Edição 128 - Abril de 2017

Chuck Berry 1926 - 2017

O músico foi o verdadeiro pai do rock, um modelo para os heróis da guitarra e o construtor da inventiva linguagem poética que ainda inspira rebeldes dos quatro cantos do planeta
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por Paulo Cavalcanti

Em 1986, quando Chuck Berry celebrou 60 anos, o discípulo Keith Richards decidiu homenagear o mestre servindo como mentor do documentário Chuck Berry – O Mito do Rock, dirigido por Taylor Hackford. Morando por várias semanas na mesma propriedade que Berry, Richards aturou a rabugice e a teimosia do artista. O guitarrista dos Rolling Stones tinha como missão mostrar que o pioneiro ainda era o músico vital que ajudou a criar o rock and roll nos anos 1950. Mas quando chegou a grande noite do show para o filme, no Fox Theather, em St. Louis, o homem estragou o trabalho do stone. Mudou o tom e os arranjos das canções e tocou guitarra de qualquer jeito. Parecia que Richards se preocupava mais com as canções de Chuck Berry do que o próprio compositor. No final, Richards estava jogado em um canto, totalmente esgotado. “Em apenas uma noite, ele me deu mais dor de cabeça do que o Mick [Jagger] me deu em uma vida inteira”, disse. Depois, afirmou com um tom resignado: “Mas também não consigo deixar de amá-lo”.

Como Keith Richards percebeu, Chuck Berry era complexo e cheio de contradições. Ele parecia confirmar o lema: aprecie a música, mas não necessariamente o homem por trás dela. O guitarrista, que morreu no dia 18 de março, aos 90 anos, de causas naturais, em Wentzville (Missouri), ainda projeta uma sombra enorme. Na década de 1950, quando o rock surgiu, inúmeros músicos inovadores poderiam clamar ter dado origem ao estilo. Elvis Presley sem dúvida foi o rei, um arquétipo seguido por décadas. O garoto de Memphis personificou a imagem de rebeldia do novo e excitante estilo musical. O som que fazia também era rico e inovador. Mas Elvis não era compositor nem um músico virtuoso. Ele dependia do instinto e de ajuda externa para criar a música revolucionária pela qual ficou famoso.

Então, se Elvis foi o rei, Chuck Berry pode ser considerado, com toda a justiça, o pai do rock. O rock and roll surgiu de uma trombada de elementos retirados das raízes da música branca e negra. Mais velho que seus companheiros roqueiros de Memphis, Berry já tinha em seu DNA o blues, o rhythm and blues e o jazz. Como Elvis, era uma esponja musical. E, a exemplo do colega Ray Charles, ele era um afro-americano adepto da country music. Também aprendeu muito ao ouvir Nat King Cole, seu cantor favorito.

O garoto nascido Charles Edward Anderson Berry no dia 18 de outubro de 1926, em St. Louis (Missouri), era fruto de uma família de classe média numerosa. A família Berry tinha em mente que seus filhos também poderiam fazer parte do sonho americano. Educação era primordial. O menino Chuck, em particular, se interessou por poesia e música clássica. A dicção era algo importante para ele. Por toda a vida, buscou falar de maneira clara, sem gírias incompreensíveis. O domínio da língua inglesa, misturado ao gosto pela estrutura poética, no futuro o ajudaria a criar algumas das letras mais evocativas da história da música popular.

Mas, apesar de aplicado, Berry era inquieto e viveu uma adolescência tumultuada. Teve inúmeros empregos, passou três anos preso em um reformatório depois de participar de um roubo de carro e se casou ainda jovem.

Chuck Berry desenvolveu seu estilo de tocar guitarra ouvindo os mestres do jazz e a country music. Casado, tinha uma família para sustentar e não sabia se deveria levar a carreira musical a sério. Felizmente, ele tomou a decisão certa quando viu várias coisas acontecendo. Em 1951, o cantor e saxofonista Jackie Brenston, acompanhado pelo The Kings of Rhythm, banda do jovem Ike Turner, gravou “Rocket 88”, uma das primeiras manifestações do que viria a ser chamado de rock and roll. Paralelamente, Bill Haley, um músico branco de Michigan, fazia experiências bem-sucedidas juntando o western swing (a música country com balanço) ao rhythm and blues.

Com esses exemplos em mente, Berry começou a tocar de forma profissional nos clubes de St. Louis. O som dele não era nem jazz nem blues, era algo totalmente diferente. Ele então rumou para Chicago, a fim de buscar uma oportunidade na Chess Records, que gravava lendas do blues, como Muddy Waters, Bo Diddley e Willie Dixon. Os executivos Phil e Leonard Chess gostaram do som e da imagem do aspirante a astro. Em julho de 1955, Berry lançou pela companhia seu primeiro single, “Maybellene”.

