Edição 125 - Janeiro de 2017

O Canal da Propina

Depois de diversos atrasos e acumulando uma década de obras, a transposição do rio São Francisco se afoga em denúncias de corrupção e irregularidades trabalhistas. Enquanto isso, a seca chega à periferia de grandes cidades do Nordeste
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por André Pessoa

Vista do alto, a transposição do rio São Francisco pinta a monótona Caatinga seca com cores extraordinárias. O cinza se mescla ao verde que destaca a paisagem. Quase uma década depois do início das obras, o líquido de um dos cursos d’água mais importantes do país começa a seguir por uma complexa rede de canais que se conectam a aquedutos, túneis, açudes, estações elevatórias e adutoras sertão afora. Em tempos de estiagem impiedosa, com a seca mais longa da história (em dezembro de 2016, eram quase 140 açudes completamente vazios), a obra é apresentada à população brasileira como a solução para as comunidades humanas e animais que vivem ali.

No entanto, o que seria a melhor alternativa a curto prazo se transformou em uma extensa rede de corrupção. Considerada o maior empreendimento de infraestrutura em andamento no Brasil, a transposição do rio São Francisco – ou Projeto de Integração do Rio São Francisco com Bacias Hidrográficas do Nordeste Setentrional (Pisf) – foi iniciada na gestão do ex-presidente Lula em 2007, mas a ideia remonta ao Brasil Império (1822- 1889), sonhada por dom Pedro II. A história registra que, em 1847, o engenheiro cearense Marcos de Macêdo apresentou ao imperador um esboço do projeto para transposição do São Francisco como solução para resolver a seca na região.

O projeto atual engloba a construção de mais de 700 quilômetros de canais, além da recuperação de 23 açudes que devem receber as águas do Velho Chico. O objetivo central é assegurar a oferta de água, até 2025, a cerca de 12 milhões de habitantes da zona rural e de pequenas, médias e grandes cidades. Na área ambiental estão previstas obras de saneamento básico em 102 municípios, controles de processos erosivos e desertificação, melhoria da navegabilidade e recuperação de matas ciliares, entre outras. Tudo muito bem explicado no papel.

Na prática, no entanto, o empreendimento se arrasta em meio a atrasos e problemas financeiros – foi inicialmente orçado em pouco mais de R$ 4 bilhões, mas está perto de consumir cerca de R$ 8,2 bilhões sem perspectiva real de finalização para os próximos meses, como a reportagem da Rolling Stone Brasil constatou em uma série de viagens à região entre 2015 e outubro de 2016. Para piorar, em dezembro passado o Ministério Público do Trabalho (MPT) pediu a suspensão imediata das obras da transposição em função da descoberta de irregularidades trabalhistas, principalmente nas obras do Túnel Monteiro, incluindo grave risco de acidentes de trabalho no local.

Mesmo assim e fazendo vista grossa para a realidade – 820 das 1.050 cidades da região dependem hoje de caminhões-pipa para o abastecimento da população –, o governo federal divulga agora que o Eixo Leste da transposição ficará pronto nos primeiros meses de 2017. Em visita recente ao estado de Pernambuco, o presidente, Michel Temer, do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), disse que “em fevereiro, no máximo em março, vamos inaugurar a primeira etapa dessa obra”. Uma afirmação que chega a ser utópica para quem conhece a realidade do empreendimento.

As promessas vêm de longe. Voltando no tempo: em 2009, o ex-presidente Lula, renascido das cinzas do esquema de corrupção do Mensalão, anunciou que a inauguração da obra ocorreria em poucos anos. Em um discurso inflamado no interior do Rio Grande do Norte, o líder petista fez referência a uma passagem bíblica dizendo que somente uma inundação mudaria seu cronograma. “Eu estou percebendo que a obra vai ser inaugurada definitivamente em 2012, a não ser que aconteça um dilúvio ou qualquer coisa”, profetizou.

