Edição 125 - Janeiro de 2017

Bruce Springsteen aprofunda as revelações de sua autobiografia, fala de depressão e especula a respeito do futuro com a E Street Band

"O rock, no momento, não é o principal veículo para determinadas ideias. Tem uma mistura de pop e hip-hop que agora é o transporte para o comentário cultural", diz o ícone de 67 anos
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por Brian Hiatt

Bruce Springsteen chega assobiando. carrega um par de jaquetas de couro para este ensaio fotográfico e parece um tanto cansado, provavelmente porque há 36 horas estava em um estádio nos arredores de Boston para a última de uma série de apresentações com mais de quatro horas com a E Street Band. Uma semana antes de completar 67 anos, Springsteen está de volta a seu sítio no condado de Monmouth, em Nova Jersey, em uma tarde sem nuvens de meados de setembro. Acaba de caminhar da casa onde mora até seu estúdio, que fica na mesma propriedade.

Em todos os aspectos, isso aqui está bem distante do gravador de fita cassete que ele usou para registrar Nebraska (1982). A sala principal é cheia de objetos ligados à música, na maior parte relacionados a Elvis Presley ou ao próprio Springsteen. O lugar transborda de livros, muitos deles com temas musicais, variando da autobiografia de Chuck Berry à história do soul Nowhere to Run, de Gerri Hirshey, passando por When We Were Good, um estudo sobre o revival do folk dos anos 1960.

Springsteen acaba de acrescentar um adicional perfeito à coleção: sua autobiografia lúcida, pé no chão e recheada de fatos interessantes, Born to Run (recém-lançada no Brasil pela Editora LeYa). Junto a histórias do rock and roll (nada de drogas, um pouco de sexo, apenas uma guitarra destruída), o livro oferece a receita psicológica para a criação de um superastro que se autoflagela: a adoração desmedida da avó em relação a ele; o pai controlador que no fim das contas tinha problemas mentais em vez de ser apenas um operário rígido demais; a mãe incansável que vivia de acordo com a ideia de que “não é pecado ser feliz por estar vivo”.

Em uma sala de estar ensolarada na qual as janelas dão vista para a imensidão da propriedade, Springsteen fala sobre a gênese do livro, sua luta contra a depressão, o futuro da carreira e muito mais.

Por que escrever uma autobiografia?
Meio que aconteceu por acaso. No começo, não pensei naqueles escritos como se fossem um livro. Eu estava escrevendo para matar o tempo e achei que, se não fizesse nada com aquilo, talvez meus filhos fossem gostar de ler. Escrevi bastante durante duas ou três semanas. Quando retomei e li, disse: “Isso aqui parece bem bom”. Eu escrevia à mão e depois deixava de lado durante meses. Ou ditava a Mary Mac, miminha nha assistente, e depois reescrevia até soar sólido e conciso. Acabou se transformando em um projeto. Quando fazíamos turnê, eu deixava de lado durante todo o período na estrada, um ano e meio. Quando terminei o que viria a ser a primeira das três partes, disse: “Bom, tem uma história aqui, e talvez seja interessante para os outros”.

Você escreveu em ordem cronológica?
Escrevi. Deixei a terceira parte descansando um bom tempo. É a mais difícil, porque você está escrevendo sobre a sua vida atual a as pessoas que fazem parte dela no momento. Muitos tipos de ponderações precisam ser feitos.

Você não hesitou em revelar fatos que destroem sua figura de homem 100% correto. Foi intencional acabar com a aura de santo que foi construída em torno da sua imagem?
Foi, essa parte sempre me incomodou. É demais, sabe? Então, qualquer brecha que eu puder abrir me deixa feliz. Quer dizer, não é algo que eu estivesse determinado a fazer. Eu só estava escrevendo sobre a vida e todos os seus vários aspectos. Mas também resolvi que era um livro sobre a minha música em primeiro lugar, e sobre a minha vida mais ou menos em segundo. Se eu não queria escrever sobre alguma coisa, não escrevia. Eu não segui nenhuma regra, só queria que o que estivesse no livro tivesse relação com a minha música. Então, quanto às revelações que fiz sobre a minha família ou sobre como a minha cabeça funciona, achei que aquilo poderia ser importante para entender de onde uma parte da minha música veio. Não escrevi tudo sobre mim. Guardei muita coisa.

