Edição 124 - Dezembro de 2016

De Volta ao Blues

Depois de uma espera de 11 anos, os Rolling Stones gravam um álbum em três dias, recordam as raízes e contemplam um futuro ainda brilhante
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por Brian Hiatt

É setembro de 1965. Charlie Watts se aproxima do microfone vestido com um paletó elegante e apresenta “um dos nossos números preferidos” à plateia de um teatro lotado em Dublin, na Irlanda. O baterista, na época com 24 anos, volta para seu instrumento modesto e os Rolling Stones mandam ver com “Little Red Rooster”, blues escrito por Willie Dixon e gravado em 1961 por Howlin’ Wolf; o riff duh-dunt-dah-duh de Keith Richards briga com os acordes tenazes da slide guitar de Brian Jones. Os mil adolescentes presentes recebem a interpretação dos Stones com berros agudos e altíssimos, mostrando como a música era fabulosa. Mais tarde, o público causaria uma confusão de verdade, invadindo o palco – algo que não passava de um acontecimento normal em qualquer turnê dos Stones.

Dez meses antes, a banda tinha conseguido colocar sua versão crua do blues de Chicago em 12 compassos no topo da parada de singles do Reino Unido (apesar de as rádios dos Estados Unidos se recusarem a tocar a canção, desconfiadas de que o galo atrevido da letra – rooster, em inglês – não era, na realidade, um pássaro). “Little Red Rooster” parece continuar sendo o único blues tradicional na história ao chegar ao primeiro lugar na Grã- Bretanha. “É uma loucura”, diz Mick Jagger cinco décadas depois, em um dia do fim de outubro em Manhattan, Nova York, refletindo sobre o feito, lembrando a gritaria das fãs quando tocavam a canção. Ele dá risada. “Sabe, é louco. Quer dizer, era uma coisa esquisita, porque a gente podia ter feito qualquer coisa naquela época e teria chegado ao número 1. Essa era a questão.” Ele usa uma camisa social branca com estampa azul bem sutil e calça preta superjusta, provavelmente do mesmo tamanho da calça xadrez que ele usou no palco há 51 anos. Parece ter a idade que tem, ao mesmo tempo que não parece coisa nenhuma.

Assim como em todas as primeiras gravações de blues dos Stones, Jagger diz que “Little Red Rooster” foi feita “por amor”. “Nós éramos garotos, e estávamos como que fazendo uma pregação. Os Beatles, em certa medida, faziam a mesma coisa – falavam da música que adoravam, que era sempre, tipo, soul.” A música dos Stones estava enraizada com mais firmeza nas influências deles, mas a banda foi além em sua homenagem. Em maio de 1965, eles praticamente forçaram os produtores do Shindig!, programa de TV norte-americano da rede ABC dedicado ao rock, a apresentar Howlin’ Wolf em pessoa. Os Stones permaneceram sentados aos pés do homem de 1,90 metro, 125 quilos e 55 anos enquanto ele vociferava “How Many More Years”, pulando sem sair do lugar e ganhando alguns improváveis berros de adolescentes. “Quando aqueles álbuns de blues saíram”, Jagger conta, “eram, de alguma maneira, para o público deles, música pop. Tocavam como tocariam Kendrick Lamar. Para mim, coloque de lado os gêneros e é só música pop.”

Agora os Stones retornam ao blues com Blue & Lonesome, uma coleção (quase) toda gravada ao vivo em estúdio com 12 músicas originalmente interpretadas por gente como Little Walter, Jimmy Reed e, mais uma vez, Howlin’ Wolf. É o primeiro álbum dos Stones que não tem nenhuma faixa assinada por Jagger-Richards; até The Rolling Stones (1964), o álbum de estreia, tinha um par de tentativas de composição. Gravar Blue & Lonesome foi fácil – demorou três dias inteiros. “Ele se fez sozinho”, diz Richards. Mas, como Ronnie Wood observa, foi também produto “da pesquisa de uma vida inteira, na verdade”.