O mito do dilúvio é uma narrativa em que uma inundação, geralmente enviada por uma ou várias divindades, destrói a civilização. Lula só não imaginaria que uma grande enxurrada iria abalar a República controlada pelo Partido dos Trabalhadores (PT). Ela não veio em forma de ondas, maremotos ou tsunamis, mas sim a partir de investigações e denúncias de uma força-tarefa formada por policiais, procuradores e juízes federais. Os estragos foram devastadores e abalaram profundamente diversos políticos brasileiros, entre eles o atual presidente e alguns dos seus principais ministros.

A primeira denúncia de corrupção envolvendo a transposição do rio São Francisco aconteceu ainda quando o Exército era o responsável pelos trabalhos na Caatinga. Na época, em 2011, o batalhão de engenharia responsável foi acusado de roubo de materiais de construção, favorecimento de empresas e direcionamento de licitações. O caso foi revelado pelo jornal Correio Braziliense e, com o escândalo envolvendo as forças armadas na mídia, as grandes empreiteiras aproveitaram para ganhar terreno e assumir pouco a pouco os serviços no interior nordestino, acreditando na impunidade.

Somente em meados de 2015 é que uma reviravolta mudaria os rumos da obra. Delegados e agentes da Polícia Federal foram a campo para deflagrar uma operação derivada da Lava Jato e focada especificamente em desvios na transposição do São Francisco. Denominada de Vidas Secas – Sinhá Vitória (uma alusão à falta de água no sertão e em referência à personagem do livro Vidas Secas, de Graciliano Ramos), a operação resultou em mandados de prisão para empresários, funcionários e doleiros – alguns dos quais, não tão surpreendentemente assim, já haviam sido detidos em fases da Lava Jato.

Os desvios, ainda sob investigação, foram realizados pelo consórcio formado pelas empresas OAS, Galvão Engenharia, Barbosa Melo e Coesa, responsáveis por dois dos 14 lotes do megaempreendimento. O grupo, do qual quatro empreiteiras já eram investigadas na Lava Jato, é suspeito de superfaturamento e de usar empresas de fachada dos doleiros Alberto Youssef e Adir Assad, condenados por envolvimento no esquema de corrupção da operação envolvendo a Petrobras.

Apesar de conectada à operação liderada pelo juiz Sérgio Moro, do Paraná, a nova investigação está sendo realizada pela Polícia Federal no Recife (PE), independentemente de Curitiba. No entanto, ao perceber que os alvos eram os mesmos da Lava Jato, os investigadores e os procuradores federais compartilharam informações com a força-tarefa paranaense. Na época foram cumpridos 32 mandados, sendo 24 de busca e apreensão, quatro de condução coercitiva e quatro de prisão. Foram detidos Elmar Juan Passos, presidente da OAS, Alfredo Moreira Filho, ligado às empreiteiras Coesa e Barbosa Mello, e Mário de Queiroz Galvão e Raimundo Maurílio de Freitas, da Galvão Engenharia.

Mas as restrições de liberdade não duraram muito. Três dias depois de recolhidos à carceragem da PF, os executivos ganharam liberdade por determinação do juiz Felipe Mota Pimentel de Oliveira, da 38ª vara da Justiça Federal em Pernambuco. Eles foram detidos no dia 11 de dezembro de 2015 e soltos no dia 14 do mesmo mês. A decisão, no entanto, só foi divulgada no dia 21 seguinte. No despacho o juiz entendeu que a prisão dos executivos não se justificava, já que as operações de busca e apreensão tinham sido executadas com sucesso.

Em 2016, as obras da transposição voltaram ao cenário policial. Uma espécie de segunda fase da Vidas Secas, a operação Turbulência teve como foco um desvio de R$18,8 milhões de uma terraplanagem. O pagamento foi feito à OAS e o proprietário da empresa receptora, Paulo Cesar de Barros Morato, foi encontrado morto no quarto de um motel em Recife, alguns dias depois da operação. A causa da morte foi envenenamento e a polícia trabalhava com a hipótese de suicídio.