Quem recebe o crédito por ter criado o termo rock and roll foi o DJ Alan Freed. Quando “Maybellene” saiu, Freed conheceu Berry e o ajudou a divulgar a canção, que chegou ao quinto lugar da parada, tornando Berry conhecido. Mas o sucesso imediato cobrou um preço: Berry teve que ceder parceria de composição a Freed e a Russ Frato, tendo que também dividir os royalties com eles. Ainda assim, Alan Freed não pode ser considerado um vilão na história de Berry. Ele seguiu tocando os lançamentos do guitarrista, colocando-o em seus filmes e também escalando-o nos megashows que promovia. Foi com Freed, no entanto, que Chuck Berry sentiu pela primeira vez o gosto de ser passado para trás nos negócios.

De 1955 a 1959, Chuck Berry foi um dos maiores astros do planeta. As criações dele, como “Roll Over Beethoven”, “Carol”, “Brown Eyed Handsome Man”, “You Can’t Catch Me”, “School Day”, “Too Much Monkey Business”, “Back in the U.S.A.”, “Little Queenie”, “Memphis, Tennessee”, “Bye Bye Johnny” e “Johnny B. Goode”, estavam em todos os cantos. Nada melhor que essas canções para mostrar o que era ser um adolescente crescendo em meio a um tempo de incerteza, mas sem deixar de lado as coisas boas da juventude. Cheias de bom humor e atenção aos detalhes, as faixas dele logo se tornariam parte da cultura pop norte-americana. Ao vivo, Berry também era uma sensação, arrancando sorrisos quando executava o lendário “duck walk”, a dança na qual andava como um pato.

Em 1959, porém, tudo começou a desabar. O artista havia aberto em St. Louis um novo empreendimento inter-racial, chamado Club Bandstand. Entre os funcionários que contratou estava uma garota chamada Janice Escalanti, que iria trabalhar na chapelaria do clube. Segundo Berry, ela teria dito que tinha 20 anos. Ele relatou que a demitiu por faltar regularmente ao trabalho. Logo depois, Janice foi detida por prostituição; para piorar, na verdade ela tinha 14 anos, e afirmou ter tido relações sexuais com Berry.

Ele acabou indo a julgamento, ocorrido em 1962. O júri foi marcado por um tom racista, com o juiz chamando Berry de “crioulo”. A pena acabou sendo definida em um ano e meio de detenção em uma prisão federal. Quando saiu de lá, ele virou um sujeito desconfiado e pouco generoso. Carl Perkins, o mestre do rockabilly, falou em 1988 à Rolling Stone: “Nunca vi um homem tão mudado. Antes, ele era um cara descontraído. Quando tocamos juntos na Inglaterra em 1964, ele estava frio, distante e amargo. Sem dúvida, foi resultado da prisão”.

Foi uma queda da qual ele nunca se recuperou inteiramente. Porém, é difícil dizer o que ele de fato foi capaz de aprender, ou mesmo dizer o que aconteceu de verdade. Ele foi encurralado no episódio com Janice, ou, como algumas pessoas descreveram, agiu de maneira diabólica?

Em dezembro de 1987, Berry foi acusado de agressão em um incidente no Gramercy Park Hotel, em Nova York. O que se sabe é que ele socou o rosto de uma mulher, causando “lacerações na boca, ocasionando a necessidade de cinco pontos, dois dentes prejudicados e contusões na face”. Berry nunca falou sobre o assunto, embora em 1988 ele tenha se declarado culpado por uma acusação de agressão mais leve e pagado uma fiança de US$ 250.

Naquele mesmo ano, o guitarrista comprou o Southern Air Restaurant, perto de St. Louis. Foi acusado de instalar câmeras nos banheiros femininos, tendo secretamente gravado mulheres – algumas bem jovens – em variados estados de nudez. Também foram reveladas fotos de Berry posando nu com jovens mulheres brancas. Ele processou a revista que as publicou, dizendo que as imagens tinham sido roubadas. Pouco depois, diversas mulheres que foram gravadas no incidente dos banheiros processaram o músico. O caso acabou fora da justiça, em acordos que totalizaram quase US$ 1,2 milhão.

Aventuras sexuais por parte de roqueiros não eram incomuns, nem pornografia caseira. Mas algumas das imagens que escaparam da coleção pessoal de Berry eram bem peculiares. Um vídeo mostrava uma jovem nua em uma banheira enquanto ele urinava na boca dela. Quando Berry terminou, ela pediu por um beijo. “Baby, não posso beijar você”, ele disse. “Você cheira a mijo.”

O tratamento que Berry dava às mulheres foi o aspecto mais problemático da vida dele. Nos dias que se seguiram à sua morte, as estudiosas Catherine Strong e Emma Rush escreveram: “Muitas vezes nos conectamos à música porque nos identificamos com algo nela, e consequentemente com as pessoas que a criam. Reconhecer os delitos dessas pessoas pode diminuir o prazer que sentimos com a música... No entanto, ao mesmo tempo, é moralmente indispensável incluir o lado sombrio de Berry em textos históricos, obituários ou mesmo na discussão da música que ele fez. Excluir esses fatos passa a mensagem de que o abuso de garotas e de mulheres não tem importância e que pode ser superado ou até justificado diante da excelência musical”.

Você continua lendo esta matéria na edição 128 da Rolling Stone Brasil, Abril/2017.

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