Encontrar o momento e a forma certa de lançá-lo foi mais difícil. Jagger conta: “Eu perguntei para a gravadora se podia fazer com que aquilo fosse música pop, se dava para vender”. O álbum nasceu de sessões de gravação que supostamente seriam para um LP de faixas originais dos Stones, ainda em sua fase embrionária. Jagger ficou se perguntando se deveriam esperar até terminar o álbum de inéditas, quem sabe lançar os dois juntos.

A última vez que os Stones conseguiram finalizar um trabalho de estúdio com faixas novas foi em 2005, com A Bigger Bang. “A gravadora deve ter dito agora: ‘Bom, o álbum seguinte nunca vai sair. É melhor lançar este logo’”, Jagger diz, retorcendo aqueles indefectíveis lábios em um sorriso descomunal. “Eu não os culpo. Eu provavelmente teria feito o mesmo. ‘Agora que temos alguma coisa, melhor lançar logo’.”

O jeito como Mick Jagger e Keith Richards concordam a respeito de Blue & Lonesome é o que há de mais curioso na concepção do álbum. Os dois, no momento, passam pelo quarto ano de pacificação depois que alguns comentários cáusticos de Richards sobre Jagger em Vida, autobiografia do guitarrista, quase minaram a reunião de 50 anos da banda. Eles estão animados de verdade em reviver as raízes dos Stones. De fora, o projeto pode parecer mais coisa de Richards, o tipo de jogada retrô que seria mais do gosto dele, enquanto o Jagger da imaginação dos fãs estaria ocupado em forçar os Stones a trabalhar, por exemplo, com artistas como o Chainsmokers. O vocalista diz que o estereótipo sobre ele não está totalmente errado, mas que, neste caso, “todos estávamos igualmente a fim. Eu estava tão dentro do projeto quanto todos os outros”.

“Este é o melhor álbum que Mick já fez”, afirma Richards, sempre fã da gaita emotiva que Jagger toca e que floresce no novo trabalho. “Foi maravilhoso ver o cara fazendo com prazer o que realmente consegue fazer melhor do que qualquer outra pessoa.” Ele faz uma pausa. “Além do mais, a banda [os Stones] até que não é assim tão ruim.”

Depois que se estabeleceram com um repertório autoral e a onda inicial de covers arrefeceu, os Rolling Stones não deixaram de tocar velhos blues no palco e, principalmente, em ensaios. As cerca de 200 horas de sessões de gravação de Exile on Main St. (1972), por exemplo, foram pontuadas por tentativas recorrentes de resgatar coisas antigas, com a intenção de espairecer no meio do trabalho de parto das músicas novas. Duas delas – “Shake Your Hips”, de Slim Harpo, e “Stop Breakin’ Down”, de Robert Johnson – entraram em Exile... “É igual a gengibre em restaurante de sushi”, compara Don Was, coprodutor de Blue & Lonesome. “Você usa para limpar o paladar.”

No ano de 1968, Jagger declarou à Rolling Stone que a banda sempre teve a intenção de ir além do blues. “De que adianta escutar a gente tocando ‘I’m a King Bee’ se você pode escutar o original com Slim Harpo?”, disse. Em sua melhor forma, os Stones não simplesmente imitavam quem os inspirava. Não eram puristas, talvez com a exceção de Brian Jones; os fãs de blues olhavam feio para eles por tocarem criações de Chuck Berry nos primeiros shows. Entre os hipsters do R&B na Londres do início da década de 1960, “esse tipo de psicologia reversa sempre se aplicava”, afirma Richards. “Qualquer um que tivesse um LP de sucesso era considerado uma porcaria.”

“Você era meio forçado a ser purista porque os clubes não queriam uma banda de rock”, Jagger lembra. “Então, fingíamos ser puristas do blues para sermos contratados. A verdade é que tocávamos qualquer coisa nos ensaios – de Ritchie Valens a Buddy Holly.”

