Edição 127 - Março de 2017

É o Poder

Irreverente, sem receio de dizer o que pensa e com coragem para peitar os puristas, Karol Conka alcançou patamares inéditos para uma mulher no rap brasileiro. E ela quer mais
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por Lucas Brêda

Karol Conka apalpa os seios agressivamente enquanto entoa o título de “100% Feminista”, parceria com a funkeira MC Carol, balançando a cabeça na vertical, de maneira cíclica. É pré-carnaval em São Paulo e a rapper domina o palco da casa de shows Cine Joia. Está tudo ali: o look ultra-colorido, o cabelo rosa, as batidas quentes e com sabor brasileiro, as rimas provocativas e uma capacidade de reconhecer as próprias singularidades sem adotar qualquer tom de pedido de desculpa. Há também um clima de autossuficiência. É como se todos, só por estar ali, soubessem de uma regra não falada – é proibido sentir-se envergonhado. A junção desses elementos é o que faz de Karol uma artista tão magnética. Não só a primeira a mulher brasileira do rap a furar o mainstream, mas alguém que chegou lá sem aceitar imposições. Fosse feito por uma cantora com a magnitude de Karol dez anos atrás, o jogo gestual em “100% Feminista” dificilmente carregaria o mesmo sentimento que teve naquela noite: ali, era mais uma demonstração de autoridade do que de sensualidade.

“Estou sempre chapada e ouço música o tempo inteiro”, diz Karol Conka no backstage. É assim que ela justifica a variedade da playlist escolhida para animar o camarim, alternando entre Erykah Badu, A$AP Rocky, Miles Davis e faixas do rap norte-americano mais recente. Essa é a dieta musical diária de Karol, mas não é raro vê-la no Instagram cantando samba ou dançando reggae. “E eu amo jazz”, acrescenta, minutos antes de subir ao palco, enquanto os alto-falantes ressoavam “Fake Love”, de Drake. “Mas costumo ouvir mais jazz quando tenho um ensaio de fotos, tenho que ficar maquiando. Se eu pudesse, escutaria agora, só que ia ficar todo mundo muito down.”

Qualquer encontro com Karol só começa quando há música ao fundo. No dia em que posou para a capa da Rolling Stone Brasil, ela carregou uma inseparável caixa de som portátil, e, em uma das entrevistas, só passou a falar depois de posicionar a agulha da vitrola em um vinil antigo de João Donato. Até por isso não soa estranho notar que o sample – em loop e desacelerado – usado em “Boa Noite” foi minuciosamente encontrado nos segundos de transição entre as faixas “A Cidade” e “A Praieira”, de Da Lama ao Caos (Chico Science e Nação Zumbi, 1994). “Queria uma batida que lembrasse uma música do Lil Wayne e [o coral das] Baianas de Ipioca, de Alagoas. Queria que soasse macumbeira, um rap brasileiro”, relembra Karol sobre a gravação.

Mesmo já existente nos sambas que os pais ouviam ou nos vídeos de The Cure e Destiny’s Child a que assistia na MTV, a dinâmica de estar sempre acompanhada por música foi de fato estabelecida quando Karol ficou grávida. “Tive depressão pós-parto, fiquei mal por uns três anos”, revela. “Eu aprendi demais, estudei. Foi quando eu descobri o tipo de artista que queria ser.”

Jorge nasceu em 2006, quando ela tinha 19 anos, de um relacionamento com o rapper Cadelis, companheiro dela no grupo Agamenon. “Falava que nunca ia me envolver com alguém do rap. Tive a sorte de ser com um cara sangue bom”, diz ela sobre o MC, que mora com o filho em Curitiba, terra natal de Karol, e é amigo da cantora. “Até morei com o Cadelis, mas não era o que eu queria. Eu tinha medo de ser mãe solteira. Quando você engravida jovem, a primeira coisa que acontece é que você perde contato com os amigos e percebe que não tem amigos de verdade. Quando o Jorge fez 3 anos, voltei a morar com a minha mãe e comecei a entender o processo de reconstrução.”