Quando a transposição foi anunciada, no primeiro governo Lula, os movimentos sociais foram contra a obra. Já havia a proposta do Atlas do Nordeste, elaborado pela Agência Nacional de Águas (ANA), para fazer múltiplas intervenções, de porte médio, por tubulação, abastecendo praticamente todas as cidades do Nordeste. A corrente contra a transposição, que tem no padre dom Frei Luís Flávio Cappio sua figura mais representativa, afirma que a obra é nada mais que uma “transamazônica hídrica”, e que além de excessivamente cara não será capaz de suprir a necessidade da população local, uma vez que o problema não seria a falta do produto, mas a má administração dos recursos existentes.

O Nordeste é uma das regiões com maior número de reservatórios artificiais do mundo, com 70 mil açudes que podem armazenar 37 bilhões de m3 de água, suficientes para abastecer grande parte dos municípios do semiárido caso diversas obras de distribuição programadas antes da transposição tivessem sido realizadas.

Para a população contrária à transposição, a melhor forma de amenizar a seca seria a reforma dos açudes e a construção de poços para captação de água no lençol freático, além de reservatórios para a coleta da chuva. Francisco Silva, de 52 anos, mãos e pés rachados por causa da pesada lida diária na Caatinga, desabafa, relatando que até agora a água não chegou. “Os funcionários não deixam a gente nem chegar perto do canal, imagine pegar água”, diz. “Enquanto isso, minhas cabras morrem de sede aqui, bem ao lado da obra.”

O projeto da transposição do rio São Francisco é um tema polêmico, pois engloba a tentativa de solucionar um problema que há muito afeta as populações do semiárido. Trata-se de um projeto delicado do ponto de vista ambiental, pois está afetando um rio extremamente importante, tanto pela sua extensão e biodiversidade quanto pela sua utilização para produção de alimentos, transporte e abastecimento de centenas de municípios ao longo de seu curso.

Para o engenheiro agrônomo João Suassuna, especialista em recursos hídricos da Fundação Joaquim Nabuco, o problema não é a falta de água. “O que não existe é o gerenciamento dos recursos e o estabelecimento de critérios para seu uso”, garante. Antônio Carlos de Moraes, geógrafo da Universidade de São Paulo (USP), defende maior participação das comunidades. “Há muito tempo não há no Brasil uma obra dessa magnitude. Ela tem um potencial muito grande de transformação, por isso deveria ser mais discutida com a sociedade.”

A obra prevê a conclusão de dois canais: o Eixo Norte, que levará água para o interior de Pernambuco, Ceará, Paraíba e Rio Grande do Norte, e o Eixo Leste, que beneficiará parte do sertão e regiões do agreste de Pernambuco e da Paraíba. O Eixo Norte, a partir da captação no rio São Francisco, próximo à cidade de Cabrobó (PE), percorrerá cerca de 400 quilômetros cruzando serras através de túneis e conduzindo água aos rios Salgado e Jaguaribe, no Ceará, Apodi, no Rio Grande do Norte, e Piranhas-Açu, na Paraíba e no Rio Grande do Norte. O Eixo Leste, que terá sua captação no lago de barragem de Itaparica, no município de Floresta (PE), se desenvolverá por um canal de 220 quilômetros, passando também dentro de um túnel até o rio Paraíba (PB), após deixar parte da vazão transferida nas bacias dos rios Pajeú e Moxotó, no agreste pernambucano.

Apesar das incontáveis críticas, há quem acredite no projeto. Segundo Antônio Evaldo Klar, engenheiro agrônomo da Universidade Estadual Paulista, coordenador do curso de pós-graduação de irrigação e drenagem da Faculdade de Agronomia de Botucatu e especialista em estudos sobre o tema, não existe outra solução para o Nordeste fora da transposição das águas do São Francisco. “Qualquer outro projeto será apenas paliativo”, afirma. Ele compara o semiárido nordestino a regiões igualmente secas, como Califórnia, nos Estados Unidos, ou Israel, onde a escassez de água foi superada com a transposição de rios.