Essa irreverência formou a visão deles na questão do blues. A versão frenética para “I Just Want to Make Love to You”, de Muddy Waters, em 1964, devia muito de sua abordagem a Bo Diddley, uma mistura cheia de frescor que ajudou a dar origem ao rock de garagem. Os Stones também não acertaram o riff original de “Little Red Rooster”. Tocaram mais como se fosse “Mannish Boy”, de Muddy Waters. Beberam ainda da versão de Sam Cooke de 1963, com uma pegada leve e soul. Mais tarde, Eric Clapton lembrou-se de como Howlin’ Wolf se deu ao trabalho de ensinar a ele a versão original quando gravaram para The London Howlin’ Wolf Sessions, em 1971, com o senhor de idade lhe dizendo: “Não é nada do jeito como você acha que é”.

E, em 2016, Jagger finalmente está pronto para admitir que os Rolling Stones têm algo a adicionar a esse tipo de música. “O negócio do blues é que muda em incrementos muito pequenos”, ele explica. “As pessoas reinterpretam aquilo que conhecem – Elmore James reinterpretou licks de Robert Johnson, e Muddy Waters também. Então, não estou dizendo que estamos dando os mesmos saltos que eles, mas não conseguimos deixar de reinterpretar essas músicas.”

Em dezembro do ano passado, os Rolling Stones se reuniram no estúdio British Grove, do guitarrista Mark Knopfler, em Londres, para começar a trabalhar em uma fornada de canções originais. Mick Jagger faz questão de ser vago em relação à natureza das faixas. “Espero que seja um álbum muito eclético”, ele desconversa. “Espero que uma parte seja reconhecível como Stones, e outra parte Stones como você nunca ouviu, talvez.”

O estúdio de Knopfler é equipado com uma mistura ideal de equipamento vintage e moderno, com pé-direito alto e piso brilhante de madeira clara. Também era um ambiente totalmente desconhecido para os Stones. “Eu conheço os Rolling Stones”, diz Richards. “Eu sei que, se forem gravar música nova em um lugar ao qual não estão acostumados, às vezes demora semanas até começarem a se sentir à vontade lá.” Então, Richards disse a Ronnie Wood que aprendesse a tocar “Blue and Lonesome”, de Little Walter, um lado B melancólico de 1965 para ser usado possivelmente para quebrar o gelo. Wood se lembra de haver recebido a sugestão por fax bem antes do início das sessões de gravação.

No segundo dia no British Grove, Richards sentiu sua previsão se tornar realidade. “O estúdio está lutando contra mim”, ele se lembra de ter pensado. “Está lutando contra a banda.

O som não está saindo.” Ele sugeriu “Blue and Lonesome”. Jagger mandou ver na gaita no tom certo e a banda fez duas passagens rápidas. “De repente”, Richards conta, “o estúdio começou a obedecer e algo passou a acontecer – um som surgiu, e foi muito bom”.

Uma dessas duas passagens acabou no álbum, e é extraordinária, com Wood tocando a guitarra principal de forma frenética; Richards o segue em acordes grandiosos e sombrios; Watts acerta na bateria contida da faixa original; Jagger vai fundo em sua gaita e entrega o vocal menos cheio de maneirismos da carreira. “Baby, please, come back to me” (“querida, por favor volte para mim”), ele suplica. Depois, Jagger – que diz que já estava pensando em um álbum de blues dos Stones – surpreendeu a todos ao pedir mais covers. Naquela noite, ele examinou a coleção de MP3 dele e voltou no dia seguinte com outras ideias para músicas.

