Edição 128 - Abril de 2017

Sonhos de Samba

Sem deixar de lado sua visão de mundo sensível - e por vezes incompreendida -, Criolo troca as picapes pelo cavaquinho em um trabalho dedicado ao mais brasileiro dos gêneros musicais
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por Lucas Brêda

‘‘Acho que eu prefiro ao contrário”, opina Daniel Ganjaman, sentado com um computador aberto à sua frente, explicando um arranjo para um time de percussionistas no estúdio paulistano El Rocha. O amplo cômodo carrega o mesmo clima harmonioso da pacata esquina onde fica o local, no bairro de Pinheiros. Ganjaman trabalha em mais um disco coproduzido por ele e pelo renomado baixista Marcelo Cabral. Juntos, os dois forjaram a identidade sonora que, contemplando uma série de composições inspiradas de Criolo, resultou em Nó na Orelha (2011), disco divisor de águas na carreira do rapper. Desde então, a parceria Criolo-Ganjaman-Cabral tem sido uma constante. Mas a situação no último mês de março era um tanto diferente: em vez de picapes, havia uma série de instrumentos de percussão; no lugar de guitarra e teclado, cavaquinho e violão de sete cordas, além de dois músicos em instrumentos de sopro. Ali, eles levantavam o repertório da próxima empreitada de Kleber Cavalcante Gomes, o Criolo: um álbum composto apenas de sambas.

Posicionado exatamente entre os dois produtores, e de frente para os outros instrumentistas, ele tem o semblante sereno. Veste uma camiseta vermelha folgada, estampada por uma ilustração de Notorious B.I.G., sobreposta por um moletom da LAB, marca de Emicida e Fióti. Criolo contempla uma pasta com letras e anotações. “O tempo fechou na favela, tem fera engolindo fera”, versa melodicamente o rapper/cantor, erguendo os braços, depois de uma introdução afiada de flauta e trombone. A música, única não inédita no projeto, é uma cocomposição de Ricardo Rabello, companheiro de Criolo na roda Pagode da 27 e principal parceiro dele na composição de sambas. Rabello está presente na sessão de estúdio, comandando o cavaquinho. O rapper fala pouco, mas exerce liderança definitiva quando se inclina ao microfone para cantar, injetando o sentimento que determina por onde cada canção vai caminhar.

É geralmente assim, sem imposições verbais e completamente apoiado na espontaneidade, que Criolo funciona. “Sempre tem um samba nos meus discos”, justifica, em conversa posterior ao ensaio, no estúdio já vazio e silencioso. “Eu nunca penso: ‘Vou gravar um disco’, tá ligado? Não é porque eu tenho uma ideia na cabeça que eu vou parar todo mundo e forçar a fazer um álbum. Eu espero que esse sentimento inunde as pessoas que estão do meu lado. Desde quando a gente se conheceu [há mais de sete anos] eu venho mostrando sambas para eles. Uns dois anos atrás comecei a fazer mais ainda e, recentemente, veio muito forte isso, de querer escrever outras coisas. Tenho minhas vontades, mas é naturalmente que aquilo vai tomando todo mundo, até chegar o momento: ‘Vamos juntar tudo, ver o que tem’.”

‘‘É assim”, Criolo anuncia, antes de levantar da cadeira e buscar um tamborim, para então começar a batucar e caminhar lentamente enquanto fala. “Não sei tocar nenhum instrumento, mas penso todos eles na minha cabeça. Aí o Rabello puxa algum acorde e eu [cantando]: ‘É o boca fofa’. Um ‘boca fofa’ é uma figura mentirosa. Aí veio o [gancho] ‘língua felina, menina, amor’. Mas homem também é fofoqueiro, então: ‘Língua felina, menino ou menina, amor ou desamor’. Só que aí você pensa: se você tá falando do linguarudo, você também tá sendo linguarudo. Como eu vou contar isso ficando de fora? Aí, o Rabello chamou, e eu: ‘Logo percebi pelo tamanho do caixão, que o velório do linguarudo chegou/ E foi ficar no benzimento, na oração, família sofre independente do irmão/ Quando eu me vi, estava nessa situação: um linguarudo abraçado em outro no caixão’. Eu falando da vida do defunto. Mas isso é em fração de segundo, é o que te puxa, e vai indo. São muitos anos escrevendo rap, convivendo com a palavra.” Criolo explica sua música com pureza, ainda que nem sempre o ouvinte consiga captar suas mensagens de cara. (Talvez por isso ele tenha se tornado meme com a fala “Alguém nos ajude a entender”, em entrevista ao ator Lázaro Ramos no programa Espelho, do Canal Brasil. Quando se presta atenção ao discurso na entrevista, percebe-se que a fala de Criolo não é vazia – muito pelo contrário, tem todo sentido.)

As 11 faixas do álbum – previsto para o fim de abril e sem título definido até o fechamento desta edição – vêm para expandir os sambas que Criolo gravou no passado: “Linha de Frente” (Nó na Orelha), “Fermento pra Massa” (Convoque Seu Buda, 2014) e “Até Amanhã” (single da coletânea de 2016 Se Assoprar Posso Acender de Novo, com artistas contemporâneos interpretando músicas inéditas de Adoniran Barbosa). São canções sentimentais e urbanas, confissões ou causos que funcionam como interseção entre o imediatismo do hip-hop e as alegorias do samba, carregados do espírito cronista de “Freguês da Meia-Noite” ou “Não Existe Amor em SP”.

“O rap me ensinou a lidar com meus sentimentos, então a rima vem daquele jeito, mas [desta vez] mistura com o que vem do meu pai, que ama Martinho da Vila, tem vinil do Moreira da Silva em casa”, explica o rapper, que inclusive participou de duas músicas do mais recente disco de Martinho, De Bem com a Vida (2016), e promoveu o encontro do pai com o ídolo. “Meu pai foi metalúrgico, jogava futebol na várzea e sempre gostou de samba. Não sabe tocar nem cantar, mas, no possível, quando sobrava um dinheirinho, comprava um vinil. Já foi surreal o convite, mas meu pai ficou feliz demais, conheceu o ídolo da vida.”

Além da influência paterna, Criolo frequenta o Pagode da 27, do qual integra a ala de compositores, um incremento à sua agenda de rinhas e eventos de hip-hop desde o fim da década passada. “Não posso falar por todos, mas fazer rap sempre foi algo meio solitário para mim. Era algo muito novo e ninguém queria ouvir a gente. Você com 12 anos de idade, aquele sofrimento, aquela fome, ver gente morrendo enquanto ia para a escola. Eu ficava: ‘Pai, por quê?’ Então, era eu comigo mesmo, só mostrando aos poucos e para pessoas do bairro. E também não tinha dinheiro para comprar equipamento”, ele relembra. “No samba tem muita gente. É o cara do rebolo, o cara do cavaco, do violão. E o samba é universal, é o Big Ben da música brasileira, até quem não gosta sente alguma coisa.”

Você continua lendo esta matéria na edição 128 da Rolling Stone Brasil, Abril/2017.

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