Na ocasião, ela conquistou tanto espaço no Agamenon que causou desconforto em um dos integrantes, o MC Bigue, e decidiu seguir solo. “O [produtor] Nave, que era amigo do Cadelis, deixou umas batidas, mas eu estava toda amarga, não queria saber”, lembra. “Entendi que tinha que passar por aquele sofrimento para elevar a alma. Decidi ser uma nova pessoa. Aí fiz ‘Me Garanto’ no beat do Nave.”

A faixa foi a primeira gravação solo divulgada por Karol e inaugurou a parceria com Nave (Emicida, Marcelo D2), com quem ela desenvolveu o disco de estreia, Batuk Freak (2013), feito na casa do beatmaker. O LP seguiu a onda de “Boa Noite” e “Gandaia”, ocupando um espaço até então pouco explorado pelo hip-hop nacional, com temas e abordagens alheios à crítica social em batidas e samples conectados com a música brasileira. Para completar, realizado por uma mulher. “É um álbum que não foi fácil de fazer, as letras são mensagens para pessoas que estavam próximas, mas não me escutavam. Isso eu nunca quis que o público soubesse, mas talvez hoje eu não me importe de falar.”

Um elemento indispensável na rotina de trabalho de Karol é um par de copos reutilizáveis, com canudinho, que ela carrega para todo lado. “Todo show é aquele kit: o copo roxo com água e o copo rosa com uma bebida alcoólica, que é sempre cerveja ou vinho”, explica. “É o combo da tranquilidade [risos]. Não gosto de ficar bêbada – sei que posso, mas não gosto de perder o sentido. Bebo porque gosto de beber mesmo. Já sou muito solta e acabo ficando mais relax.” Ela já se apresentou tão bêbada a ponto de esquecer as próprias músicas, prática que deixou no passado pré-Batuk Freak. “Foi aquela experiência que despertou esse cuidado: agora, todo show estou sóbria. Só que estou sempre chapada [de maconha], então isso [estar chapada] é meio que normal.”

Mais que uma mania, o “combo da tranquilidade” carrega um pouco da postura de Karol nos dias de hoje. Ela diz nunca sentir nervosismo antes de subir ao palco e, nas Olimpíadas no Rio de Janeiro – quando cantou na abertura com a rapper mirim MC Soffia, para mais de 2 bilhões de espectadores –, estava tão tranquila que dormiu por mais de quatro horas no camarim (“Não tinha nem uma cervejinha”, lamenta). As exceções na calmaria foram a apresentação para cerca de 20 mil pessoas na Corrente Cultural de Curitiba, em 2013, e o show no festival Lollapalooza de 2016, segundo ela, o melhor até hoje. “Já tinha ficado nervosa para decidir quem convidar. Chamei uma menina do rap, mas não rolou”, lembra ela, sussurrando malandramente o nome da cantora que rejeitou o convite enquanto ri. “Chamei a MC Carol e falei: ‘Ó, nunca botaram uma mulher do funk lá’. Ela queria estar vestida de dólar. Me arrepio só de lembrar desse dia, a gente chorava, ela estava com um ‘oclão’ e a lágrima escorria. Tinha muita gente. Foi o dia em que tudo que eu tinha programado aconteceu.”

Karol fez 30 anos no último mês de janeiro e, agora, mora definitivamente em São Paulo, mas costuma voltar a Curitiba uma vez por mês para visitar filho, família e amigos. Com a ajuda da stylist Anna Boogie, tornou-se ícone fashionista, ostentando looks invocados, cantando em festas do universo da moda e até aparecendo como convidada de honra do desfile do estilista Reinaldo Lourenço, na São Paulo Fashion Week. “A Anna chegou na minha vida falando: ‘Karol, acho que você vai virar uma fashionista, você tem uma visão de moda’”, conta, sem conter o carinho que sente pela amiga. “Eu não conhecia nada. Uma vez, acho que já em 2014, ganhei uma maquiagem e uma amiga falou: ‘Esse estojo é da Saint Laurent’. E eu: ‘O que tem a ver com a Lindsay Lohan?’”, ri.