Você deu poder de veto a alguma pessoa em relação à última parte do livro?
Principalmente a Patti (Scialfa, integrante da E Street Band e esposa de Springsteen desde 1991)? Eu tive que revelar coisas da nossa vida. Ela é artista, entende essa parte do nosso trabalho. Mas, mesmo assim, foi muito forte e generoso da parte dela, e eu me sinto agradecido profundamente. Tudo o que eu sei sobre mulheres aprendi com a Patti. Era um conhecimento que eu procurava, e ela simplesmente apareceu na minha vida e me ofereceu uma quantidade enorme de visão e de amor e de segurança que eu nunca tinha tido. Ela é o amor da minha vida.

Há outros livros escritos sobre você. O que acha deles?
Não acompanhei muito de perto. Eu li o livro de Dave Marsh [Born to Run] há muito tempo, na década de 1970. E o de Peter Ames Carlin [Bruce], que saiu recentemente. São bons se você estiver interessado em diferentes lados meus e diferentes partes da minha história.

Onde está o lado depressivo da sua natureza nas músicas que escreve?
Nas minhas músicas? Provavelmente em um álbum sim, outro não [risos]. Obviamente, tem muito disso em The Ghost of Tom Joad (1995) e Nebraska, e em Tunnel of Love (1987). Em Tunnel of Love, trato do assunto na música “Two Faces”. É algo sobre o que tenho falado à medida que me alterno entre aqueles que podem ser considerados álbuns da E Street Band e aqueles que podem ser considerados álbuns solo. Se você pegar Darkness on the Edge of Town (1978), tem muito disso ali.

Você escreve sobre a depressão que sofreu aos 60 e poucos anos. Isso afetou o trabalho?
Não muito. Não sou capaz de dar uma resposta para explicar o porquê de eu funcionar assim, mas eu estava no limbo, daí entrava no estúdio e simplesmente começava a trabalhar. Eu escrevia, gravava.

Com que frequência fez turnês enquanto estava naquele estado?
Aconteceu no meio de algumas turnês. De maneira geral, não me afeta no palco nem nas escolhas que eu faço, mas pode me afetar um pouco fora do palco. Pode ser que eu me sinta para baixo ou confuso em algum momento. É muito raro, porque fazer turnê é muito catártico do ponto de vista emocional e físico. Se você se esforça fisicamente até o ponto da quase exaustão, fica cansado demais para se deprimir, e talvez essa seja uma das razões pelas quais eu fiz isso a vida toda. A sua cabeça não fica à toa – não tem energia para começar a procurar confusão. Em vez disso, é uma experiência que limpa a cabeça e a deixa centrada, e não há o tipo de espaço para a depressão se instalar.

Costumava haver um elemento de autoflagelação naqueles longos shows que fazia no passado.
Eu era um bom menino católico. Então, tinha algo na linha de ritual de purificação.

Agora você faz a mesma coisa, com shows de quatro horas, só que de um jeito mais saudável?
Não tenho bem certeza [risos]. Por que alguém toca durante quatro horas por noite? Eu ainda não sei exatamente por que, sabe? E eu teria que dizer que ainda remonta a alguns daqueles impulsos originais e ao fato de que eu preciso dar tudo de mim, toda vez.

Tem uma passagem em que você descreve os jantares com a família da sua mãe em termos que se assemelham muito aos seus shows.
Sempre tinha um nível de histeria que talvez não seja incomum em famílias italianas, e a minha com certeza não era diferente. As pessoas gritavam e berravam.
Mas também tinha uma quantidade tremenda de alegria e de uma animação pela vida fora do comum – não era por nada, só pelo fato de estar vivo.

