro delicado que pode quebrar depois de alguns dias parado na garagem. “Essa comparação não é nem um pouco verdadeira”, diz, duas vezes, chorando de rir sentado em uma poltrona cinza no lounge do andar de cima de seu estúdio novinho em folha, em Oakland, Califórnia. “Aprendi do jeito difícil. Foi preciso parar de tentarmos nos superar o tempo todo. Tivemos de romper esse hábito, porque de repente não estávamos mais sendo nós mesmos... Eu estava um pouco cansado de estar no Green Day. A gente precisava parar.”

Pela primeira vez em mais de 15 anos, o Green Day lança um álbum sem conceito: são 12 faixas, sem firulas. “Isso foi eu, Billie e Tré incentivando um ao outro”, conta Dirnt, “do mesmo jeito que era quando ensaiávamos para Kerplunk [o segundo disco da banda, de 1992], sem pensar muito”. A banda vê o processo de gravação do novo álbum como uma volta às raízes. “Havia um negócio do tipo: ‘O que deveríamos ser hoje?’”, diz Armstrong. A resposta: “Vamos ser o Green Day. O Green Day é incrível!”

Revolution Radio foi feito de modo artesanal. A própria banda o produziu, gravando tudo em privacidade quase total: eram apenas eles e o engenheiro de longa data, Chris Dugan, no estúdio diariamente. Os integrantes só contaram à gravadora Warner sobre a existência do álbum quando o trabalho estava praticamente acabado. “Quando ninguém sabe que você está trabalhando, às vezes é o momento mais fácil para isso”, afirma Dirnt. “Ninguém fica: ‘Já terminou aquilo?’ Você fez porque queria, não porque era obrigado.”

Gravar o álbum foi indolor, mas chegar até ele foi difícil. Dirnt passou boa parte do tempo enfrentando um dos desafios mais dolorosos de sua vida, depois que Brittney Cade, sua esposa havia sete anos, foi diagnosticada com câncer de mama. Atualmente, a doença está em remissão, após “nove cirurgias e quimioterapia e essa coisa toda”. Ele raspou a cabeça em solidariedade à mulher e a família se mudou para o sul do país por oito meses para se concentrar no tratamento dela. Ter dois filhos com menos de 10 anos deixou tudo ainda mais assustador. “A última coisa que você quer é perder quem é o melhor em criar filhos”, Dirnt diz, rindo discretamente. “Mas ela também é a pessoa mais forte entre nós dois. Eu provavelmente teria me encolhido em posição fetal e dito: ‘Pra mim, já deu’.”

Paralelamente, o baterista, Tré Cool, estava em uma longa lua de mel com a nova esposa, Sara Rose, uma musicista de 30 e poucos anos que tinha cabelo roxo no dia em que se casaram – graças a ela, há uma bateria na sala de estar no momento. “Viajamos um pouco pela Europa, México, Belize e Jamaica”, ele conta. “Fomos os típicos recém-casados, fazendo só o que dava vontade no dia. Foi excelente.” Cool cresceu em um refúgio rural hippie em Mendocino County. Aos 43 anos, consegue ficar bem de cabelo espetado azul e não é estranho ouvi-lo se referir a si mesmo na terceira pessoa. Ele está pensando a longo prazo, malhando muito para se preparar para a vida como “um fortão de 60 anos tocando músicas do Green Day”.

Quanto a Armstrong, a ideia de pausa pode facilmente ser confundida com produtividade frenética. Ele refez Songs Our Daddy Taught Us, álbum de 1957 dos Everly Brothers, ao lado de Norah Jones, em um trabalho chamado Foreverly; compôs diversas músicas certeiras no estilo dos Beatles para o musical inspirado em Shakespeare These Paper Bullets!, do Yale Repertory Theatre. Também tocou guitarra em vários shows do The Replacements, uma das bandas preferidas dele.