A relação de Karol com a beleza foi construída com a ajuda dos pais. Uma história na infância virou notícia depois que ela a contou na TV: Karol chegou a tentar “descolorir” a própria pele com água sanitária, após sofrer racismo na escola. “Lembro desta e de muitas outras [situações geradas por racismo]”, confessa Ana Maria, mãe da rapper, por e-mail. “Minha reação foi dialogar muito e explicar, como sempre, que ela era linda, que as pessoas não entendiam a beleza negra, que não tinham olhos para nos enxergar”. Ana também passou a presentear a filha constantemente com bijuterias e acessórios. Já na adolescência, Karol se vestia “de vários jeitos”. “Tinha dias que eu era gótica, dias que eu ficava hippie. Usava umas camisas gigantes da minha mãe para parecerem uma capa – bem uó, ai meu deus – e, na escola, fazia estampas na calça com corretivo, para ficar diferente.”

Para Karol, um ícone da beleza negra feminina é Taís Araújo, que acabou estrelando – ao lado do marido, Lázaro Ramos – o clipe de “Maracutaia”. Na ocasião, as duas não tiveram muito tempo para conversar. Um encontro mais apropriado aconteceu com a atriz sendo uma das convidadas do programa Superbonita, do GNT, que a rapper apresenta a partir de março. “Sempre quis ver a Taís ao vivo na vida, mas ali nós sentamos, batemos um papo, demos risada”, Karol enche a boca, em um dos poucos momentos em que deixa o deslumbramento ameaçar a serenidade. “Ela é a referência, é a Taís Araújo. E disse coisas lindas: que meu posicionamento ajuda até na relação dela com os filhos. Ela fica feliz de ter uma artista para os filhos dela gostarem.”

Karol apresenta 13 episódios do Superbonita, que já foi comandado pela própria Taís e teve Ivete Sangalo como última apresentadora. Nas gravações, que acabaram em fevereiro, ela recebeu convidadas das mais diversas, de Sophia Abrahão a Valesca Popozuda, passando por Paloma Bernardi, Clarice Falcão e Jout Jout, para tratar de temas como união entre mulheres, superexposição na internet, pelos, liberdade comportamental e maternidade. “Fiquei surpresa, não esperava [o convite para apresentar o programa] agora”, confessa. “Pensei: ‘Vamos ver no que dá’. Mas fiquei feliz, porque me deixaram à vontade. Não uso teleprompter, nada disso. É como estamos aqui, agora: conversa. E não é só a mulher ‘superbonita’, é a pessoa ‘superbonita’. Aborda um estilo comportamental, é mais amplo.”

A entrada no Superbonita infla a figura de Karol como estrela para além da música, alguém que as pessoas admiram, têm como espelho e querem conhecer pessoalmente – como ela mesma encarava Taís Araújo. E, para ela, é apenas o começo de uma nova carreira. “Acho que, quando for mais velha, vou ser uma mistura de Dercy [Gonçalves] com Elke [Maravilha] e Oprah [Winfrey]”, sonha, se divertindo e mudando a voz para tentar encarnar a persona imaginária. “Vou falar as coisas abertamente, tipo: ‘Hoje estamos com o caso da menina e o cara que não chupou ela’, ‘Hoje é o caso da menina que não consegue bolar um baseado. Vamos ensinar!’”, gargalha.