E, para dar ainda mais força aos bons augúrios da empreitada, um convidado especial deu as caras. No primeiro dia, Eric Clapton estava, por acaso, mixando um álbum dele no British Grove quando foi dar uma olhada no estúdio em que estavam os Stones. O guitarrista, que quando ainda era adolescente havia visto os Stones tocando blues, ficou estupefato. “Eric entrou e teve a mesma reação que qualquer fã teria”, diz Don Was. “Ele não estava acreditando que podia estar tão perto de algo tão emblemático e poderoso. Estava com uma expressão incrível.” Pediram a Clapton que participasse de duas faixas e ele acabou pegando uma das guitarras de Richards, uma Gibson semiacústica, em vez de usar o modelo Stratocaster que toca quase exclusivamente há décadas. Isso o ajudou a retomar o tom denso do tempo com os Bluesbreakers de John Mayall na década de 1960: dá para ouvir a banda batendo palmas para ele no fim de “I Can’t Quit You Baby”.

Tudo aconteceu tão rápido e com tanta naturalidade que a banda nem chegou a conversar sobre o que estava fazendo, nem mesmo reconheceu que tudo aquilo poderia resultar em um álbum. “Eu nem tive tempo de trocar de guitarra”, diz Wood. “Tudo correu de forma muito intensa e rápida. Foi tipo: ‘Certo, vamos fazer isto – esta aqui e mais esta’. Alguns dos ri s mais difíceis faziam meus dedos sangrarem, e Mick dizia: ‘Pronto, vamos fazer de novo, então!’ E a gente falava: ‘Espera! Olha os meus dedos!’ Foi um trabalho duro de verdade, mas eu adorei.”

Para Jagger, foi uma oportunidade de se esbaldar como gaitista de blues. Um assunto que desperta um entusiasmo nerd que mal combina com ele. “Se eu soubesse que ia ter que fazer isso, teria passado alguns dias ensaiando”, ele diz. “Porque às vezes eu faço isso, fico em casa tocando. Na verdade, é bem fácil; quer dizer, é só colocar qualquer coisa para tocar, um monte de álbuns do Muddy Waters.” Muddy “Mississippi” Waters – Live, um LP de 1979 com participação de Johnny Winter, é um dos preferidos de Jagger por esse motivo.

O vocal de Jagger também impressiona pela autoridade. O tom camp que ele adicionou ao gênero no passado se foi, substituído por algo mais sinistro e profundo, talvez refletindo o peso de perdas na vida real. “Você pode se colocar dentro das músicas como um homem de 70 anos, de um jeito que não era possível quando você tinha 21, porque não tinha passado por aquelas coisas”, afirma Was.

“Em algumas das faixas, eu pareço bem velho, e em outras não”, Jagger faz o contra-ponto. “Uma parte soa como se eu estivesse com meus 20 anos fazendo estas coisas. Na verdade, eu não tive intenção de soar assim. Eu deveria ser mais maduro!”

Enquanto Muddy Waters esteve na Inglaterra em 1966, um jornalista perguntou ao bluesman, na época com 53 anos, o que ele achava de Jagger e dos Stones. “Ele pegou minha música, mas me deu um nome”, Waters teria respondido. Tecnicamente, é claro, foi Waters que deu aos Stones o nome deles, por meio do single de 1950 “Rollin’ Stone”. Mas ele estava falando metaforicamente: para começo de conversa, Waters provavelmente não estaria fazendo um grande show em Londres se não fosse pelos Stones.

Os Stones nunca questionaram o direito que tinham de cantar e tocar blues. Aquilo que hoje é considerado por alguns como apropriação cultural não é nem um pouco pecado na cabeça deles, nem no passado, nem agora. “Não acho que tenhamos pensado nisso”, declara Jagger antes de se lançar em uma tirada sobre os primórdios do jazz, quando músicos brancos como o cornetista e pianista Bix Beiderbecke foram rapidamente assimilados pelo gênero, mas “as reclamações na verdade eram por causa do fato de que os brancos ganhavam mais dinheiro”.

