Edição 127 - Março de 2017

É o Poder

Irreverente, sem receio de dizer o que pensa e com coragem para peitar os puristas, Karol Conka alcançou patamares inéditos para uma mulher no rap brasileiro. E ela quer mais
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por Lucas Brêda

Karol Conka apalpa os seios agressivamente enquanto entoa o título de “100% Feminista”, parceria com a funkeira MC Carol, balançando a cabeça na vertical, de maneira cíclica. É pré-carnaval em São Paulo e a rapper domina o palco da casa de shows Cine Joia. Está tudo ali: o look ultra-colorido, o cabelo rosa, as batidas quentes e com sabor brasileiro, as rimas provocativas e uma capacidade de reconhecer as próprias singularidades sem adotar qualquer tom de pedido de desculpa. Há também um clima de autossuficiência. É como se todos, só por estar ali, soubessem de uma regra não falada – é proibido sentir-se envergonhado. A junção desses elementos é o que faz de Karol uma artista tão magnética. Não só a primeira a mulher brasileira do rap a furar o mainstream, mas alguém que chegou lá sem aceitar imposições. Fosse feito por uma cantora com a magnitude de Karol dez anos atrás, o jogo gestual em “100% Feminista” dificilmente carregaria o mesmo sentimento que teve naquela noite: ali, era mais uma demonstração de autoridade do que de sensualidade.

“Estou sempre chapada e ouço música o tempo inteiro”, diz Karol Conka no backstage. É assim que ela justifica a variedade da playlist escolhida para animar o camarim, alternando entre Erykah Badu, A$AP Rocky, Miles Davis e faixas do rap norte-americano mais recente. Essa é a dieta musical diária de Karol, mas não é raro vê-la no Instagram cantando samba ou dançando reggae. “E eu amo jazz”, acrescenta, minutos antes de subir ao palco, enquanto os alto-falantes ressoavam “Fake Love”, de Drake. “Mas costumo ouvir mais jazz quando tenho um ensaio de fotos, tenho que ficar maquiando. Se eu pudesse, escutaria agora, só que ia ficar todo mundo muito down.”

Qualquer encontro com Karol só começa quando há música ao fundo. No dia em que posou para a capa da Rolling Stone Brasil, ela carregou uma inseparável caixa de som portátil, e, em uma das entrevistas, só passou a falar depois de posicionar a agulha da vitrola em um vinil antigo de João Donato. Até por isso não soa estranho notar que o sample – em loop e desacelerado – usado em “Boa Noite” foi minuciosamente encontrado nos segundos de transição entre as faixas “A Cidade” e “A Praieira”, de Da Lama ao Caos (Chico Science e Nação Zumbi, 1994). “Queria uma batida que lembrasse uma música do Lil Wayne e [o coral das] Baianas de Ipioca, de Alagoas. Queria que soasse macumbeira, um rap brasileiro”, relembra Karol sobre a gravação.

Mesmo já existente nos sambas que os pais ouviam ou nos vídeos de The Cure e Destiny’s Child a que assistia na MTV, a dinâmica de estar sempre acompanhada por música foi de fato estabelecida quando Karol ficou grávida. “Tive depressão pós-parto, fiquei mal por uns três anos”, revela. “Eu aprendi demais, estudei. Foi quando eu descobri o tipo de artista que queria ser.”

Jorge nasceu em 2006, quando ela tinha 19 anos, de um relacionamento com o rapper Cadelis, companheiro dela no grupo Agamenon. “Falava que nunca ia me envolver com alguém do rap. Tive a sorte de ser com um cara sangue bom”, diz ela sobre o MC, que mora com o filho em Curitiba, terra natal de Karol, e é amigo da cantora. “Até morei com o Cadelis, mas não era o que eu queria. Eu tinha medo de ser mãe solteira. Quando você engravida jovem, a primeira coisa que acontece é que você perde contato com os amigos e percebe que não tem amigos de verdade. Quando o Jorge fez 3 anos, voltei a morar com a minha mãe e comecei a entender o processo de reconstrução.”

Na ocasião, ela conquistou tanto espaço no Agamenon que causou desconforto em um dos integrantes, o MC Bigue, e decidiu seguir solo. “O [produtor] Nave, que era amigo do Cadelis, deixou umas batidas, mas eu estava toda amarga, não queria saber”, lembra. “Entendi que tinha que passar por aquele sofrimento para elevar a alma. Decidi ser uma nova pessoa. Aí fiz ‘Me Garanto’ no beat do Nave.”

A faixa foi a primeira gravação solo divulgada por Karol e inaugurou a parceria com Nave (Emicida, Marcelo D2), com quem ela desenvolveu o disco de estreia, Batuk Freak (2013), feito na casa do beatmaker. O LP seguiu a onda de “Boa Noite” e “Gandaia”, ocupando um espaço até então pouco explorado pelo hip-hop nacional, com temas e abordagens alheios à crítica social em batidas e samples conectados com a música brasileira. Para completar, realizado por uma mulher. “É um álbum que não foi fácil de fazer, as letras são mensagens para pessoas que estavam próximas, mas não me escutavam. Isso eu nunca quis que o público soubesse, mas talvez hoje eu não me importe de falar.”

Um elemento indispensável na rotina de trabalho de Karol é um par de copos reutilizáveis, com canudinho, que ela carrega para todo lado. “Todo show é aquele kit: o copo roxo com água e o copo rosa com uma bebida alcoólica, que é sempre cerveja ou vinho”, explica. “É o combo da tranquilidade [risos]. Não gosto de ficar bêbada – sei que posso, mas não gosto de perder o sentido. Bebo porque gosto de beber mesmo. Já sou muito solta e acabo ficando mais relax.” Ela já se apresentou tão bêbada a ponto de esquecer as próprias músicas, prática que deixou no passado pré-Batuk Freak. “Foi aquela experiência que despertou esse cuidado: agora, todo show estou sóbria. Só que estou sempre chapada [de maconha], então isso [estar chapada] é meio que normal.”