Pessoas próximas a Karol costumam comentar, com ar de orgulho e surpresa, a atribulada agenda recente da cantora, que incluiu gravações do Superbonita, uma série de campanhas publicitárias – incluindo um vídeo promocional para a empresa de dispositivos móveis Alcatel e ações com a Avon – e a finalização do segundo álbum, Ambulante. No fim de semana em que cantou no Cine Joia, Karol fez outros três shows em dois dias. “Desde que está com a gente, ela toca demais”, comenta o DJ Zegon, do Tropkillaz (o duo, completado pelo DJ Laudz, produz Ambulante). “Faz dez shows por mês, no mínimo oito. Depois de ‘Tombei’, ela começou a pegar um público que não é o do Batuk Freak. É o que vem das músicas com o Boss [in Drama], das outras collabs dela.”

Karol ficou conhecida nacionalmente depois do lançamento de Batuk Freak (que entrou para a lista da Rolling Stone Brasil de melhores álbuns de 2013) e após “Boa Noite” entrar na trilha do game Fifa 14, mas, quando o canal do gigante do funk no YouTube, Kondzilla, publicou o vídeo de “Tombei”, sua figura ganhou outras proporções. Primeira parceria com o Tropkillaz, a faixa incorporou o sentimento contemporâneo de autoconfiança e serviu como hino feminino, somando dialética precisa às batidas de trap do duo. O clipe cristalizou a imagem de Karol com os cabelos entre o rosa e o vermelho e a postura ousada e desenvolta. Além das mais de 20 milhões de visualizações do vídeo, “Tombei” rendeu jargões – “tombamento”, “mamacita fala, vagabundo senta” –, um Prêmio Multishow e a abertura da série Chapa Quente, da Globo.

“Ela tinha o refrão e umas ideias, era muito foda a letra”, lembra Zegon. “Mas, em vez da base que eu mandei, ela gravou em outra. Disse que ‘não estava segura para gravar naquela base’, ‘era muito forte’. Ficou uma coisa parada, para baixo, mas o refrão era sonoro.” Na primeira versão de “Tombei”, Karol soa menos intensa que na versão final, em meio a batidas cadenciadas e um arranjo contido, minimalista. “Peguei só a voz e coloquei na outra. Depois ela voltou e regravou com mais pegada. E ficou: ‘Você tem certeza?’”

“O Tropkillaz te engole”, analisa Karol. “Para um MC é muito mais fácil escrever em um beat que te dá espaço para pensar. No Tropkillaz, a batida é forte, não tem onde falar. Ela fala por si só.” Em vez de ficar sufocada com a “falta de espaço” das batidas dos amigos, Karol se encaixou com estrofes comprimidas. “Eu pensava em como conseguir falar pouco, como falar: ‘Respeitem as minas’”, relembra. “E as pessoas – incluindo artistas – me questionaram: ‘Por que fez isso? Por que ficou de minishort sentando e mostrando a bunda no clipe?’ Ora, porque eu posso.”

“Tombei” foi uma espécie de carta da cantora ao mundo. Entre hip-hop, pop, funk e música eletrônica, ela conseguiu contemplar a dimensão de uma personalidade caleidoscópica e inquieta, e, quando canta sobre pisar na opinião alheia, não mira apenas os críticos recentes, mas praticamente uma vida de imposições. “Era um absurdo eu não conseguir subir no palco sem ser chamada de vagabunda”, conta sobre o começo da carreira. “Nunca mais participei de batalha de rap porque uma vez um menino me disse uma coisa tão chula – para variar, mandando ir lavar louça – que minha vontade foi de agredir. Não enxerguei aquilo como algo que poderia me derrubar. Tomei como combustível para reeducar essa galera.”

Karol foi expulsa de alguns colégios em Curitiba – “Queriam que os alunos fossem iguais, como se não pensássemos diferente, e eu ficava incomodada, batia boca com os professores”. Aos 16 anos, pediu à mãe para estudar no centro, no Colégio Estadual do Paraná, porque teria mais chances na vida artística. E já chegou conhecendo, pelo diretor da escola, o rapper Cipó. “Ele me viu e falou: ‘Outra modinha’, e eu nem sabia o que ele queria dizer”, narra. “O Cipó disse que não queria nem ouvir, mas comecei a rimar mesmo assim. Ele achou legal e falou que estava precisando de uma menina para cantar no grupo dele, o Consciência Suburbana.” A participação em uma faixa nos shows do grupo foi a iniciação de Karol no universo da música, depois dos primeiros experimentos rimando e fazendo batidas com fita cassete.