Richards tem sua própria resposta à questão. “Sou tão negro quanto a porra do ás de espadas, cara”, ele diz na lata. “Pode perguntar a qualquer um dos meus irmãos.” Ele prossegue: “Quando eu era criança, não sabia qual era a cor das pessoas. Não penso no blues como sendo de uma cor específica, de jeito nenhum. Obviamente, tem a história. Mas também existiram escravos brancos. Existem montes de músicas de trabalho que remontam há um tempão. Veja o Egito. Na verdade, é bem judeu. Sabe, as pessoas fazem isso desde o começo da história”.

No fim, Jagger faz uma pergunta retórica: “Por acaso prejudicou a música, este influxo de estrangeiros e de pessoas de fora que entraram na tradição do blues, ou isso ajudou a música? Os artistas com quem conversei, Muddy Waters, Howlin’ Wolf, quando estavam vivos, achavam que tinha ajudado. Existe um intercâmbio”.

Buddy Guy, parceiro de jam ocasional dos Stones e porta-estandarte do blues de Chicago, concorda. “Eles fizeram muito pelopessoal do blues, principalmente pelos negros”, Guy pontua. “Colocaram a música aonde a gente nunca tinha colocado antes, e simplesmente permitiram que o mundo soubesse quem éramos. Não chegaram lá e simplesmente disseram: ‘Bom, isto aqui é novidade’.”

Mesmo antes dos Stones, os bluesmen de Chicago davam apoio aos músicos brancos – Muddy Waters foi mentor do gaitista Paul Butterfield na década de 1950, por exemplo. E os Stones se aproximaram do pessoal da Chess Records, a começar por sua peregrinação ao QG da gravadora em 1964, quando fizeram amizade com Waters. Há muito tempo Richards afirma que o bluesman estava pintando o teto quando eles chegaram, fato que Marshall Chess negou – mas o guitarrista continua afirmando que isso aconteceu: “Por que eu iria me dar ao trabalho de inventar isso?”

“Muddy fez a gente se sentir como se realmente fizesse parte daquilo”, relembra Richards. “Ele meio que levava você lá para dentro. E Howlin’ Wolf era bem parecido. Não tinha nada de: ‘Bom, eu não sabia que brancos eram capazes de tocar assim’. Nós fizemos uma conexão, e eles não se impressionavam com a cor que você por acaso tinha ou qualquer outra coisa. Claro que Muddy e o resto do pessoal reconheceram que, por algum motivo, os Stones tinham levado a música de volta aos Estados Unidos e feito com que voltasse a fazer sucesso. Ou não tanto fazer sucesso, mas a trouxeram ao foco da atenção mais uma vez. Tenho orgulho disso, e essa é provavelmente a única coisa que vai me fazer ir para o céu.” Ele solta uma longa gargalhada.

Ao contrário de muitos guitarristas de blues, Richards nunca teve muito interesse em ser um virtuoso da guitarra solo. Ele tinha mais fascínio por guitarristas de apoio como os irmãos David e Louis Myers, que tocavam com Little Walter. “A ideia era fazer a porra da banda mandar ver junta”, ele diz. “Um solo rápido e pungente aqui, bum, maravilha. Para mim, o fascínio sempre foi o fato de quatro ou cinco caras serem capazes de criar um som que soa muito maior do que o número real de sujeitos que na verdade estão envolvidos.”

Richards está convencido de que o rock perdeu seu gingado, a parte do “roll”,distanciando-se de suas influências afro-americanas com o advento do baixo elétrico há cerca de 60 anos. “Em meados da década de 1960, o pior guitarrista da banda passa a tocar baixo”, ele analisa. “Então, ele faz plunk-plunk-plunk, e isso é uma coisa muito europeia.”

Já que está falando do assunto, compartilha mais uma opinião: “Jimi Hendrix, por exemplo. Amo o cara do fundo do coração. Incrível. Mas acabou com [o som] da guitarra com aquela coisa de serra assobiando. É o que dizem sobre o John Coltrane com o saxofone. Músico fantástico. Infelizmente, ele destruiu o instrumento, porque depois daquilo todo mundo só passou a fazer rosnado.”