Mais que uma mania, o “combo da tranquilidade” carrega um pouco da postura de Karol nos dias de hoje. Ela diz nunca sentir nervosismo antes de subir ao palco e, nas Olimpíadas no Rio de Janeiro – quando cantou na abertura com a rapper mirim MC Soffia, para mais de 2 bilhões de espectadores –, estava tão tranquila que dormiu por mais de quatro horas no camarim (“Não tinha nem uma cervejinha”, lamenta). As exceções na calmaria foram a apresentação para cerca de 20 mil pessoas na Corrente Cultural de Curitiba, em 2013, e o show no festival Lollapalooza de 2016, segundo ela, o melhor até hoje. “Já tinha ficado nervosa para decidir quem convidar. Chamei uma menina do rap, mas não rolou”, lembra ela, sussurrando malandramente o nome da cantora que rejeitou o convite enquanto ri. “Chamei a MC Carol e falei: ‘Ó, nunca botaram uma mulher do funk lá’. Ela queria estar vestida de dólar. Me arrepio só de lembrar desse dia, a gente chorava, ela estava com um ‘oclão’ e a lágrima escorria. Tinha muita gente. Foi o dia em que tudo que eu tinha programado aconteceu.”

Karol fez 30 anos no último mês de janeiro e, agora, mora definitivamente em São Paulo, mas costuma voltar a Curitiba uma vez por mês para visitar filho, família e amigos. Com a ajuda da stylist Anna Boogie, tornou-se ícone fashionista, ostentando looks invocados, cantando em festas do universo da moda e até aparecendo como convidada de honra do desfile do estilista Reinaldo Lourenço, na São Paulo Fashion Week. “A Anna chegou na minha vida falando: ‘Karol, acho que você vai virar uma fashionista, você tem uma visão de moda’”, conta, sem conter o carinho que sente pela amiga. “Eu não conhecia nada. Uma vez, acho que já em 2014, ganhei uma maquiagem e uma amiga falou: ‘Esse estojo é da Saint Laurent’. E eu: ‘O que tem a ver com a Lindsay Lohan?’”, ri.

A relação de Karol com a beleza foi construída com a ajuda dos pais. Uma história na infância virou notícia depois que ela a contou na TV: Karol chegou a tentar “descolorir” a própria pele com água sanitária, após sofrer racismo na escola. “Lembro desta e de muitas outras [situações geradas por racismo]”, confessa Ana Maria, mãe da rapper, por e-mail. “Minha reação foi dialogar muito e explicar, como sempre, que ela era linda, que as pessoas não entendiam a beleza negra, que não tinham olhos para nos enxergar”. Ana também passou a presentear a filha constantemente com bijuterias e acessórios. Já na adolescência, Karol se vestia “de vários jeitos”. “Tinha dias que eu era gótica, dias que eu ficava hippie. Usava umas camisas gigantes da minha mãe para parecerem uma capa – bem uó, ai meu deus – e, na escola, fazia estampas na calça com corretivo, para ficar diferente.”

Para Karol, um ícone da beleza negra feminina é Taís Araújo, que acabou estrelando – ao lado do marido, Lázaro Ramos – o clipe de “Maracutaia”. Na ocasião, as duas não tiveram muito tempo para conversar. Um encontro mais apropriado aconteceu com a atriz sendo uma das convidadas do programa Superbonita, do GNT, que a rapper apresenta a partir de março. “Sempre quis ver a Taís ao vivo na vida, mas ali nós sentamos, batemos um papo, demos risada”, Karol enche a boca, em um dos poucos momentos em que deixa o deslumbramento ameaçar a serenidade. “Ela é a referência, é a Taís Araújo. E disse coisas lindas: que meu posicionamento ajuda até na relação dela com os filhos. Ela fica feliz de ter uma artista para os filhos dela gostarem.”

Karol apresenta 13 episódios do Superbonita, que já foi comandado pela própria Taís e teve Ivete Sangalo como última apresentadora. Nas gravações, que acabaram em fevereiro, ela recebeu convidadas das mais diversas, de Sophia Abrahão a Valesca Popozuda, passando por Paloma Bernardi, Clarice Falcão e Jout Jout, para tratar de temas como união entre mulheres, superexposição na internet, pelos, liberdade comportamental e maternidade. “Fiquei surpresa, não esperava [o convite para apresentar o programa] agora”, confessa. “Pensei: ‘Vamos ver no que dá’. Mas fiquei feliz, porque me deixaram à vontade. Não uso teleprompter, nada disso. É como estamos aqui, agora: conversa. E não é só a mulher ‘superbonita’, é a pessoa ‘superbonita’. Aborda um estilo comportamental, é mais amplo.”

A entrada no Superbonita infla a figura de Karol como estrela para além da música, alguém que as pessoas admiram, têm como espelho e querem conhecer pessoalmente – como ela mesma encarava Taís Araújo. E, para ela, é apenas o começo de uma nova carreira. “Acho que, quando for mais velha, vou ser uma mistura de Dercy [Gonçalves] com Elke [Maravilha] e Oprah [Winfrey]”, sonha, se divertindo e mudando a voz para tentar encarnar a persona imaginária. “Vou falar as coisas abertamente, tipo: ‘Hoje estamos com o caso da menina e o cara que não chupou ela’, ‘Hoje é o caso da menina que não consegue bolar um baseado. Vamos ensinar!’”, gargalha.

Você continua lendo esta matéria na edição 127 da Rolling Stone Brasil, Março/2017.