“Na primeira vez que subi a um palco, as meninas da plateia começaram a me mostrar o dedo do meio”, recorda. “Fiquei nervosa. Na rima eu criticava o fato de se vestirem como homens. Falaram que iam me bater e eu respondi: ‘Tudo bem, só deixa eu tirar o brinco que acabei de ganhar da minha mãe’ [risos]. Acharam engraçado e desistiram de me bater.”

“Era uma galera que se conhecia”, prossegue. “Para uma menina estar em cima de um palco, naquela época, era tendo contato ou um rolinho com alguém. E daí começaram a me chamar de vagabunda, falar que eu transava com todos os caras do grupo. Isso me magoou, foi um baque, fiquei mal, chorei. Eu ainda era virgem na época.”

Quando fala, Karol se esforça muito mais para valorizar a originalidade do que a conexão com alguma tribo (mesmo o hip-hop, do qual é vista como desertora por alguns). Sem citar nomes, ela se pega fofocando casualmente sobre rappers racistas (“Já vi coisas que, se forem divulgadas, acabam com a carreira”) e artisticamente limitados. “Sempre fiz o que me deu vontade, não o que me falaram para fazer. Agora, por exemplo, todo mundo quer ser o Young Thug. Imitam até aquelas partezinhas”, atira ela, perdendo-se em risadas ao reproduzir com visível desprezo os cacoetes vocais do MC de Atlanta, vasta influência na produção mais recente do rap nacional.

“Vivo da cultura do rap, foi o rap que me trouxe até aqui e me botou na capa da Rolling Stone. Mas foi o meu rap, não o rap nacional. Porque, para o rap nacional, é uma afronta que uma mulher faça rap do jeito dela e atinja patamares que ninguém alcançou. Sei que cheguei por ser eclética e gostar de falar com as pessoas, de ser articulada. Mas reconheço que sou a primeira mulher na história do Brasil a fazer realmente uma grande diferença no rap. Mulher fazendo rima, ganhando destaque, um dinheiro bom, servindo de exemplo, é a primeira vez. Temos Dina Di, Negra Li, Nega Gizza, mas todas pararam em um degrau. Hoje temos a Karol Conka. E é confortável perceber isso, porque eu não quero nem vou ser a única. Tratamos sempre mulher como uma raridade: a Karol no rap, a Pitty no rock. E não é assim. Temos a Tássia [Reis], a Flora [Matos], a Lurdez da Luz, a MC Carol.”

"Para não brasileiros, Karol Conka = Beyoncé; Elza Soares = Nina Simone", dizia um tuíte vastamente compartilhado durante a cerimônia de abertura das Olimpíadas do Rio de Janeiro, em agosto de 2016. Aquele mesmo evento rendeu a Karol a alcunha de “resposta brasileira à Beyoncé”, dada pelo site norte-americano Pop Sugar. Três anos antes, ao receber um troféu no Prêmio Multishow, ela já havia sido comparada a Nicki Minaj pelo apresentador Paulo Gustavo. Também não é raro vê-la citada na mesma frase que Rihanna ou chamada de algo como “Azealia Banks brasileira”. É curioso: quanto mais comparativos estrangeiros são usados para definir Karol Conka, mais fica evidente a confusão gerada pelo ineditismo da figura dela no mercado nacional.

Parte dessa diversidade é representada por um amigo, o também paranaense Péricles, mais conhecido pelo nome artístico Boss in Drama. Ele encontrou a cantora antes de Batuk Freak, entre 2012 e 2013, quando ela era conhecida basicamente por “Gandaia” e “Boa Noite”. Péricles vinha fazendo remixes nacionais – Elis Regina, Gretchen, Marina Lima – e queria produzir uma canção “brasileira e original para dançar”. “Toda Doida” surgiu de uma proposta por e-mail. “Ela era totalmente do rap, eu entenderia se recusasse”, assume. “Mas amou a música. A gente se encontrou no meu estúdio em casa, fomos almoçar, tomar uma cerveja e ficamos muito amigos. Foi um lance espiritual mesmo.”