Em outubro, quando os Rolling Stones pisaram no palco do festival Desert Trip em Indio, na Califórnia, alguns pensamentos passaram pela cabeça de Mick Jagger. “O palco tinha 30 metros de largura a mais do que o nosso palco normal, que, aliás, já é bem grande, e eu costumo correr por ele”, conta. “E ouvi dizer que ninguém mais ia até a ponta, tirando eu. Então, por que porra construíram aquele palco? Era só para mim? Fiquei pensando: ‘Por quanto tempo eu vou conseguir fazer isso, porra? Por quanto tempo eu vou conseguir correr um palco de 100 metros?’ Não sei dar essa resposta. Quer dizer, até quando eu puder. E daí eu devo parar de fazer show quando não puder correr o palco de 100 metros, é isso? Significa que eu vou ter que parar? Ninguém mais está usando o palco de 100 metros!”

Já em 1986, Richards sugeria que Jagger simplesmente ficasse parado na frente do microfone e cantasse, uma ideia que faz os olhos de Jagger dispararem para o alto. “Esse é um bom conselho, Keith”, ele diz, com sarcasmo cáustico. “Valeu demais. É muito útil. Ele deveria parar de tocar guitarra. Quer dizer, fala sério! Existe alguma outra opção além de: ‘Vai correr os 100 metros ou vai ficar sentado?’ Ainda dá para se mexer um pouco no meio!”

Apesar de Jagger culpar o campo empoeirado de Indio por um ataque recente de laringite – e de a princípio ter questionado a ideia de um festival de “gente velha, com mais de 70 anos, branca, tocando as mesmas músicas de sempre” –, a banda se divertiu no Desert Trip, tratando o evento como um reencontro do pessoal do rock que se consagrou nos anos 1960. Estavam todos especialmente felizes por ver Bob Dylan, que acabava de ser nomeado para o prêmio Nobel e trouxe roupinhas de presente para as gêmeas de 6 meses de Wood. Ele e Watts perguntaram a Dylan como ele estava se sentindo com a honra. “Ele respondeu: ‘Não sei. Como eu deveria me sentir? Será que é bom?’ Eu disse: ‘Está de brincadeira. A gente achou fantástico de verdade e você merece’. E Dylan questionou: ‘Mereço?’”, conta Wood.

Richards está no escritório de seu empresário no Soho, em Nova York, jogado majestosamente em um sofá marrom embaixo de um pôster antigo de turnê dos Stones. Nos pés dele estão os mesmos tênis Nike de um vermelho bem forte em que Dylan reparou quando eles se encontraram no Desert Trip: “Belos tênis”, Dylan disse a ele, ao que Richards respondeu: “Achei que você nem ia reparar”.

O guitarrista usa um sobretudo cinza, jeans justo e uma camiseta em que se lê “Do not x-ray” (“não tire raio X”). A testa dele está coberta por uma faixa em estilo rasta e ele segura um Marlboro aceso. Pela primeira vez na vida adulta, Richards perdeu a feição esquelética. Está com o rosto mais cheio. Parece quase... saudável. O ferimento na cabeça em 2006 significou “adeus à cocaína”, ele explica. “Eu na verdade estava de saco cheio daquela coisa. Tinha se tornado um vício.” Segundo Richards, largar a droga faz “você compensar todas as refeições perdidas e todo o sono perdido”. Wood está sóbrio desde 2010 e chegou até a parar de fumar pelo nascimento das filhas, mas Richards não foi assim tão longe. “Eu gosto de uma bebida de vez em quando”, ele diz. “E eu gosto de um bom pedaço de haxixe. Ou de maconha. Ouvi dizer que a maconha foi legalizada!”