A engenharia dos eixos de integração consiste em canais de terra com 25 metros de largura e 5 metros de profundidade, com revestimento composto de uma membrana plástica impermeável e recobertos por concreto. Nas regiões de travessia de riachos e rios foram construídos aquedutos. Para ultrapassar regiões de maior altitude, estão sendo construídos túneis. Nove estações de bombeamento para elevar a água estão em obras ou já foram construídas: três no Eixo Norte, para vencer altitudes de 165 metros, e seis no Eixo Leste, onde as águas serão elevadas à altitude de 304 metros.

Vivendo em uma pequena propriedade no Ceará, onde planta cebola, feijão e milho, Raimundo Filho, de 45 anos, espera dias melhores com as águas da transposição, ainda que não tenha esperança de que isso ocorra logo. Por enquanto, ele irriga sua plantação com a água que restou de um gigantesco reservatório conhecido como Castanhão e que, entre outras funções, abastece a capital cearense, Fortaleza. “Como não têm caído chuvas aqui desde 2013, o açude vai secar logo, logo, e aí a situação ficará complicada. O povo diz que nem tão cedo podemos esperar essa água, pois a prefeitura precisa fazer uma tal de adutora [rede de distribuição]”, diz desanimado, para em seguida arrematar: “E, se depender dos políticos daqui, o senhor já sabe, né?”

Em vários trechos da transposição as obras caminham a passos lentos ou foram completamente paralisadas após as investigações da Polícia Federal terem ganhado proporções nacionais. Em setembro de 2016, a Mendes Júnior declarou oficialmente sua decisão de deixar as obras de construção do Eixo Norte, afirmando que não tinha condições financeiras e técnicas para cumprir os compromissos. A construtora mineira era responsável por um trecho de 140 quilômetros de extensão entre Cabrobó (PE) e o reservatório de Jati, no Ceará, incluindo três elevatórias.

Ficou claro que ela se viu em maus lençóis com o desenrolar das investigações. Além dos problemas com a obra, a construtora está envolvida nos processos que apuram o esquema de corrupção na Petrobras. Alguns meses antes, já havia anunciado a possibilidade de abandonar o projeto, por perda de capacidade financeira. A rescisão contratual com a Mendes Júnior foi assinada em outubro de 2016, mas antes de abandonar definitivamente o canteiro de obras o grupo paralisou uma série de trechos sob sua responsabilidade e fez a demissão de centenas de trabalhadores, gerando uma crise em cidades como Salgueiro (PE), que viviam o boom da obra. Rodovias foram interditadas por protestos dos trabalhadores com salários atrasados e vários comércios fecharam.

Imbróglios como esse demonstram que a transposição ainda está longe de ser concluída. Conforme o cronograma original, a obra está com um atraso superior a cinco anos; agora, há a necessidade de uma nova licitação, portanto deve atrasar, na melhor das hipóteses, em pelo menos mais um ano. O modelo do novo contrato foi definido em parceria com o Tribunal de Contas da União (TCU) e as propostas estão previstas para serem abertas na primeira quinzena de janeiro. Assim, a contratação das obras só deverá ocorrer em fevereiro de 2017.

Porém, o Ministério da Integração Nacional vem divulgando que 90% da obra está finalizada e promete a entrega do Eixo Leste, que cruza Pernambuco até a Paraíba, para os primeiros meses deste ano. Na direção contrária, nossa reportagem constatou in loco que ainda falta muito para a conclusão do empreendimento. Basta percorrer os dois eixos da obra para verificar que sem as adutoras locais, de responsabilidade dos governos estaduais e municipais, as águas ficarão, no máximo, concentradas nos grandes reservatórios.

No Eixo Leste, em um sítio próximo à nascente do rio Paraíba, Nelson Muniz vive ao lado de um forno de carvão – fonte de renda quando a seca impede a produção da roça ou a criação de animais. Ele vende o saco de carvão a R$ 9 (de dez a 15 sacos por mês). Parte do carvão provém das montanhas de lenha que resultaram do desmatamento para abertura dos canais da transposição e que estão apodrecendo ao longo da obra. No terreno, restou apenas o forno. Muniz foi indenizado em R$ 37 mil pela casa que precisou ser derrubada para a passagem da água. Para evitar que toda a madeira desmatada nos trechos da transposição fosse desperdiçada, a ideia do governo federal seria doá-la ao programa Fome Zero, atual Bolsa Família, o que nunca ocorreu.