Você escolheu universalizar a história do seu pai de um jeito que não correspondia à realidade. A verdade era complicada demais para canções de rock?
Talvez. Ou talvez eu tenha sido influenciado pelo [filme] Vidas Amargas e por aqueles tipos de arquétipos, e escalo nós dois para aqueles papéis. É por isso que no livro digo que fui um pouco injusto com meu pai, porque nossa vida era bem mais complexa [do que eu retratava nas canções].

Você revela que ficou meio traumatizado pelo que acontecia na sua casa.
Aquilo bastava para me deixar com os nervos à flor da pele, e também não era só por causa do meu pai. A natureza da minha relação com os meus avós, que era muito intensa, talvez provocasse uma grande ansiedade. Eu não tinha nenhuma válvula de escape para isso. Então, mordia os nós dos dedos até ficarem duros feito pedra ou piscava sem controle.

Você chegou muitas vezes perto do fracasso total. Em algum momento você voltava para Nova Jersey e sentia que não passava do maior líder de banda
de bar que já existiu?

Você pode ser muito, muito bom e errar o alvo. Mas se eu pessoalmente penso na hipótese de que isso poderia ter acontecido? Não [risos]. Ou talvez eu simplesmente prefira não pensar nisso. Eu era um leão em busca das coisas das quais precisava. E, nas minhas viagens, não vejo tanta gente assim que é melhor do que eu. Vi algumas, sabe? Mas é claro que a gente estava muito isolado em Nova Jersey naquela época.

Qual é para você o limite de idade para se apresentar ao vivo? Temos Paul McCartney, que está com o que, 76 anos?
Ele tem 74.

Setenta e quatro. Você está ligado! Ele tem feito shows de três horas. Como tem funcionado para você contemplar esse futuro?
Na minha idade, é um dia de cada vez. Dependendo da sua saúde, você pode estar em um ponto bem diferente da vida na minha idade. Então, depende de como você está fisicamente e de como se sente emocional e espiritualmente por dentro, o que está a fim de fazer e quanto esforço e dedicação ainda quer colocar no que faz. Ainda estou com tudo. Tenho dedicação total, como tinha quando estava com 16 ou 21 anos de idade. Ainda consigo fazer isso sem problema. Mas a vida, à medida que você envelhece, fica mais do tipo: “Que belo dia. Deixe-me ver, o que eu vou fazer? O que eu vou fazer nos próximos seis meses ou no próximo ano?” Mas não existe uma resposta verdadeira para essa pergunta, porque tudo depende do seu momento atual. Você percebe que existe uma finitude. Então, isso muda sua experiência noite a noite. Você pode olhar para a frente e dizer: “Certo, estou com 67 anos. Daqui a dez anos, vou ter 77. Talvez sejam mais umas quatro ou cinco turnês”. Pode pensar assim e dizer: “Uau”. Pode especular, mas não passa disso.

Você disse no palco que, com a idade, os shows ganham mais importância. É essa a finitude?
É a finitude. A intensidade que o público traz ao show agora... a plateia também experimenta a finitude. A gente passa a apreciar um pouco mais. E a experiência toda fica elevada.

Para os próximos anos a ideia é ficar alternando entre E Street, trabalhos solo, lançamentos de arquivo?
É. Tudo isso aí, sabe? A esta altura, meu plano é fazer tudo o que já faço com diferentes intervalos entre cada coisa. Não tenho nenhum plano para os próximos cinco ou seis anos fora trabalhar a música que eu estiver fazendo no momento e sair por aí, simplesmente tocando minha vida profissional em frente.