Ele e Jagger parecem ter encontrado um pouco de paz verdadeira. “Eu amo aquele cara”, afirma Richards. “Isso não significa que não vou ficar puto da vida de vez em quando, e não tenho dúvidas de que é a mesma coisa pelo lado dele. Mas a gente tem que perdoar e esquecer. E eu também diria que em 89% do tempo nós concordamos totalmente. Mas as pessoas só ficam sabendo dos 11%, sabe, quando pega fogo. O que seriam os Stones sem isso? Se a máquina fosse perfeita e todo mundo concordasse, provavelmente seria bem sem graça... É fantástico estarmos os dois vivos. Eu comemoro a vida de Mick. Ele é sempre cinco meses mais velho do que eu!”

Em Vida, Richards reclamou que não entrava no camarim de Jagger havia décadas. Isso não mudou, mas o guitarrista não se incomoda. “O fato é que Mick e eu na verdade não temos vontade de ficar juntos antes de subirmos no palco”, ele dispara. “Ele tem uma rotina de como se preparar para o palco. Já eu faço festa.”

Os Stones estão conversando sobre a possibilidade de mais shows em 2017, e realmente têm a intenção de trabalhar naquele álbum de faixas originais. “Tem umas 10 ou 12 músicas em que Mick está mexendo”, revela Wood. “E Keith também tem uma ou outra.” Richards sugere que pelo menos algumas das músicas possam ser composições inacabadas que remontam há 15 anos ou mais.

Todos estiveram em Nova York em novembro para a abertura da exposição Exhibitionism, um museu pop-up detalhado e imersivo dos Stones que inclui uma réplica do apartamento desleixado que Jagger, Richards e Brian Jones dividiam por volta de 1963 e peças de colecionador como o gravador de fita cassete que Richards usou para fazer a demo de “(I Can’t Get No) Satisfaction”. Richards estava tentando convencer os outros a gravar um pouco enquanto estivessem na cidade, mas talvez fosse exagero. Jagger tem certeza de que eles vão terminar o álbum de inéditas, mas pondera: “Não sei quando, porque a gente quer que seja bom de verdade e tudo o mais”.

Todos compartilham de uma curiosidade quase científica a respeito do futuro como banda de rock que mergulha em sua sexta década de existência. Mais uma vez, quanto tempo mais isso pode durar? “Acho que estamos tão interessados em descobrir quanto qualquer outra pessoa”, declara Richards. “Mas, cara, acabei de sair do palco há uma semana e estávamos tocando ‘Brown Sugar’, e eu me virei para Charlie Watts e disse: ‘Desta vez a gente acertou’.”

Aos 75 anos, Watts é o mais velho da banda, e também por acaso tem o trabalho mais fisicamente pesado. É compreensível ele ter problemas como dor nas costas, de acordo com Wood. Não está claro o que os Rolling Stones fariam sem ele, e essa é uma perspectiva que Richards se recusa a contemplar. “Charlie Watts nunca vai morrer nem se aposentar”, Richards brinca. “Eu proíbo.”

Jagger não parece ansioso para contemplar sua própria mortalidade, pelo menos em entrevistas. Mas, se você lembrar que ele convenceu todo mundo de que vai viver para sempre, ele dispara sem fazer pausa: “Não vou”.

Richards sabe exatamente como gostaria de partir, e tem certeza de que os médicos vão querer “dar uma boa olhada no fígado” quando ele se for. “Eu gostaria de bater as botas de um jeito magnífico”, ele fala, saboreando a perspectiva. “No palco.”