Antes de deixar o governo, a ex-presidente Dilma disse que para cada real investido nesses grandes canais serão necessários pelo menos R$ 2 para fazer as obras de distribuição para os municípios. Portanto, se os canais estão na ordem de R$ 8,2 bilhões, será preciso mais R$ 16 bilhões para que a água de fato chegue à população. As contradições que cercam o empreendimento também estão nos discursos do ex-presidente Lula. No dia 15 de setembro de 2006, no interior do Rio Grande do Norte, Lula afirmou: “Fernando Bezerra ficou três anos como ministro da Integração tentando trazer a transposição das águas do rio São Francisco e eu já estou há quatro anos. Já foi feito o projeto, dezenas de audiências públicas, mas sempre tem uma parcela muito pequena de uma elite que se acha dona do rio São Francisco e não quer que a gente traga um pouco de água”. No mesmo dia, em outra cidade, afirmou: “Não é possível fazer transposição de água que não existe”.

Em 2012, em visita ao canteiro de obras no interior de Pernambuco e constrangida por não poder fazer a inauguração conforme havia sido prometida por Lula, a ex-presidente Dilma se pronunciou novamente. “Nós temos uma clara perspectiva de fazer com que essa obra entre em regime de cruzeiro. Nós vamos cobrar metas, resultados, resultados concretos”, afirmou. Já em 2014, durante a campanha pela reeleição e novamente sem a possibilidade de inaugurar a obra, ela reconheceu: “Eu acho que houve uma subestimação da obra. Não acredito que uma obra dessas em outro lugar do mundo leve dois anos para ser feita”.

O TCU já apontou diversas falhas na execução do projeto de transposição, entre elas irregularidades e negligências no Programa de Revitalização da Bacia Hidrográfica do São Francisco. Os técnicos do órgão perceberam, por exemplo, que a vazão do rio e de seus afluentes pode estar sendo reduzida por causa da erosão de suas margens. O Programa de Revitalização faz parte da transposição e tem como meta realizar ações voltadas para a sustentabilidade socioambiental.

Segundo o TCU, ainda não foi possível avaliar a efetividade das ações voltadas à recuperação e ao controle de processos de erosão no rio estabelecidos no programa. “O Ministério do Meio Ambiente precisa apresentar um conjunto de ações para que o problema da erosão da bacia não se transforme em uma verdadeira agressão ao meio ambiente e à população local”, alertou o ministro Augusto Nardes, acrescentando que o não cumprimento das determinações do TCU pode acarretar multas.

O programa de Revitalização do São Francisco tem projetos que visam garantir alternativas econômicas, principalmente para os ribeirinhos. Um deles, o que oferece sementes e mudas de árvores frutíferas, tinha soluções pontuais, assim como os mecanismos propostos para incentivar os moradores locais a recuperar e preservar as margens do rio, suas nascentes e encostas. Até agora nenhum hectare de Caatinga foi recomposto. Recursos sob responsabilidade do Ministério do Meio Ambiente e que seriam destinados à manutenção dos Centros de Referência para Recuperação de Áreas Degradadas (Crad’s) foram reduzidos, apesar de o governo divulgar a prioridade do projeto. Os orçamentos foram contingenciados em 50% e, em alguns casos, como o Crad com base em Petrolina (PE), praticamente zerados.

Chamado carinhosamente de Velho Chico e conhecido como o rio da integração nacional, o rio São Francisco é um dos mais importantes do Brasil. Nasce em Minas Gerais e passa pelos estados da Bahia, Pernambuco, Alagoas e Sergipe até desaguar no Oceano Atlântico, percorrendo aproximadamente 2.830 quilômetros. Sua bacia forma uma região bastante complexa, tanto sob o ponto de vista ambiental, caracterizado por uma imensa variedade climática, com secas e enchentes periódicas, como pela grande variedade de ecossistemas naturais e desconhecida biodiversidade, sendo habitat de várias espécies ameaçadas de extinção.