“Toda Doida”, que foi seguida de outra colaboração, “Lista Vip”, abriu a porta da pista de dança para Karol. “Ele conseguiu despertar esse lado pop que estava escondido em mim por medo”, ela confessa. “Tudo, para mim, fluiu muito natural, mas o pop não, porque eu não me sentia à vontade.”

Como todas as parcerias da cantora, as três músicas lançadas com Boss in Drama (há ainda a recente “Farofei”) surgiram a partir de intimidade e confiança. “Como temos uma amizade, tudo o que escrevemos é muito real. As pessoas falam: ‘A Karol com o Boss é muito pop, muito fervo’. Mas a gente é isso”, rebate o produtor. “Outras coisas ela faz com outros produtores. Nós saímos, vamos a festas eletrônicas, essa é a nossa verdade. E muita gente criticou.” Com Boss, Karol também conquistou o público gay, que hoje é de importância fundamental para ela. “Sempre tive uma parada com os gays”, conta ela, que se define como bissexual e atualmente está namorando um homem. “Sempre foram meus amigos, sempre fomos atraídos, sempre foram me ver no palco.”

A próxima música dos dois é uma balada de pegada R&B que será lançada em Ambulante. “Nós temos uma energia, somos melhores amigos. Às vezes ele sente que eu estou mal lá da casa dele e me liga.” Em uma dessas ocasiões, ela foi visitá-lo para dividir algumas cervejas e lamentos. “A Karol estava muito chateada com alguma coisa. Daí peguei o microfone e coloquei esse beat, que eu já tinha feito e estava guardando”, conta Péricles. “Ela simplesmente cantou tudo de improviso. A letra que você ouviu foi toda ‘vomitada’ na hora. Aquela cena foi incrível.”

O forte sol de uma tarde de verão invade a única janela do cômodo em que fica o estúdio do Tropkillaz na produtora SPA, no bairro paulistano de Pinheiros. Lá dentro, Laudz se entretém com um smartfone, enquanto Zegon reclama do computador danificado por um banho de cerveja e responde a um áudio no Whatsapp: “A base está mixada, Davi. Se rolou o vocal, acho que já foi. Acha que precisa mexer?”. O DJ está imerso na finalização de mais três músicas, para alcançar a meta de 14 faixas e lançar Ambulante, segundo LP de Karol, até maio. “Antes a gente tinha pressão de gravadora, agora não mais”, conta, citando o fim do Skol Music, selo que Zegon e Karol integravam. O single “Farofei” saiu pela Universal, mas não há contrato para um álbum. “Estamos testando.”

Zegon, um veterano que produziu o lendário Rap É Compromisso, de Sabotage, e foi DJ do Planet Hemp, levou Karol em uma viagem para o Japão, em fevereiro de 2014. “Ela ficou os dois primeiros dias trancada no hotel, de tanto jet lag e do susto, porque nunca tinha saído do Brasil”, ele relembra. A rapper foi a MC convidada do DJ no projeto N.A.S.A. em um show em Tóquio e, segundo Zegon, roubou a cena na apresentação. “Quando ele me chamou, eu fiquei tipo: ‘Você é um cara old school, conhece tanta gente, por que tá me chamando?’”, confessa Karol. “Foi foda, aquilo mudou minha cabeça. E eu nunca pensei em fazer música com o Trop, achava um universo distante. Nisso o Laudz foi um elemento importante, porque esse menino faz qualquer coisa, e faz em cinco minutos. Falo: ‘Queria um clima Caribe, um cheiro de canela, um toque de...’, e, enquanto fala com a namorada no celular, ele faz: ‘É assim que você quer?’”