Você disse que tem um álbum pronto influenciado por colaborações com Glen Campbell e Jimmy Webb.
Eu não quero dar muita ênfase às influências, porque senão as pessoas podem ouvir o disco e se perguntar: “O que tem a ver uma coisa com a outra?” Mas foi meio que um lugar onde encontrei inspiração.

É o álbum que você quase terminou antes de Wrecking Ball (2012)?
Compus antes de Wrecking Ball, mas não consegui terminar, e na tentativa de terminar eu compus Wrecking Ball. Então, as raízes do álbum remontam a um bom tempo atrás. Às vezes é preciso esperar para que esses quebra-cabeças se encaixem sozinhos, e pode demorar anos. Quer dizer, tem um álbum em que estou trabalhando que tem 20 anos. É só a maneira como o processo está funcionando no momento.

Qual é o seu ritmo de composição agora, em comparação ao da década de 2000, quando você foi extremamente prolífico?
Bom, eu diria que Wrecking Ball saiu fácil. Os álbuns e as músicas têm corrido bem há um tempo. Mas agora já faz um tempinho que eu não componho, tirando o álbum que tenho pronto.

Você escreveu que a E Street Band pegou o jeito no estúdio com The River (1980). Mas, depois de mais um álbum com a banda, esperou 18 anos para fazer o próximo. Não parece um pouco estranho?
Foi só o jeito como as coisas aconteceram. Acho que nós finalmente aprendemos a gravar em The River, apesar de termos feito uma certa confusão. Estávamos fazendo o tipo de som que queríamos fazer, e isso continuou com Born in the U.S.A. (1984). Mas Born in the U.S.A. foi um acontecimento tão transformador que depois eu na verdade não sabia para onde ir com a banda. Então, segui em outra direção. Além disso, eu também quis fazer com que tudo ficasse mais enxuto imediatamente porque não queria entrar no jogo de “Você tem que fazer melhor do que isso e vender mais do que isso”. Não quero me transformar nesse tipo de artista.

Dito isso, como você se sentiu com o fraco desempenho comercial de Human Touch e Lucky Town em 1992, que saíram em meio ao sucesso do grunge?
Acho que o Nirvana estourou no momento em que aqueles álbuns saíram. Eu lembro que Jon [Landau, produtor], na época, estava nervoso com o fato de os álbuns não terem ido tão bem quanto ele esperava ou quanto nós esperávamos. A gente teve uma conversa: “Jon, é só que este não é o nosso momento. Nós vamos ter outros momentos”. E, se a sua vida é longa e a sua vida profissional é longa, você vai passar por isso. Às vezes, simplesmente não é o seu momento. Era o momento de outra pessoa.

Você escreve que The Ghost of Tom Joad foi um ponto fundamental para que você voltasse a compor sobre o mundo de maneira geral. Qual é a leitura que você faz de ter evitado compor a respeito de assuntos específicos durante tantos anos?
Você está sempre dentro de uma caixa, e é um daqueles mágicos que conseguem sair dela se fizer o que eu faço... ou se for uma pessoa criativa, ponto. Você constrói a sua caixa e depois sai dela. Isso acontece o tempo todo. E a certa altura você pode ter conseguido sair de tantas caixas que se vê de volta à primeira e pensa: “Ah, não achei que eu tinha mais nada para dizer sobre estas coisas. Espera um pouquinho, tenho, sim. Tenho muito mais a dizer a respeito destas coisas!”

Como você equilibra a magia que acontece com a E Street Band com as realidade diária de ser o chefe?
Você tem que aceitar o fato de que, com o passar do tempo, a coisa se transforma em negócio: se não aceitar isso, vai foder com tudo muito profundamente. Então, você só tem a ajudar a todo mundo ao reconhecer que isso faz parte da sua relação, negociando o melhor caminho como amigos e adultos.

Você escreveu que não podia andar com Clarence Clemons porque isso destruiria a sua vida.
Clarence tinha uma vida maluca, e era fabulosa. Mas não fiquem achando que podem fazer isso em casa, crianças. Ele era uma alma sincera.