Nos âmbitos social, econômico e político a área de influência do rio é marcada por graves problemas de pobreza, desnutrição, doenças e má distribuição de renda. Levantamentos atualizados apontam que cerca de 15 milhões de habitantes residem na área de influência do rio, com alta taxa de migração e êxodo rural. Sozinho, o Velho Chico representa 70% de toda a oferta regional do produto.

Atualmente, o rio está com apenas 700 m3/s de vazão. Para a vitalidade ecológica, a vazão deveria ser de 1.200 m3/s. Não se sabe ao certo quanta água o rio terá até que as obras sejam concluídas e ela possa finalmente chegar aos sertanejos. “Será que eu ainda vou ver essa obra funcionando?”, indaga o pernambucano Luiz da Mata, de 57 anos, iluminado pelo vermelho pôr-do-sol na Caatinga.

Considerada a mais importante obra dos governos petistas, a transposição se transformou em um escândalo político, mas pior que isso: deixa o sertanejo desesperado, passando sede, com animais morrendo, plantações que não vingam, pobreza se alastrando e um rastro de prejuízos ambientais sem proporção. O iminente colapso no abastecimento de cidades imensas como Campina Grande, na Paraíba, com mais de 400 mil habitantes, é assustador.

Para os habitantes desse município, todas as esperanças estavam depositadas nas águas do São Francisco que cortariam o agreste pernambucano até chegar à pequena e seca Monteiro, na Paraíba. Dali as águas entrariam na calha do rio até chegar ao açude Epitácio Pessoa, mais conhecido como Boqueirão, responsável pelo abastecimento de Campina Grande e de dezenas de outras cidades paraibanas.

No entanto, os canais da transposição ainda não conseguiram se conectar ao rio e, para piorar, as chuvas não vieram, deixando a situação preocupante. A cidade, que enfrenta rodízios cada vez mais frequentes e tem alguns bairros atendidos por carros-pipa, pode sofrer um desabastecimento se não chover a tempo de melhorar o nível de seu principal reservatório. Segundo a Agência Executiva de Gestão das Águas do Estado da Paraíba (Aesa), até o fechamento desta edição o açude do Boqueirão estava com pouco mais de 5% de sua capacidade, muito próximo de deixar o estágio considerado de observação (abaixo de 20% do volume total) para o de situação crítica (menor que 5% do volume total).

Outro exemplo do dramático quadro tem um carimbo oficial. Mesmo indo contra um parecer do IBAMA, a Agência Nacional de Águas (ANA) autorizou a Companhia Hidrelétrica do São Francisco (Chesf), subsidiária da Eletrobrás, a reduzir a vazão da Usina Hidrelétrica de Sobradinho de 800 para 700 m3/s até o dia 31 de janeiro de 2017. Se essa medida drástica não fosse tomada, o reservatório chegaria ao final de 2016 com apenas 2,4% de sua capacidade. É o pior cenário em 85 anos.

Na conclusão desta reportagem, o local contava com menos de 12% de sua capacidade total. Caso as chuvas não amenizem a situação, até mesmo a geração de energia pode ser comprometida. Sobradinho é a principal usina produtora de energia elétrica da bacia do rio São Francisco. Segundo João Henrique Franklin, diretor de operações da Chesf, que administra o sistema, o problema ocorre por causa da falta de chuvas nos últimos dez meses. “Essa é a grande caixa-d’água do Nordeste”, ele resume, detalhando a importância do reservatório. Sobradinho, que ao nascer deu vida à profecia feita por Antônio Conselheiro afirmando que “O sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão”, é o reservatório responsável por liberar as águas que vão percorrer as artérias da transposição. Sem água, os canais de concreto da obra podem ser danificados em pouco tempo, reduzindo todo o investimento feito até hoje a nada. Mas, como escreveu Euclides da Cunha no clássico Os Sertões, “o sertanejo é, antes de tudo, um forte”. As obras da transposição seguem envoltas em uma nuvem de desvios de verba e atrasos, porém os nordestinos ainda podem contar com a chuva. Se ela vier.