Além disso, aceitou fazer o papel de ex-músico que se tornou um pai afligido pela crise de meia-idade em uma comédia dramática independente, estreando como protagonista de um longa metragem aos 44 anos. O filme, sem previsão de lançamento no Brasil, batizado como Ordinary World por causa de uma balada que Armstrong compôs para a trilha sonora, foi lançado uma semana depois de Revolution Radio. O músico/ator está em quase todas as cenas, com uma interpretação naturalista ao lado de Fred Armisen e Selma Blair. Lee Kirk, roteirista e diretor, o estimulou a pensar no filme como uma linha do tempo alternativa: o personagem foi contratado por uma grande gravadora mais ou menos na mesma época que Armstrong, mas, no caso da ficção, não deu certo. “Falamos sobre a trama como sendo ‘a história do que teria acontecido se Dookie não tivesse vendido 10 milhões de cópias’”, diz Kirk. “Talvez seja uma vida que ele poderia ter tido.”

O filme deixou Armstrong ansioso para se arriscar em outras empreitadas. “Quero tentar atuar mais. Quero tentar fazer musicais e quero tentar misturar tudo isso. Enquanto fazia Ordinary World, houve momentos em que eu não tinha ideia de nada. Foi uma das melhores experiências da minha vida.”

No dia seguinte ao lançamento-surpresa de “Bang Bang”, o primeiro single de Revolution Radio, Tré Cool está dirigindo seu Volvo 1963 pela Gilman Street em Berkeley, rumo ao clube onde tudo começou. Um espaço próximo que um dia abrigou armazéns abandonados agora dá lugar a uma loja de doces Trader Joe’s, um supermercado Whole Foods e apartamentos. A cerca de 800 metros do clube, a luz do motor acende e o carro começa a falhar. Paramos e acabamos empurrando o carro até um estacionamento em uma rua mais tranquila. Talvez seja um sinal dos deuses do punk.

Caminhamos até o clube vazio. O 924 Gilman é um discreto prédio de tijolos aparentes. Ainda é gerenciado de maneira coletiva, como nos tempos em que o Green Day começou a tocar ali no final dos anos 1980, antes de Cool entrar para o trio. A janela está cheia de cartazes de bandas novas que tocaram ali recentemente, com Jakob Danger se destacando entre elas. Jakob, um dos dois filhos de Armstrong, é o líder da banda influenciada pelo Strokes, que inclusive lançou um EP pela hypada gravadora Burger Records; Joey, seu irmão, é baterista na banda independente SWMRS. “É como um filme”, Armstrong diz ao falar sobre os filhos.

No ano passado, um mês depois da indução ao Hall da Fama, o Green Day voltou ao 924 Gilman para fazer um show secreto para a plateia mais velha que já encarou: era uma reunião da turma da cena do início dos anos 1990, repleta de punks adultos. “Foi tão emotivo”, Armstrong conta. “Olhando para o público, você via rostos conhecidos que um dia usaram piercing e cabelos roxos, agora totalmente grisalhos.” Alguns dos antigos punks hoje são “educadores, artistas, autores”, que usaram o movimento do mesmo jeito que Armstrong, como uma porta “para a ideia de poder se expressar”.

“É como trombar com um velho amigo, e vocês estão colocando em dia tudo o que aconteceu em 40 anos – você pensa no quanto mudou durante a vida. É uma viagem. Porra! Mas aqui estamos nós.” Armstrong suspira. “Se aquele tivesse sido o último show da minha vida”, afirma, “teria sido um fim feliz.”

DE VOLTA AO COMEÇO

Trio abandona projetos conceituais e dá o recado de forma direta

Revolution Radio, o primeiro álbum do Green Day em quatro anos, é puro punk rock: vibrante e despido de grandiosidade ou complicações conceituais. A faixa-título dá o tom, com uma guitarra à la The Clash. Nela, Billie Joe Armstrong rosna sobre bombas caseiras e gasolina, como se estivesse procurando algo na garagem para colocar fogo no mundo. A também explosiva “Bang Bang” soa tão pesada quanto qualquer coisa incluída em Dookie e Kerplunk. Mas Revolution Radio não é apenas sobre nostalgia. O trabalho reflete décadas de sabedoria musical e emocional. A letra da balada thrash anarquista “Outlaws” fala da luta de Armstrong contra o vício e do temor de um futuro com Donald Trump. É barulho feito para atravessar a escuridão e chegar à alvorada.

Jon Dolan