Reportagem adicional de Patrick Doyle

Blues com Urgência

Em Blue & Lonesome, os Stones aplicam às canções a experiência de uma vida

Quando os Stones começaram, em 1962, Mick Jagger ainda se apresentava na banda do pioneiro Alexis Corner e cantava coisas urgentes como “Ride ’Em on Down”, single de 1955 de Eddie Taylor, guitarrista de Jimmy Reed. Em Blue & Lonesome (Universal, HHHH½), Jagger ataca a canção de Taylor com vontade, acompanhado pelas guitarras penetrantes de Keith Richards e Ron Wood e pela bateria retumbante de Charlie Watts. O álbum mostra a maior banda de blues do mundo sendo natural em uma dúzia de covers, a maioria delas associadas à antiga cena de Chicago. Os Stones ouviram estas canções originalmente interpretadas por homens endurecidos pela vida. Elas agora soam melhor com os músicos ingleses. As guitarras têm pegada, e os uivos de Jagger ecoam o som da gaita que toca. A banda já era grande quando Howlin’ Wolf gravou em 1966 a raridade “Commit a Crime”, tratada aqui com um ardor cru. Quando jovens, os Stones não teriam a carga emocional para lidar com “Little Rain”, lamento de 1957 de Jimmy Reed. Ela aparece aqui como uma tempestade que
avança devagar – um reflexo da sabedoria que vem com o tempo.

Influências Decisivas

Do blues acústico ao R&B elétrico, os Rolling Stones beberam de diversas fontes

Mick Jagger, Keith Richards e Brian Jones eram fanáticos por The King of Delta Blues, álbum póstumo do misterioso Robert Johnson (os Stones gravaram “Love in Vain” e “Stop Breakin’ Down” do bluesman). Muddy Waters, é claro, foi o homem que involuntariamente batizou os Rolling Stones, e seu blues elétrico e amplificado se infiltrou no DNA da banda de forma indelével. O baixista e compositor Willie Dixon foi uma eminência parda do blues de Chicago e era outro favorito dos Stones. Já Howlin’ Wolf exalava uma aura de ameaça sobrenatural e essa malevolência chegou às composições dos Stones do final dos anos 1960. Jimmy Reed tinha um som que era ao mesmo tempo cru e acessível; Jagger e Richards aprenderam muito com ele para começar a criar canções próprias. O repertório de Slim Harpo foi revisitado na discografia dos Stones, incluindo “I’m a King Bee” e “Shake Your Hips”. De Bo Diddley a banda emulou o ritmo, e de Chuck Berry vieram os infalíveis ri s de guitarra, que até hoje são reciclados por Richards.

Paulo Cavalcanti

Viagem à casa do Blues

Em 1964, os Rolling Stones gravaram na Chess Records, em Chicago, e boa parte do material ainda não saiu oficialmente

Tecnicamente, Blue & Lonesome é o primeiro álbum da carreira dos Rolling Stones contendo exclusivamente covers de blues. Mas isso já deveria ter acontecido há um bom tempo. Em 1964, a banda foi para os estúdios da Chess Records em Chicago, local onde gravaram os ídolos Chuck Berry, Willie Dixon, Muddy Waters e muitos outros. Foram duas sessões, uma em junho e outra em novembro. Inspirado pelo local, quinteto se ocupou de gravar covers de blues e rhythm and blues. A intenção da banda e do empresário Andrew Loog Oldham era lançar, em meados de 1965, um álbum exclusivamente com o material da Chess. Mas os executivos da Decca exigiram que as gravações fossem lançadas imediatamente. Assim, elas foram pulverizadas sem critério em singles, EPs e em álbuns como 12x5, dedicado ao mercado norteamericano. Apenas uma parte das faixas saiu oficialmente – “Little Red Rooster” e “It’s All Over Now”, por exemplo, foram bem nas paradas de singles. Mas preciosidades como “Fanny Mae”, “Key to the Highway”, “Hi-Heel Sneakers”, “Down in the Bottom” e “Tell Me Baby (How Many Times)”, dentre outras, ainda não estão nos arquivos da discografia oficial. O bootleg The Chess Sessions compila tudo o que os Stones gravaram em Chicago, incluindo uma sessão de 1965 na qual registraram material autoral.

Paulo Cavalcanti

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