Transposições Planeta Afora

Em outros países, há casos bem-sucedidos de projetos como o que está sendo colocado em prática no São Francisco

As principais civilizações da Antiguidade surgiram próximas a bacias hidrográficas e souberam adequar-se a situações de inundações ou de escassez de água construindo represas e aquedutos. No Brasil, algumas regiões metropolitanas têm acesso à água por meio de transposições de rios, caso das cidades de São Paulo e Rio de Janeiro. Ainda assim, entre 2014 e 2015 a capital paulista sofreu a maior crise hídrica de sua história. Geralmente obras de transposição são caras, polêmicas, ambientalmente contestáveis, estruturalmente complexas e demoradas. Foi o caso de uma iniciativa recente: o leito do rio mais longo da Ásia, o Yang Tsé, com 6.300 quilômetros, chegou a Pequim, Tianjin e a outras cidades do norte da China em 2014, depois de 12 anos de iniciada a obra. Idealizado em 1952 pelo então líder chinês Mao Tsé-tung, o projeto passou por dificuldades técnicas que atrasaram sua aprovação em quase meio século. Estados Unidos e Israel também realizaram obras de transposição. Na Califórnia, desde 1930 intervenções dessa natureza vêm sendo realizadas. As principais obras ocorreram entre os rios São Joaquim, Sacramento e Colorado, abrangendo um vasto programa que envolve irrigação, abastecimento de cidades, hidrelétricas e turismo.

Reconstrução Falha

Programas de manutenção da flora e da fauna no entorno das obras têm importância, mas apresentam problemas

Destaque positivo da transposição do rio São Francisco, os 38 programas ambientais estabelecidos pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) fazem a diferença em várias áreas do Nordeste. Apesar de apresentarem problemas, muitos deles ajudam a ampliar o conhecimento científico em um pedaço do Brasil até então relegado a segundo plano. Pela primeira vez um empreendimento desse porte decidiu atacar o desequilíbrio regional envolvendo as instituições de pesquisa do interior, em especial a Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf), para coordenar ações ambientais, pesquisas científicas e programas sociais.

O Centro de Conservação e Manejo de Fauna da Caatinga (Cemafauna), por exemplo, criado e construído dentro do campus de ciências agrárias da Univasf, faz o monitoramento de fauna e maneja toda a parte dos cuidados em cativeiro necessários aos animais silvestres capturados nas áreas do empreendimento. Nos mesmos moldes foi criado o Núcleo de Ecologia e Monitoramento Ambiental (Nema), responsável pela área botânica. O Nema tem como um dos seus objetivos realizar a recomposição florestal dos trechos afetados pelo desmatamento da obra, criando um viveiro de referência da Caatinga. Infelizmente, a recomposição da área ainda não está sendo feita de maneira efetiva. Já o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia de Arqueologia, Paleontologia e Ambiente do Semiárido do Nordeste do Brasil (Inapas), ligado ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) – e com uma das suas bases na pequena cidade de São Raimundo Nonato, no Piauí, em parceria com a Fundação Museu do Homem Americano –, ficou responsável pelo resgate arqueológico e paleontológico das obras da transposição. O órgão atua como uma rede de conhecimento entre as instituições brasileiras e estrangeiras que realizam pesquisas na região Nordeste. Há, no entanto, pontos preocupantes. O Centro de Referência para Recuperação de Áreas Degradadas (Crad) de Petrolina (PE), ligado à Univasf eliderado pelo professor José Alves de Siqueira Filho, ganhador do prêmio Jabuti de Literatura com a obra A Flora das Caatingas do Rio São Francisco, passa por uma grave crise. Mantido com recursos do Ministério do Meio Ambiente, o órgão acaba de demitir quase todos os seus funcionários por falta de verba. A maior e melhor coleção de plantas da Caatinga, mantida em um herbário em Petrolina e que é referência internacional, corre sérios riscos por falta de manutenção.