Você tem amizades profundas que não são o tipo de amizade de estar junto o tempo todo?
Claro que sim. Tenho várias delas. É a maior alegria quando estou com, digamos, Steve [Van Zandt]. Não passamos muito tempo juntos. Então, é uma alegria tremenda quando estou com ele. Era uma alegria enorme estar com Clarence. Ele era hilário. Um dos sujeitos mais engraçados do planeta, uma pessoa que deixava você animado quando estava próximo.

Você achava que Wrecking Ball teria mais impacto e acabou concluindo que as pessoas não estão mais buscando o rock para aquele tipo de afirmação.
O rock, no momento, não é o veículo principal para comunicar aquelas ideias. Tem uma espécie de mistura de pop e hip-hop que agora domina as transmissões e é o meio de transporte para o comentário cultural.

Como você se sente em relação a isso?
É só o jeito como as coisas estão. O pop nunca fica parado e se transforma o tempo todo. Há ótima música sendo feita agora. Kanye West faz álbuns fantásticos. Kendrick Lamar é incrível. Você não vai querer que as coisas fiquem estáticas ou que haja uma hegemonia duradoura em relação ao que se fala na música. Mas provavelmente tem alguém em uma garagem neste exato momento, com uma guitarra, encontrando algum jeito diferente de reinventar o som. Isso sempre acontece.

Com a vantagem de poder olhar para trás, por que o rock and roll foi uma força de transformação tão poderosa na sua vida e no mundo de maneira geral?
Houve uma explosão da identidade do rock que tinha sido reprimida anteriormente em larga escala. Quando havia Little Richard e Chuck Berry e Elvis e Jerry Lee Lewis, tinha essa coisa que havia sido contida de repente explodindo nas transmissões, no mundo, dando permissão para se viver com aquela parte do seu espírito e do seu corpo que tinha sido negada anteriormente. Isso também surgiu em um momento em que as pessoas estavam questionando a religião. Então, tinha um lado secular-espiritual naquilo, baseado na satisfação e na alegria e na transcendência pessoal das circunstâncias. Aquilo atingiu bem o centro do sonho americano, o sonho de sucesso e de satisfação. Era uma força poderosa e explosiva que apareceu em um momento em que a história quase a exigia.

E quando era necessária para você também.
Eu nasci na época certa.

Coração Aberto
Livro mostra que o roqueiro pé no chão ainda tem questões íntimas a resolver

Assim como um show de Bruce Springsteen, Born to Run – Autobiografia (LeYa) parece que não acaba nunca – são 500 páginas. Mas a sensação da leitura é similar à de ver The Boss ao vivo: no final, você vai estar exausto, mas ainda com vontade de encarar mais algumas horas ao lado dele. O tom é solto e discursivo; são palavras de uma pessoa contando histórias para ela mesma, tentando colocar para fora suas questões mais profundas. Ele recorda a infância, descrevendo uma família de classe operária de Nova Jersey, formada por mulheres italianas duronas e homens irlandeses pensativos. A sombra do pai ainda assusta Springsteen: ele o descreve como um homem hostil, amargo e solitário. O músico se mostra um craque no rock, mas um total ingênuo em relação a sexo e drogas. Ele evita comprar brigas e tem uma palavra para todo mundo, desde os fiéis companheiros da E Street Band até os mais amargos desafetos. Springsteen tenta explicar as razões para sempre querer se superar, fazendo apresentações que duram mais de três horas. Ele se questiona se é carência emocional ou algum tipo de obsessão compulsiva. E diz que se sente vivo em cima do palco. “Lá, exposto a uma multidão de desconhecidos, me sinto seguro”, escreve. Born to Run – Autobiografia não é a história definitiva de Bruce Springsteen. É um capítulo a mais de uma história de vida que ele vem contando há quase 50 anos, no palco, nos discos e em entrevistas.