Dali em diante, a parceria se estreitou: praticamente tudo que Karol lançou desde então tem o dedo do Tropkillaz. Além disso, o irmão de Zegon, Guilherme Pinheiro, passou a ser empresário da cantora. “Batuk Freak tem uma linha, uma textura do começo ao fim. Com a gente, cada coisa tem um conceito [diferente]”, adianta o DJ sobre Ambulante, que traz apenas uma participação inédita, o rapper DonCesão, embora Karol ainda estude incluir mais uma colaboração de peso. Ela também canta uma música de Sabotage no álbum.

No estúdio, Zegon toca mais uma música ainda não finalizada do LP. “O que me anima é a habilidade na lambida, a malícia e muita saliva, enquanto eu queimo uma sativa”, a voz de Karol surge das caixas de som, rimando sobre uma batida tão chapada, quente e direta quanto o verso. “Lá Lá”, que já foi mostrada a capela em shows, é certamente a faixa mais pesada da rapper desde “Tombei”. “Esse lance do sexo oral sempre me irritou. Por que a gente sempre faz e o homem não quer fazer ou, quando faz, sai tudo errado? Aquela língua de liquidificador, toda crespa, barba pinicando. É uma região sensível! Quando vai com a mão, parece que tá tocando a campainha 100 vezes. É uma resposta para alguns rappers e quero ver falar desse assunto sem que chamem a mina de vadia. É assim: baixem a bola e vão estudar o corpo da mulher antes de tratar a gente como objeto”, crava, sem revogar o ar de superioridade. “E essa música diz assim: eu sou rap, não faço rap.” Como se ainda não estivesse claro, ela repete: “Eu faço o que eu quiser”.

Poucos colegas
A rapper construiu a trajetória com a ajuda de um time conciso de parceiros musicais

Karol se orgulha de ter forjado uma carreira sem “atalhos”, como define, se referindo ao fato de não ter pegado carona no sucesso de algum outro artista. “Tive muita ajuda, mas não estaria aqui se não fosse por mim”, diz a cantora. De fato, os poucos e significativos colaboradores que a cantora teve não eram medalhões consagrados. “Já sou muito confusa para explicar como eu quero as coisas, tem que ser alguém que entenda”, brinca. Em Batuk Freak, produzido por Nave, ela só teve ajuda das rimas de Tuty e Rincon Sapiência. Depois, no trabalho com Tropkillaz e Boss in Drama – a quem se refere como um de seus melhores amigos –, diz ter aprendido que, além de rapper, “é artista”. Como convidada, ela cantou com Projota (“Não Falem”, 2012), Banda Uó (“Dá1LIKE”, 2015) e MC Carol (“100% Feminista”, 2016). Em Ambulante, mantém um time seleto: Tropkillaz e Boss in Drama, com acréscimo de DonCesão. Ela ainda estuda mais uma colaboração, com um nome do hip-hop que mantém em segredo.

Livre e solta
Assumindo as rédeas da própria carreira, Karol estuda como lançar o segundo disco

Quando Batuk Freaksaiu, em 2013, a carreira de Karol estava um tanto caótica em termos de gerenciamento. O álbum foi lançado primeiro em abril, no site do Noisey, braço de jornalismo musical do portal Vice, e só depois foi distribuído por um selo (Deck, em agosto daquele ano).

Em 2014, a Skol Music foi criada com pretensões de gravadora, mas com mais cara de patrocínio, e Zegon foi selecionado para comandar o selo subordinado Buuum, para o qual selecionou Karol. O acordo previa dois singles – “Tombei” e “É o Poder” – e um disco. Ambulante, contudo, não ficou pronto antes de a Skol Music se dissolver. A major Universal lançou este ano “Farofei”, single do segundo disco de Karol, mas até o fechamento desta edição a artista ainda não havia se decidido sobre o formato e a casa do álbum. “Estamos fazendo do nosso jeito”, reforça Zegon.

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